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Está no ar o Contracorrente das manhãs 360, com o José Manuel Fernandes e a Helena Matos. A boneca mais vendida do mundo e agora um filme de sucesso. Afinal, qual é o significado da Barbie? É apenas uma boneca ou um símbolo sexista? Para participar, só tem de ligar para o 91 002 41 85, mas há outras formas de fazer parte, deixando os seus comentários no nosso site ou redes sociais, ou então enviando a sua mensagem de voz por WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla. Só num fim de semana, um milhão de pessoas foi ver o filme da Barbie, que estreou nos cinemas a semana passada. É uma das sensações deste verão, com o filme a dividir opiniões e também a relançar uma velha discussão sobre o significado daquela que é provavelmente a boneca mais popular do mundo. É a essa discussão, ou é essas discussões que queremos regressar no Contracorrente de hoje, assim como também ao tipo de brinquedos que devemos comprar para os nossos filhos. E por isso, José Manuel, pergunto se alguma vez compraste uma Barbie para a tua filha.
Olá, Carla, novamente.
Olá.
Não comprei.
Não.
Não comprei, mas vale a verdade, quando a minha filha nasceu, a Barbie ainda não tinha chegado a Portugal. A Barbie foi lançada nos Estados Unidos em 1959, há 64 anos. É uma senhora já.
Já é uma senhora.
Já é uma senhora.
Respeitável.
Respeitável. Mas só chegou a Portugal em 1984. Levou muito tempo a chegar cá.
Muito depois da Coca-Cola.
Muito depois da Coca-Cola. Exatamente. E chegou, curiosamente, por um grande importador de brinquedos, que eu agora não costumo ouvir falar muito dele, mas que é a Concentra.
Concentra Mattel.
Concentra Mattel. Nós ouvíamos muitíssimo a publicidade, nomeadamente. Eu julgo que não era, e não sei se continua a não ser, um brinquedo barato. É a ideia que eu tenho, mas não fui verificar os preços. E eu devo dizer que até ter chegado nesse ano, 84, foi um pouquinho surpreendente, porque 84 era um ano do FMI. O FMI estava cá em 84. Foi mesmo um dos piores anos da nossa vida, foi 84, o ano das bandeiras negras, salários em atraso e por aí adiante. Mesmo assim, a Barbie apareceu nas lojas de brinquedos e acho que nunca desapareceu. E pouco tempo depois, em 88, que foi quando apareceu o primeiro supermercado, o primeiro hipermercado, quero eu dizer, o primeiro hipermercado foi o Continente de Matosinhos.
Certo.
Continente de Matosinhos. Depois a seguir veio o Continente da Amadora e depois começaram a aparecer os outros todos. As Barbies começaram a ocupar prateleiras inteiras, sobretudo na época do Natal. Eram prateleiras cor-de-rosa. Mesmo assim, sou franco, nunca comprei uma Barbie pra minha filha. Ela ainda tinha idade para ter Barbies nessa altura. E se quer que te diga, também não tenho memória de ela me ter pedido, mas posso estar a falhar. Eu disse que tenho a memória um bocado seletiva, e a memória já não é o que era. Mas digo mais, eu até tinha um certo preconceito contra as Barbies. Enfim, como pai.
Como pai.
E tinha o preconceito porque achava que de alguma forma as Barbies consagravam um estereótipo, que era o estereótipo da loira espampanante, que só se preocupava com vestidos, só se preocupava com toilettes, e que não era propriamente aquele modelo de mulher que eu achava que devia servir, e por aí adiante. Mas olhando para trás, se quer que te diga, percebo que se calhar eu estava errado de alguma forma. Estava de alguma forma iludido sobre esse estereótipo. Estava iludido sobre a origem da Barbie. Estava, sobretudo, iludido sobre o que a Barbie representou para centenas de milhões de crianças. Quando falo centenas de milhões, são mesmo centenas de milhões em todo o mundo, e não está muito a corresponder àquilo que era o meu estereótipo.
Mas está longe de corresponder em que sentido?
No sentido que, ao contrário de muita ideia feita, a Barbie, quando nasceu, nasceu também para contrariar, vê lá tu, comportamentos machistas, comportamentos sexistas. Parece estranho, mas é assim mesmo. E não estou a ver que a pessoa que inventou isto tenha estado a reescrever a história. Aliás, neste momento, isto é alucinante, há duas Barbies compradas por segundo. A gente está aqui a falar há três ou quatro minutos, já foram umas centenas de Barbies.
É incrível.
Isto traduz o quê? Traduz um sucesso inimaginável, um sucesso que é à escala global, um sucesso que supera geografias, cruza culturas, enfim, há pequenas exceções. Eu ontem à tarde descobri que um dos países que proibiu a Barbie foi a Arábia Saudita. Quer dizer, aquilo é um boneco que assume a sua sexualidade, que é independente, que guia automóveis, tem aqueles descapotáveis, aquelas coisas todas. Não, Arábia Saudita não podia ser. Aliás, não sei se dentro da abrangência das Barbies, há Barbies de burca ou de véu. Não tenho ideia, mas pode ser que exista.
Foi criada uma versão, uma boneca semelhante à Barbie para esses países.
Pronto. Enfim. Agora, eu acho que o que acontece é que a Barbie mobiliza crianças, sobretudo meninas, em todo o mundo, todas as classes sociais. Curiosamente, muitas vezes contra a vontade das mães e dos pais, que acham que aquilo não era bem o brinquedo que gostavam para os filhos. Ora, se percebermos como se chegou à Barbie, como é que ela nasceu, o que é que estava na cabeça da sua criadora. Sua criadora chama-se Ruth Handler. A Ruth Handler tem uma história muito interessante, porque ela é uma judia de origem polaca, os pais tinham emigrado da Polônia E tinha, com o marido, feito o investimento na Mattel. A Mattel é uma fusão do nome dos dois, dela e do marido, que era uma coisa de garagem, uma loja de garagem, que tinha crescido um pouco até chegar à Barbie. Quando chegou a Barbie, a maior parte dos brinquedos nessa época, para crianças e para meninas, o que é que eram? Eram basicamente bebês. Bebês ou crianças. Havia sempre a ideia que as meninas tinham que brincar era às mães, não ter outras ideias de brincadeiras mais atrevidas, e aprender era puricultura, por assim dizer, logo desde pequeninas.
Eram os bonecos, os bebês que vinham com os biberões.
Exatamente, vinham com biberões. E às vezes com pó talco e com coisas assim que se fazia aquela brincadeira toda. Ora bem, a Ruth Handler, o que é que ela reparou? Reparou que a filha gostava de brincar com umas imagens que havia também uns livros de cartão, que se recortavam os vestidos e depois mudava-se o vestido do boneco que estava por trás. E ela pensou que era engraçado, em vez de ter aquilo apenas em duas dimensões, passar para as três dimensões. Três dimensões isto é, não ser apenas uma imagem, ser mesmo um boneco. E quando andava a matutar sobre isto, foram à Alemanha. Ela veio à Europa, foi à Alemanha, e na Alemanha a filha pediu-lhe para comprar uma boneca, que estava num quiosque, não estava numa loja de brinquedos, estava num quiosque. A boneca chamava-se Bild Lilli. Que boneca é a Bild Lilli? É muito engraçado ver isso. Como o nome indica, Bild, a boneca é uma boneca de um jornal tabloide, que é o Bild. O Bild ainda hoje é o principal jornal tabloide da Alemanha, provavelmente o jornal tabloide que vende mais em toda a Europa, ainda. O Bild Lilli era uma evolução de uma tira de quadrinhos, aquelas tiras de quadrinhos, que tinha aparecido uns anos antes, em 52, logo no pós-guerra, em que aparecia uma personagem feminina, que era a Lilli. Só que a Lilli não era propriamente uma tira de quadrinhos para crianças. Quem era a Lilli? A Lilli, que aparecia nessas histórias, era apresentada de maneira quase pornográfica, símbolo erótico, e nas tiras ela fazia o papel de quê? Perseguir homens ricos para lhes sacar as fortunas. Era esta a história da Bild Lilli. E por isso é que ela era vendida onde? Em quiosques, em tabacarias, em bares, e não era oferecida a crianças. Era pousada muitas vezes nos automóveis, com as pernas abertas. E dizem que também às vezes alguns namorados ofereciam às namoradas juntamente com as flores, assim género. Tipo avanço. Ela comprou três bonecas destas, deu uma à filha e levou as outras duas para a Mattel, tentando convencer os executivos da Mattel que era boa ideia fazer uma boneca parecida com aquela. Naquela altura, nenhuma boneca tinha seios, porque eram crianças ou bebês. E a ideia de ter uma boneca com seios, quando chegou aos executivos-
E grandes, no caso da Barbie.
E grandes, no caso da Barbie. Quando chegou ali àqueles homens, eles acharam aquilo uma coisa muito estranha e não estavam nada para aí virados.
Portanto, queres dizer que os homens da Mattel não acharam logo uma boa ideia. Nem o marido também não.
Nem o marido achou logo uma boa ideia. E não foi fácil ela convencer, porque na altura, em 59, era um bocado diferente do mundo que é hoje. Ela era a única em um mundo de homens. Aliás, há fotografias da época muito engraçadas, em que se vê ela sozinha com 12 homens à volta, que eram os executivos da Mattel. Só que estávamos entrando na década de 60. E a década de 60 é a década em que o padrão da sociedade vai ser completamente transformado. É a década em que a pílula permite uma libertação sexual, é a década das manifestações feministas, de queimar sutiãs, coisas por aí adiante. Ora bem, por incrível que pareça, a Barbie faz parte dessa mudança. Faz parte dessa mudança, porque ao contrário do que muitas vezes se diz, ela, primeiro, não nasceu loira.
Não?
Não. Ela vinha com duas cabeleiras diferentes, uma loira e outra morena, o que já é significativo e um pouquinho vai contra o estereótipo. Ela vinha, de facto, primeiro só com um fato de banho listrado. Há imagens mais antigas dela em que se vê um fato de banho típico da época. Não era um biquíni, era um fato de banho. Mas a seguir começaram a aparecer as Barbies rainhas de beleza, as fadas, por aí adiante. Mas, aspecto muito importante, também as Barbies profissionais. As médicas, as advogadas. Advogadas parece que não teve grande sucesso, a Barbie advogada. Mas as Barbies astronautas, anos 60 também é a década em que se chega à Lua. Houve e há literalmente de tudo, e já voltamos a esse ponto. Mas aparece um homem. Aparece um homem, o Ken, o famoso Ken. Ora repare, o Ken é completamente subalterno, é o contrário do mundo atual.
É o homem mais desinibido da história.
O Ken é apenas o namorado da Barbie. Habitualmente, repare, a Bild Lilli andava a caçar homens. Ali é a Barbie que anda com um homem pendurado.
Um homem objeto.
Um homem objeto, olha, boa expressão. Repara, oferecer às crianças uma boneca com as formas da boneca alemã, que era a tal meia pornográfica Era entrar muito em rutura com aquele modelo que mantinha as crianças a brincar com bebês ou simplesmente a brincar às casinhas.
Sim, mas também há a casa da Barbie.
Sim, claro. Sempre houve casas da Barbie. Em princípio, não eram todas cor-de-rosa como são agora. Quando a gente vai ver as antigas, não eram. Aliás, o mundo obsessivamente cor-de-rosa da Barbie é uma coisa das últimas décadas. Não foi sempre assim. Talvez porque quando a Barbie apareceu, estamos a falar de 1959, já havia esta divisão cor-de-rosa, azul. Curiosamente, uma das coisas que eu descobri é que esta divisão cor-de-rosa, azul é de meados do século XX. Antes não era assim. Havia países em que era ao contrário. Países europeus. Por exemplo, era muito frequente as meninas vestirem de azul, porque era a cor da Virgem Maria, daquelas imagens da Virgem Maria. Depois isto mudou, em meados do século XX.
Aliás, é preciso que se diga, durante boa parte do século XX, os meninos e as meninas vestiam de igual enquanto mais pequeninos.
Até com o fato à marinheiro, eu cheguei a ter um.
Não havia roupa diferenciada.
Sim, eram bebês, era roupa de bebês, independentemente do sexo.
Sim, mas nos anos 20 até um pouquinho mais tarde.
Havia uma coisa que não se podia fazer. Os meus filhos ainda nasceram assim, porque nasceram na década de 80. Nós comprávamos a roupa para os filhos sem saber de que sexo eram os filhos. Uma coisa que hoje em dia toda a gente sabe.
E uma loja de roupa de bebê está dividida em cor-de-rosa e azul. É muito difícil encontrar outra coisa.
Havia um credominho de amarelo.
Claro, o amarelo e o branco.
Havia um credominho de amarelo nos primeiros dias de vida. E branco. Agora, há uma coisa que é muito importante, que é: a casa da Barbie, as roupas da Barbie, as profissões da Barbie, tudo isso tem um lado sempre aspiracional. Eu ainda há bocado estava a contar-te aquela história, há uma T-shirt, que eu não consigo localizar a data, que era: "Eu quero ser como a Barbie, ela tem tudo." E de facto tem tudo. Tem uma casa bonita, tem um carro descapotável, tem um namorado bonito, tem tudo.
Tem um namorado disponível.
Um namorado disponível. Eu não vi o filme, parece que no filme ele faz um papel bastante pequeno. Mas eu não vi o filme. Agora, esse lado aspiracional teve muita importância no sucesso da Barbie, e isso, já vou explicar porquê, não me surpreende. Outro fator que também terá tido muito sucesso e que impulsionou imensas vendas, foi permitir que, como havia uma Barbie, mas depois havia muitos vestidos e muitos objetos, era possível desenvolver a criatividade das crianças. Era possível, num limite, vestir o Ken de Barbie e a Barbie de Ken. Num documentário que vi, alguém dizia que quando já adulta, foi buscar a sua Barbie da infância, descobriu que a roupa estava vestida ao contrário. Tinha tudo guardado numa caixa, tinha-a lá no sótão, e depois quando tirou da caixa estava tudo vestido ao contrário. Agora, esta ideia de que o lado aspiracional e o lado da criatividade são importantes, para mim faz todo sentido se pensarmos num brinquedo de sucesso para as crianças. E eu aí recordo a minha própria infância. Quais eram os meus brinquedos, aquilo que eu brincava mais? Primeiro que tudo, Lego. Construções. Não foi só Lego, mas era sobretudo Lego. E o Lego é o mais criativo que podes imaginar. Eu acho que é difícil encontrar um outro jogo que estimule tanta criatividade, sobretudo se não fizeres aquilo que agora está muito na moda, mas na altura estava menos.
Que é comprar com o modelo e vais-
Que é comprar com o modelo e construires o modelo e depois não se toca. Não. É desfazer tudo e fazer tudo de raiz com as coisas mais-
E o Lego, que não é o de agora, em que tens uma coleção, uma gama para meninas e uma gama para meninos.
Mas no meu tempo não havia a gama para meninas.
Pois não, era tudo igual.
E depois havia uma outra coisa. Não eram os Dinky Toys, eram os Corgi Toys, que eram uns modelozinhos, uns carrinhos pequeninos.
Também de lata?
Também de lata, não, mais de ferro do que de lata. E os carros que nós gostávamos não eram propriamente os que os colecionadores gostam muito, os Fiat baratos, os Topolinos, os Cinquecento e essas coisas, os carros baratos. Não, o que nós queríamos eram Rolls-Royces ou Ferraris, que eram aqueles carros que os nossos pais não tinham. Portanto, um lado criatividade e aspiracional. E eu acho que isso seguramente influenciou muito. E não é por acaso que a Barbie explora isso. A Barbie chegou a vestir uma mulher presidente dos Estados Unidos. Presidente dos Estados Unidos. Não houve ainda nenhuma. Ainda não houve nenhuma mulher presidente dos Estados Unidos. A Barbie foi presidente dos Estados Unidos primeiro que todas as outras mulheres. Como é que se pode dizer que isto é sexista? Não me parece muito sexista. Teve outra coisa, a Ruth Handler. A Ruth Handler depois teve um comportamento à frente da empresa complicado, ela derrapou contas. Mas a seguir veio também uma mulher CEO, uma senhora chamada Jill Barad. Portanto, eu acho que uma boa parte dos meus preconceitos estavam errados.
Mas ainda assim não achas que estás a exagerar um bocadinho? Aquele corpo tão esbelto não é um corpo demasiadamente impossível, um estereótipo de beleza que acaba por ser muito redutor?
Parece que sim, e fala-se muito sobre isso e é um tema de grande discussão, e sempre foi um tema de grande discussão, até porque é um corpo impossível Aquele corpo é impossível. Aquela dimensão dos seios, por comparação com aquela cinturinha de vespa e aquelas ancas, não bate certo. Mas não acho que isso tenha correspondido a qualquer agenda particularmente sexista, se quer que te diga. Uma boneca padrão, porque agora há várias Barbies, mas lá chegamos, tem 29 cm de altura. Esses bonecos são feitos na escala 1/6, portanto, um sexto do tamanho real. Isso quer dizer que é uma altura de 1,80 m, portanto, é uma mulher alta. E que tem as seguintes medidas: 91 de peito, 46 de cintura e 84 nos quadris. Eu não sei bem o que isso significa para as medidas das mulheres, porque eu não sei medir.
Talvez o impossível.
Talvez o impossível. Houve um hospital central universitário de Helsínquia, finlandês, que foi fazer um estudo e chegou à conclusão que um corpo assim só teria de massa gorda, 17 a 22%. E que com essa porcentagem de massa gorda, uma mulher não poderia ser uma mulher, no sentido de, por exemplo, ter os seus ciclos menstruais. Não poderia ser mãe. Aliás, há uma coisa muito curiosa.
Exacto.
A Barbie nunca é mãe.
Não.
A Barbie nunca é mãe. Houve uma tentativa.
Não há uma Barbie grávida.
Houve uma tentativa, que era uma Barbie grávida, mas com uma espécie de uma coisa que se colava à barriga e que depois assentava atrás, e não funcionou. Não correu bem e eles desistiram daquilo rapidamente. Independentemente grávida ou não, não tens bebês, não há bebês naquela casa.
Há a Barbie Babysitter.
Exatamente, é o máximo que há é a Barbie Babysitter.
Sim, mas isso enquadra-se no paradigma, quer dizer, estas coisas são mais do que estas coisas, tudo o que tem a ver com os brinquedos e com os bonecos. E nós vimos o outro grande sucesso, eles nunca têm uma família. Seja, quando nós pensamos, por exemplo, no Tio Patinhas. A Disney também, não há filhos, há sobrinhos.
Não há família nesse sentido. Os próprios cinco-
São sobrinhos
...os próprios cinco, as aventuras decorrem sempre, mundo de Enid Blyton, fora do espaço familiar.
Que é o espaço de imaginação, não é o espaço familiar, é um espaço em que a gente tem que ir à escola, tem que fazer os trabalhos de casa, tem que fazer as coisas. As férias já é uma coisa completamente diferente.
Mas mesmo quando é o espaço escola, como é o caso das gêmeas e dos colégios das Quatro Torres, a família não está presente. Tem de haver uma saída do espaço familiar, e jogam-se aqui várias coisas. A psicanálise explica estas coisas muito bem, para lá destas questões todas das agendas, porque quando me convidaram para vir fazer o "Contra Corrente", disseram que era um programa muito sério. Era uma coisa muito séria.
Como hoje, por exemplo.
E portanto, eu, seja qual for o assunto, mando-me para as coisas sérias da questão. Tirando um programa em que me esqueci que isto tinha câmeras e que ia sair em estúdio, ao som de música pimba.
Mas era agosto.
Mas era agosto e portanto, isso passou para segundo plano.
Toda a gente está à espera do agosto novamente, do agosto da Rádio Observador.
O agosto da Rádio Observador. Mas tirando esse dia de delírio, acho que temos de perceber que isto corresponde a um paradigma, que é muito mais o nosso pensamento, que é muito mais profundo do que propriamente aquilo que só se vê ali naquelas pum. Elas está exatamente na mesma linha do nosso pensamento e do nosso inconsciente, que estão o Tio Patinhas. Nós podemos pensar, por que uma família de patos nos pôs, de repente, todos nós líamos, uma família de patos que era amiga de uma família de vacas. O único que era pai era o Pateta, que tinha um filho e que namorava com uma vaca, que era a Clara Bella. Portanto, há aqui coisas que o inconsciente tem realmente a mandar na vida. Temos que voltar ao corpo da Barbie. E o corpo da Barbie tem muitas críticas, nomeadamente que estimula aquela ideia do body shaming para as pessoas que são mais volumosas, digamos assim. E há muita gente a criticar isso. Aliás, esta história da magreza da Barbie às vezes até é alimentada, porque há uma edição famosa, que é muito usada quando se quer criticar a Barbie, que é uma edição em que ela aparece. Devia ser uma caixa, que vinha com um dos acessórios, era uma imagem de uma balança daquelas de casa de banho, marcada nos 50 quilos. E ela trazia na mão uma espécie de livro que tinha na capa: "Como perder peso". E na contracapa: "Não comas".
Entretanto, a Barbie já evoluiu, não foi?
Já evoluiu, e já evoluiu imenso. Primeiro, a Barbie foi ganhando primeiramente tonzinhos de pele. Primeiro era, de facto, muito clarinha, e depois foi ganhando tonzinhos de pele. E logo nos anos 60, em 1967, olha, direitos cívicos. A Mattel está sempre muito atenta ao ar do tempo. Aparece uma coisa chamada Colored Francie, e que muitas vezes diziam como sendo a primeira afro-americana Barbie. Só que tinha problemas. Era um pouquinho mais escura, de facto, mas os moldes de cabeça eram o mesmo. Portanto, não houve ali nenhuma mudança, o que significa que não possuía nenhum atributo africano, exceto uma corzinha. Para nós aqui em Portugal, que somos também mais morenos, um bocadinho mais morena. Depois, percebeu-se isso e já aparece a Christie. A Christie também já estava um pouco melhor, mas é só verdadeiramente Passado umas décadas, na década de 80, surge a Barbie negra. Aí assumidamente Barbie negra. Mesmo assim, traços um pouquinho caucasianos. Mas depois foram aparecendo a Barbie mexicana, latino-americana, umas com ar mais asiático, tudo isso foi aparecendo. E o próprio corpo foi sendo corrigido. Aquela desproporção entre os seios e as ancas foi sendo corrigida, acho que ainda durante os anos 80. Diminuiu-se um pouquinho o tamanho dos seios, aumentou-se um pouquinho o tamanho das ancas. Agora, a grande mudança em 2016. É relativamente há pouco tempo. E quem quiser saber o que se passou, vale a pena tentar ver um documentário que passou num canal de cabo aqui há uns tempos em Portugal chamado "Tiny Shoulders". Tiny Shoulders são ombros pequeninos. E que conta como é que a Mattel inventou as Barbies atuais, em que deixou de haver uma Barbie única e a Barbie hoje é completamente diferente. Só dessa operação resultaram, eu até fiquei surpreendido com isto, 33 bonecas novas, com quatro tipos diferentes de corpo. Passou a haver uma Barbie alta e magra, uma Barbie mais redondinha, uma Barbie mais baixinha, quatro tipos de corpos novos. Mas tu olhas para os corpos e percebes que aquilo é a Barbie ainda. Não há ali uma ruptura completa. Trinta cores de cabelo. Trinta. Vinte e quatro penteados, há aqui penteados para todos os gostos. Há o penteado habitual, longo, há rabo de cavalo, há o cabelo encrespado, há tudo. Vinte e dois tons de olhos. Uma das críticas que se faz à Barbie original é porque ela retoma uma imagem da Bild Lilli e, portanto, os olhos estão semicerrados e olha para baixo. Alguém dizia que era um sinal de submissão. Isso foi corrigido logo nos anos 60 e passaram a ter olhos abertos e olhar pra frente com aquele ar bastante atrevido que a Barbie tem. Há até 14 estruturas faciais diferentes, pra acabar com esta história, é menos ou mais caucasiano. Sete tons de pele também diferentes. Isto é, de facto, uma variedade absoluta, é uma paleta muito completa. Sendo que além disso tudo, há uma Barbie em cadeira de rodas, há uma Barbie com aparelho auditivo, os deficientes também têm as suas coisas. Há uma Barbie careca, como se fosse uma Barbie que tivesse um problema oncológico e tivesse a receber tratamento. Até uma Barbie com síndrome de Down.
Sim, mais recente, seguramente deste século.
Mais recente. É bastante recente. Há uma procura de incluir todas as variedades.
Quantas é que se compra? Eu acho que essa é que é a grande questão. Quantas é que se compra? Há coleções.
Pois, mas pessoas loucas.
Para lá dos colecionadores e dos fabricantes que ficam muito contentes por poderem dizer que estão a fazer modelos diversificados, eu creio que muitos destes modelos, nenhuma criança os quer, porque eu acho que as bonecas, os bonecos e os brinquedos são assuntos muito mais sérios e muito mais profundos para as crianças que esta espuma do tempo.
Vê-se no tal documentário, com essa operação, a Barbie, a Mattel, conseguiu ser capa da Time.
Claro!
Capa da Time, com um título do gênero: "Vamos ver se agora deixam de discutir o meu corpo". Que é o título mais feminista que pode existir. Não discutam se eu estou magra, se estou gorda, se sou alta, se sou baixa. E conseguiu. Aliás, há uma cena do filme em que lhes é mostrada a capa da Time e aquela equipa, que são quase só mulheres, entra completamente em delírio absoluto, contentíssima, "Conseguimos aquilo que queríamos".
Isso nunca seria assim.
Hã?
Isso nunca seria assim. Se tu mostrares isso numa reunião de mulheres, na verdade, não é isso que acontece.
Tu viste o documentário.
Eu trabalhei anos em revistas femininas. Anos. E portanto, uma coisa é o que se diz pra ficar politicamente correto, outra coisa é o que se faz.
Não, mas aquele documentário.
E as mulheres são-
Elas sabiam que estavam a ser filmadas, mas aquilo foi filmado em tempo real, não foi simulado.
E muito frequentemente, elas o que fazem a seguir é ainda ser mais autoexigentes consigo mesmas.
Atenção, no documentário percebe-se isso, o documentário acompanha, algumas mesmo até em casa delas. O documentário é muito interessante. E foi feito com o compromisso de manter segredo absoluto, porque elas tiveram durante todo o processo criativo. Vê-se os vários modelos antes de seu lançamento, vê-se as reuniões de marketing. O marketing é fundamental na operação da Mattel. É o primeiro boneco a ir pra televisão com aquelas características, estamos a falar, com anúncios dirigidos às crianças e não aos adultos, porque antes os anúncios eram dirigidos aos adultos. Aqui são dirigidos às crianças, porque são as crianças que são a força de compra. São elas que obrigam as mães, que não gostavam muito daquela ideia, de ter a menina a brincar com bebês, a dizer: "Eu quero aquela menina", porque muitas vezes é diferente da mãe, é diferente das amigas da mãe. É muito curioso. Agora, há obviamente uma tentativa de com o ar do tempo e que muitas pessoas acham que já foi para o domínio do wokeismo. Este filme agora, por exemplo, já vi em alguns países, está a dar polêmica por causa disso mesmo. Em Portugal, o nosso Eurico de Barros, que é o nosso crítico cinematográfico, escreveu aqui no Observador. Ele divertiu-se com o filme, diz que o filme tem coisas boas, mas disse que a certa altura, a Barbie passa a perorar, tem uma certa dose de demagogia. Vou citar: "pensamento pré-fabricado, ontologia, simbologia da Barbie e por aí adiante." Há um lado intelectual, poder do patriarcado, coisas assim que aparecem no filme. Eu não vi o filme e sinceramente, preferi ver o "Oppenheimer". Sei que esse tu já viste.
Esse eu já vi. Mas vou ver a Barbie, tenho exigências lá em casa, vai dizer a Barbie.
Isso castiga não parece que esta discussão seja a mais importante. Reparem, não há dúvida que mudou o lugar da Barbie. Uma das coisas que eu também ontem consegui ver e não conhecia, que é um vídeo em que há uma Barbie digital. Uma delas é claramente a Barbie, a outra não sei se é uma Barbie negra, que estão a discutir integração racial. E a conversa é muito interessante. Não é uma conversa de estereótipos e racismo estrutural, é uma conversa em que a Barbie negra explica como é que ela sente que há racismo sem ser assumido. É interessante, eu estava a ver aquilo e é uma coisa muito simples. Ela explica que uma vez que foram as duas pra praia, foram a uma praia, uma foi vender para um lado, o mesmo produto, não sei se era bolo, se era qualquer coisa. A Barbie branca fez a sua vida normal e a Barbie preta foi três vezes interpelada sobre o que ela estava ali a fazer. Logicamente, não foi interpelada: "Ah, sim, apenas cuidado. Cuidado pra ver se não está a fazer nada que não seja normal. Se tem os papéis, tem aquelas coisas todas, o que está aqui a fazer." E ela dava este exemplo como um exemplo daquilo que em algumas áreas, alguns setores, alguns países, e seguramente nos Estados Unidos, acontece com as minorias raciais. Eu acho que é uma conversa sobre racismo que é fácil de entender e não maniqueísta.
Ou seja, ouvinte, José Manuel, se calhar hoje já davas uma Barbie à tua filha, é isso?
Epá, não sei. Seja lá como for, a verdade é que há algumas coisas que a Barbie tem. A Barbie fez uma série recentemente, com figuras exatas, quase pequenas homenagens a pessoas concretas, sobre as mulheres que se destacaram na luta contra o Covid. Nomeadamente aquela investigadora de Oxford, Sarah Gilbert, que foi a responsável pelo desenvolvimento da vacina da AstraZeneca. Também uma das primeiras enfermeiras que tratou alguém com Covid nos Estados Unidos. Figuras que são bons exemplos, são inspiracionais, muito no sentido que eu acho que é um sentido interessante, para que quem briga com alguma coisa, brigue com alguma coisa que o faça evoluir. Se calhar é mais interessante que um brinquedo, que eu acho que vi, não sei se o meu filho teve algum, eu não lhe dei, mas alguém lhe deve ter dado, que era o Action Man.
Sim.
Action Man. Também é uma figura de corpo um bocadinho inatingível. Aqueles músculos, aquelas coisas, para os homens aquilo é um pouquinho inatingível.
Mas tinha um anúncio fabuloso em que ele nadava. Aquilo era uma frustração, porque o anúncio criava expectativas sobre aquilo que ele fazia.
Que depois não fazia.
Que depois não fazia, de facto. Posso explicar que houve um que se afogou no lavatório, coitado.
A gente fazia programa em julho, tem estas coisas. Tive a ler livros, a ler artigos, a ouvir podcasts, vi o tal documentário. Aprendi imenso sobre a Barbie, sobre aquela senhora de 64 anos que ainda continua com ar de boneca, no sentido duplo do termo, não envelhece. Só posso dizer: vivam as Barbies.
Vivam as Barbies. Patrícia Fernandes é a nossa convidada que está em linha, professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É a nossa convidada habitual da Contra Corrente. Bom dia, Patrícia. Sobre a Barbie nunca falámos. O que ela representa, afinal? É a mulher objeto ou é a mulher independente?
Bom dia, Carla. Obrigada pelo convite mais uma vez. Eu gostaria de começar por dizer que fiquei surpreendida com a escolha do tema e com a capacidade do José Manuel Fernandes conseguir falar tanto tempo sobre Barbies e toda a informação que partilhou. É realmente espantoso e aprendi imenso, por isso obrigada, começo por agradecer esse momento de aprendizagem. Na verdade, estamos focados essencialmente nesta boneca em específico, que fez parte pelo menos da minha geração. Eu tive as minhas e pressionei também os meus pais a que me oferecessem. Mas, em geral, podemos aplicar esta ideia da influência que os brinquedos podem ter numa perspectiva mais geral, não pensar só na questão da Barbie, mas também há as mesmas figuras. Temos o mesmo tipo de brinquedo, acabamos de os referir para os rapazes. Há a questão dos bebês nenúcs ou dos bonecos nenúcs, que também são muito populares e que podem ser analisados numa perspectiva política como querendo produzir uma determinada mentalidade. No caso dos nenúcs, será o de incentivar as meninas a um certo comportamento pró-maternal. E o que os estudos, e estou a falar a remeter pra minha área de especialidade, mas todos os autores e as autoras, sobretudo as autoras feministas, que se debruçam sobre a análise destes brinquedos focam, é o fato de elas tentarem impor-nos uma certa visão daquilo que são os papéis sociais, nomeadamente para a mulher, e por isso é que a Barbie foi sempre alvo de uma grande crítica, embora me pareça, e o José Manuel Fernandes deixou isso bem claro. Mas eu acho isto, em geral, quando é estas pensadoras feministas, é que há uma visão demasiado simplista e literal deste tipo de análise, que é o de considerar que Estamos fatalmente condenados a ser aquilo que uma certa narrativa a que somos sujeitos durante a infância nos impõe. E querem ver, em geral, neste tipo de objetos, apenas uma visão do mundo, uma leitura. E aquilo que a exposição do José Manuel Fernandes mostrou é que, de facto, a Barbie tem muitas dimensões diferentes e pode ser interpretada e pode ter passado para estas gerações muitas visões diferentes da mulher. E, portanto, desempenhou esse papel revolucionário, que foi aqui focado e que me parece bem. E em muitos textos, eu também estive a ler comentários e, sobretudo, muitos comentários àquilo que tem sido a análise ao filme que saiu na semana passada, que é de a Barbie abrir para as mulheres portas e formas de viver, modos de vida mais plurais do que antigamente, do que as gerações anteriores tinham referido. Só que a visão de um certo feminismo tende só a ver uma dessas dimensões e a achar que há ali uma objetificação da mulher, uma ideia de que a mulher tem que desempenhar um determinado papel, vestir-se de uma determinada forma ou agradar aos olhos masculinos. Isso é uma crítica muito presente. E a Barbie, na verdade, ao ter essa pluralidade toda, não só física, mas sobretudo dos papéis sociais e das profissões que poderia desempenhar e que nós poderíamos escolher no processo de compra, abria também essa possibilidade à mulher. Mas o que acontece neste tipo de interpretações, e isso é muito notório até para outras áreas políticas, é que aquilo que foi considerado revolucionário há 50, 70 anos, é hoje visto como altamente conservador neste processo constante de ter que reconstruir o Ocidente e tudo que o Ocidente fez é negativo. Portanto, em vez de olharem para as manifestações de que a Barbie é exemplo, de que no fundo são feitas correções a erros identificados, não, tudo é um problema e tudo precisa de ser reformulado. E por isso é que há tanta produção crítica sobre a Barbie também, mas sobre desenhos animados, ou livros, ou outro tipo de bonecos. Estava aqui a pensar, Carla, também na questão, o José Manuel não falou sobre isso, do filme da Branca de Neve, que também a par da Barbie tem estado a ser muito discutido, porque as realizadoras, pelo menos a realizadora, pretende reconstruir a história da Branca de Neve, emancipando-a. Ela não pode ser libertada pelo príncipe, não pode ser emancipada pelo homem, mas tem que ser ela própria a emancipar-se. E isso também é esta tentativa de nos apropriarmos das grandes histórias do passado e das histórias tradicionais e adaptá-las à nova forma de pensar mais feminista que anda em torno da desconstrução do patriarcado.
E, portanto, depende sempre também do lado de onde parte o nosso olhar. Eu costumo dizer, a Barbie ou qualquer filme de animação da Disney como a Branca de Neve, pode significar uma coisa diferente, dependendo do lado que estamos a olhar e do nosso lado de observação.
Sim, parece que a literatura e os contos tradicionais, em particular, têm essa riqueza, que é a riqueza da ambiguidade e do pluralismo, dos vários sentidos que podemos detectar. E isso está muito presente e esteve muito presente até há duas décadas, mesmo nos filmes de Hollywood. Também estava aqui a pensar que vi muito recentemente, a propósito do remake que foi feito do Indiana Jones, e acabei por rever o Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida, um filme que hoje considero extremamente violento, mas que me encantou na infância. E o papel da personagem feminina tem ambiguidade. Ela é salva por ele ou é sempre colocada em posições de ser salva, mas é ao mesmo tempo alguém que faz uma vida própria e que consegue controlar os homens e dominar os homens. Portanto, é ao mesmo tempo feminina, mas forte. E portanto, as histórias complexas e as histórias mais ricas têm sempre esta ambiguidade, estas diferentes leituras, estas possibilidades das personagens terem diferentes dimensões. E o que acontece, na minha opinião, nestas novas versões, é que é tudo muito literal. Portanto, a grande crítica que é feita ao filme da Barbie é que a visão que dá dos homens é uma visão sempre depreciativa. Eles são sempre selvagens, são sempre impertinentes, inoportunos para as mulheres e são sempre apresentados como tendo um lado negativo. Não há qualquer ambiguidade.
Não há nuances.
Não há nuances, muito obrigada. Não há nuances de sentido, coisas que as histórias tradicionais tinham. E acho que é nisso também que perdemos esta ideia de tentar politizar demasiado a arte, embora a arte tenha, sim, uma dimensão política, mas esta excessiva politização também retira essa dimensão da nuance, da complexidade e da nossa própria capacidade interpretativa, que é de cada um de nós poder olhar para aquele objeto e interpretar de diferentes formas. Não, parece que só há um sentido. Um sentido e que se nos impõe para termos uma visão fatalista. Realmente, só podemos ver o mundo desta forma e estamos condenados a só um determinado comportamento. Acho que isso tem poucos de valor.
Tânia C. Fernandes, muito obrigada por ter aceite este desafio de discutir de uma forma muito séria a Barbie e o que ela representa, o que ela pode representar, este universo infantil aos olhos dos adultos. Um bom dia para si. Vamos continuar a falar da Barbie na segunda parte do Contracorrente. Até já. E retomamos o Contracorrente hoje sobre a Barbie, além da boneca mais vendida do mundo, agora é também um sucesso de bilheteira, mas afinal, qual é o significado da famosa Barbie? 91 002 48 85 é o número para onde deve ligar para participar ou para onde nos pode enviar a sua mensagem de voz por WhatsApp. A alternativa é deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador. Helena Matos, vamos a ti, que importância tem ou teve a Barbie neste mundo dos brinquedos?
Teve uma importância enorme e tem uma importância enorme. O mundo dos brinquedos é um assunto muito sério. E não estou a falar apenas do que ele representa do ponto de vista dos negócios, que é, sem dúvida, muitíssimo importante. Em primeiro lugar, a Barbie é, neste momento, um dos maiores fenômenos de sucesso da globalização. Portanto, entendamo-nos, a Barbie é global. Há algumas coisas que são marcas globais, em termos mundiais, a Barbie é, sem dúvida, uma delas. Por outro lado, a Barbie representa e protagoniza, neste momento, um processo que também já vimos e estamos também a assistir, como, por exemplo, os festivais da canção. Ou seja, são fenômenos ou produtos que começaram por ser muito denegridos, porque faziam parte do mainstream, porque representavam todo um conjunto de valores que era politicamente correto contestar. E o Festival da Canção, por exemplo, era o nacional cançonetismo, era piroso, era reacionário, e depois deixou de ser tudo isso, a partir do momento em que passou a poder ser usado e visto como para veicular um determinado tipo de mensagem. A mesma coisa está aqui a acontecer com a Barbie. A Barbie, de facto, representava um estereótipo de mulher muito pirosa, é depreciativo dizer de uma mulher: "é uma Barbie, quero ser uma Barbie". Mas, hoje em dia, a partir do momento em que se lhe enfia ou que se acha que ela, afinal, não era nada disso, então já podemos todos dizer que gostamos da Barbie. Esta história, e isto agora prendendo-se com o filme, nós temos de perceber o seguinte: o nosso pensamento é muito mais do que esta coisa que está aqui muito à superfície. Há um fascínio extraordinário em várias histórias dos brinquedos que se tornam reais.
Como assim?
Temos o Pinóquio, o Quebra-Nozes.
O Soldadinho de Chumbo.
Portanto, há algo no nosso imaginário que nos prende e nos agarra a esta história dos brinquedos que ou têm vida própria, e não é preciso falar de alguns filmes até de terror, dos brinquedos que têm ou que podem ter vida própria, mantendo-se brinquedos, ou que vêm ao mundo real. E isso acaba por ser o enredo de algumas das histórias que têm atravessado o tempo e que têm encantado, exercendo um efeito quase magnético sobre diferentes gerações. A história do Pinóquio é, porventura, uma das mais assombrosas. E com todas as sucessivas interpretações que têm sido feitas do Pinóquio, há ali algo que nos prende, porque todos nós temos uma parte do nosso inconsciente que está lá, embora às vezes não lhe demos tanta atenção quanto isso. Descobrem-se bonecas em sítios arqueológicos. As bonecas representam algo de muito importante, as bonecas e os brinquedos, boa parte dos brinquedos.
Nos egípcios.
Exatamente.
Há bonecas nos túmulos egípcios. Desse ponto de vista é fascinante.
Nos museus de etnologia, os que estão abertos e funcionam, não o nosso aqui em Lisboa, têm coleções de bonecas extraordinárias.
Isso nós vimos bem. A ideia de seios grandes é um símbolo sexista. Uma das obras de arte mais antigas da humanidade é a Vênus, como é que agora não sei o nome, que me falha, aquela Vênus pré-histórica, que é impossível imaginar seios maiores. Nós não sabemos exatamente o que ela significava, se era um símbolo de fertilidade, se era apenas um símbolo de fertilidade, ou se era também um boneco com que se brincava.
Os bonecos nunca são realistas. Os bonecos como os barriguitas, os bebês chorões, as bonecas, e já lá chegaremos a outras bonecas dos anos 60 e 70, a desproporção sempre fez parte. Geralmente era na cabeça. Elas tinham uma cabeça.
Sim, os olhos. Os olhos grandes.
Sim, e a cabeça era desproporcional em relação ao corpo. Nós precisamos de aprender o mundo dos adultos E a função do brinquedo é também muito essa. E nós aprendemos o mundo dos adultos, da sociedade em que vivemos. Vamos admitir que os meninos que nascem algures e as meninas no meio de uma tribo na Amazônia, quando brincam, porque também brincam e porque também têm os seus brinquedos, aprendem e mimetizam determinados comportamentos e ações que são certamente diferentes daquelas que são mimetizadas aqui. O que é complicado é quando nós chegamos aqui a um tempo, e nós estamos a viver um tempo em que tudo, de repente, é ideológico. Isso é muito cansativo, é uma coisa que cansa muito. Tudo tem que ser um símbolo, tudo tem que ter uma mensagem. Eu estou farta de mensagem, sempre me dizem que uma coisa tem uma mensagem, resolve logo, não compro, não quero, não leio, não vejo. Acabou. Estou farta de mensagem. Ainda por cima, porque as coisas com mensagem óbvia envelhecem logo. Isso acontece, por exemplo, hoje praticamente não se lê literatura neorrealista. E por quê? Porque era só mensagem. Eram os operários que sempre vão voltar, era só mensagem, senhores, era uma canseira. Quando as coisas são boas, foi porque eles mandaram um bocadinho a mensagem às malvas e passaram a fazer literatura. O mesmo acontece no cinema. É muito cansativo, não vale nada. Isto já aconteceu no passado, já se viu, portanto isto há de passar. E depois as mesmas pessoas que agora estão apologistas desta mensagem, vão rapidamente dizer que esta mensagem era errada. Eu sou mais nova que a Barbie, dois anos, ela tem 64, eu tenho 62. Não sei se isso vai dar para fazer isso, mas eu tenho a certeza que daqui por uns 10 anos, estas mesmas pessoas que agora andam aqui inebriadas com a Barbie, vão estar furiosas com a Barbie. Porque isto faz parte da história. Há as pressões que me cansam muito, e esta ideia de que agora a Barbie já é aceitável, porque ela então tem uma mensagem feminista. Mas a boneca só ser uma boneca. É uma boneca horrorosa, caríssima, mas tem coisas muito giras, porque nós não temos de gostar só de coisas perfeitas, boas e bonitas, nem pouco mais ou menos. Há Barbies muito engraçadas, sobretudo quando explora, eu acho isso muito interessante, a parte do guarda-roupa.
Desculpa, disseste uma coisa importante, as Barbies são caríssimas, não fazia ideia, os preços variam entre os 70 e tal, os 80 e tal, 90 € uma boneca.
Sim, mas os brinquedos em geral são caros, não é?
Sim, mas é muito caro.
Sim, mas quer dizer, estas mesmas pessoas que agora andam por aí inebriadas com a Barbie, se eu bem me recordo, aqui há uns anos, até porque eu tive filhos nessas alturas, tinham a mania dos brinquedos didáticos. Era uma canseira, porque nós tínhamos de prevenir as crianças que quando lhes davam aquilo no Natal, eles tinham que se mostrar contentes e felizes, e não iam fazer uma cara pior do que quando lhes davam roupa. Sim, era verdade. Não vais dizer-me, mesmo que goste.
Roupa, não.
Exatamente. O meu irmão devolveu a roupa, argumentando que o menino Jesus, que estava na espadinha, estava morto de frio. Umas camisolas de lã que lhe tinham dado, ele achou que o melhor que podia fazer era devolvê-las à proveniência e devolveu. Não queria aquilo de maneira nenhuma, e acho que foi uma atitude bastante inteligente. Tínhamos os brinquedos didáticos, houve uma altura, e eu tenho certeza que algumas destas pessoas que agora andam aqui muito animadas com a Barbie, partilharam disso, que era as bonecas tinham de ser ou bonecas de pano, ou coisas muito artesanais. Não podia ser aquelas bonecas do consumo e do plástico. E claro, nem todas as meninas queriam, e os meninos, aquelas coisas de pano. Eu confesso que gosto muito mais da Nancy e da Tucha. Talvez seja também por uma questão de idade, mas gosto mesmo mais da Nancy e da Tucha. A Tucha era muito engraçada. A Tucha é inspirada num modelo italiano. Ela teve diferentes nomes em diferentes países. Ela terá começado em Itália, onde se chamava Lisa Jean, em Espanha Core e em Portugal vai chamar-se Tucha. No Brasil ter-se-á chamado, se não estou em erro, Sissi. E a Tucha era apresentada como a boneca que brinca contigo, a boneca que faz o que tu fazes. Ela jogava tênis, ela andava a cavalo, ela ia às reuniões de escoteiros, trabalhava como hospedeira. E depois tinha guarda-roupas para tudo isto. E isso era um lado absolutamente fascinante. Depois houve a Nancy. A Tucha também está em Portugal nos anos 60, anos 70. A Nancy começa em Espanha, os espanhóis fabricavam muitas bonecas, era a famosa, o nome da fábrica. E a Nancy tinha mesmo mobílias e tinha o seu catálogo anual de roupa. Os espanhóis têm em publicidade umas vozes em off que mais ninguém tem no mundo, penso eu. E aquilo era absolutamente extraordinário. Coisa que depois vai desenvolver-se muito com a Barbie, que é ter costureiros, estamos a falar de costureiros, alta costura, a fazer roupa para estas bonecas. No caso da Barbie, nós temos a Barbie vestida por grandes nomes da alta costura. O que acontece com a Tucha: a Tucha e a Nancy são bonecas de um padrão mais clássico, as tais bonecas com uma cara maior e mais rechonchudas, com um corpo de bebê. Depois temos o caso dos Barriguitas, dos Bebês Chorões, que também tinham uma parafernália grande de equipamentos. São os tais bebês, porque a gama boneco ou boneca é sempre curiosa. Nos modelos para mais crescido, que representa a vida que há de ser, têm mais sucesso as femininas, as Tuchas, as Nancys, a Barbie, que é aquela que estamos aqui a falar. Depois, no modelo pequenino, bebê, em geral, os nomes são masculinos. Tenho a dizer que a Tucha também teve um namorado, penso que nunca teve grande sucesso, o pobre cristo, mas acho que se chamava Tony. Por que se riem? Acham mais bonito que Ken.
Não, eu e o João tivemos Tuchas. Sabias que havia um Tony?
Pois, ele não teve sucesso algum. Está claro. O pobrezinho não teve sucesso algum. Até se pode fazer um filme sobre o Tony. Nestes modelos de adulta, de crescido, sem dúvida, o modelo feminino tem mais sucesso. E depois, uma coisa que todas as mulheres que um dia se casaram com um homem, que são a maioria, perceberam, é que eles são sem dúvida sempre muito privilegiados pelas suas queridíssimas mães. E que isso começa muito cedo, é que vendem-se muito mais bebês chorões masculinos do que femininos, ou seja, na versão colinho.
Sim, mais meninos do que meninas.
Mais meninos do que meninas. São os bebês chorões, ninguém compra uma bebê chorona. São os Barriguita, mesmo quando são meninas. Parece haver uma maior disponibilidade para dar colinho, carinho, tratar, da versão masculina. Os psicanalistas certamente conseguiriam explicar muito isto. Chamo também a atenção para uma coisa que hoje já deverá, penso eu, ter acabado, mas que na minha geração era muito presente, que era aquelas mãos de fada das mães, das tias, das avós, que faziam fatinhos para todas aquelas bonecas. Faziam coisas absolutamente maravilhosas e extraordinárias, porque não passava pela cabeça de muitos pais gastar aquelas fortunas que aqueles fatinhos já prontos traziam. Acabavam por ser feitos alguns daqueles fatos. Tudo isto visto e resumido, eu acho que a Barbie, como boneca, é de fato um grande fenômeno de globalização. Houve, sem dúvida, bonecas, e há bonecas muito mais interessantes, muito mais bonitas, mas acho que é um extraordinário fenômeno de globalização e é assim porque olho para ela. Acho que quem quiser ter uma Barbie, que tenha. Olho com a mesma perplexidade para esta Barbie feminista de 2023, como olhava para aquela Barbie de corpo impossível, produto da sociedade capitalista e do plástico. Quer dizer, deixem as crianças brincar com aquilo que querem e deixem-se de mensagens, está bem?
Muito bem, a Barbie e as suas amigas, e as suas réplicas sobre o que elas representam, a mensagem ou o impacto que podem ter. Estamos a discutir hoje no "Conta-Corrente", com mensagens nas redes sociais. Sim, são várias. Ana PV escreve na nossa página do Facebook: "A Barbie é uma ilusão para as meninas, desde pequenas, pensarem que o mundo é rosinha, que não há pedofilia e que basta ter boa figura e conseguem tudo." Também a opinião de Ana Maia: "Mais importante que aquilo que a boneca representa, se é ou não mamã, se é ou não cozinheira, o que os pais fazem em casa é que vai dar a imagem daquilo que são os papéis sociais de uma mulher. Não é uma boneca. Antes da idade da boneca, que aparece depois dos três, quatro anos, já a criança criou, desde bebê, a dita imagem." Isto é a opinião de Ana Maia. Também as palavras de MGR Lisboa: "Adorei o filme a que assisti num programa mãe e filha, ambas vestidas de cor-de-rosa, um dia leve e bem-disposto. Fazem falta momentos assim." E termino com a opinião do Rogério de Freitas na nossa página do Facebook: "Quando a minha filha era adolescente, contava-se uma anedota entre os adultos que o grande medo dos pais seria o aparecimento de uma Barbie divorciada, porque viria com o carro, o barco, casa e o avião do Ken. O que representaria uma despesa astronômica neste kit para os progenitores das crianças portuguesas nascidas nos anos 80." Muito bom. Mário Augusto é jornalista e crítico de cinema. Bom dia, Mário, bem-vindo.
Bom dia, como estão? Viva.
Mário, este filme da Barbie é bom ou é uma extraordinária operação de marketing? Ou as duas coisas?
Como dizem em português, é ambas as duas.
Sim.
Porque, na verdade, há aqui um efeito do nome da realizadora, a Greta Gerwig, que tem
Uma carreira muito curiosa e de cultura pop muito bem trabalhada.
E com muitas personagens femininas. A filmografia dela tem personagens femininas muito interessantes e muito fortes.
E se quisermos analisar com algum distanciamento, há neste filme, muito lá longe, uma certa influência do "Truman Show". Lembra-se do filme? Porque na verdade, qual é o ponto de partida desta história? É a Barbie que vai para o mundo real, deixa a sua Barbie Land e passa a ver o mundo de uma forma mais real, diferente, onde é confrontada com as coisas do dia a dia. Por outro lado, não podemos esquecer, curiosamente, que nos últimos anos, houve uma série de filmes da Barbie, mas a Barbie da boneca. Sem graça, animação digital muito focada, essa sim, em vender bonecas. Este filme, essencialmente, vende uma marca mais do que a boneca. Enquanto que os outros filmes de animação eram filmes para vender bonecas e criar aquele universo cor-de-rosa, este não. Este filme assume-se como um produto de cultura pop muito interessante e faz, de alguma maneira, uma homenagem muito curiosa a esta boneca que desde 1959 faz parte da vida das crianças, das meninas que nasceram no baby boom americano e depois ela estrou para o mundo. O que também não deixa de ser curioso, e isso é importante as pessoas terem noção disso, é que a Barbie, como produto de uma fábrica de brinquedos, a Mattel, começou como uma cópia de uma jovem atrevida, a Lilli, que saía num jornal alemão, o Bild, em tiras de banda desenhada. E a senhora, a Ruth Handler, que era a esposa do dono da Mattel, uma vez veio à Europa e viu essa boneca à venda, mas com outra característica. Ela era mais atrevida, tinha conotação mais sexual.
Era uma boneca para adultos.
Era uma boneca para adultos e as piadas que desenhavam no Bild eram piadas para adultos, para homens, e que normalmente se divertiam com aquele apimentar das mensagens que a Barbie tinha. Ora bem, se quisermos também analisar melhor a importância e a relevância no mundo atual desta Barbie, a do filme é uma homenagem à marca, mas a Barbie das bonecas é, se calhar, mais um dos produtos de soft power, porque na verdade é uma forma de passar um American Way of Life no início. Hoje, a partir dos anos 80, 70, quando ela é divulgada por todo mundo, o que a distinguia é que era uma boneca de contornos de mulher, com marcas de vaidade, de roupa, e era uma forma de vender apetrechos. Ou seja, ao contrário das outras, das Tushies e das bonecas que nos anos 80 fizeram a delícia das meninas quando cresciam, esta desenhava um modelo de vida e era uma senhora, não era uma bebê rechonchudinha, criança com vestidinhos aos folhos. Não, ela tinha mudas de roupa, foi crescendo e foi desenvolvendo, mantendo, se calhar, a matriz que vinha da original alemã, perdendo o picante e o sex appeal que estava associado aos desenhos da BD. Agora, é claramente um produto de marca, de promoção de marca, de culto, de cultura pop e dessa mensagem de soft power que o Joseph Nye muito bem descreveu quando definiu as maneiras de passar mensagens e uns certos estilos para as massas. E a Barbie tem essa característica e o filme, quase certeza que vamos ter continuações, porque está a ser um êxito mundial muito apetitoso para os estúdios e vai ter continuidade, certamente. Portanto, estamos a criar um reboot ou um renascer do culto da Barbie a partir deste filme.
Helena Matos, tu fizeste dois livros que passam também pela memória de quando se era criança, a "Sebenta do Tempo", não é?
Exatamente, e o "Caderno Diário".
E o "Caderno Diário". E aí fala-se bastante de brinquedos, daquilo com que se brincou, de tudo aquilo que referes, sejam os tênis, a revista Falcão, tudo isso desses brinquedos. Achavas que era a Barbie que ia ficar?
A Barbie tinha tudo para poder ficar. Por quê? O que a marca faz? A dada altura, começa a convidar estilistas para vestir a Barbie, começa a adaptar-se aos novos tempos.
Desculpa interromper. Tu tens a Barbie na capa da "Semana do Tempo", não é?
Está lá referida também. Está uma Barbie das originais, dos anos 50, a fotografia de uma das originais, que curiosamente, em termos de feições, não alterou muito. Alterou o tom de pele, alterou o tom de cabelo, alterou sempre a roupa. Aliás, o que é curioso, como produto de marketing, ela ficou todas estas décadas e eu recentemente, por curiosidade, fui à procura de saber mais alguns dados atuais sobre a Barbie e fiquei espantado que ainda se vendem, por dia, 180 mil Barbies no mundo ocidental, que é uma coisa verdadeiramente incrível e que mostra a vitalidade do marketing e, ao mesmo tempo, a redescoberta de novos públicos, onde tudo é tão virtual hoje. Nós hoje é digital, é gaming. A Barbie foi-se adaptando e aquilo que dizias, na verdade, era previsível que ela durasse estas décadas todas. Bem, na verdade, se calhar não.
Mas Mário, a possibilidade de ver um filme, isto em termos de cinema, é sempre um guião a ter em conta, em que uma personagem brinquedo vem ao mundo real. O Pinóquio costuma funcionar, não é?
Funciona, e mais uma vez, reforço aquilo que dizia no início. Temos por trás deste projeto uma realizadora que tem um grande grupo de seguidores. A Greta Gerwig é uma realizadora de cultura pop, como referi, e como tal, ela deve ter ido à procura quando se propôs. Agora, também temos que ver outra coisa. Este filme tem desde o logo do lettering da Barbie à matriz de todo o universo da Barbie Land que existe. Ela deve ter negociado em pormenor todos os detalhes do argumento e foi esmiuçado pelos detentores da marca e pelos criativos do marketing da Barbie para tirar partido disso. Portanto, eu acho que estamos perante um grande golpe de marketing, é verdade, uma ideia muito genial, porque não sendo nova, e como referes, o Pinóquio e há outros exemplos que poderíamos ir procurar desta transposição do virtual para o real, mas estamos perante um produto que tem projeção mundial de uma maneira como poucos e que automaticamente já se vende só pelo anúncio.
E Mário Augusto, não se vende só pelo produto em si, mas por todos os rituais que estão a ser associados a isto. Aliás, há pouco um ouvinte, como a Maria João leu, explica que ir ao cinema ver a Barbie não é ir ver um filme qualquer, implica até um dress code para muitas pessoas que vão vestidas de rosa. Criou-se aqui também uma onda alimentada pelas redes sociais, que ajudam também a promover o filme.
Isso é também importante analisar. Por quê? Por uma razão muito simples. Enquanto na América isso é frequente, aquela onda de irem vestidos como as personagens e criar-se essa dinâmica, espantou-me que aqui em Portugal acontecesse o mesmo em relação à Barbie. Já tinha acontecido em relação, por exemplo, ao Harry Potter, com os miúdos vestidos de alunos da Escola de Hogwarts.
Com o Star Wars, também vemos muitas pessoas vestidas.
Ou seja, aí entra.
É um culto.
Concordo. É um culto, mas entra em grande conta o jogo de marketing através das redes sociais. Cria-se ali uma indução coletiva que faz com que toda gente acabe por ir beber à mesma influência e vão todos com aquele espírito. Já não é ir ao cinema por ir ao cinema, é por participar num evento.
Numa experiência.
Isso é que eu acho que é espantoso. É uma experiência e, no caso da Barbie, a mim, pessoalmente, confesso que me espantou. Eu outro dia passei por uns cinemas e a fila de pessoas para entrar na Barbie, nos multiplex.
Distendida.
Incrível e com muita gente vestida a preceito para ir participar naquele momento como se fosse a um espetáculo, como se fosse a uma sessão de culto de um grupo, não queria dizer seita, mas de um grupo de interesses comuns.
Sim, de interesses comuns. E o cinema está a passar por este desafio de perda de público por causa das plataformas de streaming. Temos também este fenômeno importante de Barbie e Oppenheimer estrearem no mesmo dia, numa outra experiência que é até ter visto os dois filmes no mesmo dia
Há aqui um esforço também da indústria voltar a conseguir seduzir pessoas para as salas de cinema.
É um esforço da indústria e é uma jogada de marketing incrível. Aliás, para quem está no meio e desenvolve o trabalho nesta área, a pressão das newsletters chamam-lhe Barbieheimer. Ou seja, para dinamizar essa mesma... aí volto à história do Joseph Nye. Isto é soft power na sua essência, ao serviço de um produto e de uma marca. Há uma euforia grande à volta destes últimos fenômenos no cinema. Eu não acho que isto sirva para recuperar o público perdido, no todo, porque o cinema já é outra coisa. Ou seja, o nosso cinema, o meu, o da Helena, o José Manuel Fernandes, enfim, da nossa geração, era um cinema de culto. Íamos àquela sessão, tínhamos um intervalo para comprar não pipocas, mas torrão ou rebuçados ou chocolates. Enfim, era aquele cinema. Hoje vamos ao multiplex e é como quem vai ao supermercado, logo se vê o filme que vamos ver. Vamos para ver este. Mas se não houver bilhetes para este, vamos para aquele. Não faz mal. Portanto, perdeu-se o culto do cinema em sala, mas também é verdade que hoje há muitos filmes que se podem ver muito bem em casa, ao contrário do nosso tempo. E quando digo nosso tempo, anos 70, anos 80, em que as televisões ainda não tinham a qualidade técnica que permitia absorver a experiência.
Claro, nem ecrãs do tamanho dos ecrãs de agora.
Hoje há filmes que se veem muitíssimo bem numa boa televisão, e a narrativa está lá toda, a história que conta, a dinâmica. Agora, perde-se o ato social da sala de cinema, que também é importante. A sala escura, a reação coletiva.
O escurinho do cinema.
O escurinho do cinema. Mas isso mudou radicalmente e vai ter que ser reajustado.
Mas, contudo, eu de maneira nenhuma sou uma seguidora do que está a acontecer nas séries e nos filmes e tudo isso, mas parece-me que quando se ligam as plataformas, estou a pensar nas Netflix e não só, nós encontramos um número crescente de séries, de filmes inspirados na realidade. Não são documentários, mas são muitas vezes inspirados em factos reais e alguns dos maiores sucessos têm a ver com essa inspiração em factos reais. Mas quando falamos aqui de grandes sucessos em termos de cinema, nós notamos como o cinema mantém uma capacidade de criar sucessos à escala global, mas criando universos paralelos. E aí, quando vocês referem o "Harry Potter" ou o "Star Wars", quer dizer, agora a "Barbie", nós estamos a falar da criação de um espaço de imaginação que continua a ser o espaço do cinema. Por exemplo, o espaço de "Star Wars", que nem sequer é uma série que tenha seguido, mas que é fantástico, porque eles escrevem sobre aquilo como se fosse real. Nós vamos àqueles sites, àqueles blogs, e eles falam daquelas naves, daquilo tudo, como se aquilo existisse de facto. O mesmo acontece também muitas vezes com o "Harry Potter". Quer dizer, aqui o cinema continua a ter essa capacidade de criar fenômenos globais de imaginação.
Isso é verdade. E cada vez mais precisa dessa realidade alternativa ou realidade paralela para transpor o ecrã. Porque curiosamente, isso é um fenômeno que sempre existiu, com mais força a partir dos anos 70 nos Estados Unidos, esse culto sempre existiu. Agora, o que eu acho espantoso é a dinâmica de marketing e a capacidade de promover conceitos dos modelos comerciais americanos, atingiu já a projeção mundial de uma maneira curiosa. E basta, por exemplo, recordarmos de coisas como os Halloweens, as festas que ao longo dos anos se vão espalhando discretamente pelo mundo ocidental, a partir dos conceitos comerciais americanos e que a dada altura já fazem parte. Por quê? Porque nós hoje estamos também todos ligados. Aliás, é curioso pensar um pormenor tão simples como este: há 30 anos, nem precisamos de tanto, 20 e tal anos, um filme que estreava em Portugal já tinha feito o seu circuito americano há meio ano, nove, 10 meses. Aliás, curiosamente, nós vivíamos muito das cópias em película já rodadas no cinema americano, porque vinham para cá e eram para estragar. Por quê? Porque a legendagem dos filmes era um processo químico que rompia a película e tornava-a transparente com as letras. Portanto, as cópias quando vinham para Portugal já se sabia que não iam acontecer mais. Não serviam para mais nada. E o que é que acontecia? Vinham três, cinco ou seis cópias novas para os grandes cinemas das grandes cidades e vinham mais 10 cópias De filmes já rodados nos circuitos americanos, com a necessidade de fazer estreias simultâneas. Quando nós estamos a falar de um fenômeno, como por exemplo, vamos pegar no "Indiana Jones", que estreia simultaneamente em todo o mundo. E não deixa de ser curioso que o "Indiana Jones", que foi extremamente importante pra nossa geração, como cinema espetáculo e como a construção de um herói a partir das memórias de outros tempos, que não os nossos, ainda anteriores. A forma como ele desenvolve as suas ações, o timing e o tempo em que elas acontecem. Curiosamente, o "Indiana Jones", que agora estreou o quinto, o derradeiro pro Harrison Ford, que tinha tudo para ser um mega sucesso, porque é a despedida do Harrison Ford da personagem, foi, em termos de contas, um flop. Não resultou. Isso também é uma marca dos sinais dos tempos. Ou seja, os miúdos hoje não querem perder muito tempo. A transposição desses cultos americanos pra cá, dessas campanhas e dinâmicas de negócio, vê-se, por exemplo, também nas pipocas. No nosso tempo não havia pipocas no cinema. E hoje é um dos grandes negócios do cinema. Aliás, os americanos dizem com graça que há filmes que se fazem pra vender pipocas. Porque eles precisam vender pipocas, fazem um determinado tipo de filme pra malta ir, porque senão não vêm.
Mário Augusto, eu sou do tempo em que o senhor que nos mandava sentar no cinema me ficou com a embalagem dos Smarties, porque era proibido, claro.
E o senhor levava uma lanterninha.
Sim, claro.
Tudo isto mudou.
Não fales em pipocas, Mário Augusto.
Mas olha, eu também não sou dos clientes. Agora, repare neste pormenor: um filme que estreia, só para terem termos de comparação. Por que se define que um filme é um fracasso ou um êxito? Porque o filme tem que ser rentável nas primeiras três semanas. E o que é rentável? É ter de receita bruta, pelo menos duas vezes e meio o custo. Ora, pegando no exemplo do "Indiana Jones", que é um bom exemplo pra se perceber por que falhou ou por que não resulta. Vai dar prejuízo? Não, porque daqui a dois, três anos já fez o circuito todo, já passou nos streamings, já vendeu pra canais de televisão e o resultado acaba por compor as contas. Mas o que eles queriam era ganhar o dinheiro todo na mesma altura. E então o que acontece? O filme custou 300 milhões e eles gastaram mais 100 milhões em promoção. Eu não sei, ainda não fui ver os números, mas imagino que a Barbie, em redes sociais a nível mundial e um certo jogo de influência discreta, que leva que essa malta se vista de cor-de-rosa, tal qual como se vestiram de cor-de-rosa na América. E os filmes estrearam todos na mesma altura. Se calhar, houve esse jogo nas redes sociais que teve o impacto. Gastam 100 milhões, por exemplo, o "Indiana Jones". O filme custou 300 milhões, eles gastaram mais 100 milhões em promoção do filme a nível mundial, em marketing. O que quer dizer que custou 400. Esses 400, a conta é muito dividida, é feita por territórios. Tinha que render duas vezes e meio os 400. Ou seja, tinha que render pelo menos uns 900 ou um milhão, para ser rentável. É claro que não rendeu. Vai nos 400 e tal, 500 milhões, e não teve o impacto. No entanto, a Barbie, que foi o filme mais barato. E como é que eles criam um certo boost à volta da promoção do filme? Desde logo, por exemplo, há três meses, quando começaram a anunciar o filme com trailers divulgados, passou a começar a aparecer nas revistas, nos jornais e nos sites, que para fazerem o filme com cenários físicos, construíram mesmo uma Barbie Land, não é digital, é tudo verdadeiro, e esgotaram o estoque de tinta cor-de-rosa com aquela referência. Será verdade? Se calhar não é, mas é uma boa jogada de marketing.
É uma boa história, serviu até aqui para os nossos noticiários. Mário Augusto, muito obrigada. Começámos a falar da Barbie, estamos a falar da indústria do cinema. É muito mais, de facto, do que ter uma boneca a contar uma história durante uma hora e meia, eventualmente. Obrigada, Mário, foste uma ótima ajuda. Um bom dia. Obrigada. Bom dia também, Joana Squittini Vilela, é jornalista, é autora. Joana, bom dia, bem-vinda. Não sei se já viste o filme e o que é que achas dele.
Já vi o filme.
E então, é um filme feminista com uma boa mensagem?
Acho que é um filme igualitário. É um filme que tem a graça de nos permitir olhar para a Barbie de uma forma que pelo menos eu nunca tinha olhado, ou para o universo da Barbie, que é aquele em que o Ken, a personagem masculina, é um acessório, mas não querendo spoiler o filme, isso depois vai tendo toda uma evolução, à imagem do discurso dos nossos tempos, que aponta para uma paridade de gêneros. E, portanto, em que, no fundo, o que eles fazem é contrapor esse mundo ideal criado já há muito tempo, e isso também tem graça, olharmos para as coisas à luz da história, mas contrapor esse mundo das bonecas com o mundo atual e com aquilo que poderá ser o mundo ideal
Portanto, é a Barbie do século XXI. Há uma adaptação da boneca aos tempos atuais.
Há um discurso, sim. São as preocupações atuais, preocupações relacionadas com igualdade de género, com paridade. Se nós pensarmos, por exemplo, numa série de controvérsias relacionadas com a representação da Barbie, do corpo da mulher, isto já numa altura em que essas eram as questões que vieram ao de cima nos anos 90, em que mesmo na indústria da moda, havia um lado relacionado com um ideal feminino, que na altura até se via que potenciava ou que favorecia uma imagem totalmente irrealista e pouco saudável do que seria uma mulher. E depois a própria boneca e o universo da boneca vai-se adaptando a todas essas preocupações. Neste caso, tem essas preocupações e esse discurso do século XXI de que falas, mas depois tem um olhar muito interessante, com muita graça, com muita piada, um olhar quase sardônico da realizadora, da Greta Gerwig e do Noah Baumbach, que escreveram o filme, e que nos permitem olhar para tudo aquilo de uma forma que é muito surpreendente.
Helena, ias perguntar alguma coisa?
Sim, estava a pensar no teu livro, o "LX 80", não é? Já é o tempo das Barbies.
Já. A Barbie surge no final dos anos 50.
Estou a falar aqui em Lisboa, não é?
Aqui em Lisboa, sim. Ia dizer, em Portugal. Eu sou dos anos 80, eu tive uma Barbie e era o brinquedo mais desejado. Eu só tive uma.
Só uma? É porque a questão era colecionar.
Era muito caro. Era caro e eu depois tinha outros interesses também. Mas eu lembro, e depois até comparando com a década de 90, proporcionalmente, eu lembro que a Barbie nos anos 80 custava, no meu tempo, cinco contos. Cinco contos seria quanto?
25 euros.
25 euros. Eu não sei quanto é que elas custam hoje em dia. Custam mais, mas comparando o custo de vida.
Em termos reais, cinco contos é uma barbaridade.
São muito mais baratas.
É muito mais barato hoje.
Sim, muito mais baratas. Mas sim, nos anos 80 era o brinquedo a ter das meninas todas.
Joana Schettini Viola, obrigada por teres trazido aqui também esta experiência pessoal, a experiência do filme, mas também o que representa esta boneca. Depois disto tudo, Helena, és pessoa para ires ver o filme?
Eu tenho vários filmes em atraso para ver. O meu amor pelo cor-de-rosa não é uma coisa muito acendrada, portanto, muito provavelmente não verei agora.
Não está na tua prioridade.
Acabarei sempre por ver, mas não agora. Agora, isso faz parte, sem dúvida, de um processo em que, se nós repararmos, é certo que a Tucha e a Nancy perderam para a Barbie. Mas também já o Santo António tinha perdido para o São Valentim. E o próprio Menino Jesus tinha perdido para o Pai Natal. Ou seja, aquilo a que nós temos assistido é à capacidade do marketing norte-americano de divulgar os seus modelos, e divulgá-los com extraordinário sucesso. E eu penso que é isso que estamos a assistir agora com a Barbie. Já assistimos isso com outros fenómenos. Não sei se vocês têm convivido com raparigas que estejam grávidas. Neste momento, toda a gente faz baby showers. De repente, a pessoa quase que se sente mal por não ter fotografias dessa sua festa. Pois é, que não fez, não existiam. Portanto, há aqui também uma questão de um modelo cultural. Isto não é bem nem mal, é assim. Agora, por isso mesmo, não me sinto nada culpada por não ir agora ver a Barbie. Irei certamente ver, mas não agora, de modo algum, até porque tenho muitas outras coisas para ver. O que é chamar a atenção em relação a uma coisa que é difícil de explicar, é que brincar não pode ser uma atividade em que os adultos põem todos os modelos, ou seja, tem de haver ali uma margem. Hoje a infância, até por razões de grande preocupação, é cada vez um espaço mais controlado, mais vigiado. E nós temos discursos muito penalizadores sobre o passado, mas não nos observamos a nós. Eu, por exemplo, estava aqui a ver os textos de quando a Tucha chega a Portugal, o grande problema do fabricante e aquilo que colocam ao fabricante é que a Tucha não é um brinquedo didático. Nós temos modas sobre os brinquedos. E todos nós nos lembramos do tempo em que os brinquedos, as bonecas dentro de umas caixas, era o peluche que estava dentro do saco de plástico em cima do guarda-vestidos, quase inacessível, ou as bonecas em cima da cama e só se podia mexer pouco para não estragar e não era a Barbie de modo algum. Portanto, o tempo vai mudando. E nós vamos sempre tendo discursos, também faz parte da vida, como se achássemos que estamos ali a descobrir qualquer coisa. O que é transversal a tudo isto é o ato das crianças brincarem. E o ato das crianças brincarem deve ser: vamos deixá-lo acontecer sem estarmos sempre a pôr lá as nossas grelhas, nem se achar que as meninas estão a querer reproduzir o modelo das mães, o menino o modelo dos pais, ou agora que a Barbie é feminista, ou que, pelo contrário, é uma reacionária insuportável. É só uma boneca. As crianças precisam ter imaginação. A minha geração era muito confrontada com um problema complicado. Eu e todas as pessoas que conheci da minha idade, houve um dia em que abrimos a barriga das bonecas para pôr lá dentro comida. Isto dava sempre um sururu, porque a boneca era cara e a pessoa tinha estropiado a boneca.
Na Barbie era difícil abrir.
Pois, exatamente. Nas outras era fácil. Eu tenho, entre as minhas mais extraordinárias recordações de infância, o fazer o funeral a uma boneca que tinha falecido. E houve alguém que se dispôs a fazer aquilo tudo, simular o funeral da boneca. São coisas que fazem parte da infância. Com tudo isto, eu acho que é muito melhor que se compre Barbies e o que quiserem. Só há uns que eu, francamente, olho para aquilo e sofro de um desconsolo e nunca comprei nenhum. Tive a casa inundada daquilo, porque oferecia-se muito, e que são os benditos dos unicórnios. Para os unicórnios é que a coisa não vai lá e para uns cavalos com uns cornos no meio da testa. Tu nem sabes, José Manuel, o caso unicórnios. Mesmo agora, quando se fala das startups e sempre que falam de unicórnios, começo a sentir uma moinha na cabeça. É que de todos os brinquedos, de todos os tempos, eu confesso-vos que para os unicórnios é que a coisa não vai lá. Por fim e por último, José Manuel, tu disseste que a Barbie foi um upgrade em relação àquelas bonecas de papel que se cortavam. Eu confesso-te, eu comprei umas há pouco tempo, numa loja ao pé do Observador, para dar a umas crianças de família e para eu poder brincar. Adoro.
E continua a vender-se.
Continua a vender-se.
Quer dizer, continua a vender-se, mas não duas por segundo.
Não. Mas com coisas espetaculares.
É?
Sim. Vamos depois conversar no final do programa, está bem?
Já houve os brinquedos mais idiotas todos. Vocês lembram-se de um que era uma coisa eletrónica que podia morrer?
O Tamagotchi.
O Tamagotchi. Já houve coisas bastante...
O Tamagotchi, que ia toda a gente tomar conta do Tamagotchi.
O Tamagotchi.
Substituiu os animais de estimação. Substituiu os teus pets.
Só uma correção. Eu disse que cinco contos nos anos 80 era muito mais caro do que é hoje a Barbie.
Não.
Na verdade, não é. Estive aqui a fazer a correção, cinco contos correspondem hoje a 80, 90 €.
Ela está 70, também pensei isso.
Ela está 70. A diferença é que cinco contos eram muito dinheiro nos anos 80, no sentido daquilo que as pessoas ganhavam. E apesar de tudo, nós hoje vivemos muito melhor do que nos anos 80 e, portanto, é diferente. Só muito rapidamente sobre esta questão dos brinquedos didáticos ou não didáticos. A coisa, por exemplo, uma discussão eterna, que é: pode-se ou não dar pistolas às crianças? Sendo que as pistolas incluem os fulminantes, por exemplo. Eu tive uma pistola de fulminantes e não me tornei assassino por causa disso.
O que é que se metia?
As pistolas de carnaval. Como é que se faz aquilo sem pistola, como é que a pessoa molha os outros no carnaval?
Sim. E não tiveste uma em que se metia um feijão ou um grão lá dentro e se disparava?
Não, dessas não tive. E porque é que os soldadinhos de chumbo e essas coisas sempre fizeram parte, durante muito tempo, dos brinquedos de infância? E hoje há coisas parecidas. Porque a competição, a fazer jogos em que um ganha e outro perde, está na nossa natureza. E não só está na nossa natureza, como nós continuamos a estimular. Seguramente que o Ronaldo não gosta de perder jogos. Nem os jogadores de futebol que vão amanhã para o Vietname.
Não podes ter os cowboys com pistolas, mas podes ter aquelas espadas fantásticas.
Sim, as espadas do Star Wars.
Do Star Wars, que custam uma fortuna. Nós temos uma mensagem deliciosa que acabou de nos chegar sobre a Barbie.
Vamos ter tempo, Maria João e Clara?
Temos tempo. Mas fazes destaque.
É um e-mail da Rita Salgado que diz: "Bom dia, Observador. Conto um episódio muito engraçado com a Barbie. No fim dos anos 80, eu trabalhava em marketing e pensei fazer uma promoção cruzada com um dos produtos que geria e a Barbie. Telefonei para a Mattel Concentra, na altura representante da Barbie, e falei com o responsável comercial, um senhor muito simpático, com um forte sotaque nortenho. Ele ouviu a minha ideia e depois disse: 'Ó minha senhora, faça-nos a promoção com a família Coração, a Barbie é uma vadia.'"
Falta-nos o Júlio Magalhães para dizer isto mesmo a sério.
A Barbie pode ser muitas coisas, penso que isso pode ter ficado.
Até uma vadia.
Até uma vadia ou uma divorciada, pode ser muito assustador. Amanhã não vai ser o Ken, pois não?
Não, não vai ser o Ken.
O Ken ainda tem nada para se dizer dele.
Mas estivemos ouvindo uns bocadinhos chocados com o tema de hoje. Vamos ver amanhã. Até amanhã, José Manuel Fernandes e Helena Mendes.