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Que papel e que legado deixou Ramalho Eanes na nossa democracia? É o ponto de partida para o Contracorrente de hoje. Se quiser participar, é só ligar para o 91 002 4185. Se preferir, pode também deixar uma mensagem de voz através do nosso WhatsApp para este mesmo número ou deixe os seus comentários no site do Observador. Carla.

Faz hoje 50 anos que tomava posse o primeiro presidente da República eleito democraticamente, António Ramalho Eanes. Tinha apenas 41 anos e o Portugal de então era certamente muito diferente do Portugal de hoje, mas há também muitas realidades ou, se preferirmos, muitos problemas que se mantêm, mesmo que sob novas formas. O general Eanes é, de todos os nossos presidentes, o que mantém melhor imagem pública, o que também faz parte da sua singularidade e do seu mistério. É sobre esse tempo de há 50 anos e sobre o que recordamos da vida e do mandato de Ramalho Eanes que vamos falar hoje no Contracorrente. José Manuel, é caso para te perguntar onde é que estavas há 50 anos.

Há 50 anos estava a começar a ser jornalista.

Sim, aliás, tens um artigo hoje no Observador a recordar isso.

Estava a começar, mas não estava a ligar muito ao ato de tomar posse, para ser franco, porque o ambiente ainda era um ambiente pós-revolucionário, digamos assim, e portanto, havia a ideia, havia dela algumas pessoas, entre as quais eu me incluía, de que a revolução verdadeiramente não tinha acabado no 25 de Novembro, podia continuar, e isso mesmo é muito evidente, por exemplo, nuns dias antes, de dia 27 de junho à noite ou 28 de junho de madrugada, que é um momento absolutamente fascinante, que é a conferência de imprensa de Otelo na Gulbenkian, a seguir à eleição presidencial. Primeiro recordar o que se passou. Nós estamos em 1976, tinha havido já o 25 de Novembro, portanto, o período revolucionário, o chamado PREC, tinha acabado, a Constituição tinha sido terminada, ela é terminada em abril de 76, já numa base diferente daquela que estava negociada até ao 25 de Novembro. Já é possível uma Constituição que não sendo totalmente democrática, porque ainda tinha uma espécie de tutela militar, já não era uma Constituição totalmente dominada pelo primeiro pacto MFA-partidos, tínhamos já o segundo pacto. Esse segundo pacto, por exemplo, aspeto muito importante, já permitia a eleição direta do presidente da República, o primeiro pacto não permitia. É necessário ter noção disto. E nós vamos ter, em 25 de abril de 76, a segunda eleição democrática, a primeira para a Assembleia da República. O Partido Socialista ganha essa eleição, o PSD fica em segundo lugar e em terceiro lugar fica o CDS. O CDS não era o terceiro partido em 75, torna-se o terceiro partido em 76. Eu creio que muito por via do que tinha acontecido durante o ano de 75, durante o PREC, e muito também por haver um corpo eleitoral diferente. E diferente por quê? Porque tinham chegado os retornados. O peso dos retornados na eleição de 76 é seguramente determinante e, a seguir, vamos ter a eleição presidencial. A eleição presidencial acaba por ser muito condicionada pela escolha que é feita por Sá Carneiro e Mário Soares, e também Freitas do Amaral. A primeira pessoa a adergir-se a Ramalho Eanes, no sentido dele ser o candidato presidencial, é Sá Carneiro. O Partido Socialista ainda tem ali algumas hesitações, mas Mário Soares também apoia Ramalho Eanes. Quem era Ramalho Eanes? Ramalho Eanes era um militar que tinha estado ligado à conspiração que levou ao 25 de Abril. Depois, tem logo um papel importante no pós-25 de Abril, porque é ele que vai para a RTP. A seguir a 11 de março, até um pouquinho antes, afasta-se da RTP e a seguir liga-se ao Grupo dos Nove. O Grupo dos Nove é o grupo dos moderados, e é o grupo dos moderados que prepara, de alguma forma, o 25 de Novembro e cria, sobretudo, as condições para o 25 de Novembro. Neste período, Ramalho Eanes tem algumas características que o distinguem. Primeiro, é alguém que não tem posições políticas muito afirmativas, mas é um moderado. Ele consegue fazer pontes entre várias fações das Forças Armadas. Ele não está ligado à fação que tinha ficado isolada no 11 de março, aos chamados spinolistas, que tinham inclusive ou sido presos ou fugido para Espanha. Ele tem proximidade com o Grupo dos Nove, mas ele também é amigo do Otelo Saraiva de Carvalho, consegue falar um pouco com toda a gente. E depois, é um militar que se torna no líder operacional do 25 de Novembro, a pessoa que comanda as tropas, coordena a operação e surge naquela noite, naqueles dias, a dar a cara de uma forma que é um pouquinho desconcertante, mas muito típico da época Quer dizer, ele aparece fardado, naturalmente, é um militar. Aparece com uns óculos escuros, que é uma coisa que hoje em dia qualquer consultor de comunicação diria: não faças isso. Até porque a imagem do militar-

Macron faz

Mas por outras razões e não naquelas circunstâncias, porque aquilo remete a uma memória muito traumática, que é a memória do militar fardado de óculos escuros de 11 de setembro de 1973. Portanto, dois anos antes, Augusto Pinochet, no Chile.

Parece que os óculos escuros eram os óculos que eles usavam em operações militares. Nós hoje achamos muito fashion, mas não é verdade. Eram os óculos que eles usavam.

Eu nem tenho a certeza, portanto não consegui. Tive de olhar para eles com cuidado, mas não tenho a certeza se são óculos escuros mesmo ou se são óculos daquelas lentes que se tornam escuras, porque são iguaizinhos aos óculos graduados que ele usa habitualmente. Não consegui esclarecer este pequeno mistério não muito importante. E ele tem outra imagem, que é uma imagem de seriedade e austeridade. Há um episódio muito interessante, que vem relatado num livro, que é recordado, de resto, também por Rui Ramos, num texto que escreveu aqui há quase 10 anos sobre o Ramalho Eanes aqui para o Observador, num livro de Isabel Tavares. Num momento antes da campanha presidencial, em que ele vai jantar a um restaurante, na altura muito conhecido em Lisboa, chamado Faz Figura, que era um restaurante que ficava por cima de Santa Apolónia. Eu nunca achei grande graça, mas já fui lá para aí uma vez, uma coisa assim do gênero, mas que era um restaurante famoso na altura em Lisboa. E quem vai com ele, já não sei se se propõe pagar ou se pode dividir a meias. E ele faz questão de pagar, pelo menos a parte dele, não sei se a parte dele, e diz o seguinte: eu neste momento estou graduado como general, porque sou chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, não, chefe do Estado-Maior do Exército, salvo erro. E, portanto, todos os meses, a diferença para o meu ordenado de tenente-coronel, eu ponho num envelope e com ele pago as despesas que possam ter a ver com estas funções, porque não quero fazer nada. E este estilo de coisa mantém-se. Ele é o único presidente que vai morar em Belém, no Palácio de Belém. Aliás, é uma coisa famosa, o Manelinho, que era o filho mais velho, a correr pelos corredores. É uma coisa que na altura se falava muito, a piscina do Manelinho, porque entretanto ele reconstruiu uma piscina num pequeno pátio interior do palácio. Eu nunca lá fui no tempo em que ele era presidente, mas lembro-me de ter visitado essa zona já com Mário Soares presidente, com Mário Soares a servir de guia. Mário Soares não gostava nada de estar lá e apoucava tudo o que fosse possível. Entre outras coisas, recordo-me de um detalhe que ele dizia: "Vejam lá vocês", ele estava a guiar-nos pelos aqueles corredores, acho que isto foi antes de uma entrevista. "Vejam lá vocês, que nestes corredores os vasos estavam dentro de umas floreiras de plástico." Uma coisa que horrorizava Soares. Mas por quê? Entre outras coisas, porque as despesas daquela área privada do palácio eram pagas pelo presidente, e Eanes manteve sempre isso ao longo da vida e apesar de não fazer gala, era algo que era conhecido e transmitia um pouco para fora. E depois, esta maneira de olhar para a política acaba por ser também muito importante no aparecimento do PRD. Estamos a falar de algo que se passa 10 anos depois, em 85.

No final do seu mandato.

No final do seu mandato, aquilo que vai ser uma coisa que nós hoje recordamos pouco, que é um dos grandes cavalos de batalha do PRD, é a corrupção, e a corrupção no tempo do Bloco Central, o Bloco Central é o governo. 83, 85, eu estou a recordar isto porque nem toda a gente tem a obrigação de ter as datas todas na cabeça. Era uma coisa que toda gente falava disso, havia um alto comissário contra a corrupção, que era o Costa Braz, e falava-se imenso destes temas e havia muita corrupção, sem dúvida nenhuma. Ele é a pessoa que acaba por juntar, na sua candidatura, os três principais partidos, os três primeiros partidos, o PS, o maior partido, o PSD e o CDS, e ainda o MRP. O MRP apoia a candidatura de Ramalho Eanes, o que pode parecer um bocadinho estranho, mas talvez não seja tão estranho como isso, se nos lembrarmos de duas circunstâncias. Primeiro, as outras duas candidaturas que vinham a seguir eram odiadas pelo MRP. Uma era de Otelo, e Otelo era o comandante do COPCON, que tinha feito uma operação que tinha prendido e levado para Caxias dezenas, se não centenas, não sei se chegavam às centenas, de militantes do PRD. Eu tive dois irmãos que eram do MRP e tiveram presos em Caxias. Isto é no Verão Quente. Há um assalto à sede, que ficava na Alvas Cabral, ao pé do Liceu. É uma coisa que o MRP não podia esquecer. Aliás, quem ler as memórias de uma militante do MRP chamada Aurora, Aurora Rodrigues, salvo erro, ela foi procuradora da República em Évora e tem umas memórias muito interessantes. E ela conta as duas prisões, porque ela esteve presa antes e depois do 25 de Abril. E conta as duas prisões e, curiosamente, ou sintomaticamente As condições da segunda prisão em Caxias, no tempo do golpe, são piores que as da primeira prisão no tempo da PIDE. A coisa foi dura mesmo para o MRP. O MRP nunca poderia apoiar o Otelo, que era o candidato da revolução, digamos assim. E o outro candidato era o Enny vi Fidaldo do PRD, os revisionistas, o Octávio Pato do PCP. Não só politicamente isto fazia sentido, e é isto que, de alguma forma, o Rui Ramos também recorda no podcast que fez agora sobre esta eleição. Mas curiosamente, há uma coisa que ele não diz e que na altura se dizia muito, que também era um motivo. É que havia alguém que fazia a ponte entre Arnaldo Matos, que era o líder do MRP, e Ramalho Eanes, que era uma figura estranhíssima na revolução, chamado Cornélio Vincente Teixeira, ou melhor, Vincente Teixeira, Cornélio. E que é uma figura dos bares lisboetas e da noite lisboeta, e que liava aquela gente toda de uma forma um pouco estranha, e que era a explicação que se dava. Eu lembro-me, por exemplo, de vir numa caminhonete da campanha do Otelo, esclareça-se para não haver dúvidas, do Porto para Lisboa, não havia autoestrada, vínhamos na Nacional um, que era uma viagem infernal, e atrás de nós vinha um carro que levou imenso tempo a ultrapassar a caminhoneta, do MRP, cheio de cartazes à toda volta. Imaginem um cartaz tipo Mao Tsé-Tung, só que a cara não era o Mao Tsé-Tung, era o Ramalho Eanes. Era uma coisa um pouco bizarra. Mas chegamos, de facto, ao momento da eleição, e a eleição é muito clara, são 62% para a candidatura de Ramalho Eanes, e ainda Pinheiro de Azevedo, tem uma votação que não é despicienda, mas os candidatos do PREC, que são Otelo Saraiva de Carvalho para um lado e Octávio Pato por outro, somados não chegam a um quarto dos votos, 25%. Estamos a falar de 16% para Otelo e 8% para Octávio Pato, do PCP. É isto que o PREC vale. Vamos ao primeiro som que temos para ouvir. No entanto, há aqui um som, que é o som do Otelo. Essa conferência de imprensa, duas pequenas notas. Primeiro: não havia na altura as sedes de campanha como há hoje. Ou melhor, havia sedes de campanha, mas não se juntava lá toda a gente.

No fim da contagem de votos.

A noite eleitoral era feita na Gulbenkian, e as conferências de imprensa eram no Auditório Dois, apinhado de gente. O apinhado de gente na conferência do Otelo, é mais gente.

Ou seja, todos os candidatos estavam na Gulbenkian.

Ou iam à Gulbenkian. As conferências de imprensa de cada um. Por exemplo, a conferência de imprensa do Otelo, ele faz uma declaração inicial, vamos ouvir um extrato, e a seguir diz: "Agora tenho uma hora para perguntas."

Uma hora?

Uma hora para perguntas. E na conferência de imprensa do Ramalho Eanes, quem o apresenta, que é o António Granadeiro, figura que a gente depois viria a ser conhecido por outros motivos. O António Granadeiro diz: "Há uma pequena declaração de candidato, mas no total isto dura 50 minutos."

Muito pouco. Terrível.

E aquilo que não éramos só portugueses que lá estavam. Está cheio de gente. A conferência de imprensa do Otelo é meio comício, porque ele faz a declaração inicial e a seguir é uma salva de palmas que nunca mais acaba. Agora, na declaração inicial, repara, é alguém que acabou de ter 16%, os votos não estavam ainda fechados, contra um candidato que tem mais de 60%. E olha o que ele diz. Vamos a ele. Vamos ouvir.

Em terceiro e último lugar, foi evidente o repúdio que o povo manifestou pela grande mentira do 25 de novembro e por tudo aquilo que essa data representou para os trabalhadores portugueses, para os mais humildes e os explorados, em especial. O ódio ao 25 de novembro é contrabalançado pelo amor e pela esperança de regresso ao exaltante período revolucionário posterior ao 25 de abril e que se prolongou até 25 de novembro.

Afinal ganhou.

Parece que ganhou, não é? Parece que ele ganhou, mas não, não ganhou. E agora vamos ouvir o segundo som, umas horas depois, porque já é depois de conhecidos os resultados finais. Umas horas depois, fala Ramalho Eanes, e isto é uma coisa que está muito presente. Há aí um som que é 24 de abril e 24 de novembro, que vale a pena também.

Vamos ouvir então Ramalho Eanes nessa noite eleitoral.

Nessa madrugada.

Aqueles que sonham com o regresso a 24 de abril de 74 ou a 24 de novembro de 75, estão à partida condenados pelas leis feitas pelos representantes legítimos do povo e pela opinião pública, claramente expressa nas eleições livres, que até agora permitiram conhecer a vontade do povo português.

Isto não era um detalhe. Esta tensão não era um detalhe, até porque a campanha eleitoral tinha sido tensa. Vamos lá ver, era uma campanha eleitoral tensa. Eu tenho muito pouca memória dessa campanha eleitoral. Como disse, não fui ado Eanes, não andei no ado Eanes. Estive em dois momentos da campanha do Otelo. Eu vim do Porto para Lisboa numa caminhoneta, não sei o que é que me ia fazer ao Porto, mas parece que vim para Lisboa numa caminhoneta da campanha. Também havia, na altura, caminhonetas que traziam as pessoas para os comícios, não sei se foi isso, não tenho memória exata. E depois lembro-me de ter ido assistir a um comício no Barreiro. O Barreiro era o Barreiro vermelho do PCP. Era, digamos, um dos corações do PCP na margem sul. Eu estou na caravana, num carro da caravana, e no caminho havia daqueles homens que andavam com publicidade, tinham um cartaz à frente pendurado, um atrás e outro à frente. No caminho, já era noite Todas as coisas aconteciam tardíssimo. Havia ao longo daquelas ruas estreitinhas, para chegar ao Barreiro não era uma autoestrada como é hoje, muitos militantes do PCP que traziam cartazes do Otávio Pato.

Um candidato.

Da semana, era pendurados no corpo e que estavam à beira da estrada a ver passar a caravana do Otelo. Depois a caravana do Otelo enche, mas enche mesmo, um pequeno estádio, um campo de futebol no coração do Barreiro. E era tudo vivido com muita intensidade. O que se passa ao mesmo tempo na campanha do Yanes? A campanha do Yanes é impressionante. Nós hoje vemos as imagens, percebemos que não tem nada a ver. Não é a campanha de 86, que isso ainda ganhou outra dimensão, a famosa campanha Freitas Soares, mas é uma campanha também com mobilizações enormes. Repara, não é uma campanha em que as máquinas partidárias tenham a mobilização que hoje têm. Não há ali uma bandeira partidária, não há ali bandeiras da candidatura. Há pessoas que aparecem com cartazes feitos em casa, e autocolantes nas lapelas. Toda a gente andava com autocolantes nas lapelas. Uma coisa que hoje também nós não temos, que era mesmo muito diferente. Há um momento muito complicado, que é o momento do comício em Évora. Ele vai a caminho de Évora e quando está a chegar, ainda antes de entrar nas muralhas, houve uns tiros. A reação que tem, que é uma reação que ficou colada à sua imagem e crítica para tudo aquilo que ele depois vem a ser, que é ele, sópode o tejadilho do carro. Eu cá tinha a ideia que era uma Diane, mas não, é um Renault 16, que era um carro muito típico da época, era o mesmo carro em que Mário Soares fazia as suas campanhas, o mesmo modelo, com a filha Isabel Soares ao volante. Eles também tinham um Renault 16. Ele sópode o tejadilho do carro, tinha uma horrorosa camisola às riscas horizontais, que nós hoje consideramos inimagináveis, muito cintada, como era típico da época, muito justo ao corpo. E ele tinha um físico-

De militar?

Quer dizer, há militar militar. Eu nesta campanha recordei imagens do militar Vasco Lourenço ao lado dele.

Ou de Pinhes de Azevedo.

O próprio Otelo não tinha aquele físico. O único político português que tem um físico idêntico em altura e elegância é Cavaco Silva. Depois temos outros que são elegantes, no tempo, quer dizer, Sócrates, Passos Coelho, Montenegro hoje, mas com aquele físico impressivo, foram esses dois. Bem, e ele mete as mãos nas ancas e o carro continua e ouvem-se tiros em fundo. Na troca de tiros morre uma pessoa. Morre uma das pessoas, não sei se estava a fazer tiros ou não. E depois há uma coisa também extraordinária que é: o inquérito não leva a lado nenhum. Não se sabe como é que ele morre, quem é que o matou, quem é que não matou, nada. Mas há uma coisa também que é significativa. A BBC, a feroz da BBC, falou em vários mortos, o que era falso, e achou que tinha sido a campanha de Yanes a desencadear tudo, quando foi o contrário. Os tempos eram muito particulares, mas esta campanha muito tensa acaba em Setúbal. Eu não sei porque é que acaba em Setúbal, não consigo perceber, mas há uma coisa que eu também tenho em memória. Durante muitos anos, décadas, todas as campanhas do PSD acabavam em Setúbal. O último comício das campanhas do PSD era em Setúbal. Agora já não é assim. Não sei se tem alguma coisa a ver com isso. É um comício, talvez tenha a ver com o facto de o último comício da campanha já não ir para os jornais, por causa do dia de reflexão.

As coisas mudam.

As coisas mudam, há coisas que não mudam e há outras coisas que mudam, que é hoje em dia nós seguimos tudo até à meia-noite. Na altura, eu fiz muitas campanhas a trabalhar para a imprensa escrita, portanto, o último dia de campanha era um dia de festa. Andávamos lá sem ter que trabalhar para o dia seguinte.

Agora não é assim.

Agora não é assim. Nós temos aí um som, precisamente de Setúbal, que eu acho também significativo por causa desta questão do 25 de Novembro.

Estamos, apesar de tudo, num país que é livre. Livre graças ao 25 de Abril, livre graças ao 25 de Novembro.

Mais uma vez, curioso como associa as duas datas.

Ele associa as duas datas. Hoje em dia há muita gente que procura dissociá-las, mas percebe-se até pelo contraste destes dois sons, o significado que elas tiveram. Quer dizer, aqueles 16% ou 24, se considerarmos o PCP, que eram a dinâmica da revolução e da rua, estiveram desde a eleição para a Assembleia Constituinte em minoria e a legitimidade democrática sempre foi outra. Foi outra na Assembleia Constituinte, apesar das limitações que os militares impuseram, foi outra na Assembleia da República eleita em 25 de abril de 76 e foi outra na primeira eleição presidencial em junho de 76. E por isso também vale a pena ir ao discurso. O que o discurso tem de interessante e que eu achei muito interessante? O discurso é de posse. Nós temos perceção Que há coisas que não mudam. Nós temos dois sons do discurso, vale a pena ouvi-los.

Queres começar pela habitação e saúde? Vamos lá então, ouvir Ramalho Eanes no discurso da tomada de posse.

O país exige um ponto final no lamentável espetáculo de um sistema educativo que não funciona e que dia a dia continua a hipotecar o nosso futuro pela sua demissão na formação das gerações, que hão de garantir ao nosso país as condições de progresso e de independência real. Há que lançar programas ousados no domínio da habitação e da saúde e que encontra soluções que melhorem a qualidade de vida das populações da cintura dos grandes centros urbanos, onde vivem desenraizados os que abandonaram os campos e as aldeias, na procura de sobrevivência para si e para os seus.

Podia ser hoje, não é?

Podia ser hoje. E o outro talvez ainda seja mais direto.

Vamos ouvir.

Nos vários setores de atividade, temos de terminar com quaisquer formas de irresponsabilidade e corrupção, impondo o primado da seriedade e da competência. E para atingir todos estes objetivos, precisamos ainda de órgãos de comunicação social que não sejam fatores de perturbação, veículos de mentiras difamações ou injúrias, campos de batalha fomentando a agressividade e o ódio entre as pessoas, mas que sirvam antes, em todas as circunstâncias.

Bem.

50 anos. Estas palavras têm 50 anos.

Essas palavras têm 50 anos. Hoje talvez puséssemos redes sociais em vez de órgãos de comunicação social. Mas repare, nós teríamos que regressar ao que era a comunicação social na época, não vamos falar disso hoje aqui, porque também tinha muito que se lhe dissesse. Aliás, a comunicação social e o que se passa nela é um dos detonadores do que se vai passar no Verão Quente e da reação democrática, por causa de um jornal, o República. Mas há também aqui outra coisa, que é a percepção de que se tem que falar apenas para os media, é diferente. Há um outro som, é o último que vamos ouvir, o que é que diríamos hoje de alguém que fizesse isto, que tivesse estas palavras?

É preciso saberem que não temos medo. Vão pra escola e aqueles que tiverem idade vão trabalhar.

O que aconteceu aqui, Paulo?

Isto é o começo em Beja. É a seguir a Évora, o começo em Beja. Ele depois continua a dizer, depois a seguir há uma reação ao que ele diz, e ele a seguir diz: "Fiquei muito estranho, porque as pessoas acharam uma coisa malandra trabalhar. Isto é um país de trabalhadores." Nós hoje faríamos esta-

Também há feridos em Beja.

Sempre com efetivos aqui, não sei se foram feridos em Beja ou pessoas que ficaram com sequelas. É um tempo, de fato, muito diferente. Agora, quando nós há bocado ouvimos e parece que há coisas que são iguais, a habitação, educação, saúde, que temos em todos os noticiários, é necessário também ter noção de que, apesar de tudo, o país não é o mesmo. Eu fui reconstituir, por exemplo, o que é a nossa riqueza. E o PIB per capita, que é uma medida de riqueza, eu recorri a uma base de dados internacional, que vai até Jesus Cristo, que é muito usada, amiúde pelo Nuno Palma. Só para ter uma coisa comparável, nós temos três vezes o PIB per capita que tínhamos em 1976. Cada português em média, é três vezes mais rico do que era em 1976. Mais, quase todos os indicadores, por exemplo, de saúde, são totalmente diferentes. A esperança de vida subiu significativamente, de 68 para quase 83 anos.

A mortalidade infantil.

A mortalidade infantil é alucinante. Na altura estávamos a descer, porque tínhamos a descer já de trás, não começou a descer daí. Passámos de 33,4 óbitos por mil nasciturnos para 2,6, que é o número dois, que é um número baixíssimo, um dos melhores do mundo. O número de médicos, nós queixamo-nos de imensa falta de médicos. Nós tínhamos 122 médicos por 100 mil habitantes, hoje temos 578, é cinco vezes mais. O número de enfermeiros passa de 159 para 783. É uma evolução enorme. As condições são muito diferentes. No que diz respeito à escolaridade da população, tudo evoluiu. Eu sei que muitas destas coisas vinham de trás. Por exemplo, o ritmo de crescimento da economia foi bom, sobretudo nos primeiros anos e sobretudo na segunda metade da década de 80, mas o crescimento vinha de trás. O triplicar do PIB per capita demorou 50 anos desta vez, após o 25 de Abril, tinha levado 20 anos nos tempos anteriores, porque a partir do princípio da década de 50, Portugal tinha começado a crescer. Enfim.

E vamos por aí.

Vamos por aí.

Para ir ao encontro do país que aqui tem.

Quando pensamos, por exemplo, agora estamos a discutir muito as infraestruturas por causa da água de...

Em Almada.

Em Almada. Metade da população portuguesa, em 74, 76 era igual, não tinha água canalizada. Houve uma revolução absoluta e aquilo que é estranho em Almada é a revolução, que em princípio estava acabada há 20 anos, há mais de 20 anos que essa revolução acabou. É uma revolução que vem antes dos primeiros fundos estruturais, bem antes. Os primeiros 10 anos do poder local são extraordinários, os segundos 10 anos são ainda mais extraordinários, porque há fundos estruturais. O estado de Almada, Almada está no estado em que está. Portanto, há aqui coisas que são muito reveladoras. E agora, só uma nota final: Ramalho Eanes mantém muito aquela imagem, não é apenas pelo homem que estava de mãos nas ancas em cima do carro. Não é apenas pela sua imagem de seriedade, é também por ter tido algo que na altura, politicamente, quase o destruiu, que é ele esteve de bem e de mal com todos, mas que talvez hoje seja uma das coisas que as pessoas mais apreciam, é o facto de ele ter estado de bem e de mal com todos. Portanto, ele começou contra o PCP e acaba com o PCP na segunda eleição presidencial, e se quisermos na terceira, porque depois faz uma candidatura com Salgado Zenha, não vai ele, mas vai junto com o PCP, e depois acaba tudo catastroficamente na experiência do PRD, mas talvez ele tivesse feito uma coisa que hoje, ele tem 40 anos de vida no pós-presidência, que é um número impressionante, e esses 40 anos de vida foram usados com muita parcimônia. Portanto, ele intervém muito esporadicamente e cada vez que intervém, a sua palavra é muito procurada. Agora toda a gente andou à procura do apoio dele na última eleição presidencial, não nos esqueçamos disso. E ele já tem mais de 90 anos. Agora já tem mais de 90 anos.

Já tem mais de 90 anos. Estamos a falar do homem que tinha 41 anos e que tomou posse há precisamente 50 anos. António Costa Pinto é politólogo. Muito obrigada pelo tempo que aguardou para estar aqui conosco em direto. Ainda assim, acho que deve ter sido ótimo recuperar estes sons e recordar estas intervenções de António Ramalho Eanes no discurso da tomada de posse. É um país muito diferente, António, e ao mesmo tempo com alguma sensação de que há problemas que continuam ou que se repetem.

Muitíssimo diferente, a começar porque eu duvido que o tom comunicativo, vagamente amador, com um sotaque de Castelo Branco.

É verdade, ele mudou.

Exatamente, teria hoje muitos consultores de imagem que naquela altura não tenho a certeza se já o teriam e Cavaco Silva teve. Eu gostava de sublinhar duas coisas sobre Ramalho Eanes e sobre estas eleições presidenciais, dando, em primeiro lugar, algo que me parece muito importante da natureza da transição em Portugal. É que Ramalho Eanes só é candidato à Presidência da República, justamente porque ele, que não é nem de longe nem de perto o mais destacado líder militar do MSA, em toda a divisão do MSA que se dá em 1974, 75, e mesmo do chamado grupo dos nove, mas porque ele sai do 25 de novembro como o chefe militar. Em segundo lugar, e esse ponto também é o que eu gostaria de sublinhar a partir daqui, porque Ramalho Eanes não é imposto aos partidos políticos, não diria isso, mas é o resultado de um compromisso entre os militares moderados e os partidos políticos, fundamentalmente o PS e o PSD, os vencedores, digamos assim, de 25 de novembro, como o candidato às eleições presidenciais, que os partidos políticos vão efetivamente apoiar, mas que, num certo sentido, as alternativas eram escassas para não dizer nulas. E é aqui que Ramalho Eanes, nesta campanha presidencial, e nós ouvimos, obviamente, uma parte dos discursos que poderiam ser ditos, por exemplo, quando ele vai aos Açores e nessa altura nos Açores, digamos, as ameaças eram outras.

Era a extrema-direita, no caso.

Radicais. Exatamente, independentistas, enfim, mais ou menos apoiados pelos Estados Unidos, não fosse a coisa dar para o torto durante o prep. Mas a verdade é que Ramalho Eanes entra na Presidência da República e ele é símbolo do início de um sistema político democrático semipresidencialista, em que o Presidente da República tem um papel muito importante, porque ele é o herdeiro dos militares moderados, anticomunistas e antiesquerdistas, que vai dirigir a consolidação democrática portuguesa. Este era o segundo ponto que eu gostava de salientar, justamente. E, portanto, muitas das tensões, dos conflitos que presidem à consolidação democrática e que têm em Ramalho Eanes, digamos assim, em grande parte o seu eixo fundador, é o militar moderado, o militar democrata, sem sombra de dúvida, perante, naturalmente, os partidos políticos que ganharam as eleições e convém não esquecer, estão a governar, Mário Soares está a governar como primeiro-ministro, sentem que Ramalho Eanes pode ser efetivamente um Perturbador da consolidação dos partidos políticos na democracia portuguesa. E é justamente por isso que muitos dos conflitos que vamos ter logo a seguir a essas eleições, quer seja a propósito dos governos de iniciativa presidencial, quer seja a propósito da revisão constitucional, quer seja, como sublinhou o José Manuel Fernandes, o que não deixa de ser muito interessante, o fato de Ramalho Eanes na sua segunda ou primeira reeleição, neste caso, ter apoios políticos exatamente inversos ao que teve em 1976, com a AD a apresentar um candidato que desta vez já não é um militar que vem da legitimidade do PREC, mas é convidado justamente por partidos políticos para se opor a Eanes, ainda numa fase em que era melhor, apesar de tudo, escolher um militar. Portanto, Ramalho Eanes é, sem dúvida nenhuma, o eixo fundador da consolidação da democracia portuguesa, mas que tem que gerir a herança de um poder militar no qual ele próprio é um ator central no regresso dos militares aos quartéis, convém ter essa ideia também. Muitas vezes, o discurso legitimador dos políticos foi Mário Soares e Sá Carneiro, e é verdade que tiveram papel central, aqueles que meteram os militares no ordem de dizer: "Bem, uma democracia ocidental não tem que há militares." Mas quase todos os estudos que nós temos sobre esse período apontam para que Ramalho Eanes também foi um ator colaborante nessa dimensão, e não um ator de resistência. Mas partidos políticos, Soares, PSD, PS, Sá Carneiro, ao tentarem naturalmente civilizar, entre aspas, a democracia portuguesa, e Ramalho Eanes, que tem, aí sim, uma visão que pode passar por um semipresidencialismo mais atuante. Não vamos agora aqui falar do PRD, mas o PRD seria justamente isso.

Seria essa a ideia. O António dizia que alguns primeiros-ministros temeram um presidente da República perturbador do trabalho desses executivos. Isso aconteceu? Viu isso acontecer de alguma forma?

Não tanto perturbador dos executivos, se me permite, mas perturbador do natural monopólio que os partidos políticos exercem no sistema político democrático. Aliás, ninguém como mais do que Sá Carneiro, que também o foi, ninguém como Mário Soares farejou justamente, e sofreu com isso, bastante no seu próprio partido, farejou a hipótese de um segmento do partido e o general Ramalho Eanes roubarem uma parte do Partido Socialista.

António Costa Pinto, muito obrigada pela análise que aqui nos deixou e este olhar sobre esses momentos da vida política intensíssima do país de há 50 anos. O José Miguel Sertica está conosco aqui, historiador, bem-vindo.

Muito obrigado. Bom dia.

Agora, ainda muito rapidamente, teremos mais tempo na segunda parte do Contra-Corrente, mas de facto esta figura de Ramalho Eanes é uma figura muito sui generis dentro daquilo que é a história da democracia portuguesa.

Muito bom dia. É sui generis porque nós estamos habituados a uma narrativa segundo a qual a consolidação democrática é feita por civis. E tentarmos encaixar um homem como Eanes, militar da revolução, moderada, é verdade que sim. Depois, entre 76 e 1986, portanto, os dois mandatos que fez, também como um ator importante, Sá Carneiro, Soares, sem dúvida nenhuma, são os mais importantes, mas Eanes também foi muitas vezes em colisão com estes dois civis, digamos assim, com estes dois líderes civis. Eanes também teve um papel importante naquilo que foi a normalização democrática, não tanto pela vida política em si, mas no sentido em que Eanes vai comandar politicamente aquilo que é o regresso dos militares ou a saída da influência que o exército ainda tinha, que as Forças Armadas ainda tinham, sobre a política.

E ser um militar facilitou isso.

Ser militar tem autoridade. Aliás, na eleição de 1976, isto é interessante também pensarmos nisso, o PS tentou empurrar Soares, muitas vozes disseram que talvez o candidato ideal fosse o próprio Soares. Vai sê-lo 10 anos depois, em 1986, mas havia muita gente que queria uma candidatura já civil. E Soares, e ele conta várias vezes, teve a intuição, e a intuição certa, de que ainda era muito cedo. Ou seja, em 1976, não só porque a Constituição tinha consagrado o Conselho da Revolução, que ainda era importante que fosse um militar a figura mais importante, que a chefia do Estado estivesse em Eanes ou não fosse civil ainda, porquanto ainda faltava fazer uma coisa muito importante, que era, de facto, civilizar o regime e arredar os militares daquilo que era a influência política. E Eanes, também vale a pena, depois se calhar poderemos falar sobre isso, a eleição de 1976, de Eanes, é uma eleição direta, nem fazia sentido não sê-lo O próprio Mário Soares, aliás, reconhece isso. As oposições que se tinham batido com Humberto Delgado em 58 e que tinham atacado a revisão constitucional que o Estado Novo faz em 1959 para que o chefe de Estado possa ser eleito em colégio eleitoral fechado, não fazia sentido não ser por sufrágio direto. Mas a eleição de Eanes é quase um referendo, no sentido em que o Conselho da Revolução, Sá Carneiro e Soares se sentaram à mesa. Veriam as versões no sentido se foram os partidos que sugeriram ao Conselho da Revolução nomes ou se foi o inverso. Mas em todo o caso, sobre a mesa estavam quatro nomes. Manuel Costa Braz, ministro da Administração Interna, o homem que tinha sido o grande responsável pela organização das eleições para a Constituinte em 75. Mário Firmino Miguel, um nome que depois se vai voltar a ouvir falar para as eleições de 1980 ou de 86. António Iris Veloso, o chamado vice-rei do Norte, que tinha sido um apoio muito importante para o contragolpe de 25 de novembro, e Ramalho Eanes, por esta ordem. Portanto, Ramalho Eanes, em algumas vozes, era até o quarto nome, era talvez o último. E depois, há conversações várias. Há até uma corrida entre Sá Carneiro e Soares para ver qual deles é que anuncia em primeiro lugar o apoio a Eanes. Deveria ter sido o PS, mas parece que houve uma inconfidência, segundo se conta, ou de Jaime Gama ou de Rui Vilar, que teriam comunicado que o PS iria apoiar Eanes e, portanto, Sá Carneiro, nessa mesma noite, em maio de 1976, antecipa-se e anuncia. E portanto, o resultado dele, 61/59/62, derrotando a revolução. De facto, Otelo tem 16,5%, Octávio Pato tem 8, isto somado dá 24,5, e Eanes vence por uma larga margem. Já não será reeleito, portanto a margem, já só será reeleito com 56%. E Ramalho Eanes fez dois mandatos e é talvez o único caso, o que diz muito daquilo que era o país ainda nos anos 70 e 80. Ele é eleito pelo centro-direita e reeleito à esquerda, que é uma coisa impensável se pensarmos depois em todos os outros. Mas isto mostra como a política em Portugal mudou na segunda metade dos anos 70 e como Eanes, que era o candidato consensual, Sá Carneiro estava com ele, o PS estava com ele, embora não com envolvimento direto. Ele, Eanes, quando anuncia a sua candidatura a 14 de maio de 1976, tem o cuidado de afirmar que não é o candidato das Forças Armadas, ele é o candidato que tem o compromisso com o povo. Portanto, esta ideia de ser um militar, mas ser um militar independente e também um chefe militar que não depende nem de Sá Carneiro, nem de Soares e, portanto, está livre para depois fazer a política.

Helena Matos, vamos já passar para ti. Imagino, conhecendo-te um bocadinho, que adoraste ouvir Ramalho Eanes há 50 anos.

Até porque a minha família é daquela zona. Portanto, consigo falar exatamente como Ramalho Eanes.

Que o próprio também já não fala assim.

Não, é curioso, quando aquelas chamadas telefónicas que as pessoas faziam, de repente para a terra, as vogais começam a ficar com aquela sonoridade e é quando as tigelas passam a tejadilhos. A figura de Ramalho Eanes aparece aos portugueses, estou a falar aos portugueses, claro que entre os militares ele era conhecido. O país, a 29 de novembro de 1975, é um país outro em termos de imagem. Não são apenas os cartazes, o Terreiro do Paço começa a ter uma lavagem para os cartazes que já se acumulavam uns em cima dos outros nas colunas, na colonata, na galeria, começar a dar àquilo um outro aspeto. Há uma outra imagem de país. Os militares começam a ficar subitamente mais alinhados, menos despenteados, o ambiente informal começa a ser menos evidente. E há um tenente-coronel, o António Ramalho Eanes, é nomeado chefe do Estado-Maior do Exército. Ele é nomeado chefe do Estado-Maior do Exército a 29 de novembro de 1975. Tinha havido já a conferência de imprensa no Quartel dos Comandos, na Amadora, em que ele está com Jaime Neves. E portanto, aquele homem, com aquele perfil, com aquela maneira de falar, com aqueles óculos, ele é um operacional. De repente, parece que uma outra ordem no país é possível. Quando ele se torna chefe do Estado-Maior do Exército, que era um cargo que à época tinha um peso que hoje não tem de modo algum, isto permite-lhe viajar por todo o país. Ou seja, ele visita quartéis, unidades, regiões militares, ele tem uma presença muito grande, as suas deslocações no país são muito acompanhadas por jornalistas. Ele viaja, por exemplo, vai a Bruxelas em fevereiro, já de 76, e como acontecia à época, isto é acompanhado também por jornalistas no aeroporto. Eanes, de repente, ganha uma centralidade, é quase como se aquela voz, aquele perfil, aquela maneira de estar, de ser, fosse contrastante com Tudo aquilo que tinha acontecido. Era como se houvesse ali umas Forças Armadas que, sem renegar o 25 de Abril, não estivessem naquele estado de agitação e propaganda em que as Forças Armadas tinham estado. É curioso, porque eu acho que há quem perceba muito cedo o potencial de uma candidatura de Eanes. E entre quem tenha percebido esse potencial, eu acho que se conta exatamente a extrema-esquerda, porque nós tivemos em abril de 76 um enorme escândalo mediático, que é quando o jornalista alemão Gunther Wallraff se faz passar por um homem de negócios ligado à direita alemã e consegue infiltrar-se no MDLP. O MDLP estava ligado ao general Spínola. Ele encontra-se com o Spínola, com operacionais do MDLP, leva um gravador escondido, faz várias reportagens. E, portanto, a notícia é que sim, o MDLP, que era um movimento de direita associado ao general Spínola, dizem, ao contrário do que nos estava a ser garantido, que o MDLP, aqui é dito, vai continuar em atividade, que vai comprar armas e o Gunther Wallraff denuncia a ligação de vários militares portugueses com altas patentes ao MDLP, nomeadamente Ramalho Eanes. Ou seja, há aqui uma ideia de associar Ramalho Eanes à extrema-direita. Eanes, entretanto, tinha se tornado um fenômeno em termos de adesão das pessoas à figura, que já não era de modo algum abalado por isto. Mas nota-se esta preocupação. Nota-se que esta reportagem tem uma divulgação enorme em jornais como o Diário Popular, como o Diário de Lisboa, e sai também internacionalmente. Nós vamos ter o anúncio da campanha, o anúncio da campanha não, o Sá Carneiro, a 27 de abril, a comentar umas eleições que não tinham corrido bem ao PPD, porque não tinham. Mas Sá Carneiro é um Sá Carneiro muito bem disposto pra quem tinha tido um tão mau resultado eleitoral. Talvez isso se devia a alguns factos da sua vida privada, é a altura da ligação com a Senou quando começa. E Sá Carneiro, já no fim da conferência de imprensa, temos lá conferências de imprensa enormes. Segundo a RTP, acontece há 01:25:32, já de conferência de imprensa, o Sá Carneiro estava muito preocupado com a questão dos partidos de esquerda apanharem ou não um candidato único, a questão do candidato do Partido Comunista Português, já da candidatura do major Otelo Saraiva de Carvalho, como ele diz. E depois, ele declara o apoio à candidatura do general Ramalho Eanes. E depois é curioso, porque a história depois tem destas ironias. Ele diz que nunca seria candidato do Partido Comunista Português. Anos depois, é exatamente a última gravação que nós temos de Sá Carneiro, é já na recandidatura de Ramalho Eanes. E para dizer aos portugueses, está visto, Ramalho Eanes tem o apoio do Partido Comunista Português. Pronto, mas estávamos aqui em 1976 e, portanto, aqui faz o apoio, como o José Miguel Sequeira aqui referia, antecipando-se àquela que seria a posição de Mário Soares. Em relação à questão do apoio do MRPP, faz todo sentido, e faz todo sentido pela própria história do MRPP. Para já, o Arnaldo Matos conhecia bem o Eanes da tropa. Depois, o MRPP tinha uma cisão entre a linha do Saldanha Sanches e a linha do Arnaldo Matos.

A linha negra.

A linha negra e a linha vermelha, com pormenores e detalhes absolutamente extraordinários e vergonhosos. E, portanto, nessa cisão, uma das grandes questões era a ligação do Arnaldo Matos à direita, entendendo-se o Partido Socialista era de direita. Logo, nós tínhamos tido a presença do MRPP no 25 de novembro. Portanto, não é de modo algum absurdo este apoio do MRPP ao general Ramalho Eanes. Eu há bocado referia isso quando conversávamos em off. A apresentação da campanha já em 19 de maio, na Gulbenkian.

Tudo passava pela Gulbenkian.

Tudo passava muito pela Gulbenkian. Em 19 de maio é feita a apresentação desta candidatura. Uma das pessoas que está, e ele aliás, vai estar nesta candidatura e vai estar também na outra, o Fialho Gouveia, eles fazem uma apresentação por ordem alfabética. Quem é que apoiava Eanes? É difícil perceber quem é que não apoiava Eanes. É como se aquele país que veio pra rua no primeiro primeiro de maio de 1974, finalmente tivesse achado que conseguia viver em democracia normalmente. Estamos aqui, somos democratas, mas queremos uma forma de viver que não seja revolucionária E é um momento extraordinário. Eu ouvi isto em som e uma pessoa quase que se sente empoderada em sentir aquilo. Eu também apoiava o Dias, não o Spínola, se tivesse idade. Há ali uma espécie de um encontro político entre pessoas que têm divergências políticas, mas têm um denominador comum: querem viver numa democracia que não seja tutelada militarmente, mas para isso precisam dos militares e precisam de um militar que seja respeitado e que tenha capacidade e contactos transversais. É também visível nesta campanha, apenas um detalhe, a ligação entre o Otelo e o Yanes. Além disso, eles conheciam-se muito bem. Aliás, o Yanes diz isso numas declarações, porque o Otelo faz lá umas declarações e o Yanes diz: "Major Otelo". Estas coisas das patentes são um bocado complicadas entre militares. Quase aquela expressão: "Sabe muito bem que eu sei, e se quiser eu digo." Ele é um militar respeitado pelos outros militares. Isso é importantíssimo, seja qual for o lado político em questão. Depois, foi um homem que à época, isto é também muito importante, aquilo que o José Manuel referiu, foi um homem que deu provas físicas. E isto hoje é importante, mas à época era muito mais importante. Ele tinha estudado a ação psicológica. Ele sabe que quando subisse para cima daquela carrinha, em Portugal era pouco provável que disparassem sobre ele. Apesar de tudo, é preciso uma coragem extraordinária para fazer aquilo, uma figura, uma segurança. Hoje ninguém podia subir para cima de um tejadilho de um carro, até porque caíam. Ele era um homem que sabia fazer aquilo. Ele tinha estado na tropa. Ele sabia andar em cima de um carro em movimento, sem tropeçar, sem cair, sem se assustar com quem estava dentro do carro e que tentavam que ele baixasse. Há ali uma figura que impõe naturalmente respeito. Isso nota-se com o Yanes. Eu conheci pessoas e eu vi alguns que tinham estado com o Spínola e os do Spínola era muito engraçado, porque estamos a falar de uns militares de alta patente e diziam qualquer coisa como: "Eu servi com o nosso general." E quando diziam: "Eu servi com o nosso general", dobravam a cabeça, faziam uma postura. Há pessoas que impõem naturalmente respeito. E Yanes não tinha nada a ver com aquela tropa fandanga das assembleias do MFA. Nada. Embora muitas das pessoas que estiveram nas assembleias do MFA, independentemente de tudo, tiveram grande coragem, nas posições mais extraordinárias que defenderam e antagônicas. Mas havia em tudo aquilo um ar demasiado descontraído. Não é isso que tem Yanes. Acho que se tem de perceber isto: há quase que um incômodo. Quando começa esta campanha presidencial, tem momentos muito interessantes. É a primeira vez que nós temos um debate para uma campanha presidencial.

Um debate a quatro.

Um debate a quatro, eles estão sentados, há piugas brancas, aquelas coisas todas. É um debate.

As piugas brancas era o que se devia usar. Agora, depois que caíram a partir dos anos 80.

E agora já se usam outra vez.

Era o que se devia usar.

Há muito isto, claro, o fumar, tudo isso. E depois, durante a campanha, nota-se, de facto, um país que se encontra ali com alguém. Apesar, por exemplo, o Pinheiro de Azevedo foi um candidato e até teve um problema de saúde complicado. Os resultados não são humilhantes. Os resultados do Otelo são bons, temos que reconhecer. Humilhantes são os resultados da campanha do Octávio Pato, que a dado momento estava a correr tão mal, que eles fazem uma coisa que é: enfiam a campanha dentro de um cacilheiro, um barco. Um barco tinha cobertura mediática, as pessoas também dentro do barco não podem ser muitas. A campanha estava a correr manifestamente mal. Este é um momento, há 50 anos, é um momento fundamental para o regime. E depois, a normalização, sobretudo, que começa a partir daí. Nós discutimos muito todas aquelas coisas do PRD, da relação de Yanes com os diferentes primeiros-ministros, os governos de iniciativa presidencial, mas há um outro lado fundamental, que é: era preciso normalizar o papel das Forças Armadas no regime, civilizar as Forças Armadas portuguesas que tinham tido ali um momento. Nós não imaginamos que alguém vá de carro de combate, ou tanque, como se quiser chamar, resolver um problema de preços numa tinturaria em Lisboa. Mas isto acontecia. Não era só o Dinis de Almeida que ia tomar bica dentro do chaimite. Mas os militares não se habituaram àquilo. Havia que normalizar todo um conjunto de situações. Havia que sarar feridas dentro das Forças Armadas. Após o 25 de novembro, nós tivemos militares presos, havia que resolver todas essas circunstâncias. Tivemos militares mortos a 25 de novembro de 1975, havia que resolver todas essas feridas. Tivemos os militares a humilharem-se entre si Em África, muitíssimo. E esse combate dentro daquilo que nós designamos como as nossas tropas, é um dos aspetos mais perturbantes de todo este processo, e do qual aquilo que aconteceu aqui em 25 de novembro de 1975 foi um pálido exemplo. Mas isto deixou marcas entre estes homens e portanto havia que reconstituir aquilo que eram as nossas Forças Armadas. Esse trabalho, sem Eanes, sem um militar com o ascendente, com o respeito que Eanes inspirava, teria sido muito mais difícil. Não estou a dizer que não houvesse militares igualmente competentes, militares certamente mais cultos que Eanes, certamente todos com melhor dicção que Eanes, mas é o próprio boneco que ele construiu. Nós temos uma canção no rock português, não é, do Seu Presidente Sorrisse. Aquela ideia do presidente.

Era dedicado.

Ao princípio ia ter uma pessoa com forte sentido de humor. Mas há este lado, aquela normalização, aquele casal jovem que ainda tem um filho, mas simultaneamente com uma forte devoção católica. O casal Eanes é conservador e moderno quanto baste para cada um dos setores da área política achar que se pode rever naquilo. Portanto, esta normalização deste-

Exceto um aspeto, desculpa lá.

Diz.

Uma coisa que na altura era muito comentada nos bastidores, hoje em dia seria muito comentada publicamente, que é a armação do cabelo de Manuela Eanes.

Ah, pois.

Mas na altura era assim ou não?

Era assim, não sempre permanentemente.

É curioso, porque Manuela Eanes, e é importante, eu vou clarificar.

Atenção, eu tenho imenso respeito por Manuela Eanes e tenho imenso respeito com o trabalho que ela fez, nomeadamente ligado às crianças.

E é um trabalho que começou antes do 25 de abril. Manuela Eanes não ganha este interesse por ter chegado a Belém. Manuela Eanes até é entrevistada pela RTP muito antes do seu marido, antes do 25 de abril, pelo seu trabalho na área em que ela trabalhava. Portanto, ela não é alguém que se vê de repente naquele tipo de funções. Tinha realmente aquele penteado extraordinário. Eu tenho como memórias de infância a ideia de tentar, numa igreja, atravessar com o dedinho uma cabecinha de uma pessoa que estava à minha frente, porque aquilo eram umas armações, aquilo eram umas construções. Não da Dra. Manuela Eanes, uma senhora qualquer, por ali estava. É claro que havia ali um lado até, eu lembro-me, muito popular. Os jornais à época traziam as fotografias da família em Alcains, como todas as famílias da Beira Baixa. Aquelas mulheres da Beira Baixa, sempre com aquele ar muito contido, as idas a Fátima. Ela faz uma promessa, Manuela Eanes, se o marido for eleito.

De ir a Fátima?

Claro, por quê? Só os jogadores de futebol é que podem ir?

No primeiro dia de campanha, a campanha está atrasada. Eles vão fazer o fim de dia em Portalegre e no caminho, eles vêm de Castelo Branco, aquilo começa em Alcains, que é a terra dele, vão a caminho de Portalegre e ela faz parar a campanha para ir a uma pequena capelinha.

Por quê? Se o Futebol Clube do Porto ia mostrar que era muito féus a Fátima, e toda a gente acha isso normal e natural.

Sim, são traços também da época.

São muito traços de época. Depois, é óbvio que temos todas as outras questões, as suas interferências no poder político, tudo isso, a questão do PRP, mas eu acho que Eanes acabou por ficar no imaginário dos portugueses, acabou por beneficiar. O tempo foi particularmente favorável, porque ficou como o homem não corrompível, como um homem que ficou ali numa bolha do tempo. Até pelas suas posteriores intervenções políticas, acho que acabou por ser favorecido pelo tempo, perdoou-se-lhe muita coisa. Nós hoje nunca toleraríamos um presidente desta forma, mas acho que na época, o homem que aparentemente não sabia comunicar, comunicou espetacularmente, porque comunica sempre bem quem consegue encontrar um ponto de ligação com o povo, e foi isso que ele conseguiu.

Sim. João Miguel Casablanca, mas aquilo que dizia na hora anterior é que Ramalho Eanes fez essa coisa de começar apoiado por um espectro político e acabar apoiado pelo outro. O que é que aconteceu no entretanto?

Essa variação só mostra o quanto Eanes sofreu aproximações várias ou sofreu tentativas de instrumentalização.

Mas leu a sociedade?

Soube ler a sociedade. Deixa-me só voltar aqui a um ponto anterior, muito interessante, que era esta alegada ligação dele à direita, estes rumores em relação ao MDLP. Eanes é um homem pouco conhecido do público até 25 de novembro de 75. As primeiras imagens dele são, de facto, uma figura fisicamente magra, aqueles óculos escuros. O Otelo era muito mais conhecido, era muito mais expansivo. Mas Eanes tem uma vida militar importante Eanes começou muito novo, logo nos anos 50. Eanes serviu em Goa, Macau, Moçambique, Guiné, com Otelo, onde conheceu Otelo Sobrinho de Sousa e Pinho. Os dois eram, não diria íntimos, mas eram conhecidos desde essa altura. Eanes estava em Angola. Ele é colocado em Angola em 1970 ou 1971, quando o 25 de Abril se dá. E há, na campanha de 1976, quem tenha insinuado não só esta ligação ao MDLP, mas também a ideia de que Eanes aderiu à revolução depois dessa data. Ou seja, que ele se vai ligar ao MFA já em maio, junho de 1974, que não é um obreiro da revolução. E apesar de tudo, naquela famosa ideia, no dia 25 de abril, onde é que fulano tal estava? Eanes estava em Angola e tinha com Vasco Lourenço feito um abaixo-assinado contra o chamado Congresso dos Combatentes do Ultramar, 1973. Ou seja, uma ala mais ultra que apoiava a política do Estado Novo. E Eanes tinha sido condecorado com a Ordem de Avis em 1972. Portanto, para esta visão de que Eanes não era confiável, Ramalho Eanes tinha sido condecorado pelo antigo regime. Portanto, há aqui desde leituras de que ele é o candidato da direita, até leituras que ele pode ser o candidato, ou é apoiado por gente de esquerda que não se identificava com Otelo, por razões mais individuais, com Otávio Pato, evidentemente, pelo peso político que essa candidatura tinha. Eanes é uma espécie de ponto de reunião comum, uma espécie de candidato médio, dir-se-ia, de sensibilidades civis e militares várias. Eanes, quando é eleito em 1976, é bom não esquecer que ele é ao mesmo tempo, e vai sê-lo pelo menos até 82, além de ser chefe de Estado, ele liderava o Conselho da Revolução e é depois chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e lidera o Conselho da Revolução até à revisão constitucional de 1982, que extinguiu esse órgão. E a própria revisão é talvez um elemento importante para se perceber esta viragem política. Não é só a difícil coabitação dele com Mário Soares. Mário Soares lidera os dois executivos constitucionais, portanto, 1976, 1977, e depois com o CDS em 1977, 1978. E digamos que o divórcio, quando se começa a perceber que aquele idílio Sá Carneiro, Soares e Eanes tem os seus dias contados, é nas cerimônias de comemoração do 25 de abril de 1977, quando Eanes faz um discurso que surpreendeu muita gente pelo tom e pela assertividade, em que Eanes interroga o governo: "Há muita coisa que já deveria ter sido feita e não está a ser feita." E Mário Soares, com a sua pose de grande senhor, não reagiu logo, mas ficaram velhas contas para ajustar. A 25 de abril de 1978, o segundo discurso de Eanes contra Mário Soares, e em abril de 1978 já se percebia, não só o CDS estava de saída, portanto, naquele curto governo PS-CDS, Sá Carneiro andava às turras com os seus próprios, não era exatamente uma alternativa. E Eanes vai, segundo alguns, de forma inconstitucional, segundo outros, de forma absolutamente constitucional, entrar por governos de iniciativa individual dele, de iniciativa pessoal dele. Nobre da Costa, que não passa na Assembleia, Mota Pinto, que passa na Assembleia, mas depois o próprio PS acabará por voltar-se contra ele, e a engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo, até hoje a única mulher a liderar o Executivo, que era apenas um governo até às eleições intercalares.

É muito curioso que esses governos não têm propriamente a mesma orientação. Claramente, o governo Mota Pinto é um governo à direita, digamos assim, pós 28 de setembro. Figuras muito marcantes, como Porfírio Silva, por exemplo, que vai ser o ministro da Comunicação Social, um tema muito sensível nesses dias. E depois, Maria de Lourdes Pintasilgo vai fazer um governo completamente encostado à esquerda. Que ficou no mito da esquerda até hoje.

Mas é curioso, de facto. Ramalho Eanes escolhe, por uma unidade-

Exato. Ele é um pouquinho também por relações. Há uma ministra que se mantém, Laurette Chantre, que é muito próxima de Eanes. Está nos dois governos, por exemplo, que é uma coisa também significativa. Não sei se é o único que está nos dois governos, mas pelo menos é um dos importantes.

Mas isso mostra que alguém tenta encontrar os tais pontos.

Aquilo que vai encostar Eanes à esquerda e vai, ao fim e ao cabo, favorecer que sua reeleição seja feita à esquerda, é que em 1979 nasce a AD. E a AD vai não só revolucionar o panorama político, é a AD que ganha as eleições intercalares em dezembro de 79, depois confirma a maioria nas eleições regulamentares. Hoje já não há intercalares, mas na altura ainda existiam. Hoje é por quatro anos e quando se interrompem esses quatro anos, recomeça um novo ciclo. A AD confirma a maioria em Em 1980, numa altura em que o PS tinha começado por apoiar a reeleição, mas Mário Soares vai romper com isso. Mário Soares ficou sempre muito agastado pela forma como tinha sido afastado em 1978. E Portanto, Anes chega a 1980 incompatibilizado com Mário Soares e incompatibilizado com a AD, com Sá Carneiro. E Sá Carneiro é o primeiro, creio eu, a colocar sobre a mesa a ideia de ter uma maioria, que ele já tinha conseguido, um governo, que já tinha conseguido. Faltava-lhe fechar a chave do sistema político e por isso ele vai optar por um militar, o que é significativo também, que era o general Soares Carneiro, em 1980. E Ramalho Eanes é reeleito, muita gente se lembrará disso. Ele é reeleito a 7 de dezembro de 80, no dia 4 de dezembro, portanto, na quinta-feira anterior, tinha ocorrido o acidente no qual morreu Sá Carneiro e o seu ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa. Eanes é reeleito pela esquerda. A revisão constitucional é muito importante. A AD tinha pensado numa revisão constitucional referendária, que depois ela própria não passa, acaba por ser muito imposta, já não por Sá Carneiro, mas por Pinto Balsemão. É Balsemão e Eanes que, ao fim e ao cabo, vão coartar os poderes a Eanes pela revisão constitucional de 1982. E vale a pena já agora computar, dizendo que além de incompatibilizado com Soares e com Sá Carneiro, Balsemão vai ser uma relação completamente impossível. A ponto de irem para as reuniões, cada um deles grava a reunião para ter a sua versão e para poder depois dizer à imprensa que não foi aquilo que Balsemão disse ou que Eanes disse. Ele tem uma muito má relação. E depois, a aventura, será talvez o seu grande erro político foi ter saído, ter acabado o seu segundo mandato, é patrocinar a criação de um meteoro político chamado PRD, o Partido Renovador Democrático, com Hermínio Martinho, e depois quando Eanes cessa o seu segundo mandato, ele vai liderar, exatamente, entre 1986 e 87. O PRD tinha tido uma boa votação nas eleições de outubro de 1985. Ou seja, o PS perde quase meia bancada, porque o PRD obteve 18%, qualquer coisa desse género, mas depois o cavaquismo nas eleições de 87 não só secou o CDS, reduziu a quatro, mas o PRD também, nas segundas eleições a concorrer em 87 com Eanes, liderado por Eanes, perde espetacularmente e portanto, isso é um epifenómeno. Eanes, apesar de tudo, soube refazer a sua imagem. A simpatia e a unanimidade de que ele goza hoje, aos 91 anos, não era nada a simpatia nem a unanimidade que ele tinha quando saiu em 1986.

Ah, pelo contrário.

Foi o tempo que o emaciou.

Eu acho que ele soube envelhecer bem, mas é preciso lembrar que ele sai de Belém com 51 anos. Ele sai muito novo. Ele tinha quatro décadas à sua frente. E deixe-me só acrescentar isso. Ramalho Eanes doutorou-se na Universidade de Navarra, em 2006, com uma tese muito interessante, que vale a pena ler. Não são as memórias dele. A tese chama-se "Sociedade Civil e Poder Político", mas evidentemente que está lá uma reflexão sobre a experiência política dele. Doutorou-se em 2006. Em 2006, ele tinha 70 anos. É notável como é que um ex-chefe de Estado vira académico, submete à defesa pública perante um júri. E de facto, Eanes tinha uma coisa. Mário Soares dizia sobre ele o seguinte, em 1976: "Eanes é um candidato hirto e seco, que não galvanizava as massas, mas apesar de tudo, era o candidato consensual." Mas esta imagem de um candidato hirto, seco, pouco empático, muito formal.

Que nunca ria.

Não sei se hoje em dia não é o tipo de político que um certo eleitorado quer.

Por exemplo, quando ele recusa ser vacinado.

Ele é um antipolítico.

Sim, ele não recusa ser vacinado.

Ele não recusa a vacina.

Ele recusa ser vacinado em primeiro lugar.

E ele recusa a prioridade. Ele não tinha nada contra as vacinas. Eu disse: se for preciso um ventilador, se tiver uma criança.

Sim, claro.

Portanto, sou mais nova, eu cedo.

Já vivi muito.

Sim.

No fundo, já vivi muitos anos.

De repente, as pessoas viram ali o homem que tinha saltado para o tejadilho da carrinha.

Exatamente.

Há em Eanes, ou como quando foi no Lusitânia Expresso, aquele barco que ia chegar a Timor. Ou que, na prática, se via que nunca chegaria a Timor, que a Indonésia não deixava, mas que procurava, de alguma forma, chamar a atenção para a situação de Timor. Portanto, há em Eanes, ao mesmo tempo, algo que devolve as pessoas àquilo que eles associam ao passado, e que objetivamente faz parte do presente, que é a capacidade de total despojamento e de arriscar. Se for preciso perder a vida.

E vale a pena lembrar também que ele recusou ser marechal em 2000 Ou seja, ele recusou qualquer coisa como 1 milhão de euros. E inclusivamente eu creio que a Fundação Elídio Pinho, ele ganhou um prêmio também há poucos anos, que não quis receber, 100 mil € ou 150 mil €. Portanto, esta ideia de despojamento, de capacidade de sacrifício público e sobretudo gerir os silêncios muito bem. E em política, quem fala pouco, normalmente é melhor escutado numa era de grande ruído mediático em que nós vivemos desde há anos a esta parte. E digamos que aos 91 anos, que é o que o senhor general António Ramalho Eanes hoje tem, aos 91 anos, ele está, não sei se em boa forma física, mas parece que sim, para 91 anos, mas está em muito boa forma política e cívica. Isso acho que é muito importante.

Sim, e é por isso que há quem afirma, e não sei se concordam, que Ramalho Eanes foi até um melhor ex-presidente da República do que um presidente.

Porventura. Repara, há uma coisa também que é preciso destacar. Ramalho Eanes foi o presidente da República que, porventura, em toda a nossa história constitucional, mais poder teve.

Sim.

Portanto, que é uma coisa que hoje também está esquecida. Repara, nós tivemos presidentes da República na Primeira República, num regime parlamentarista, tivemos presidentes da República no Estado Novo, num regime de presidencialismo do Presidente do Conselho de Ministros, em nome do Presidente da República, portanto, de Salazar, em nome do Presidente da República, se bem que ele tivesse lugar importante, sobretudo no tempo de Carmona. E agora tivemos com Ramalho Eanes, um presidente da República que era simultaneamente chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, portanto, não apenas o comandante em chefe das Forças Armadas, como é o presidente da República normalmente, mas com efetivo poder, presidente do Conselho da Revolução, que era uma espécie de Tribunal Constitucional, digamos, com mais poderes que o Tribunal Constitucional, porque tinha poderes de veto de leis, não apenas da sua constitucionalidade, mas de veto de leis, tinha uma intervenção política relevante e com um poder que hoje já não têm os presidentes da República, que é o governo dependia também da sua confiança política. Por isso é que há umas coisas que o Geminiano Caçador recordou, que é os discursos do 25 de Abril, que são discursos críticos do governo, tornam-se mortais para o governo.

Chamava-se discursos tumba governos.

Exatamente. Porque ele chegava lá e dizia aquilo que muitas, enfim, repara, aquilo que nós recordámos aqui é um bocadinho o sentimento popular. Porque ele também tem um lado populista, em termos de uma parte do seu discurso. Mas aquele sentimento popular. Aliás, eu tive uma entrevista curiosa do Mário Soares, dada na noite das eleições presidenciais, em que ele acusa de populismo, não o candidato que apoiou, mas Otelo Saraiva de Carvalho. Portanto, o populismo é uma coisa, digamos, é uma palavra que está sempre a regressar ao nosso léxico político.

E a polarização também é curioso neste certo.

E a polarização também. Nós hoje em dia achamos que isto está muito polarizado. Não se tem ideia do que era a polarização naqueles tempos.

Deixe-me só acrescentar que Mário Soares, a certa altura, em 1978, diz que Eanes, aqueles governos em 78, 79, sobretudo Nobre da Costa e Mota Pinto, Mário Soares define-os como governos sidonistas. Ou seja, Eanes tinha sido uma espécie de novo Sidónio, tomando conta de tudo.

A imagem.

É um bocadinho.

Também é um bocadinho.

Um bocadinho, que é a mesma coisa.

Brigar, arrogante, com pose.

Deixa eu dizer uma coisa, desculpa. Sobretudo visto à distância.

Não havia nada.

As patilhas.

Ah! O Geminiano hoje está muito dedicado aqui à questão capilar.

Não, não é só questão capilar.

Era moda em 1970.

Era uma moda. Nós quando vemos aquelas imagens, quer dizer, os fatos fazem muita impressão. Tudo aquilo faz um bocadinho de impressão, que é tudo muito diferente do que é hoje. De vez em quando as modas voltam para trás, portanto, se calhar num ano destes estamos a usar tudo.

Eu acho que já foi mais chocante do que neste momento.

Por acaso neste momento, porventura, sim, porque hoje é uma mistura de tudo. Mas voltando à questão do poder que ele tinha. Este poder, depois aquilo leva a vários momentos. A sua relação com os políticos também é complicada. Por exemplo, a coisa acaba muito mal e muito tensa com Sá Carneiro. Sá Carneiro vai buscar Soares Carneiro para uma maioria, um governo presidente, que era aquele slogan de 1979. Mas há momentos em que se fala do ianismo e de um partido, partido Lém, em que pessoas do PSD, há especulação sobre isso. Evento que Sá Carneiro rapidamente é uma daquelas coisas que passa muito rapidamente, mas continua a falar-se disso. Não se fala só de um partido ianista, mais tarde, quando surge o PRD. Há vários momentos em que surge um partido ianista, a CAP, por exemplo, que é a CAP do Geminiano Casqueiro, fala-se dessas ligações. Há ali um fervilhar político, de facto, muito grande, porque havia muito poder ali. Havia o poder de demitir os governos, havia o poder de os demitir pela palavra e de os demitir de fato. Havia o poder de escolher primeiros-ministros. Hoje é impensável um presidente da República dizer que vai escolher seja quem for, para o Parlamento tentar, quer dizer, escolhe um líder de um partido e tenta que o partido chegue. É impensável, a Constituição claramente não permite isso. Na altura, de facto, o poder era diferente. E aí também se percebe quando se exerce o poder realmente Havia outra coisa ainda que foi muito importante e deu imensa controvérsia durante muito tempo: Ramalho Eanes dá muita atenção à política externa, sobretudo às relações com a África, com as antigas colônias. Ele está presente, por exemplo, no funeral de Agostinho Neto.

Ele é respeitado pelos líderes dos países africanos de língua portuguesa e tem um papel fundamental em algo que, em Portugal, continua a ser muito pouco falado. É quase que um tabu, porque realmente as Forças Armadas portuguesas portaram-se muito mal nessa matéria. Deixaram para trás portugueses, alguns militares, nas mãos do MPLA, do PAIGC, da FRELIMO. Sobretudo, estamos a falar do MPLA e da FRELIMO, que governavam Moçambique e Angola. Eram os chamados desaparecidos, não havia sequer uma lista oficial com os seus nomes. E ele vai ter um papel muito importante, porque é a única entidade a que muitas dessas famílias conseguem recorrer, pelo menos para dar conta dessa circunstância, e depois estabelece contactos. E penso que há até alguns que depois lhe agradecem o papel que ele teve, por uma razão: ele é respeitado.

Mas isso cria mal-estar com o governo. Há um momento em que uma das discussões dos jornais é a diplomacia paralela, em que havia, no fundo, uma espécie de duas diplomacias, duas vozes. Quem conhece o sistema francês não faz impressão isso, porque a parte externa é do presidente, mas nós não éramos o sistema francês, de facto.

Mas é que Mário Soares tinha péssimas relações com o poder angolano. O Principito tinha umas relações que nem interessava sequer pensar o que eram. Havia quase que um vazio nessas relações que depois os presidentes, curiosamente, Ramalho Eanes e depois Cavaco Silva, conseguem ter boas relações. Fizeram o serviço militar, com diferentes papéis, como é óbvio, vão ter essas boas relações. Ramalho Eanes tem muito esse papel, porque ele é respeitado do lado de lá, ao passo que os nossos líderes partidários, por razões que é o caso, não eram.

Basta lembrar a chamada Cimeira Luso-Angolana em 1978. É Eanes que consegue sentar à mesa com quem tinha movido a guerra até 1975.

Sim.

Repare, estamos num período em que estávamos ainda a testar a Constituição, os limites da Constituição e os limites dos vários poderes.

E o exercício e o entendimento sobre os cargos no âmbito da Presidência da República.

Sendo que o próprio Conselho da Revolução, nós hoje percebemos isso, se bem que eu não consigo ver tudo e não sei tudo, claramente, sobretudo não sei tudo. Nem todos eles pensavam da mesma forma. O Conselho da Revolução tem sensibilidades diferentes. Há muitas votações que são perdidas, há muita tensão política e os próprios militares já tinham tido a aprendizagem do PREC, mas nunca foram águias políticas, digamos assim. Havia um ou outro que tinha mais habilidade, mas não era isso. Até o facto, por exemplo, das figuras que são escolhidas para primeiros-ministros por Eanes. O primeiro de todos que é Nobre da Costa. Nobre da Costa parece um OVNI aqui.

O programa de governo não é nada mau.

Não.

Nada mau. Os jornais publicavam aquilo tudo. O programa de governo é bem interessante.

Estamos a falar de um tempo em que é preciso recuperar a economia. E é uma preocupação que está presente no discurso que ele estava a dizer há exatamente 50 anos. Depois temos Mota Pinto, que é um dissidente do PSD, está ali numa posição mais de equilíbrio. E depois temos uma pessoa que vem dos setores católicos, mas dos católicos de esquerda.

Mas na altura ela tinha estado na Câmara Corporativa.

Exatamente, foi isso que eu ia acrescentar. Ela tinha estado na Câmara Corporativa com Freitas do Amaral. Antes do 25 de Abril, a Câmara Corporativa era um órgão esquisito, digamos assim, da estrutura do Estado Novo. Era o suposto órgão de conciliação das corporações. Mas ela tinha estado lá. Tudo isto é um tempo estranho.

É um tempo em que Ramalho Eanes, José Miguel Sardica, moldou o que é o cargo de Presidente da República, mesmo que os poderes tenham mudado muito depois da revisão constitucional. Até pelo poder da palavra, com esses discursos que estava aqui a recordar do 25 de Abril.

Moldou no sentido em que ele é o primeiro a exercê-lo neste novo quadro político, nesta nova Constituição de 1976. Ele é o primeiro eleito por sufrágio universal, democrático, liberal, desde 1925. Não é o primeiro civil, esse será Mário Soares. E moldou porque é nos seus dois mandatos que o sistema político, as nossas instituições, que ainda hoje governam, se tornam a prática comum. Nós falamos muito em 1974, é um ano muito importante, é a revolução, é o fim do antigo regime, mas em abril de 1974, naquelas horas iniciáticas, a única coisa em que havia consenso era em derrubar o anterior regime. O que iria ser o futuro estava tudo em aberto. E daí, 1975, e daí, 1976 Eu gostava só de salientar que 1976 às vezes não é um ano histórico muito lembrado. As pessoas recordam muito mais 74, pelo ano iniciático, e 75, por causa do chamado Verão Quente. Mas 1976 é um ano muito importante, porque é um ano em que nós temos uma Constituição e quatro eleições. Eleições para a Assembleia, ganhas por Mário Soares, a 25 de abril de 1976, a eleição de Yanes, a 27 de junho, com as autonomias. Muitas vezes não falamos nelas ou não nos lembramos qual é a origem, mas os governos autonômicos da Azores e Madeira foram pela primeira vez eleitos também em junho de 76. Mota Amaral nos Açores e não era Alberto João Jardim ainda.

Era o líder do PSD, mas não era o candidato.

Era o Januário qualquer coisa.

Só em 78 é que se torna-se alguém.

Só em 78. E depois as autárquicas, em dezembro de 1976, que é uma espécie de empate entre PS e Sá Carneiro.

Posso só acrescentar uma coisa: e uma enorme violência. Ou seja, as pessoas associam o PREC à violência, mas o ano de 76 é muito complicado. Havia muitas armas, qualquer assalto acaba em mortes, há greves que acabam em mortes.

Já há muitos atentados.

Já temos muitos atentados e, portanto, o PCP, dada a altura, para criar a narrativa do fascismo que voltou, não contém alguns dos seus militantes e vamos encontrar mortes aí. Há um conflito estúpido entre o PCP e o MRPP por causa da foice e do martelo, que teve mortos.

E os 16,5 que Otelo recebeu nas eleições de 1976 vão ser a alavanca para o aventureirismo militar das FP25.

Claro.

Porque Otelo vai pegar nestes 16,5 e dizer: "Isto é uma grande vitória." Quando não era, ao fim e ao cabo.

Só vimos o discurso.

Era a desautorização do radicalismo de 1975. É isso que significa.

Ele fala aquilo e depois tem o resto do discurso todo, e é lançar um partido.

Sim.

Chamado GDUP, Grupos de Unificação de Unidade Popular. Todo o resto do tempo é dizer o que devem ser os GDUP, como é que devem ser organizados, como é que vão estar a relançar a revolução, no fundo. E há uma tentativa de o fazer, uma espécie de coligação que junte os partidos que estavam por trás do Otelo, que são partidos todos de esquerda radical. Quer dizer, alguns deles depois viriam a dar origem ao Bloco de Esquerda, mas estamos a falar da UDP, estamos a falar do PRP, estamos a falar desse tipo de partidos. A única composição parlamentar era a UDP, o resto eram pequenos partidos radicais. Mas é isso que se vai tentar fazer durante o resto desse ano. Esses partidos não conseguem nada. Nas autárquicas é um desastre absoluto, não elegem ninguém e, portanto, aquilo também é mais uma das coisas do Otelo que vai morrer antes de ele passar para outras fases superiores de luta, digamos. Sim. Ramalho Eanes hoje seria um político de sucesso. Eu estava a dizer há pouco que é um perfil que agradará uma parte do atual eleitorado.

Não sei se teria sucesso hoje, era preciso imaginá-lo com 41 anos hoje, enfim, se calhar com outra moda. Seria necessário fazer o teste, mas eu acho, e saltando para os dias de hoje, eu acho que nós estamos numa espécie de inversão de ciclo, ou seja, tivemos anos de uma política ruidosa, tivemos anos de uma política midiaticamente ofegante. Eu acho que a viragem política a que estamos a assistir, sem a justificar, não está aqui qualquer comparação nem com André Ventura, nem com o Chega, nada disso.

Curiosamente, posso interromper, eu acho que há uma figura em cujo messianismo nós encontramos alguns dos traços que estiveram em Eanes, despojamento material, que é Passos Coelho.

Sim, nós temos uma política que, ao gerar estes líderes midiáticos que falam muito e que querem intervir muito e que querem dominar a agenda, também se abre espaço para o regresso a políticos mais austeros, a políticos em que a retórica de serviço público não soa a uma coisa falsa. Nós hoje temos muitos políticos que dizem querer servir o público e querem identificar-se com o público e que querem sentir as suas dores. Eu acho que Eanes esteve e estaria hoje um patamar acima disso, porque, de facto, quando Ramalho Eanes fala, as pessoas ouvem. Até porque Ramalho Eanes não tem agenda hoje. Não se pode dizer: "Se Eanes está a dizer isto é porque tem um interesse qualquer." Não. Ramalho Eanes é, de facto, um senador. É, de facto, uma voz de consciência que as pessoas ainda querem ouvir e é notável que o faça com 91 anos.

Só duas notas muito breves. Os slogans de campanha eram vários. Há dois que são muito interessantes. Um é: "Vive a liberdade em segurança." E o outro, talvez o que as pessoas recordam mais, é: "Muitos prometem, Eanes cumpre." O que é um dos grandes slogans de todas as campanhas eleitorais em Portugal. Tocou-me aqui uma campanha, lembrando isso.

Olha, gente!

José Miguel Serdica, muito obrigada por ter estado no "Contra Corrente." Amanhã um outro tema. Até amanhã.