Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é a Conquistar o Futuro, um podcast Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar e a formar a próxima geração e as lideranças do futuro mais próximo. Do direito à arquitetura, da economia às relações internacionais, vamos saber como os professores de hoje preparam os profissionais de amanhã. Hoje falamos com João Paulo Rapagão, arquiteto, docente da Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada do Porto. Antes de mais, bem-vindo, João Paulo Rapagão. É um gosto recebê-lo. Vamos falar, obviamente, do ensino da arquitetura. Arquitetura que tem uma componente mais artística, mais criativa, digamos, depois uma componente técnica também muito forte. Há alguma destes dois pilares, se quiser, que se sobreponha claramente ao outro pilar?

É uma pergunta com resposta difícil.

Imagino.

Os próprios grandes nomes da arquitetura nacional divergem. Os nossos dois Pritzker portugueses, Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura, divergem.

Que é uma espécie de Nobel, não é? Esse prêmio Nobel da arquitetura.

Divergem porque um claramente carrega na tecla da componente artística, mais estética, se quisermos, da arquitetura, o outro na técnica.

E qual é qual, já agora?

Souto de Moura pela técnica e o Álvaro Siza pela estética.

Pela estética.

Não é estética, mas mais pela arte. Ele defende muito que a arquitetura é arte. E essas duas componentes eu diria que são igualmente válidas, porque sempre foram, desde Vitrúvio, que estas duas componentes fazem parte dos três grandes pilares da arquitetura. O outro é a construção, a durabilidade, a firmeza da arquitetura. E de alguma forma, estes três pilares, do qual estes dois que me fala fazem parte, são a base da arquitetura e é impossível dissociar a arquitetura desses dois pilares. Agora, eventualmente hoje, a parte tecnológica está muito presente na arquitetura. Porque corremos contra o tempo quando temos de projetar e temos de construir. Também pelas componentes todas de ecologia, de sustentabilidade da construção, a eficiência térmica, acústica dos edifícios requer cada vez mais padrões que remetem muito para a parte tecnológica.

Para o conhecimento técnico também, de materiais, imagino.

De todas as tecnologias que estão à disposição da construção para permitir uma maior eficiência, que dará a qualidade que os edifícios deverão oferecer aos utilizadores.

Claro, a esse nível é multidisciplinar a arquitetura. É preciso ter componentes e valências nas duas áreas.

Daí que essa componente mais tecnológica, digamos assim, esteja cada vez mais presente nos currículos das nossas faculdades.

Das faculdades. A arquitetura está muito ligada à nossa vida do dia a dia, não é? Tanto em termos pessoais, mais individuais, se quiser, e privados, a nossa casa, por exemplo. Como em termos sociais, urbanos, porque a arquitetura é essencial na qualidade, na definição do espaço público e na qualidade que o espaço público tem. Como é que o ensino da arquitetura tem acompanhado, de facto, as evoluções que vão ocorrendo nesta área? Desde a questão da mobilidade, que hoje em dia é um tema muito discutido, até aos espaços verdes que vamos precisando, as questões ambientais também. Como é que o ensino tem refletido isto?

O ensino eu diria que corre contra o tempo nesses domínios, porque de alguma forma, todas essas tendências muito atuais estão em constante mutação. Nós formamos com alguns anos de antecipação os profissionais que vão depois exercer nesses vários domínios. É muito difícil para nós, muitas vezes, fazer essa antecipação. É evidente que os assuntos estão sobre a mesa, nós vamos discutindo durante os exercícios. Normalmente, os exercícios abrangem todas as escalas, desde o território, porque muitas vezes pensa-se que a arquitetura começa no espaço público e acaba no nosso quarto ou no espaço mais íntimo, mais próximo de cada um de nós. Mas, de facto, eu vou mais atrás ainda e vou à grande escala do território da paisagem, porque quando colocamos um objeto arquitetônico na paisagem, nós estamos a mudar a paisagem para sempre. Essa é uma responsabilidade muito grande que o arquiteto tem e que nós temos que incutir nos futuros arquitetos também. De facto, nós vivemos 24 horas rodeados de arquitetura. Essa é uma responsabilidade que eu transmito desde o primeiro dia aos estudantes.

Pode ser boa ou má.

Costumo chamar de a segunda pele. Mais importante do que a roupa que pomos e tiramos todos os dias, é a arquitetura onde dormimos, onde acordamos, onde trabalhamos, vamos à escola, vamos divertir-nos. Nós estamos 24 horas por dia rodeados de arquitetura e essa é uma responsabilidade muito grande, proporcionar bons espaços, bem desenhados, bem construídos, com qualidade, para que as pessoas se sintam bem, porque esse bem-estar é também parte da felicidade que temos no dia a dia, nas nossas convivências, nos nossos momentos sociais e culturais, porque a arquitetura tem essa componente social e cultural.

O que faz de uma pessoa um bom arquiteto?

Essa é uma pergunta de resposta difícil.

Difícil, imagino.

Porque depende muito de cada um.

Que características é que um arquiteto deve ter?

Eu costumo dizer aos estudantes, até porque eu sou professor do primeiro ano, que acima de tudo um bom arquiteto tem que ser um bom cidadão. Porque se nós não formos, antes de sermos arquitetos, bons cidadãos, nós de facto não vamos poder ser um arquiteto pleno, porque nós temos que responder às necessidades do ser humano. Essa é a nossa missão principal, mais do que outras, que infelizmente contaminam algumas carreiras, de quererem aparecer nas revistas, de quererem ser conhecidos e transformarem a arquitetura como veículo de promoção pessoal ou de exposição pessoal. A arquitetura não é essa expressão pessoal.

Tem uma utilidade pública.

É uma missão social.

Claro.

Nós temos uma missão social a par de uma missão cultural. Eu penso que essa é importante, porque a cultural também faz o património futuro. Muitos de nós estudamos a história através dos edifícios que a história criou e os edifícios têm uma componente cultural muito importante, porque eles vão ser a expressão de cada época, a expressão de cada momento e vão ser uma herança para o futuro. E temos que produzir património em todas as épocas. Não é só o que é antigo que é bom. E quando fazemos hoje, temos que fazer com esse dever de que estamos a produzir património. Nós não podemos fazer uma coisa que queiremos deitar abaixo daqui a 15 dias ou queiremos deitar abaixo daqui a 10 anos. Não. Nós temos que fazer, por mais pequena que seja a obra, temos que a fazer com o sentido de património, nem que seja o património daquela família. Há património comum, até há património da humanidade, mas há o património da família, que investe todos os seus bens na construção daquela casa. Nós temos que respeitar esse património, que possa ser de uma família, que vai, se calhar, atravessar uma, duas, três, várias gerações, mas também temos esse património que atravessa 500 anos, como aos Jerónimos ou outros. Esta missão de dever, que é simultaneamente cultural, mas é muito também social, e esta temo que se perca muitas vezes. É muito importante transmitir aos estudantes.

Isso é transmitido, imagino, no curso?

Sim.

O curso tem evoluído muito. Ensinar arquitetura hoje, vamos tirar a tecnologia agora aqui enquanto ferramenta de ensino também. Ensinar hoje a arquitetura é diferente do que era há 30 ou 40 anos?

Eu sou professor há 36 anos e, de facto, há diferenças. Eu sinto-me obrigado a atualizar-me, a estar mais atento aos problemas atuais. As cidades hoje, aliás, com fenômenos como os recentes da pandemia, até o apagão tão próximo que esteve de nós, leva-nos a repensar o que são as cidades, o que são as casas, como é que de repente uma casa se transforma em cidade quando temos que fazer dela ginásio, infantário durante uma pandemia.

Escritório.

As 24 horas do dia passaram a ser dentro de uma casa, como é que a cidade se transfere toda para dentro de uma casa. Tudo isto leva-nos a repensar e os próprios exercícios, que são os desafios que são lançados aos estudantes, vão muito no sentido de os colocar atentos às realidades que nos cercam. Claro que podemos ser surpreendidos a qualquer momento por outra pandemia, ou por um apagão ou outro fenômeno qualquer que nem imaginamos que possa vir a acontecer. Mas, no fundo, é essa agilidade mental, intelectual e instrumental também que o estudante tem que ter, que perante um determinado problema, ser capaz de o resolver.

Ter ferramentas ele próprio que, numa circunstância e situação nova, lhe permita de alguma forma ter uma abordagem a isso.

E estar atento a tudo. Não é só propor, por exemplo, uma casa para um agregado familiar com elevadas posses, como também fazer, como temos alguns exercícios, por exemplo, sem abrigo.

Claro.

São tudo realidades com as quais nos cruzamos e às quais o arquiteto tem de dar resposta, porque a arquitetura serve o homem.

E é preciso ter essa noção muitas vezes. Há pouco já falou de dois nomes, dos maiores que nós temos na arquitetura, Souto de Moura e Siza Vieira.

São os dois "honoris causa" pela Universidade Lusíada.

Lusíada, exatamente. É um bom ponto esse. Nós temos bons nomes na arquitetura, aliás, ganhamos não só esses dois, mas esses dois talvez sejam os nomes que mais se impõem, porque pensando o Pritzker, o tal Nobel, o quase Nobel da arquitetura. Mas o facto de termos bons nomes significa que em termos de medios também temos boa arquitetura? Ou a contaminação, se quiser, daquilo que é um mau planeamento, muitas vezes de entidades públicas, acaba por levar a contaminar negativamente também a arquitetura?

Eu confesso que não considero que haja um mau planeamento, ou melhor, poderá dizer-se que é um mau planeamento na medida em que quando ele entra em vigor, já está desatualizado.

Há uma lentidão muito grande.

A realidade muda a uma velocidade que não é compatível com os quadros legais que temos de lentidão, de aprovação. E quando as coisas chegam finalmente à aprovação, a realidade já é outra. Já nem estão lá as condicionantes ou entretanto o quadro legal paralelo alterou-se. Há aqui vários desencaixes que levam a que as coisas não funcionem. Em termos médios, a nossa arquitetura eu considero muito boa. E com esperança eu digo, porque eu estou em muitos júris de arquitetura, não só de prémios como concursos de arquitetura para escolher soluções para lugares ou para edifícios coletivos, e vemos a nova geração a vencer esses concursos. Portanto, são arquitetos mais jovens, recém-diplomados, que se apresentam a esses concursos e conseguem os primeiros prémios, não só em Portugal como até a nível internacional. Isso, de facto, é a prova de que temos uma arquitetura saudável.

E uma boa escola de arquitetura.

E que estamos a formar bons estudantes.

Claro. Como é que está a empregabilidade dos licenciados de arquitetura? É fácil encontrar emprego logo após o curso?

Eu confesso que não sei a realidade das outras universidades. Sei da nossa. A nossa última avaliação feita mostrou que a empregabilidade é de 100%, porque inclusivamente, a partir do quarto ano do mestrado integrado, os estudantes estão a trabalhar já paralelamente num gabinete ou num estúdio de arquitetura.

Isso é promovido pela própria universidade ou são os estudantes que vão à procura?

Há as duas situações. Nós temos casos em que são os estudantes que encontram o seu lugar e vinculam-se a uma empresa, a um escritório, a um estúdio de arquitetura, mas também temos os estúdios de arquitetura que nos procuram e lançam o desafio de encontrarmos. Nós não os selecionamos, nós apenas divulgamos a vaga ou as vagas.

E depois são os estudantes que-

Eles candidatam-se e depois correm o processo de seleção habitual.

Claro. E quais são as saídas profissionais? Isto é, ser arquiteto, há a ida para um estúdio, um gabinete, um ateliê de arquitetos, que será a versão mais clássica, se calhar mais romântica, também não sei. De alguma maneira, todos queremos ter o nosso traço, imagino eu, e ter um nome, ter um estilo e uma linha que seja reconhecida. Mas depois há muito trabalho público também, imagino eu, câmaras municipais, órgãos públicos de planeamento. Como é que funciona basicamente o mercado dos arquitetos, por sinal?

Talvez por sermos uma atividade de grande síntese, porque de facto o arquiteto, ao gerir determinados programas, tem que cruzar a informação de muitas origens.

Muitas áreas.

Porque se temos que fazer um hospital ou se temos que desenhar um aeroporto, o que seja, nós acabamos por ter que saber de muita coisa para poder concentrar nos projetos. E essa transversalidade, de alguma forma, também nos deixa com ferramentas para acudir depois em várias frentes. E de facto é fácil depois encontrar arquiteto a trabalhar nos sítios mais diversos. A maior parte, obviamente, acaba na arquitetura, mas hoje mesmo na área da arquitetura, depois a parte da obra, a parte de construção que requer qualidade, fiscalizações, acompanhamentos de obras, preparações de obra, depois há a componente do imobiliário. Há muitos arquitetos que acabam por derivar para o imobiliário, porque têm, de facto, um conhecimento acrescido que lhes permite mais facilmente vender ou promover uma habitação, um espaço que seja para venda. Até os que têm mais gosto e jeito para o desenho. Conheço alguns que estão a fazer ilustração, por exemplo, de livros.

A tal componente mais artística, se quiser.

É. Portanto, nós, de facto, ficamos com um leque de opções muito rico, embora maioritariamente acabem a fazer arquitetura.

O que é bom também, é para isso que estudam.

Alguns vão para a arquitetura de interiores, por exemplo.

Claro, que é outra derivação, se quiser.

Que é uma coisa muito específica, ligada à decoração e ligada já ao interior dos espaços. Há muitas saídas possíveis.

João Paulo Rapagão, quase a chegar ao fim. Um conselho a um aluno do primeiro ano, que, aliás, é uma circunstância que o João Paulo exerce mesmo, dá aulas ao primeiro ano, para que venha a ser um excelente profissional nesta área.

Acima de tudo, saber que vai servir as pessoas. Tudo o que desenhar vai interferir e vai intervir no cotidiano de cada um de nós. Essa responsabilidade é uma responsabilidade muito grande. E paralelamente, eu também, talvez por ter tido a escola que tive, incutir-lhes a paixão pela arquitetura, porque de facto é uma atividade que não nos abandona, não tem horário. E é preciso gostar muito, porque nós andamos sempre com um caderno.

Sempre, é típico.

E estamos sempre a lembrar-nos de uma opção, de uma solução.

E toma uma nota logo.

Precisamos de a registar rapidamente antes que ela fuja.

E quando andam na rua, andam sempre a olhar para a arquitetura, de alguma maneira, ou não?

Sim, eu costumo dizer aos alunos, nós temos um problema, é que andamos sempre com os olhos no ar.

Com o nariz no ar.

Mas isto é facto, nós temos que estar com os olhos no que nos rodeia, nas lições que as cidades nos dão, até pela negativa. Nós aprendemos pela negativa também, portanto, são tudo lições. E esse olhar atento só os deixa cada vez mais fortes, mais musculados para poder responder aos desafios que o futuro lhes lance.

Muito bem, João Paulo Rapagão, foi um gosto recebê-lo aqui.

Igualmente.

Falar sobre o ensino da arquitetura. Este é o "Conquistar o Futuro", um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada. Este episódio fica por aqui. Nós voltaremos brevemente com outra área do ensino e do saber e outro convidado. Até lá.