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Olá, bem-vindos. Este é o "Conquistar o Futuro", um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar e a formar a próxima geração. Do Direito à Arquitetura, da Economia às Relações Internacionais, vamos saber como os professores de hoje preparam os profissionais de amanhã. Eu sou o Paulo Ferreira e o convidado deste episódio é Tiago André Lopes, professor no curso de Relações Internacionais da Universidade Lusíada do Porto. Costumamos também ver o Tiago André Lopes como comentador na CNN e ouvi-lo na Antena Um. Tiago, antes de mais, bem-vindo. É um gosto tê-lo aqui. Da sua experiência como professor, nós temos alunos com cada vez mais qualidade e preparação no ensino superior ou não?
Paulo, bom dia, obrigado pelo convite. Eu diria que sim, nós temos alunos que têm, obviamente, uma preparação diferente do típico aluno dos anos 90, do início do século XXI. Os alunos agora têm, normalmente, uma ambição muito mais direcionada para nichos de mercado. E é muito curioso que, normalmente, os alunos no final do primeiro ano já demonstram ter um plano arquitetado e vão começando a procurar competências paralelas àquela que os cursos oferecem para sedimentar essas competências. Também é importante percebermos que os cursos nesta área, como as Relações Internacionais, não são estancos e, portanto, são um ponto de partida, não são um ponto de chegada, mas isso é interessante. Além disso, os alunos têm agora uma facilidade que há 20 anos não existia, que é o acesso à informação variada por via da internet, agora também obviamente com o auxílio da inteligência artificial, e informação que está em múltiplas línguas, mas que agora é possível ser acessível, e isso obviamente alterou o paradigma de estudante que nós tínhamos até há pouco tempo.
Claro, com esse acesso todo à informação e conhecimento. O Tiago disse há pouco que os alunos já têm uma ideia muito clara daquilo que querem fazer, ou muitos deles terão essa ideia clara. O curso de Relações Internacionais, não sei se se pode chamar um daqueles cursos de banda larga, isto é, que depois as saídas profissionais são muito variadas. Quais são as mais frequentes? Isto é muito mais do que a carreira diplomática, não?
Muito bem. Pode e deve chamar-se um curso de banda larga, porque o que nós fazemos é preparar os alunos para terem uma série de competências profissionalizantes num ambiente internacional, que vai desde as saídas mais clássicas, como a carreira diplomática, a assessoria política, até coisas um pouco menos clássicas, mas cada vez mais recorrentes, como integrar, por exemplo, a banca internacional, as agências de investimento, as agências, por exemplo, de dotação financeira, porque fazem depois estudos políticos, fazem muitas vezes estudos macroeconômicos, porque os grandes investidores, por exemplo, quando vão investir dinheiro, querem saber se a estabilidade política de um país lhes permite investimento e retorno a longo prazo. E nesse aspecto, os alunos de Relações Internacionais têm competências adicionais que, por exemplo, o licenciado em Economia terá em menor escala e, portanto, isso é uma vantagem. E depois, também dependendo do perfil de cada aluno, e é aí que é interessante ir trabalhando quase caso a caso, podem ingressar na comunicação, por via de editoria, de jornalismo, mais orientados, obviamente, para o internacional, para a política global. E isso há uns anos era uma área que os alunos exploravam menos: o ingresso na carreira das organizações internacionais, mas por via de concurso internacional. Não tanto a ideia de ser nomeado pelo governo para entrar para uma organização internacional, mas por via das vagas que essas OIs vão abrindo e que os alunos concorrem para depois entrar e trabalhar autonomamente dentro dessas organizações internacionais.
Portanto, é um vasto leque, de facto, de saídas profissionais. Tiago, o mundo está cada vez mais difícil de entender e de ensinar. É mais complexo hoje ensinar alunos nestes cursos ou não?
Muito mais complexo, muito mais difícil. E acima de tudo, difícil é porque nos últimos quatro, cinco anos, em particular por causa das duas guerras que estão em curso e não só, nós estamos a ensinar coisas que em alguns casos poderão estar ou parecer estar obsoletas. Algumas teorias das Relações Internacionais, algumas construções teóricas que nós usávamos vão tendo que ser ajustadas e nós temos que ter a capacidade, e os alunos esperam isso de nós também, de irmos compreendendo e adicionando o que está a acontecer. Muitas vezes é importante parar uma aula um pouco mais tradicional e explicar uma coisa que esteja em curso e que seja, de facto, relevante.
Que esteja na atualidade de alguma maneira.
Exatamente. Se numa aula de diplomacia estiver em curso, por exemplo, uma ronda negocial à qual temos acesso, se calhar é importante olhar para ela, tentarmos perceber com os alunos o que é que, daquilo que nós já vimos em ambiente mais teórico, o que é que faz e não faz sentido. Porque é muito normal, e na conversa com ex-alunos isso surge muitas vezes, os alunos às vezes ganham competências que eles acham que são da imaginação dos professores e que não vão ser úteis no dia a dia, e mais à frente, no dia a dia, eles vão recorrer a esse conhecimento e vão pensar: "Afinal, isto é mesmo assim ainda, afinal, isto é útil". E isso eu acho que é importante nós irmos ligando o conhecimento teórico e o conhecimento científico com o mundo prático, que neste momento está vibrante e está muito intenso.
O que é essencial para se gostar de Relações Internacionais? Que características cada pessoa deve ter de alguma maneira ou aquilo que se deve procurar para se gostar desta área?
Fundamental estar atento ao que se passa no mundo e, portanto, consumir meios de comunicação como o Observador, por exemplo, estar atento a isso. Obviamente, também ter um foco O mundo é muito vasto, não só do ponto de vista dos 193 estados que o compõem, mas também do ponto de vista dos temas. Nós temos alunos com sensibilidades muito diferentes. Eu tenho alunas, por exemplo, que entraram no primeiro ano, no ano passado, que já estavam muito orientadas para política ambiental. Tenho alunas, por exemplo, que queriam ingressar em estruturas como a FIFA e a UEFA. Portanto, a questão da política no futebol, muito por causa da questão dos campeonatos femininos de futebol terem menos visibilidade que os masculinos. E portanto, tendo essa dimensão toda, é importante que cada um de nós perceba qual é a área na qual se sente mais confortável, qual é o foco geográfico no qual se sente mais confortável e manter-se permanentemente atualizado, porque quem ficar desatualizado durante umas semanas, depois já está em desvantagem. E uma das coisas que na Lusíada nós reforçamos muitas vezes em ambiente de aula é os nossos alunos compreenderem que já não estão a competir apenas com os seus pares portugueses. A competição é pelo menos europeia, se não mesmo global, porque eles estão a lidar com o globo e se eles podem concorrer a posições na Noruega, os noruegueses também podem concorrer a posições aqui em Portugal.
Essa noção da globalização, se quiser, também do mercado de trabalho, também é essencial. Como é que tem evoluído o ensino neste curso, para além daquilo que é a evolução da conjuntura internacional, de que já falou há pouco, a prática de ensino também se tem adaptado de alguma forma?
Tem bastante. Aliás, no último ano e meio, a Lusíada tem feito um esforço que eu acho que é assinalável, mas que é acompanhado também por muitas das suas congéneres. Mas no caso da Lusíada, em particular, não só o reforço do corpo docente, como nós estamos a apostar nas metodologias de ensino ativo, portanto, o aluno faz parte do processo de aprendizagem. Não é um modelo de aula em que o aluno é apenas um receptor passivo de informação. De todo, o aluno é desafiado com coisas que tem que fazer, com projetos que vai ter que empreender e isso é parte do que nós fazemos. Obviamente, em algumas unidades curriculares, nós cada vez mais usamos material em línguas estrangeiras, especialmente em inglês, porque é um material essencial, mas mais do que isso, em Relações Internacionais, trabalhar em inglês é essencial. Isto não quer dizer que nós não trabalhemos em português, nós também trabalhamos e o mundo da lusofonia, o mundo da CPLP, é vastíssimo, é dinâmico e até é bastante interessante. Basta ver o que aconteceu nesta última cimeira da CPLP para percebermos que pode ser mais intenso, às vezes, do que ao que parece inicialmente, mas é essencial essa perspicácia que nós fizemos, que foi ir mantendo os manuais atualizados e fazermos uma coisa que eu acho que é pratica menos comum em Portugal, mas que se está a começar a generalizar, que é: entre colegas, tentamos haver o modo de que as unidades curriculares façam sentido de umas para as outras, para um: não repetir conteúdos desnecessariamente, e dois: para que os alunos vão aumentando as competências profissionalizantes que nós lhes estamos a tentar inculcar.
E no fundo, para manter também a coerência, imagino, do plano de curso, não é?
Para fazer tudo sentido, exatamente. Ou seja, um aluno que vai ter uma unidade curricular de política externa, tem que já antes saber o que é comunicação política, tem que saber um bocadinho de teoria das Relações Internacionais e um bocadinho de diplomacia. Essas três vão lhe dar as competências para, no terceiro ano, olhar para a política externa de forma mais autónoma. Portanto, é nesta lógica que nós estamos a construir as grelhas curriculares.
E Tiago André Lopes, para além, obviamente, da necessidade de acompanhar o mundo, que é cada vez mais complexo, quais são os principais desafios que um professor de Relações Internacionais tem hoje? Não sei, por exemplo, a questão de prender a atenção dos alunos, uma vez que nós cada vez mais estamos com o déficit de atenção.
Esse é um desafio gigantesco, porque nós estamos a competir não só com tecnologia em todas as dimensões, os smartphones, os tablets, os smartwatches, portanto, têm todos estes gadgets que roubam a atenção. E é óbvio que as universidades estão a tentar ir para a política de travar o uso de tecnologia dentro dos campus. Não é sequer uma coisa portuguesa. A Suécia está a limitar o uso de tecnologia, a Itália está a limitar o uso de tecnologia. Portanto, é uma prática cada vez mais generalizada. Mas também depois temos o problema de manter a atenção durante X tempo na aula. Se for uma hora e meia de uma aula expositiva, ao final dos primeiros 15 minutos, nós já perdemos metade da turma que já está distraída. Estão a olhar para nós, mas já estão distraídos. E por isso é que estas metodologias mais ativas, em que nós vamos criando debates, criando cenários, eu acho que são essenciais. Eu, por exemplo, nas minhas aulas, em particular, uma das coisas que eu faço muito é colocar um problema no quadro e perguntar: "Como é que vocês fazem isto? Como é que se resolve isto? Deem-me conselhos. Se eu for o vosso ministro dos Negócios Estrangeiros e vocês forem os meus assessores, o que é que vocês me vão dizer para eu fazer?" E aí obrigamos os alunos a não só estarem atentos, como a quererem mais conhecimento, que vai ser necessário para resolver o problema que eu pus no início da aula. E no final da aula voltaremos ao problema. Portanto, estes mecanismos para tornar as aulas mais dinâmicas são essenciais no século XXI, sob pena de perdermos os alunos.
No fundo, torná-los também atores da aula e não apenas recetores passivos daquilo que o professor está a lecionar. Nós sabemos que, aliás, já passou um pouco nesta conversa, que não há conhecimentos estanques, não é? E sobretudo esta área das Relações Internacionais cruza-se com uma série de outras áreas do saber. Quais são as principais áreas com que se cruza?
Cruza-se muito com áreas como Ciência Política, História, Economia e depois, obviamente, olhar para a Sociologia e para a Antropologia. Isto porque nós podemos tentar ver as RI como uma espécie de um campo macro que está desligado das pessoas e olha para os Estados de forma abstrata, mas não é real. A verdade é que se nós temos várias sociedades, como na Europa neste momento, que têm um pendor mais conservador a certa altura, existem características sociológicas e antropológicas que se traduzem no modo como as organizações internacionais se comportam, na linguagem que têm, no discurso que emitem, nas suas prioridades políticas e portanto, é por isso que estas áreas colaterais normalmente fazem parte das grelhas curriculares. E é muito interessante ver que há alunos, por exemplo, que entram para fazer Relações Internacionais e que ao nível do mestrado, nós temos agora vários finalistas que vão fazer mestrado em áreas como Gestão de Negócios Internacionais, Economia Internacional, Finanças, porque sentem que querem passar para o mundo mais empresarial e precisam agora dessa competência complementar, que já têm de base, mas que não têm ao nível profissional. E portanto, estas áreas são essenciais e é aí que está depois o perfil de cada um, os que vão mais para Comunicação, os que vão mais para Finanças, os que vão mais para Economia.
E em termos geográficos, obviamente que a aplicação do conhecimento nalgumas áreas é absolutamente transversal em termos geográficos, mas depois também, como sabe melhor do que nós, há especializações geográficas, há pessoas muito entendidas na União Europeia e instituições europeias ou História de Europa, Ásia, América Latina, África, por aí fora. Nota nos alunos que tem tido alguma tendência, em termos geográficos, para especialização nalguma área do globo?
Vou começar pelo déficit. A área onde curiosamente nós temos menos alunos a olhar com atenção e com alguma paixão é curiosamente os Estudos Africanos. Portanto, o continente africano.
Diz curiosamente por causa das ligações óbvias de Portugal a países africanos.
Exatamente. E portanto, tirando obviamente os alunos que vêm, por exemplo, de Angola, de Moçambique, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde, que temos na Lusíada também, alguns dos quais são segunda geração de migração, que nasceram cá e que têm família lá e que querem compreender um pouquinho melhor o ambiente político dos países dos quais vieram as suas famílias. Tirando esse perfil de aluno, o aluno português, por exemplo, de momento está a olhar menos para África do que o que nós esperaríamos. Há um foco muito grande em: um, União Europeia; dois, Estados Unidos da América. São os dois grandes focos que nós temos. Começamos a notar um foco na Ásia, curiosamente, não tanto para a China, mas para o Japão e para a Coreia do Sul. O fenómeno da K-pop, a dimensão do Japão enquanto estado mais ocidental da Ásia, atrai muito a atenção dos alunos. Há um fascínio muito grande com estes dois Estados e há inúmeros alunos que olham para estes Estados não só como estudos de caso, como eventualmente até potenciais mercados de trabalho. Temos, obviamente, alunos também a olhar para a China e há uns anos havia alguns alunos também interessados a olhar para coisas como Filipinas ou a Índia, mas curiosamente isso também agora perdeu algum lastro nos últimos anos. Dentro da Europa, para além da União Europeia, há um fascínio muito interessante, quer pelos nórdicos, quer muito pela questão da política alemã e da política italiana. É também interessante que não há propriamente muito fascínio, mas eu acho que é a proximidade, pelo vizinho espanhol. Nós não temos muitos alunos com muito interesse em perceber mais em profundidade, mas talvez porque estão mais expostos.
Ou achamos que percebemos de alguma maneira. Achamos que já percebemos alguma coisa, de alguma maneira. Se tanto é certo, ou errados nisso. E Tiago André Lopes, nós temos boa diplomacia em Portugal, é de boa qualidade?
É uma excelente questão e é uma questão para a qual eu tenho alguma dificuldade em responder. Eu acho que nós temos bons diplomatas, mas nós temos um Ministério dos Negócios Estrangeiros que tem que repensar um bocadinho na sua missão. Estamos demasiado encostados à lógica de que precisamos de esperar pelos parceiros europeus para decidir coisas. E nós temos o Ministério dos Negócios Estrangeiros que existe para nos dar autonomia ao nível da decisão. É óbvio que é uma autonomia que tem que ser integrada com os parceiros, mas não tem que esperar sempre pelos parceiros para todas as tomadas de decisão e de posição. Agora, temos uma coisa que eu acho que é essencial, e aí o ministério nos últimos 20 anos apostou e bem. Teve uma aposta contínua no concurso público, no concurso de acesso à carreira diplomática, e aí, de facto, os alunos de Relações Internacionais levam vantagem nesse concurso público, não há ilusão quanto a isso. E essa aposta na competência e não tanto nos diplomatas por nomeação, eu acho que faz a nossa diplomacia mais robusta. Tem havido é falta de investimento na área da diplomacia, porque por muito bom que seja o diplomata, se não houver um investimento sustentado e continuado nesta área, não é possível. Nós não podemos ter um embaixador, por exemplo, no Burkina Faso, sem instrumentos para promover língua portuguesa ou cultura portuguesa ou os negócios portugueses. E esses instrumentos custam dinheiro e é esse dinheiro que muitas vezes tarda em chegar à diplomacia.
Tiago André Lopes, quase chegamos ao fim desta nossa conversa. Que conselho daria a um aluno seu do primeiro ano, isto é uma situação que se coloca regularmente consigo, para que ele venha a ser, de facto, um excelente profissional nesta área?
Duas coisas. A primeira, permitir ser surpreendido por ele mesmo. Os alunos às vezes entram com uma ideia e acabam por, ao longo do curso, ser moldados para outros campos de ação que descobrem durante o curso. E número dois, ser bastante meticuloso ou meticulosa, porque é muito importante. Se nós não formos disciplinados ao nível das RI e não estivermos permanentemente em acompanhamento, as RI não descansam. Nós obviamente temos o direito a fazer férias, mas as RI não descansam. E, portanto, as Relações Internacionais obrigam a um trabalho de acompanhamento permanente e eu acho que isso é essencial. O último conselho é o não desistir. O ingresso no mercado de trabalho demora um bocadinho às vezes, há um gap às vezes de um ano, um ano e meio, mas normalmente, na esmagadora maioria dos casos, entrando para o ramo das Relações Internacionais, já não se sai do setor, porque depois conhecem-se as pessoas, cria-se uma agenda de contactos, é difícil sair do ramo. A entrada pode ser um pouco penosa, mas compensa depois ao nível da carreira.
Muito bem, Tiago André Lopes, muito obrigado pela disponibilidade. Foi um gosto falar consigo, professor de Relações Internacionais, que esteve neste episódio do Conquistar o Futuro. Este é um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada. Nós voltaremos proximamente com outra área de saber e outro convidado. Até lá.