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Sejam bem-vindos. Este é o "Conquistar o Futuro", um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar e a formar a próxima geração e as lideranças do futuro mais próximo. Do direito à arquitetura, da economia às artes ou às relações internacionais, vamos saber como os professores de hoje estão a preparar os profissionais de amanhã. Hoje falamos com Helena Botelho, diretora da Faculdade de Arquitetura e Artes na Universidade Lusíada de Lisboa, e com Diana Lima, que foi estudante de jazz e música moderna, precisamente na Lusíada, e que tem já uma carreira consolidada como cantora, instrumentista e compositora. É um gosto recebê-las aqui. Obrigado. Bem-vindas.
Obrigada.
Muito obrigada.
Vamos falar, sobretudo, do ensino das artes. Helena Botelho, começando por si, coordena, entre outros, o curso de jazz e de música moderna. A arte também se ensina de alguma maneira, não é?
Com certeza, a arte também se ensina. Eu gostava de fazer aqui um pequeno preâmbulo. A Faculdade de Arquitetura e Artes é formada pelos cursos de arquitetura, design, jazz e música moderna, e artes e comunicação multimídia. E a nossa faculdade tem uma particularidade que me encanta imenso e que eu estou sempre com grande vaidade a transmiti-la, que é uma faculdade onde existe uma transdisciplinaridade. Uma das coisas em que eu aposto claramente é na relação entre as quatro áreas, em que possam trabalhar em conjunto e, portanto, daí trazermos conteúdos. Por isso é que eu digo transdisciplinaridade.
Claro, não são silos estanques.
Exato. Temos uma atividade por ano em que reunimos todos, sempre com uma figura de renome, que lhes lança um desafio e que é bastante interessante vê-los a trabalhar em conjunto. É uma das coisas que eu acho que é uma vantagem da nossa faculdade. Em relação às artes, se se ensina ou não. Eu acho que tudo se ensina, aliás, tudo se aprende. E a universidade é o sítio do pensamento, é o sítio onde nós nos pomos perante a crítica no mundo, é o sítio onde se aprende. E as artes e as outras áreas aprendem-se nesta discussão, nesta partilha de ideias, nesta transmissão de conhecimentos, e por muito virtuosas que as pessoas possam ser. Eu dou-lhe um exemplo. Sim, diga.
E a questão do talento. Nós temos ideia, e a Diana já nos vai explicar se é assim ou não, de que para algumas artes mais performativas, a música, por exemplo, que é disso que estamos aqui a falar, o talento ou se tem ou não se tem, ou nasce com a pessoa ou não. A mim, se me pusessem a cantar, acho que não havia professor que me ensinasse de alguma maneira. Como é que se pesa, no ensino das artes, o balanço entre o talento e o ensino, a formação, se quisermos?
Com trabalho. Vou lhe dar o exemplo do desenho. Para se desenhar bem, é preciso desenhar muito. Por muito virtuosa que uma pessoa seja, existem técnicas, existe um conhecimento da história do desenho ou da pintura. Tudo isso vai ter influência no modo como os artistas depois trabalham. Eu acho que a faculdade, mesmo falando na música, e nós temos alguns exemplos de estudantes que estudaram o curso de jazz e música moderna, uns mais talentosos do que outros à partida, mas muitos que não tinham grande talento até acabam por conquistar através do conhecimento e da experiência.
Sim, porque eu acho que o talento ajuda muito, mas o que vai fazer realmente a diferença é a consistência, é o trabalho. E é o não desistirmos daquilo, porque há muitas pessoas que, entre aspas, não têm aquele dom, mas têm consistência e trabalho. E há pessoas que se tiverem o talento, mas não souberem trabalhar esse talento, não vale a pena.
Claro. A Diana Lima foi precisamente uma das alunas já deste curso de jazz e música moderna. Fazer o curso para si foi uma opção óbvia ou houve aquela tentação ainda de ir pelo autodidatismo, que eu acho que é muito comum também em carreiras como a sua?
Eu sempre fui autodidata, sempre quis procurar as coisas, aprender as coisas sozinha. Eu aprendi a tocar guitarra sozinha, desde muito pequena que sempre cantei. Uma formação nunca me tinha passado pela cabeça na altura, mas eu acho que é muito importante nós aprofundarmos os conhecimentos que temos e que não temos. Porque eu acho que o talento acaba por ser sempre um ponto de partida, mas a formação vai nos dar estrutura, vai nos dar disciplina, vai nos mostrar linguagens que nós não conhecíamos e ideias novas, e acho que é muito importante.
E acabou por ser depois uma opção que fez todo sentido.
Que hoje em dia eu dou graças a Deus por ter ido, porque é mesmo uma ferramenta muito importante quando eu hoje estou a fazer as minhas composições ou as minhas produções, estou em estúdio com mais pessoas.
E há muita gente, Helena, a querer aprender jazz e música moderna?
Sim, existem algumas pessoas, sobretudo porque temos o curso de jazz e música moderna. Mais uma vez, é uma situação única em Portugal. Apesar de termos a base do jazz, temos a opção da música moderna, que permite a muita gente que quer ir para outras áreas, como a pop ou uma música mais alternativa, a partir de uma base em jazz.
Mais clássica, digamos.
Sim. Conseguir ter depois aprendizagens que os levam ou que lhes permita ir para outras áreas, e daí haver esta procura do curso precisamente por causa disso.
Sim, porque eu na altura, quando me inscrevi, até fui assim um bocado a medo, porque a minha área não era o jazz. E eu fiquei: "Meu Deus, vou agora cair aqui de paraquedas numa área que não é a minha." Mas é como nós abordamos mesmo o jazz e música moderna. É mesmo para todos os estilos, para quem gosta de fazer jazz, pop, música clássica. E acho que é muito importante. O jazz é uma base para tudo, é o que eu digo sempre: se nós sabemos jazz, nós sabemos tudo o que é música. Todo um universo.
E lá está, permite, provavelmente, a toda a gente entrar em campos e terrenos que de outra maneira não descobririam.
Completamente.
E Diana, é uma carreira difícil esta? A linha que separa o sucesso do insucesso, se quisermos, é uma linha muito estreita ou não?
É difícil e é exigente, porque para além da exigência que nós temos Artística é uma exigência também emocional. E eu acho que a consistência e o foco é o que mantém a carreira em si.
E muito trabalho.
Muito trabalho.
Muitas horas de estudo ou de ensaio.
Muitas horas de estudo. E de estudo, também.
E de estudo também. Helena, como é que se desenvolve este curso entre teoria e prática? Nós imaginamos, obviamente, que um curso desses terá muitas horas de prática, de canto, de instrumentos, imagino eu. Como é que se equilibra isto?
Eu diria que há um equilíbrio grande, porque existem todos os conteúdos teóricos que são importantes pra formação de um músico. E depois é um curso muito prático também, em que há a oportunidade, não só nas aulas, dos estudantes estarem com o seu instrumento, seja ele voz ou outro instrumento qualquer, porque a voz também é um instrumento, não é, Diana?
Claro.
Eles depois têm instrumento complementar, têm aulas de classes de conjunto, em que trabalham todos juntos. E depois, há também uma particularidade, que eu acho que é muito boa pra eles, até para uma projeção futura, é que nós atualmente temos alguns parceiros e sítios onde eles podem atuar. E, portanto, vamos conciliar estas experiências.
Estes espaços de atuação.
Espaços, por exemplo, o Tóquio, em Lisboa.
Muita gente conhece.
Sim, exato.
Irmão do Jamaica.
Irmão do Jamaica. O Tóquio, neste momento, é uma sala de espetáculos e uma vez por mês, a Diana já não apanhou isto, é uma parceria nova, os estudantes podem atuar lá a solo, em combo ou em conjunto. Mas estamos a estabelecer outras parcerias precisamente por aquilo.
E que é uma experiência muito real também daquilo que eles querem, que é estar em cima do palco.
Exatamente.
Com uma plateia.
E a trabalhar em conjunto, que também é muito importante. Ou seja, há um trabalho que é feito com os seus instrumentos específicos de cada um. Depois, na escola, este trabalho feito em conjunto e depois esta relação com o público mais próxima daquilo que vai ser a realidade profissional deles.
Claro. Diana, esta questão também, já há pouco nos falou da guitarra, portanto, não sei se esse é o principal instrumento que toca, além da voz, como é evidente, como disse a Helena.
A minha praia mesmo é guitarra. Sempre foi. E comecei mesmo a aperfeiçoar na faculdade, porque eu nunca tive aulas de guitarra. Foi como eu disse, fui autodidata. Na escola é que escolhi, porque nós temos uma opção pra escolher depois um instrumento, escolhi a guitarra com o professor Nuno, que eu adorei. Ele deu-me mesmo muitas ferramentas pra hoje em dia eu já conseguir estar no palco à vontade a tocar guitarra. Mas sim, em questão à teoria com a prática, eu acho que são dois elementos que andam sempre de mãos dadas, porque nós temos, por exemplo, uma aula de harmonia, temos a aula de formação auditiva, e eu acho que isso vai nos criar uma base sólida pra depois, quando vamos pra aula de instrumento ou a aula de combo, vamos aplicar isso que aprendemos e acho que são ferramentas que nos ajudam muito na prática. Então andam sempre de mãos dadas. Alimentam-se um ao outro.
O que foi mais difícil pra si na licenciatura? Tem um talento natural, isso é bem audível. Ia dizer visível, mas é bem audível. Há uma parte teórica também. Tinha mais prazer na parte prática do que na teórica, por exemplo?
Não vou mentir que sim.
Sim, claro. Basta bateres as mãos à mesa.
Mas não sou a única pessoa, porque eu quando entrei, claro, porque eu já tinha conhecimento de música, só que não tinha aquele conhecimento aprofundado e tive que estudar um bocado para conseguir acompanhar todos os meus colegas. Mas os professores ajudaram-me muito.
E a tecnologia, Helena? Isto é, basicamente, nesta série de podcast, é uma pergunta que temos feito a toda a gente, independentemente do tipo de curso, porque hoje a tecnologia está presente em todos os níveis de ensino.
Completamente.
Dentro da sala de aula. A tecnologia é um suporte importante no vosso dia a dia, nas vossas aulas? Que tipo de tecnologia? Imagino eu que quando se entra no campo da música, mais ainda, talvez, do que outras áreas.
Sim. É inevitável. A tecnologia hoje em dia tem que estar.
Sim, o computador e por aí fora.
Exato. Enfim, nós na universidade temos, para o ensino da música, temos estúdios preparados para que se possa praticar.
Pra gravar, pra editar, depois, misturar.
Temos um estúdio na universidade onde até podemos fazer podcast. Aliás, fazem-se podcasts lá, mas também permite outro tipo de gravações. Enfim, eu diria que é inevitável, temos mesmo que usar as tecnologias hoje em dia, e eu acho que isto aqui é muito importante, não só na música, como também na arquitetura, apesar do ensino ser muito humano. Ou seja, nós valorizarmos essa proximidade, não só entre as pessoas, mas como, por exemplo, na arquitetura do desenho, e não estarmos só nos computadores, porque acho que pra podermos ter este pensamento crítico, temos que falar muito, temos que discutir muito. Eu posso, assim, muito rapidamente, dizer uma coisa que nos surgiu ano passado destes ateliês verticais. Nós fizemos o ateliê com a Susana Mendes, que é a diretora do LUCA, e ela lançou-nos um desafio que era 15 ensaios pra mudar o mundo. E nós estivemos todos a discutir, todos os cursos, todos os anos E no final disto tudo, surgiu-nos a criação de um clube de cultura. E nesse clube de cultura vai ser o sítio onde nós vamos poder abertamente discutir, porque estamos perante uma geração das tecnologias, mas também estamos perante uma geração que voltou a ler mais. Estamos perante uma geração onde existe esta vontade de ter voz. E este clube de cultura vai nos permitir termos várias áreas da cultura e podermos discutir entre eles, desde as mais tecnológicas até às mais humanas.
Sente evolução nos últimos anos em ter o foco da atenção dos alunos? Porque hoje em dia todos estamos muito distraídos com a nossa tecnologia. Acha que é um problema?
É um tema difícil, é um problema. Mas eu acho que é importante também nós fazermos uma revisão pedagógica. Nós estamos na universidade, fazemos parte de um grupo a preparar a pedagogia, chama-se Pedagogia 21, é um grupo de escolas que está a pensar, a planear como é que vamos ter pedagogias. E digo-lhe que acho que nós é que temos também que nos ir adaptando aos tempos. A conversa derrotista dos mais velhos de que os mais novos não dão atenção, às vezes é porque nós também mantemos o ensino de há 20, 30 anos.
Estático. Da forma como fazemos.
Estático. Eu acho que é muito importante também que este conhecimento seja feito de uma forma mais aberta.
Claro. Diana, como é que se começa uma carreira enquanto compositora, cantora?
Eu acho que o mais importante para se começar uma carreira é estarmos presentes, disponíveis, aparecermos em jam sessions, criarmos laços com professores, com colegas, porque basicamente nós temos que aparecer, temos que mostrar o nosso trabalho, o que estamos a fazer. E é mesmo muito importante, como eu disse, a consistência de mostrarmos aquilo que estamos a fazer e nunca desistirmos, porque em relação à música, eu acho que é muito fácil desistir, porque hoje em dia, não digo competitividade, mas o mercado é muito grande.
Sim, claro. E a forma de divulgar o trabalho também é fácil.
É fácil. E hoje em dia, na internet, há milhões de músicas a sair. Ou seja, mesmo que seja projetos mais pequenos, quando estamos a desenvolver a nossa carreira em projetos mais pequenos, com bandas de amigos, é importante fazermos isso, porque eu acho que é onde nós vamos criar a nossa identidade. E é muito importante não desistir, é fazer aquilo que gostamos, basicamente.
Claro, e consistentemente.
Consistentemente, e aparecer e mostrar sempre o nosso trabalho, porque é assim que nós vamos aparecer para o mundo.
Claro.
Pode ser exigente.
Não deve ser fácil, é isso?
Não é fácil, mesmo emocionalmente, às vezes não é uma coisa fácil.
Ou seja, ouvem-se nãos muitas vezes, imagino.
Tantos. Eu fui ao The Voice já há quantos anos?
Já uns bons anos.
Já uns bons aninhos. Eu levei um não e depois desse não eu podia ter dito: "Não, olhe, isto não é para mim, não quero mais." Podia morar o burro. Sabe que agora dizem muito que nós queremos é levar nãos, que é para ficarmos fortes.
De alguma forma, para corrigir. Certo.
E acho que essas experiências são muito importantes.
Claro, o importante é não desistir quando se sabe que está no caminho certo.
Exatamente. Acho que é isso daqui.
É isso mesmo. E a empregabilidade deste curso, Helena, como está? Têm dados sobre isso?
Temos dados. Temos muitos estudantes que estão a fazer uma carreira e que estão consolidados. Posso dar alguns exemplos. A Diana, desde logo. A Laté. A Diana pode-me ajudar também mais com nomes de colegas. Mas temos a Mimi Froes. E depois alguns estudantes que também procuram outras áreas que não são só da performance. Ou seja, eu diria que um estudante que faz a licenciatura em Jazz e Música Moderna na Lusíada, a empregabilidade será total, ou na performance, ou até porque têm alguma aprendizagem técnica, podem estar integrados depois no trabalho da indústria da música.
Da indústria. Sonoplastia, engenharia de som, por aí fora.
Sim, e do ensino também.
E do ensino, claro.
Eu agora também dou aulas, portanto, consegui chegar aos dois mundos.
A Diana também dá aulas.
Sim.
E como é que é essa experiência de passar, de facto-- é que não foi aluna assim há tanto tempo. Tem uma memória fresca.
Nunca pensei na minha vida que queria dar aulas, mas foi mesmo o curso que me abriu esse horizonte.
E está a gostar da experiência?
Estou a gostar muito da experiência.
Diferente, obviamente, de estar em cima de um palco com a guitarra na mão.
Eu mudei o meu lugar de estar sentada na faculdade. Aquilo criou-me um gosto. E pronto, agora estou do outro lado. Mas sim, é muito diferente da minha carreira musical, mas eu como gostei tanto desse mundo da música e teoria, quis entrar.
E não nos obriga a pensar as coisas de outra maneira, por vezes, não é? Quando temos que explicá-las de alguma maneira.
Completamente, sim.
De compô-las. Claro, uma boa experiência. Estamos quase a chegar ao fim deste nosso episódio. Vou pedir a ambas um conselho. Helena, começando por si, a um aluno que vai chegar agora em setembro, outubro, a este curso, o que é que aconselha para que ele venha a ser um bom profissional nesta área?
Aconselho curiosidade. Acho que é uma coisa muito importante ter na natureza humana essa disponibilidade para aprender, para descobrir, para desbravar caminho. Liberdade, também, de fazer valer, de algum autoconhecimento e perceber o que é que quer fazer na sua carreira. E eu volto aqui a repetir, não só no Jazz e Música Moderna, mas em qualquer uma das áreas da minha faculdade. Acho que são duas características mesmo importantes. Portanto, aquilo que eu digo a qualquer estudante que se junte a nós, é que é verdadeiramente importante que o faça por paixão, porque de facto, nós preparamos as pessoas para a vida profissional, mas a vida profissional também está cheia de altos e baixos e, portanto, é bom que gostem do que façam e que o façam com verdadeira paixão, mas que tenham este sentido crítico apurado, uma liberdade e uma curiosidade permanente para poderem deixar-se levar.
Muito bem, Diana.
Não podia ter falado melhor. O que é que eu agora vou dizer?
Subscreve as palavras dela.
Vou subscrever por baixo e digo que é importante irmos com foco, basicamente. É mesmo importante.
Isto é, com uma ideia, com objetivo, um caminho para seguir.
Exatamente.
E porque a Diana ainda por cima tem a dupla experiência de ter sido aluna recentemente.
Sim.
E tem agora a experiência como profissional e como professora, portanto, um triplo papel.
Exato.
E portanto, o foco é fundamental.
O foco é mesmo muito importante.
Saber o que é que se quer. E o trabalho, imagino.
Exato.
Muito bem, foi um gosto recebê-las. Helena Botelho, Diana Lima, aqui neste episódio de Conquistar o Futuro. Este é um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada. Nós vamos voltar proximamente com outro tema, outra área do saber e outros convidados. Até lá.
Muito obrigada.
Obrigada.
Obrigada.
Um gosto.