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Esta foi mesmo uma daquelas longas noites eleitorais, mas com mais surpresas do que estávamos à espera. José Manuel Fernandes praticamente não foi à cama, até porque os resultados de Lisboa foram conhecidos já passava das duas da manhã. José Manuel, ficaste muito surpreendido?

Olha, para ser franco, fiquei surpreendido, como se costuma dizer, quebe. Eu não andei pelas ruas, não andei na campanha, não fiz cobertura da campanha. Agora também já não vivo em Lisboa, só trabalho em Lisboa. São idas e entradas na cidade, é um bocado mais difícil de perceber o sentimento das pessoas. Mas se quer que diga, sempre tive um dedinho qualquer que me dizia que Carlos Moedas talvez tivesse uma hipótese. Eu sei que as sondagens sempre lhe foram muito desfavoráveis, para não dizer mesmo extremamente desfavoráveis, mas havia qualquer coisa no ar que eu acho que podia jogar a favor dele. Primeiro que tudo, Fernando Medina, eu acho que é uma coisa que já vem de trás, Fernando Medina é um político que não consegue entusiasmar ninguém. Às vezes nós notamos isso nos políticos. É alguém em que parece que falta qualquer coisa, e isso nota-se um bocado no contacto com as pessoas. Repara, ele é uma pessoa que está na televisão há vários anos e mesmo assim a sua imagem não se tornou popular. É uma pessoa que não tem empatia, parece que tem dificuldade no contacto. Por exemplo, se nós comparamos com uma pessoa como o Marcelo Rebelo de Sousa, que é todo efusivo, ele parece que tem essa dificuldade. Isto não é nada de mal, é a natureza das pessoas. Em contrapartida, por exemplo, quem às vezes vê aquelas sessões da Assembleia Municipal, membro da assembleia, das reuniões de câmara ou assistiu, por exemplo, àquela conferência de imprensa em que ele despediu indireto um diretor da câmara, nota-se que ele tem reações, disfarça mal, de alguma rispidez, para não dizer mesmo autoritarismo. Se a tudo isto somarmos a imagem que António Costa passou durante a campanha eleitoral, que eu acho que foi criando uma imagem de vendedor de promessas a pataco, muito ao gosto de cada cidade por onde passava. Querem uma estrada? Tomem a estrada. Querem um hospital? Tomem o hospital. Maternidade. Aí não é maternidade, nem é estrada, é um centro cultural. PRR para tudo, bazuca para tudo. Eu acho que isto, para eleitores como os de Lisboa, que são eleitores que se cansaram um bocadinho disto, acho que desgasta. E se quer que te diga também, como sei por trabalhar há muitos anos com sondagens, em autárquicas é habitual as sondagens favorecerem um bocadinho os incumbentes, quem está. Não sei porquê, é uma coisa que acontece e comecei a achar que sendo difícil, muito difícil mesmo, não era impossível o Moedas ganhar. Por isso devo dizer que para mim foi, e vou confessar, uma surpresa maravilhosa. Acho que valeu a noite.

Valeu a noite, disso estou. Em que sentido?

Lembras-te aquilo que eu defendi aqui passada sexta-feira?

Sim.

Eu defendi uma ideia que assumi que era polêmica e que não é apenas de comentário, é de opinião. Defendi que mesmo sendo estas eleições locais, era bom que sempre que possível se votasse para limitar o poder do PS. Eu continuo a achar que os socialistas têm vindo a acumular demasiado poder no país, que tem a ver um pouco com a sua habilidade e com a inabilidade dos outros, e que era bom que perdessem algumas Câmaras Municipais, que não ganhassem tudo. É um princípio de bom funcionamento da democracia que haja repartição de poder e que não haja demasiada acumulação de poder num partido só. Nessa perspetiva, nada melhor do que perderem a sua joia da coroa, que é a Câmara de Lisboa, indiscutivelmente. A maior câmara do país, com mais dinheiro, com mais recursos, com mais visibilidade. Desse ponto de vista, a noite não correu mal. O PS perdeu mais Câmaras, talvez do que eu estava à espera, e perdeu-as sobretudo para o principal partido da oposição, que é o PSD. E só não ficou com balanço pior, porque apesar de tudo continua a ganhar Câmaras ao PCP, que assim não é por aí abaixo. Seja lá como for, voltando a Lisboa, os socialistas perderam, e perderam claramente. Não foi uma coisa que deixasse dúvidas, como aquela eleição de Santana Lopes. Perderam Lisboa, perderam Coimbra, que também tem simbolismo, perderam o Funchal, uma região autónoma, recuaram no Porto, tiveram um resultado muito pior do que há quatro anos. Eles tentaram ir para Santarém e falharam a conquista de Santarém, Viseu, Setúbal, Évora. Perderam a maioria absoluta no segundo maior município do país, que as pessoas esquecem-se qual é, mas é Sintra, é o meu município, o que também é significativo. Em termos de votos, apesar de aí as contas serem um bocado mais difíceis de fazer, porque há coligações, mesmo assim, podem ter perdido entre 150 ou 200 mil votos, o que é significativo. É significativo e não é justificado apenas com a abstenção. É mesmo recuo em pontos percentuais na votação. É um resultado mais fraco do que eu estava à espera, sinceramente, e eu acho que sobretudo o resultado tem significado especial porque surge na sequência de uma campanha em que António Costa não esteve assim pela rama, empenhou-se a fundo, esteve lá todos os dias, deu a cara, deu o rosto, deu o corpo ao manifesto. Foi uma campanha, ainda por cima, em que António Costa usou todas as armas. Usou e abusou da bazuca, fez promessas que não devia fazer, misturou o cargo de primeiro-ministro com o de líder do PS. Eu acho que isso em muitos aspectos chegou a ser uma vergonha e acho que felizmente foi uma vergonha que os portugueses não condenaram, ou pelo menos não embarcaram. Ontem, Fernando Medina e Mário Machado, para dar dois exemplos, reivindicaram para eles as dores das derrotas eleitorais, mas eu acho que António Costa sai tão ou mais derrotado da noite do que qualquer um deles.

Mas António Costa veio reivindicar para o PS a terceira vitória autárquica consecutiva.

Sim, essa parte do discurso eu acho que ele até podia ter escrito antes da campanha começar. A vitória contabilística em número de câmaras estava garantida. Mas ele não é um contabilista, é um líder político e ele sabe que não avala assim tanto como isso a presença da Associação Nacional de Municípios, porque as pessoas sabem quem é o presidente da Associação Nacional de Municípios e o poder que ele tem é mais simbólico, mas não é muito relevante. As eleições de ontem, politicamente, ganhavam-se em Lisboa e ganhavam-se em mais de meia dúzia de municípios e tenho pena que se o PSD tivesse afinado um pouco melhor mais algumas escolhas, em mais algumas câmaras, talvez ainda a consciência tivesse sido um pouquinho melhor ainda do que foi, pois agora percebe-se que havia fragilidades óbvias no Partido Socialista. Acho que em Sintra, por exemplo, o meu presidente de câmara fartou-se de perder votos e mais um pouquinho de esforço, mais um empurrão, e acho que ele talvez pudesse também cair e bem merecia cair, porque compare Sintra com alguns municípios aqui à volta no período da pandemia, não tem comparação. Seja lá como for, a imagem com que ficamos é que acabou o tempo de um António Costa intocável, um António Costa todo-terreno, todo-poderoso, com todos os outros políticos a seus pés. Acho que ficou provado que é possível derrotá-lo, que é possível derrotar os seus pupilos, porque Fernando Medina era claramente um seu pupilo. E acho que Carlos Moedas, de alguma forma, mostrou o caminho e que isso é bom.

José Manuel, mas o resultado de Lisboa.

É bom termos oposição.

Haver oposição. Mas deixa-me voltar à questão de Lisboa. É sobretudo uma vitória de Moedas ou é uma derrota de Medina?

Há sempre duas coisas. Quando um presidente de câmara em funções é derrotado, como Medina é, é sempre uma derrota do próprio. E eu já referi aqui algumas razões. Mas acho que isso não chega. Essa história de que bastava colocar um rato Mickey em certos boletins de voto pra ganhar eleições, porque os adversários eram tão maus, que bastava estar lá e ganhar, eu acho que isso, sinceramente, é um disparate. Carlos Moedas eu acho que tem bastante mérito e é preciso dizê-lo, e se não foi dito antes, deve ser dito agora. A começar por uma coisa que deve ser realçada. Ele teve muita coragem pra deixar um dos lugares mais apetecíveis do país, que é o lugar de administrador da Gulbenkian, e lançar-se na corrida a Lisboa que não estava nada garantida. Não havia nenhuma garantia que ele fosse ganhá-la. Às vezes as pessoas esquecem-se, mas Carlos Moedas também quando foi pra política, ele tinha uma carreira, também abandonou essa carreira que tinha. Ele tinha uma carreira fora da política, ele não fez a vida em gabinetes. Portanto, não é um menino das Jotas que andou por aí, ou mesmo não vindo das Jotas, vinha das associações de estudantes e andou depois pelas cabeças dos partidos, e secretaria de Estado, ministro, isso e aquilo outro. Ele tinha uma carreira política, isso faz a diferença. Devo dizer-te que durante a campanha, Moedas teve várias vezes dúvidas sobre se o registo que ele estava a assumir, dúvidas que se calhar também eram aumentadas pela guerra, eram aumentadas pelas sondagens, se aquele registo era suficiente pra ele conseguir ganhar. Se não era demasiado soft, se às vezes ele não era demasiado educado. Mas pelos vistos, foi o registo que os eleitores apreciaram e no limite, ainda bem, porque ainda bem que se pode ganhar eleições com um registo educado.

José Manuel, mas o resultado de Moedas também é um alívio pra Rui Rio. Na Câmara de Lisboa, ele não vai recandidatar-se a líder do PSD e tendo o PSD ganho a Câmara de Lisboa, Rui Rio pôde dizer, como de resto já disse ontem à noite, que teve um resultado magnífico.

Eu não queria entrar muito pra discussão sobre qual vai ser o futuro do PSD, mas seja lá como for, é justo reconhecer que não tem sido magnífico, acho que não foi um resultado magnífico. O resultado do PSD foi bom. Portanto, não vou discutir isso, acho que é indiscutivelmente bom. O PSD não perdeu nenhuma das câmaras importantes que podia perder, e tinha várias em risco. Conquistou Lisboa, Coimbra, Funchal, que são indiscutivelmente três belos troféus, como se podia dizer, principalmente Portalegre. Conseguiu também aumentar o número de presidências, o número de vereadores. Não foi uma coisa extraordinária, mas foi alguma coisa. Portanto, depois de duas eleições a cair, inverteu o ciclo. É bom. É menos, talvez, do que muita gente esperava, do que era a expectativa, daquilo que estava tão baixo que era difícil fazer pior. Tudo isso pode ser dito, mas havia quem esperasse pior, sem dúvida. Na noite de ontem, verdadeiramente só outro líder, devo dizer, além do Rui Rio, tinha razões pra sorrir, e foi o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que não só aguentou as seis câmaras que tinha, o que era sempre difícil, apesar de serem seis presidentes que estavam a recandidatar-se, e já se sabe que esses partem sempre com vantagem, como eu acho que teve uma estratégia correta, que foi a estratégia de coligações com o PSD, e que essa estratégia correu bem pra ele e correu bem globalmente pra o centro-direita, porque foi uma estratégia que saiu vencedora, podemos dizer. As vitórias que foram conseguidas, foram conseguidas essencialmente em coligações O resto dos líderes e o resto dos partidos eu acho que tiveram quase todos noites para esquecer ou muito perto disso, mesmo quando trataram de disfarçar.

Quer explicar melhor esta parte?

Enfim, também está bem um pouco longa, vou tentar ser telegráfico. O Chega entrou, elegeu vereadores, teve um resultado nacional em termos percentuais que se compararmos com as legislativas é bom, se compararmos com as presidenciais é mau, mas para um partido novo não é mau todo. Só que eu acho que os partidos esperavam mais. Esperavam mais, nomeadamente no Alentejo, esperavam mais em Moura, esperavam ter algumas bandeiras para mostrar hoje e não têm nenhuma. Portanto, é isso que é o ponto. O Chega ficou a meio da ponte, como se costuma dizer. E vai ter agora que gerir alguns vereadores complicados. Tem 19 vereadores, vamos ver como é que eles se portam. Mas seja lá como for, isto não é mau de todo. Não é maravilhoso, mas não é mau se pensarmos que o Bloco ficou com quatro vereadores. Como disse, o problema do Chega é que os seus candidatos eram maus, não sei se serão melhores como vereadores. O problema do Bloco é que não tem quase nada. Ele tinha 12 vereadores, ficar com quatro é um desastre. Ter menos votos do que teve nas eleições anteriores, ficar muito atrás do Chega em quase todo o país, para o Bloco é mesmo mau. Eu percebo porque a Catarina Martins desapareceu no princípio da noite. Era melhor não estar lá. Finalmente, o PCP pode contar muitas histórias. Eu estive agora a ouvir aqui o explicador e as explicações do PCP, que são sempre articuladas, mas um partido que já presidiu a 50 câmaras e agora tem 19, e começam quase todas a ser câmaras pequeninas. Eu julgo que câmaras grandes ou significativas tem Setúbal, Beja, duas capitais de distrito, Seixal, Sesimbra e pronto. E depois o resto são câmaras pequenas do Alentejo, não me estou a recordar de nenhuma câmara mais significativa. Perdeu outras câmaras emblemáticas, Montemoro Novo. Aguentou, recuperou Grândola, que é uma câmara que esteve muito tempo no PS já, portanto é uma câmara que vai e vem. Não perdeu o Alcácer do Sal. Vamos ver. Mas mesmo assim é um resultado bastante fraco, teve resultados humilhantes em Almada e sobretudo no Barreiro. O resultado no Barreiro é inacreditável, é um resultado humilhante. E depois perder Loures é também uma machadada muito forte. Salva-se nisto tudo Lisboa e João Ferreira, que teve um bom resultado e que mostra cada vez mais ser o rosto mais apresentável do PCP, uma das pessoas mais articuladas, nomeadamente em campanha eleitoral. Não sei se a forma como o partido funciona e a maneira como ele escolhe as suas lideranças lhe darão uma hipótese de ele vir a ser algum dia líder do partido. Já agora, uma última nota antes de acabar, para dizer que parece claramente que o Rui Tavares, o líder, não sei se posso chamar líder do Livre, parece que tem uma mala pata. As coisas nunca lhe correm bem nas eleições. Agora foi na lista do Medina, a lista do Medina perdeu. Quando ia sozinho, o Livre não conseguia eleger ninguém, quando vai com o Medina, a lista do Medina perde. Não sei se mais alguém quer ter uma espécie de pata negra.

Pé frio, não é?

O pé frio do Rui Tavares nalguma lista eleitoral daqui para frente.

José Manuel Fernandes, o Paulo Ferreira, que está aqui em estúdio, riu-se com essa tua expressão. Hoje o "Contra Corrente" tem um molde um pouco diferente, sobretudo na duração do programa. Vamos estar até ao meio-dia para ouvir o máximo de ouvintes possível e vamos continuar também aqui em estúdio com a presença do Paulo Ferreira e do Júlio Magalhães no Porto. Espaço então para os nossos ouvintes e também para os convidados que vamos ter ao longo destas próximas duas horas, a começar pelo advogado André Abrantes Amaral, que está em linha, é um habitual colunista do Observador. Bom dia, obrigada por estar conosco mais uma vez, André.

Bom dia, obrigado eu pelo convite.

André Abrantes Amaral, o José Manuel traçou aqui um retrato rápido da noite eleitoral, mas também lhe parece que a chave de leitura destas eleições está em Lisboa e na surpresa que representou esta vitória de Carlos Moedas?

Sim, sem dúvida. A vitória de Carlos Moedas foi surpreendente, mas eu julgo que não se fica só por Lisboa, os bons resultados do PSD. O PSD acabou por surpreender também. Em Coimbra já se esperava, mas não se esperava uma vitória tão folgada, e ainda mais a vitória no Funchal e outros resultados que acabaram até por não ser tão maus. Por exemplo, no Porto, o PSD ficou relativamente próximo do Partido Socialista e nessa medida, não se pode dizer que tenha sido o mau resultado que se esperava para o PSD. E isso significa uma coisa, que é Rui Rio está para ficar. E isso poderá ter Até resultar numa vitória amarga para certos apoiantes de Carlos Moedas que eram críticos do Rui Rio. E portanto aqui há uma certa amargura. Porque de facto, sem dúvida nenhuma que a vitória de Carlos Moedas foi surpreendente, foi muito boa para o PSD, julgo que foi boa para a direita, na medida que se retirou Fernando Medina e o Partido Socialista, mas pode ter um amargo de boca para o PSD ou para certos setores do PSD que não queriam que Rui Rio continuasse.

André Branco Samara, desenvolva um pouco mais esta ideia. A ideia de Carlos Moedas avançar a Lisboa não era para vencer Lisboa, mas sim para ter um resultado que o tornasse um opositor forte à liderança do Rui Rio, é isso?

Não é isso que eu estou a fazer. Eu estou a fazer a leitura que os críticos de Rui Rio no PSD contavam com o mau resultado do PSD para retirarem a liderança.

Para fragilizar a liderança de Rui Rio.

Isso viu-se nas movimentações, por exemplo, de Paulo Rangel durante o mês de setembro. E essa situação julgo que se tornou, pode até acontecer, eu não estou a dizer que não vão desafiar Rui Rio, no entanto, é mais difícil, porque a verdade é que ele saiu também fortalecido. E não só pela vitória de Carlos Moedas, mas também pelos resultados do PSD noutras câmaras, noutras autarquias. Eu não estou a sugerir que Carlos Moedas não se quisesse vencer. Ele quis vencer, aliás, só alguém que queria mesmo vencer e que acreditava que ia ganhar, conseguiu de facto este resultado surpreendente e esta reviravolta extraordinária. Eu julgo que talvez só Carlos Moedas é que durante o domingo acreditava que seria possível vencer.

Claro, nada da sugestão que eu estava aqui a colocar. André Branco Samara, já vamos continuar a conversar. Temos aqui uma janela de oportunidade de ouvir nesta altura o André Azevedo Alves. Bom dia, é professor e escreve também no Observador. André Azevedo Alves, foi de facto uma surpresa, pegando na ideia que aqui ouvimos, se calhar há 24 horas era só o Carlos Moedas que acreditava que poderia ser presidente da Câmara de Lisboa?

Antes de mais, bom dia. Foi uma surpresa, claramente, pelo menos para mim foi uma surpresa, acho que foi uma surpresa para muita gente. As sondagens pré-eleitorais, embora apontando uma tendência de encurtamento da diferença, ainda assim as últimas sondagens, todas elas unanimemente apontavam ainda uma diferença substancial de perto dos 10 pontos percentuais. E portanto não creio que fosse expectável a vitória. Não vou contender que Carlos Moedas era o único que acreditava. Conheço pessoalmente algumas pessoas envolvidas na campanha que acreditavam e que aliás me diziam que acreditavam e que acabaram por ter razão. Mas julgo que muito poucos acreditariam, julgo que o próprio Rui Rio quando num dos últimos atos de campanha referiu que tinha um feeling que vinha aí a vitória, julgo que o próprio Rui Rio não teria uma grande convicção. Acaba por ser uma grande vitória pessoal de Carlos Moedas e de quem o ajudou na sua estratégia. Mas eu creio que é também, em grande medida, uma derrota de Fernando Medina e do Partido Socialista. E explico muito rapidamente porquê. Se nós compararmos os resultados com 2017, não é tanto que Carlos Moedas tenha conseguido conquistar muito mais votos do que o PSD e o CDS separadamente conseguiram em 2017. Carlos Moedas tem pouco mais votos do que esse total, que não foi um total impressionante, foi 31, 32%. O que de facto se passa é que Fernando Medina tem uma quebra muito substancial e portanto eu creio que sem tirar mérito a Carlos Moedas e à sua estratégia, à escolha de Rui Rio, que devem ter realçado, ainda mais nesta circunstância, é uma vitória extraordinária, mas é também, em grande medida, uma derrota do Partido Socialista e uma derrota de Fernando Medina pesada.

Fortalecendo a liderança de Rui Rio?

Creio que sim. Acho que não há outra leitura possível neste contexto. Foi uma escolha de Rui Rio. Até inicialmente eu lembro-me de ter escrito sobre isso para o Observador quando a escolha de Carlos Moedas foi anunciada, até uma escolha surpreendente, de facto de Rui Rio ter conseguido persuadir Carlos Moedas e de terem entendido que não seria, até pelo passado de Carlos Moedas no partido e na Comissão Europeia, não seria de todo óbvio que Rui Rio conseguisse ter Carlos Moedas como candidato a Lisboa, que se conseguissem entender nesse sentido. E depois porque, no fundo, Lisboa, como o próprio Rui Rio referiu na sua intervenção principal na noite de ontem, acaba por ser claramente a vitória mais importante para o PSD, para Rui Rio da noite de ontem, e a mais surpreendente e a mais impactante, mas não foi a única. Temos vitórias muito significativas em Coimbra, no Funchal, em Portalegre. Temos uma melhoria dos resultados nacionais para o PSD face a 2017, exceto, como referiu António Costa, o PS continua a ter mais câmaras e mais mandatos, também considerando a dinâmica das eleições autárquicas e o resultado histórico do PS em 2017, seria praticamente impossível que o PSD, por essa métrica, conseguisse quatro anos depois ter mais câmaras e mais mandatos. Mas acho que o balanço da noite eleitoral para Rui Rio é francamente positivo e pelo menos no curto prazo solidifica a sua liderança. E parece-me, por exemplo, que Paulo Rangel face ao resultado de ontem, terá visto diminuir muito substancialmente as suas possibilidades de no curto prazo chegar à liderança do PSD

Até porque o PSD vai ter diretas em janeiro. André Zêdo Alves, não lhe tomamos mais tempo, tem outros compromissos. Obrigada por ainda assim ter conseguido estar neste Contracorrente, onde começamos agora a ouvir os nossos ouvintes que estão inscritos. Daqui a pouco vamos ter também a análise do Paulo Ferreira e do Júlio Magalhães, mas peço-lhes que aguardem mais um pouco, porque chegou a altura de ouvirmos o empresário e gestor comercial Luís Guedes, que está a ligar do Porto. Bom dia.

Bom dia. Eu agradeço a oportunidade e saúdo toda a equipe da Rádio Observador, que é provavelmente, hoje em dia, a melhor rádio informativa que temos. Saúdo também o jornal, que é um dos melhores jornais e é um contrapeso necessário e fundamental a tanta mídia enviesada à esquerda que temos. Em relação ao José Manuel Fernandes, também saúdo, gosto de ouvir regularmente e concordo com a maior parte das ideias dele. Bom, eu vou fazer uma análise do que acho que mais interessa nestas eleições. Vai ser uma análise breve e concisa e peço que não interrompam, são dois, três minutos. Para dizer o seguinte: em relação às eleições, o que temos é uma clara vitória da abstenção, mais uma vez, desta vez com maioria absoluta, o que é uma pena e isto terá de ser visto no futuro para não haver tanta abstenção assim. Quanto aos resultados em si, temos que o PSD venceu em quase toda a linha e é o vencedor destas eleições em relação a 2017, que é o que conta, que é o ponto de partida. E, portanto, venceu o PS, que perdeu essas eleições. Apesar de António Costa dizer o contrário, como sempre gosta. Isto prova a aposta ganha e a estratégia certa de Rui Rio, quando quase todos diziam o contrário antes, incluindo o Observador, infelizmente, mas já lá vou. Isto prova que ele está a fazer um caminho lento, mas certo e de longo prazo. É uma oposição que não é, como eu disse em tempos, troglodita, é uma oposição responsável e séria. Na verdade, eu acho que os partidos que se chamam de oposição não se deviam chamar de oposição, deviam chamar de alternativa, porque alternativa não é sempre opor-se, mas por vezes é colaborar, que é o que ele está a querer fazer. E, portanto, a mudança agora começou, apenas. Isto só vai terminar em 2023, quando Rui Rio for eleito primeiro-ministro e começar as reformas que o país tanto precisa. Agora vou fazer aqui uma pequena ironia e uma pergunta retórica, espero que não leve a mal, mas há um tempo, há cerca de duas semanas, talvez, durante a campanha, houve um Contracorrente em que o José Manuel Fernandes perguntou: "Está tudo a dizer adeus a Rui Rio?" E eu acho que agora com isto podemos dizer que não, está mas é tudo a dizer olá a Rui Rio, que isto está agora a começar. E na altura, o José Manuel Fernandes perguntou isto e por essa altura também noutro programa, o Júlio Magalhães disse que isto ia ser uma derrota tremenda para o PSD, que depois das eleições Rui Rio iria sair e que Rui Rio tinha sido um erro de casto do PSD. Ora agora, em termos de ironia, isto não é pessoalizar, obviamente, é só para pôr à consideração. Gostava de perguntar se podemos agora perguntar: está tudo a dizer adeus a José Manuel Fernandes e se o Júlio Magalhães foi um erro de casto do Observador? Obviamente que não.

É ironia de retórica, Luís Guedes.

Mas é a consideração, claro. Agora, mais a sério, para terminar, as sondagens pré-eleitorais também se provaram uma inutilidade. Obviamente, também perderam essas eleições, provaram a sua inutilidade e um certo engano do eleitorado. Eu acho que devia se considerar talvez ou realmente uma grande mudança a nível dos critérios técnicos ou acabar com elas. E nesse caso, podíamos chegar até ao ponto de pôr à consideração a permanência ou não dos seus responsáveis. Portanto, talvez despedi-los ou eles se ganharam vergonha, peçam a demissão, porque realmente é um trabalho muito malfeito. Essas sondagens iludem e podem manipular o eleitorado. De certa forma, até o fazem. Pode haver interesses ocultos e até negócio com as sondagens, seja por políticos ou pela comunicação social. Eu acho que esta vergonha não pode continuar. Apenas deveriam ser permitidas sondagens à boca das urnas, que essas são reais e já não podem influenciar o eleitorado.

É uma questão que muitos países vão debatendo. Luís Guedes, muito obrigada. Lançou aqui várias questões da abstenção à liderança de Rui Rio e à oportunidade das sondagens. Obrigada pelos temas que aqui lança. Vamos abordá-los seguramente aqui no Contracorrente, mas agora vamos ouvir o José Batista, que liga de Setúbal, está reformado. Bom dia.

Olá, bom dia.

Bom dia, José.

Vocês estão com muitos cortes e prolongados. E isso já vem desde a intervenção de José Manuel, agora com este ouvinte continua, não sei o que é que se passa. Não sei se é realmente da minha comunicação, se isso esteja bom.

Não sei, vamos tentar corrigir, José Batista, ainda bem que nos avisas isso.

Mas olhe, e eu vou lhe dizer o seguinte, desculpe lá, mas isto tem sucedido várias vezes. Ainda esta noite sucedeu também, efetivamente, porque estive a ouvir e de facto chamo-vos à atenção, eu não sei o que é que se passa.

Obrigada por esse reparo. Quanto à análise às eleições.

As análises é assim: eu chego à seguinte conclusão, temos muita retórica e o que nós temos de ter é ação. Ouça , nunca tivemos tanto poder efetivamente na política e os problemas estão para ser resolvidos. Eu ainda ontem, efetivamente, ouvi o Carlos Moedas no seu discurso e há uma coisa que eu totalmente em desacordo com ele, e eu acho que efetivamente as pessoas têm que ponderar. Eu não sei, às vezes também cometo erros na minha comunicação, mas ele ontem disse uma coisa que eu não estou de acordo com ele. Ele disse que ninguém é dono da democracia. Ora bem, tudo quanto eu sei é que demo significa povo, cracia significa poder, portanto, o povo tem o poder e se o povo efetivamente existe e tem o poder, isto é democracia. Portanto, isto já é o primeiro erro. E agora eu espero, efetivamente, que ele cumpra as promessas que prometeu o mais rapidamente possível, porque teoria nós temos muita já. Agora temos que efetivamente é passar à ação e resolver os problemas. De facto, em relação à perda da Câmara Municipal de Lisboa e outras câmaras, em relação ao PS Sabe o que eu esperava e espero que no futuro? É que efetivamente o senhor António Costa, lhe chamam até doutor, mas eu não o trato por doutor, porque eu creio que ele não é doutorado. Ele é licenciado, tem uma licença como um comerciante para vender peixe. Portanto, os doutores têm que ser doutorados, têm que fazer mestrado e têm que ser doutorados. Portanto, isto aqui tudo está viciado. Bom, eu estou a fugir um pouco ao tema e vou lhe dizer o seguinte: acho muito bem que efetivamente a alternância do poder chegue. E com isto, efetivamente, a propaganda que este senhor fez durante a campanha eleitoral com a arma que utilizou, a tal arma que eu até sinceramente tenho uma certa dificuldade em dizer esse nome. De facto, essa arma às vezes as pessoas utilizam para se autodestruirem elas próprias. E de facto foi o que aconteceu, e espero que no futuro este Partido Socialista e este senhor António Costa sejam erradicados efetivamente do poder. E eu não lhe digo mais nada. Bom dia e obrigado.

José Batista, nós é que agradecemos. Obrigada também. O José Batista, este ouvinte quer que as promessas que foram feitas durante a campanha sejam cumpridas e que haja resultados visíveis. Chamamos o próximo ouvinte. Diogo Chaves, muito bom dia. O senhor é gestor, está ligado de Lisboa. Bem-vindo.

Bom dia. Olhe, eu só queria fazer dois pontos. O primeiro é em Lisboa, e acho que tem que se olhar para o caso Margarida Martins, o impacto que teve na não eleição do Medina. Se olharmos para os números dessa freguesia, vimos que o PS aí perdeu cerca de 35% dos votos e, portanto, que é a maior queda que tem em todas as freguesias de Lisboa e, portanto, com a proximidade de votos e qual é que foi o impacto nas outras freguesias quando Medina não se distanciou de Margarida Martins e reforçou a confiança política e pessoal que tinha numa pessoa com um comportamento completamente inaceitável. O segundo ponto vai para o Bloco de Esquerda. Tem-se falado da liderança do Rui Rio, da liderança do Jerónimo Martins e a liderança de Catarina Martins. Um partido que nas presidenciais perdeu dois terços dos votos e que agora nas autárquicas perde 20% dos votos versus há quatro anos. Perdeu dois terços dos vereadores e perdeu um terço dos deputados das assembleias municipais. O Bloco de Esquerda ontem teve uma derrocada eleitoral e num dos maiores atos de cobardia política, Catarina Martins não deu a cara e não precisava de Lisboa para perceber que tinha sido uma derrocada eleitoral e, portanto, fugiu. E uma vez mais, desculpem-me, a comunicação social não está a dar a devida atenção à derrocada eleitoral do Bloco de Esquerda, que está a desaparecer. E Catarina Martins continua a sorrir, continua a ter uma exposição mediática completamente anormal para a irrelevância que o Bloco de Esquerda se está a tornar. E era só isto que eu queria dizer. Muito obrigado e bom dia.

Diogo Chaves, obrigada nós. Muito bom dia aqui com dois dados importantes também para a discussão, a grande derrota eleitoral do Bloco de Esquerda e o impacto que o caso da até agora presidente da junta Margarida Martins, junta da freguesia de Arroios, terá tido para a derrota de Fernando Medina. Muitas opiniões a chegar aqui neste Contracorrente e agora Vanessa Cruz, também as opiniões que os nossos leitores vão deixando nas nossas várias plataformas digitais. Estiveste a ler vários comentários e vais escolher alguns.

Há uma série deles. João Floriano defende que o voto contra Medina e o PS tem significado e deve ser lido. Diz este ouvinte: "Não considero que seja uma aprovação de Rui Rio, mas sim o apostar num novo PSD. Rui Rio tem dois caminhos: ou continua a não ser oposição a António Costa, ou entende os ventos de mudança. Em qualquer dos casos, o que se passou ontem não lhe garante a permanência na liderança. E o PS, embora diga que tudo são rosas e a união seja indiscutível, deve estar aqui inquieto com a sucessão." Vasco Alves diz que enquanto líderes, António Costa e Rui Rio viram cartões laranja nestas eleições autárquicas. Não dou muito por Rui Rio. Não sei se não cairá muitos anos antes de António Costa. É a opinião deste ouvinte. Temos também Pedro Ferreira, diz que é preciso ter muita lata para António Costa vir dizer que a maioria dos votos que perdeu foram para a CDU, só para passar manteiga no Jerónimo de Sousa, a fim de que a CDU o ajude mais uma vez no orçamento do Estado. E ainda Miguel Falcão e Silva diz que as autárquicas serviram para todos os partidos, mas quem levou com consequências maiores é o PS. A campanha de associar a bazuca ao partido, promessas de obras por executar e outros episódios fazem com que haja aqui um aviso à prepotência e à arrogância do Partido Socialista. É a opinião deste ouvinte, que deixa ainda uma pergunta para José Manuel Fernandes: o que se passa com as empresas de sondagens? Já é a segunda vez que temos eleições com problemas nas previsões.

É uma pergunta que está a ser recorrente por parte dos nossos ouvintes, o que se passa com as empresas de sondagens. Júlia Magalhães, pode ser uma boa deixa para ti, porque de facto, ao longo das últimas duas semanas, era quase garantido que Fernando Medina iria vencer com alguma tranquilidade Lisboa.

Pois é, de fato. E não era só eu que pensava assim, pensava o país quase todo, porque não era só Fernando Medina, era o PS. No início da campanha eleitoral, não havia ninguém que vaticinasse uma derrota do PS, nem de Fernando Medina em Lisboa. O que mudou nesta campanha eleitoral, e nós fomos mudando também nos nossos comentários, há bocado o que o nosso ouvinte estava a referir-se também a mim. Nós fazemos comentários e temos que correr riscos, ou optamos fazer um comentário, como se diz agora que está na moda, fofinho, em que nem sim, nem não, ou então fazemos comentários, opinamos e enganamos, como é óbvio, não querendo politizar. Che Guevara dizia que não queria renunciar nunca à deliciosa liberdade de se enganar. E claro que nos enganamos todos, e eu também. Mas isto teve um contexto, quero felicitar e saudar o ouvinte de há pouco. Simpático, até fez algumas críticas.

O José Batista.

Sim, não disse que o Rui Rio era um recraso para o PSD. O que eu disse é que o Rui Rio tem uma forma de fazer política, germanizou, de alguma maneira, a política em Portugal, é o estilo dele, que eu até aprecio, por acaso, mas estava no sítio errado, porque ele andou estes quatro anos a combater contra o seu próprio partido, que não gosta da política que ele faz. Esta não é uma vitória política, na minha opinião, de Rui Rio, é uma vitória da ética política de Rui Rio. E Rui Rio andou estes quatro anos inclusivamente a apoiar o governo, a não combater o governo, não se aproveitar da pandemia, que é isso tudo que os partidos não fazem em Portugal. E portanto, quando partiu para estas eleições, dentro do PSD, os seus opositores puseram-se a caminho porque perceberam que isto ia ser uma derrota política do PSD, e é essa a convicção que toda a gente tinha, que havia poucas possibilidades. Contexto que mudou foi, na minha opinião, António Costa, que não seguiu uma ideia que é muito de Marcelo Rebelo de Sousa, que é fazer-se de morto. Acho que no início da campanha, se António Costa tem feito campanha, uma campanha normal, uma campanha humilde, sustentada apenas na pandemia e na necessidade que era preciso de ajudar as pessoas e não na bazuca, em promessas indescritíveis, em dezenas de promessas, em querer se tornar o protagonista e o grande vencedor da pandemia e do país e prometer um país idílico que as pessoas sentem que não vai ser, porque vamos ter momentos muito difíceis. Não fosse esta campanha tão egocêntrica de António Costa e provavelmente o PSD não teria estes resultados, porque era para isso que se encaminhava o país e se encaminhavam os resultados eleitorais. Ora António Costa mudou completamente o contexto da campanha, fez uma campanha à portuguesa, à política portuguesa, e Rui Rio manteve a sua linha. Eu ainda ouvi dizer na quinta-feira numa resposta a propósito da candidatura e do que andava a fazer Paulo Rangel com outros candidatos, a fazer um caminho paralelo, uma corrida à liderança do PSD, ouvi o Rui Rio dizer que não comentava, só disse: "Eu não o faria. Se fosse eu, não faria uma coisa destas, mas não comentava o que eles andavam a fazer". O que é prova da ética política que o Rui Rio tem. E por isso, daí estes resultados, que são bons para Rui Rio, que a mim não me garantem que o Rui Rio continue no PSD. Eu acho que Rui Rio está cansado da política portuguesa, está cansado desta política à portuguesa, está cansado do combate que tem travado, não só contra o governo, que é obrigatório, que é a obrigação dele, que tem que travar, mas também com o combate que tem feito no seu próprio partido. E por isso, não tenho como garantido que Rui Rio continue no PSD e não bata com a porta e diga: "Agora fiquem vocês com o partido", embora ofereça agora também de bandeja aos seus opositores uma melhor situação do que aquela que ele herdou. Portanto, vai depender muito do que vem aí. Rui Rio deve ter agora muita gente no partido a dizer: "Não vás embora", quando teve até agora mais metade do partido a pedir para ele sair embora do partido. E portanto, nós vamos alterando a opinião também em função daquilo que vai acontecendo, também damos opinião e fomos fazendo as nossas contas e vamos também olhando muito para aquilo que é o panorama do país. E isso aconteceu em Lisboa.

E em 10 segundos, Júlio, depois tens tempo.

Está bem. Peço desculpa. Só muito rapidamente e depois voltaremos. Até gostava também de falar do Porto. Falamos muito de Lisboa. O que aconteceu em Lisboa foi o que aconteceu no Porto há muitos anos, quando uma campanha arrogante também de Fernando Gomes e quando toda a gente achava que a vitória de Fernando Gomes era absoluta e inequívoca, e Rui Rio ganhou a Fernando Gomes. Na altura, Rui Rio ganhou, foi muito Fernando Gomes que perdeu. Julgo que em Lisboa aconteceu também a mesma coisa.

Aconteceu a mesma coisa. E vamos olhar melhor para isso e também para o Porto. Este Contracorrente tem um formato especial, é alargado até ao meio-dia para ouvirmos os nossos ouvintes, o máximo de ouvintes possível sobre a análise às eleições autárquicas. O José Manuel Fernandes lançou o tema e agora, José Manuel, e fazendo um balanço daquilo que foi a intervenção dos nossos ouvintes e das opiniões deixadas aqui, gostava de te ouvir, mas puxando pela questão das sondagens, porque foi um tema recorrente em muitas das intervenções. Elas podem, de fato, estar a inquinar a análise política?

As sondagens são de fato muitas vezes um problema, porque as sondagens têm sempre uma questão que é difícil de descortinar. Ou melhor, duas questões, que é por um lado, as sondagens nunca medem bem a abstenção E por outro lado, as sondagens têm sempre um grande número de indecisos. Habitualmente o que se procura fazer nas sondagens é perguntar quais são as inclinações das pessoas, se tendem a votar, se estão inclinadas a votar, para tentar perceber a abstenção e depois também se entre os indecisos, qual é o partido da preferência, tentar também ter mais indicações pra não fazer uma distribuição dos votos unicamente de acordo com as pessoas que declaram o seu voto. E tudo isto tem obviamente problemas. Se nós olharmos, por exemplo, para o caso que toda a gente está atento a ele, que é Lisboa, nós notamos que uma das coisas que parece ter ocorrido foi uma variação da abstenção. Uma parte do que aconteceu e que justifica a vitória de Fernando Medina, foi uma variação da abstenção. O que eu quero dizer com isto? Quero dizer que uma parte dos eleitores de Medina de há quatro anos ficaram em casa e uma parte dos eleitores que foram votar em Carlos Moedas eram abstenção de há quatro anos. Como é que eu chego a esta conclusão? Chego a esta conclusão olhando para os números. Portanto, não é só uma travessia direta, não é só eleitores de Medina que se transferiram para Carlos Moedas. De facto, o total de votos de Carlos Moedas, que são 83 mil, é pouco superior aos 80 mil, que é a votação total do CDS com o PSD e mais os partidos coligados de há quatro anos. Mas não nos podemos esquecer que a Iniciativa Liberal e o Chega têm em Lisboa, cada um deles, mais de 10 mil votos. Somados têm 21 mil votos. Estes votos vêm de algum lado. O conjunto dos partidos que se situam entre a direita e a centro-direita avançam, somados, 24 ou 25 mil votos. De onde é que vêm estes votos? Estes votos não vêm só de eleitores que Medina perdeu, porque Medina de facto passa de 106 mil votos para 80 mil. Perde 26 mil votos, é uma hemorragia enorme. Há aqui, de facto, uma perda muito grande e o eleitor que chamou a atenção para que é sobretudo Medina que perde votos, tem toda a razão. Quando nós olhamos depois para as freguesias, percebemos que as freguesias situadas mais à direita, digamos assim, ou que também elegem por exemplo, juntas de freguesia de direita, como por exemplo Restelo, a abstenção diminuiu. As pessoas foram mais votar desta vez do que foram há quatro anos. E nas freguesias que votam tradicionalmente mais à esquerda, a abstenção aumentou. Isto é um sinal de que os eleitores de esquerda aparentemente ficaram no sofá e os eleitores de direita que ficaram no sofá há quatro anos mobilizaram-se desta vez. Nem todos foram votar em Carlos Moedas, alguns foram votar na Iniciativa Liberal e outros no Chega. E estas movimentações quando passam pela abstenção são muito difíceis de detetar em sondagens. Eu não estou a desculpar as sondagens, porque há erros em todo lado. Quer dizer, as sondagens enganaram-se nas eleições americanas em 2016 de forma estrondosa. Nenhuma deu a vitória a Donald Trump, e Donald Trump ganhou as eleições em 2016. Tem havido erros em sondagens em todo o mundo.

Sim, no referendo, exatamente, e também em referendos europeus.

Em referendos europeus. Tem havido muitos erros em sondagens, em eleições muito importantes e com empresas superexperientes e com amostras maiores que as nossas. E como eu disse, é muito difícil fazer em eleições locais, que ainda por cima têm habitualmente um desvio a favor do incumbente. No tempo em que eu estava mais diretamente ligado à imprensa de sondagens e trabalhava diretamente com as empresas de sondagens, houve um ano, inclusivamente, em que desistimos de fazer sondagens telefónicas para eleições locais, porque a certa altura achámos que aquilo não era fiável. Eu admito que entretanto os métodos melhoraram, as coisas melhoraram, mas há de facto aqui um problema com as sondagens que não sei se é facilmente ultrapassável. Agora, na minha perspetiva, não justifica que se tornem opções de líderes políticos.

E que seja uma vigarice, para usar a expressão de Rui Rio?

Não penso que seja uma vigarice. Seria uma vigarice se fossem encomendadas no sentido de: "Olha, dá-me este resultado, porque é este resultado que me dá jeito pra campanha eleitoral." Isso é que seria uma vigarice. Elas são erradas porque são erradas, porque saem mal, porque quem as faz não consegue fazer melhor. Eu conheço os técnicos que fazem muitas daquelas sondagens, os responsáveis técnicos, e sei que eles estão a tentar, na medida do possível, corrigir os erros das sondagens e fazer o melhor possível. E que há, de facto, dificuldades em resolver este problema. Eu vou dar um exemplo de uma coisa que, inclusivamente, na altura eu trabalhava no "Público" e nós fizemos uma reportagem sobre isso. A maior parte das sondagens hoje recorrem ao método do telefonema para casas de pessoas. Mas pensa-se que, por exemplo, quando se tenta recolher o voto em urna, as pessoas tendem a votar de forma mais genuína, porque não têm que confessar a ninguém em quem é que estão a votar, e isso pode ser mais válido do que, por exemplo, uma eleição local, em que não há proximidade com o autarca e não há aquela desconfiança, coisa assim do gênero. Por exemplo, recolher o voto em urna Numa cidade como Lisboa, onde hoje em dia a maior parte das casas tem a porta de acesso ao prédio fechada, implica deixar que a pessoa que trabalha para a empresa de sondagens entre no prédio. E aí está a primeira dificuldade. Muitas vezes, quem anda a fazer esse trabalho tem um determinado método para ir de prédio em prédio, de porta em porta, dar determinados passos para manter a aleatoriedade da sondagem e depois não consegue entrar nos prédios, pura e simplesmente.

E dificulta bastante os resultados.

E são coisas que as pessoas às vezes não sabem e que levantam problemas tremendos à realização deste tipo de estudos.

José Manuel Fernandes, já vamos continuar a conversar. Temos também em linha um dos habituais comentadores do Observador, o professor Jorge Fernandes. Bom dia. Jorge Fernandes, ia começar por lhe pedir uma análise mais genérica às eleições, mas esta discussão também é importante e gostava de ouvir sobre isso. As sondagens ganharam, de facto, um peso excessivo no debate político, correndo o risco de deturpar muito da discussão?

Bom dia. Antes, mais uma análise genérica do que se passou ontem à noite. Em primeiro lugar, e acho que talvez repetindo, eu não estou a acompanhar o programa desde o início, mas talvez correndo o risco de repetir algo que o José Manuel Fernandes já disse, acho que ontem à noite foi uma noite altamente positiva para a democracia portuguesa. Acima de tudo, porque começava-se a instalar uma certa ideia de que o Partido Socialista começava a dominar completamente e de forma inexorável não só o aparelho executivo, mas também o aparelho local, etc. É fundamental que exista a percepção por parte dos agentes políticos, para que exista uma boa qualidade da democracia, de que a qualquer momento os eleitores podem, posto de maneira bastante popular, corrê-los do lugar onde estão instalados. E acho que Fernando Medina, de alguma maneira, foi vítima disso, na medida em que foi completamente complacente. E o próprio António Costa também. Eu acho que a partir de certa altura, tanto Medina como António Costa viveram numa pequena bolha autoalimentada, em que tinham a certeza absoluta que o Partido Socialista dominava o país todo e Lisboa também, e que era completamente impossível qualquer tipo de derrota. Aliás, foi por isso que António Costa apostou tanto capital político nas eleições. Estando fortemente envolvido em comícios, etc. Portanto, se António Costa tivesse a percepção de que eventualmente as eleições poderiam correr pior, o que faria seria resguardar-se de alguma maneira e deixar os representantes locais como os únicos responsáveis para dar a cara, digamos assim, tanto na campanha eleitoral como depois na eventual derrota. Medina foi claramente vítima de complacência, e aliás, isso explica em grande parte o que vocês estavam a falar há pouco relativamente aos números da abstenção. O que aconteceu, eventualmente, é que muitos eleitores de esquerda foram desmobilizados porque tinham a certeza absoluta da vitória de Medina e que nem sequer era necessário ir às urnas para garantir a vitória. Aliás, isso é um fenômeno clássico que acontece muitas vezes em eleições dessas, quando há a certeza absoluta de vitória, os eleitores podem ou dispersar para os partidos mais pequenos à esquerda, ou podem eventualmente até ficar em casa e dispersar completamente na eleição. Isso é um fenômeno absolutamente central. Neste momento, a distribuição de câmaras, tem cerca de 35 a 40 câmaras a mais do que o PSD. No entanto, não são as câmaras mais importantes. Neste momento, das grandes capitais de distrito, o PSD controla Braga, Aveiro, Lisboa, Coimbra. No caso do Porto, apesar de ser Rui Moreira que controla, toda gente sabe que sociologicamente a maioria que suporta Rui Moreira é de direita. Rui Moreira é um candidato de centro-direita, claríssimo. Estas eleições foram acima de tudo importantes para mostrar não apenas a fragilidade do poder socialista, não é por aí, mas garantir que os agentes políticos tomem mais em consideração as opiniões e as preferências da população. Porque a incerteza quanto ao resultado eleitoral gera o maior alinhamento, e nós sabemos isso, na ciência política, gera o maior alinhamento entre aquilo que os políticos fazem e as preferências da população. Isso é uma coisa absolutamente fundamental. Relativamente às sondagens, que vocês estavam a discutir aí há pouco, acho que as sondagens dificilmente conseguem captar esta situação que estávamos a falar. A certeza absoluta ou a percepção, a narrativa de que há uma vitória completamente assegurada cria enviesamentos nas sondagens que são difíceis de capturar. E depois, por outro lado, é preciso ver que o que nós sabemos da indústria das sondagens, em Portugal e noutros países, é que geralmente as sondagens são importantes enquanto múltiplos pontos de observação da realidade. Nós conseguimos ter uma boa noção da realidade quando temos muitas sondagens a captar com diferentes pontos e o ponto médio das múltiplas sondagens é que nos dá uma aproximação à realidade. Na última semana, reparem que houve duas sondagens publicadas relativamente a Lisboa O que é basicamente nada para fazer qualquer tipo de inferência. Portanto, na realidade, e isto faz parte de uma crise mais genérica do jornalismo português do ponto de vista dos recursos. Nós temos poucas sondagens, por um lado, e sondagens em geral com poucos recursos. A indústria de sondagens faz aquilo que é possível ser feito com os recursos que lhe são oferecidos e com as encomendas que são feitas pelos jornais. Reparem, por exemplo, tipicamente os Express tinham sempre uma sondagem no último dia. E o Express na sexta-feira não apresentou qualquer sondagem para Lisboa, o que pode ter sido um misto de certeza absoluta que Medina ia ganhar e que não era necessário gastar dinheiro com uma sondagem, ou não querer gastar recursos numa sondagem aparentemente desnecessária. E aqui estamos.

Sim. Jorge Fernandes, muito obrigada por ter trazido aqui estas reflexões sobre as sondagens que acabam, de alguma forma, por marcar a discussão nesta altura, mas também sobre a leitura e sobre aquilo que mudará ou não depois dos resultados de ontem. Paulo Ferreira, é nesse sentido que olhas para este day after, para o dia seguinte, o que é que sai?

Sim, é impossível não fazer leituras nacionais e da governação e do estado da oposição e da situação em relação aos resultados de ontem. Até porque há aqui, de alguma forma, um padrão. Nós estamos com seis anos de governo de António Costa, do governo socialista, da forma que nós sabemos, um governo minoritário que tem tido o apoio parlamentar do Bloco de Esquerda e do PCP. Os casos e as polémicas vão se sucedendo, como é normal nos partidos que estão no governo há algum tempo já. E nós estamos aqui a meio do segundo mandato. Se nós olharmos para trás, precisamente há 20 anos, quando houve também uma noite eleitoral autárquica que gerou a situação de pântano que Guterres queria evitar e por isso se demitiu, estamos precisamente também no mesmo ciclo político de António Guterres. Tinha cumprido mandato, estava a meio do segundo, também com minoria, nesse caso, Guterres nunca teve maioria absoluta e o desgaste também já era assinalado. E se recuarmos mais ainda, a 93, Cavaco Silva, na altura, também estava a meio do seu segundo mandato, daí com maioria absoluta, e também teve perdas autárquicas importantes. Portanto, uma das coisas boas da democracia são estes equilíbrios, de alguma maneira, que vão ocorrendo de tempos a tempos, porque o regime democrático acaba por ter válvulas de escape, de alguma maneira, para se proteger ele próprio e para evitar que haja desequilíbrios muito grandes. E eu penso que esse é um dos primeiros casos. Nós não podemos olhar para isto sem pensar em todas as polémicas do ministro Eduardo Cabrita, toda uma arrogância, uma soberba que se vai notando, e o PS é um partido muito dado a esse tipo de ocupação, se quisermos, do espaço público, quer o midiático, quer o espaço da máquina do Estado, os pequenos casos que vão acontecendo de negócios pouco claros que envolvem o governo ou o Estado. Não é o governo, é o Estado, no caso. Portanto, tudo isto vai andando e António Costa parece que tinha ganho um certo escudo protetor.

Imunidade.

Imunidade. Tipo aquele tecido muito impermeável em que a chuva bate, mas nota-se perfeitamente que elas saltam fora e não pegam. E eu penso que estamos um pouco nessa fase do ciclo e em Lisboa a mesma coisa, de alguma maneira. Lisboa era um pouco reflexo disso também. A forma como o Medina geriu o tema dos e-mails enviados para as embaixadas, nomeadamente para a embaixada da Rússia, em que demitiu sumariamente em público um funcionário que provavelmente teria feito pouco ou nada sobre aquilo, mas mantendo o gabinete obscuro de apoio à presidência onde tudo aquilo se passava mudando só o nome. Depois nunca mais deu sequência a isso. Os abusos das Juntas de Freguesia. Eu acho que o caso exemplar de Margarida Martins na última semana é um caso disso. Não é o primeiro que envolve aquela presidente de junta de Arroios, de abuso do Estado, claramente. "O Estado sou eu, eu faço o que quero e o que me apetece com os meios do Estado, com o dinheiro dos contribuintes e nada me acontece".

E como dizia um ouvinte nosso, Fernando Medina não se demarcou desse episódio.

Antes pelo contrário, ele disse que mantinha a confiança política nela. E isto visto de fora, nós percebemos, há amizades, há ali obviamente vínculos pessoais, o que é normal que as pessoas criem também, mas depois chega-se a um ponto em que não se separa aquilo que são as relações pessoais dos interesses públicos e sobretudo da gestão da coisa pública. E a Câmara de Lisboa foi se tornando nisto também de alguma maneira. E depois há outras câmaras em que isso aconteceu seguramente, até porque entre ganhos e perdas, depois cada caso é um caso. Mas eu penso que é difícil não olhar para isto e não tirar um pouco essa lição. Depois leva-nos à velha questão de saber se são os vencedores que vencem, se são os produtores que perdem. Foi Carlos Moedas que ganhou, foi Fernando Medina que perdeu. Aquilo que dizem os analistas e os livros é que são os governos que perdem eleições, não são as oposições que as ganham. Mas pelos vistos, Carlos Moedas acertou no tom, de alguma maneira, pelo menos para garantir a confiança de uma série de eleitores que estavam afastados do seu espaço político, do PSD, que teve um resultado desastroso há quatro anos e que voltaram a esse espaço político. E conseguiu essa confiança e obviamente é uma grande vitória, a vitória é sobretudo dele. E Medina perdeu com este, eu diria, pântano, não o pântano de Guterres há 20 anos, mas esta forma pantanosa de ir gerindo a coisa pública, quer no país, quer em algumas autarquias. E depois falhanços importantes em políticas como a habitação, o trânsito, obviamente, apesar de muito mitigado por um ano e meio por causa da pandemia, mas o trânsito em Lisboa é caótico de alguma maneira. Questões de limpeza da cidade e depois um foco em questões que eu provavelmente não estou a dizer que não sejam importantes a médio e longo prazo por causa das questões climáticas, mas que provavelmente dizem muito pouco a alguns eleitores, que são cada vez mais os eleitores de Lisboa, que têm uma população cada vez mais envelhecida. A questão das ciclovias, por exemplo, e das formas suaves de circulação, como se chama, os transportes extraordinários e por aí fora. Até que ponto é que isso é uma vantagem eleitoral, de alguma maneira, numa cidade como Lisboa? Criou-se aqui um caldo de calendário, de desgaste de governação, que levou, de alguma forma, a este resultado. Agora, a grande questão é saber como é que isto vai ser capitalizado por uns nos próximos meses, nomeadamente por Rui Rio e o PSD, e que mudanças é que vai provocar na governação e nomeadamente na condução que António Costa faz do governo. Vamos ter finalmente a tal remodelação? Eduardo Cabrita vai sair? Quem é que sairá com ele? Eu reforço Eduardo Cabrita porque eu acho que nunca vi um abuso tão grande de um primeiro-ministro, uma teimosia tão grande. Perante a evidência da impreparação ética, moral e até técnica de Eduardo Cabrita, numa pasta crítica como é a administração interna, tanta teimosia de um primeiro-ministro em manter porque sim. É porque António Costa acha que pode fazer o que quer e que não pagam o preço político por isso.

Vamos aguardar para perceber se muda alguma coisa com os resultados de ontem e vamos ouvir e continuar a ouvir os nossos ouvintes. O Nuno Rosa liga de Lisboa, é enfermeiro. Bom dia, vai dar-nos agora a sua opinião. Bem-vindo.

Bom dia. Em primeiro lugar, queria uma vez mais agradecer a oportunidade, obviamente, mas em primeiro lugar, deitar aqui um grande parabéns ao Observador e na pessoa do José Manuel Ferreira.

José Manuel Fernandes, co-apresentador Ferreira.

Exatamente. O vencedor é ele. Se tivéssemos acompanhado atentamente as suas últimas intervenções e publicações nossas ao longo da última semana, percebemos que ele é um dos grandes vencedores destas eleições, à sua maneira. Também para a Carla Jorge Carvalho, um enorme parabéns, porque com a Rádio Observador tornou-se aqui evidente o enorme talento para a rádio, uma voz excelente, simpática e uma pivô com uma habilidade e um talento enorme para a gestão de vários intervenientes do Observador, de fora do Observador, como é o meu caso. Os meus parabéns para ambos e para o Observador.

Muito obrigada. Vou usar esses elogios que me atribui para o canalizar então, por favor, para a análise às eleições, Nuno, e obrigada.

A habitual habilidade. Eu vou despachar num instante. Relativamente às eleições, dois ou três pontos. Sendo que, por exemplo, aqui um está um bocado interligado com o outro, que tem a ver com a vitória do PSD ou a derrota do PS. Para o PSD, infelizmente, resfriando um bocadinho os ânimos, vai ser preciso muito mais do que vencer eleições, na mesma medida em que para o PS perder poder vai ser preciso muito mais do que perder eleições. O PSD perdeu a muitos níveis na sociedade portuguesa e a sua capacidade de intervir na sociedade portuguesa está extremamente diminuída e na mesma medida em que o PS/esquerda estão muito fortalecidos. Já se falou aqui, um ouvinte referiu isso aqui muito ao de leve, mas que lá está, é um tema que não tem muita tração e que não pega muito, que é o facto da discussão em torno das derrotas do Bloco de Esquerda, da importância do Bloco de Esquerda, que é uma discussão que é inexistente. É um partido que existe aqui na zona da baixa de Lisboa, na zona entre o Intendente e Santos, e que tem essa implementação, mas que tem uma voz e uma visibilidade e uma intervenção na sociedade portuguesa que estão, eu até diria relativamente ao PSD, a milhas de distância. E que intervêm e que influenciam muito as coisas e têm essa capacidade para. Que o PSD perdeu. Ao PSD, para ter poder e para intervir no país da maneira como eventualmente possa querer, vai ser preciso muito mais do que ganhar eleições no curto, médio prazo. Outra questão tem a ver aqui muito rapidamente com o elefante no meio da sala que existe sempre em muitas discussões, que nós vamos tendo, que se vão havendo na sociedade, nas mídia, e que tem a ver, no caso concreto das eleições, com a performance do Chega. O Chega, de repente, nas suas primeiras eleições autárquicas, é quase ou praticamente, ou está a par do PCP, que é um partido emblemático ao nível do poder autárquico, é um partido histórico, e o Chega chegou nas suas primeiras eleições autárquicas e está aqui praticamente a par. Não estará a par, mas surge em muitos distritos, em muitos concelhos, como terceira força nacional. Isso já foi referido, de facto, não tem nenhuma bandeira assim grande para mostrar, nenhuma câmara ganha, mas não sei se é preciso.

Mas está em crescimento. Nuno Rosa, muito obrigada pela sua intervenção.

Bom dia. Obrigada.

Um bom dia para si e bom dia também para o economista António Coelho, que está a ligar de Setúbal e agora vai dar também a opinião sobre estas eleições e fazer uma análise breve, assim esperamos. António, bom dia, bem-vindo.

Bom dia. Em primeiro lugar, gostaria de dirigir ao José Manuel Fernandes uma palavra de reconhecimento por aquilo que ele tem conseguido fazer, eu diria quase que numa voz única, no contexto da comunicação social portuguesa e no contexto dos comentadores portugueses. Porque de facto, estou lembrado de um dos últimos "Contracorrente" a propósito da Galp e ter a coragem de chamar António Costa o mais populista e mais perigoso populista do que o André Ventura, não é para todos. Em Portugal, não é para todos. E por isso há que reconhecer que ainda vamos tendo algum alento com estas vozes que têm a coragem de se levantar contra um poder hegemônico. Porque é mesmo um poder hegemônico, um poder esmagador, muito mais do que aquilo que os comentadores vão comentando por aí. Alguns deles ditos da direita moderada ou do centro-direita, mas que embarcam claramente no politicamente correto e também naquele comboio, que é o comboio do poder, seja ele do António Costa ou de outro qualquer. Isso de facto é que tem corroído de que maneira a democracia portuguesa.

E vê alguma viragem depois das eleições de ontem, António?

Não vejo nada, porque nenhum deles vai reconhecer que errou, nenhum deles vai reorientar o seu discurso, porque o comboio continua, felizmente ou infelizmente, a ser o mesmo, com algumas mossas. Mas o que é facto é que eu continuo a dizer: a sociedade portuguesa é pobre. Não vale a pena querer mascarar as coisas. E como é pobre, é subserviente. Então, se nos meios de comunicação social, todos os dias as pessoas são bombardeadas com uma lógica de uma pseudoesquerda, aquilo não é uma lógica de esquerda, aquilo é uma lógica de um poder que está a ser exercido, com a roupagem de esquerda, mas que depois na prática a gente vê que são sempre os mais desfavorecidos, que são sempre aqueles que continuam a ser cada vez mais desfavorecidos. A verdade é essa. E até se vê pela própria geringonça, como é que o PCP e o próprio Bloco, que se dizem uma vanguarda de uma esquerda revolucionária, o que é facto é que embarca alegremente em todas as asneiras, em todas as barracadas e em todos até os desfalques que grandes senhores do dito poder instalado vão cometendo, mas que encontram sempre algum conforto dessa gente. Para finalizar, também dizer outra coisa sobre as sondagens. Eu ouvi muito aquilo que disse o José Manuel Fernandes sobre as sondagens, concordo em boa parte, mas vou lhe dizer também outra coisa. É que sintomaticamente, normalmente as sondagens erram a favor da esquerda. Sintomaticamente, elas erram a favor da esquerda. E não é só cá, é também nos Estados Unidos, é também na Alemanha. Eu não sou adepto da teoria da conspiração, mas que lá vai, lá vai. E por isso, como dizem os espanhóis. E por isso, a verdade também é esta, porque eu nunca me lembro de ver grandes erros das sondagens que beneficiam o candidato mais à direita. Normalmente, é sempre o contrário.

António Coelho.

E isso terá que ter alguma explicação. Por isso, dizer-lhes que foi ótimo, continuar a dizer que o Observador, e nomeadamente o José Manuel Fernandes, é de facto uma voz única no panorama da comunicação social portuguesa. E por isso, eu acho que fundamentalmente mudou alguma coisa, é verdade. A conquista da Câmara de Lisboa é muito importante, mas atenção, é muito importante é que Carlos Moedas tenha a noção concreta do que é hoje a Câmara de Lisboa. A Câmara de Lisboa é um antro de corrupção, mas a todos os níveis. A começar nas freguesias. Não sei se as pessoas já se aperceberam, e era bom que fizessem uma investigação sobre isso. Há freguesias em que o presidente da junta de freguesia tem chefe de gabinete, tem assessores, são pequenas câmaras.

António Coelho, muito obrigada pela análise e por ter deixado aqui também essas ressalvas. Desejo-lhe um bom dia. Acelero para conseguirmos ouvir mais ouvintes. Gustavo Potier é gestor, está ligado de Lisboa, está agora em direto. Bom dia.

Bom dia. Olha, eu queria só dar uma pequena opinião sobre uma das freguesias que teve bastante influência na eleição de Carlos Moedas, que foi já referido pelo José Manuel Fernandes, que foi a do Restelo Belem. Ora, em Belem Restelo, havia um grande projeto de fazer cinco torres com 400 fogos de habitação social, ali no meio das torres do Restelo, num espaço que está ali livre, e que iria mudar completamente o âmbito social e habitacional da zona, numa zona nobre de Lisboa. Obviamente, as pessoas motivaram-se completamente e, no meu caso, só para dizer que a minha esposa e eu somos Iniciativa Liberal e fizemos um voto útil no Moedas, precisamente para evitar que esse projeto vá adiante. Portanto, isso, uma nota.

E isso pode ter sido um dos episódios decisivos para que Fernando Medina perdesse o mandato

Sim, exactamente.

Ou não renovasse o mandato. Para ser mais precisa. Gustavo Outier, obrigada por ter deixado aqui também este caso. Às vezes não há só leituras nacionais e é por questões destas locais que os votos são decididos. Muitas opiniões esta manhã. A Vanessa Cruz tem estado a ler aquilo que é deixado em comentário pelos nossos leitores e agora uma nova seleção de opiniões. Vanessa.

Meia dúzia de comentários. Bruno Miguel Reis diz que estes resultados eleitorais legitimam Rui Rio como candidato do PSD às próximas legislativas. É uma clara derrota do pacismo coelhismo. Já Jaime Almeida diz que este resultado para o PSD deve-se mais à saturação dos eleitores pelas práticas socialistas do que à intervenção de Rui Rio como alternativa. Temos também António Augusto a dizer que o sucessor de Rui Rio a seu tempo está encontrado, chama-se Carlos Moedas. Paulo Rangel comportou-se como um abutre, é a opinião deste ouvinte. Ainda Carlos Quartel: "Foi Costa que perdeu, não os candidatos. Sambarcou a campanha de norte a sul. Se António Costa tinha na mira criar condições para uma eventual maioria absoluta em legislativas, o tiro saiu pela culatra". Temos ainda Lídia Santos a perguntar: "Ninguém acha estranho que a Iniciativa Liberal só tenha um autarca?" E questiona também esta ouvinte: "Por que se dá enorme relevo à retirada da esquerda pelo PSD em Lisboa e nenhuma importância ao fracasso do Bloco de Esquerda provocado pelo Chega?" Isto porque, vale a pena aqui recordar, o Bloco de Esquerda perdeu influência em Lisboa e tem menos vereadores no país do que o partido de André Ventura. Ainda um último comentário, Carla Jorge Carvalho Hugo Silva: "O que esta eleição trouxe de positivo foi perceber que os líderes partidários influenciam muito pouco ou quase nada quando toca a eleições autárquicas".

Várias ideias deixadas aqui pela Vanessa Cruz. Lidos que estão os comentários que os nossos leitores vão deixando nas redes d'O Observador. André Abrantes Amaral, há tanto tempo a ouvir várias opiniões. Gostava, desde que me permite, relançar o que vai acontecer a partir de agora. Pode haver, e olhando a nível nacional, discussão de orçamento de Estado, diretas no PSD, pode haver um posicionamento diferente dos vários partidos?

Pode haver, mas eu gostava de falar do futuro, mas pegar aqui até numa sugestão do Júlio Magalhães, ir ao Porto e ver que, na verdade, o Partido Socialista foi o grande derrotado no Porto. Perdeu cerca de 14 mil votos. Passou de 28,5 para 18,2 e quase foi apanhado pelo PSD. Se juntarmos a isto o facto de Fernando Medina ter perdido cerca de 24, 26 mil votos, leva-nos à conclusão que o Partido Socialista foi o grande derrotado ontem, apesar de ter ganho mais Câmaras, de ter tido mais votos, mas foi o grande derrotado. E eu pergunto-me como é que vai ser o futuro do Partido Socialista nos próximos anos, até porque no último congresso não se quis falar da sucessão de António Costa, apesar de, em surdina, toda a gente mencionar isso. Na altura, julgo que até houve aqui um contra corrente em que eu também pude falar. E chamei a atenção para o seguinte, que é: sem António Costa, o Partido Socialista está extremamente dividido. E não é só dividido na luta entre personalidades, saber quem é o líder político. Há uma divisão ideológica que julgo que é bastante marcada dentro do PS, entre pessoas que têm o posicionamento de Sérgio Sousa Pinto e Francisco Asís, e outros como Pedro Nuno Santos. Sendo que, com essas eleições, uma das figuras que era próxima de António Costa e que poderia ser patrocinada por ele e fazer a ponte entre os dois campos, que era Fernando Medina, hoje foi derrotado e julgo que o seu futuro político está bastante posto em causa. Portanto, isto vai ser bastante importante no futuro e também para a forma como o Partido Socialista vai governar nos próximos dois anos, que ainda falta uma legislatura. E cá está a sua questão relativamente ao orçamento, que é como é que o PS vai chegar a entendimentos com o PCP e o Bloco de Esquerda, no que é que vai ceder, e no que é que esses dois partidos também vão ceder, tendo em conta que os resultados também não foram os melhores para eles. Os partidos que têm composto a geringonça, saíram enfraquecidos com essas eleições autárquicas.

Aliás, André, deixa-me interromper. Nunca saíram beneficiados em eleições desde que houve esse entendimento.

Sim, está bem. O Partido Socialista ganhou as últimas eleições. Nunca foi um choque como este e nunca lhes deu uma sensação de enfraquecimento. E o PCP, sem dúvida. Porque eu aqui estou a falar de um choque que foi generalizado aos três. Os outros dois não saíram muito beneficiados.

Sim, foi mais o PCP ou a CDU.

O PS foi beneficiado e isso fazia com que os outros fossem precisados a entender. Aqui o que há é que são os três que estão a ser prejudicados ao mesmo tempo. E a partir desse momento, cada um deles pode começar a questionar a razão de ser desta geringonça. Porque se a geringonça os prejudica a todos, possivelmente deixa de ser a melhor solução para eles. E nós sabemos que o motivo principal da geringonça foi afastar a direita do governo, única e exclusivamente essa. Mas a partir do momento em que esse efeito deixar de ser benéfico para esses partidos, ou essa estratégia deixar de surtir o efeito que eles pretendem, isso pode fazer com que o PS, Bloco de Esquerda e PCP se reposicionem e pensem bem no que vão fazer nos próximos dois anos.

E, portanto, este momento pode ser decisivo nessa matéria. André Abrantes Amaral, obrigada pelas análises e a abordagem que aqui trouxe. Temos mais um ouvinte para ouvir agora, o Luís Ribeiro. Liga de Lisboa e advogado. Bom dia.

Olá, bom dia. A minha intervenção vai focar-se em Lisboa, precisamente para tentar concluir algo a nível nacional. Ora bem, de um ponto de vista da votação e do eleitorado que votou Carlos Moedas, o que eu penso é que as pessoas não se importam verdadeiramente com planos, projetos ou programas eleitorais. Não há ninguém que ligue verdadeiramente a isso. O que é importante são as pessoas, são os líderes. Houve alguém que dizia que os líderes partidários não tiveram peso nestas eleições. Estou completamente em desacordo, como também estou em desacordo, por exemplo, com o José Manuel Fernandes quando insistentemente foca o aspecto de Rui Rio não ter programa ou alternativa. Mas Rui Rio é a conclusão. Deixem-me focar primeiro em Carlos Moedas. Carlos Moedas, de facto, ele próprio não estava à espera de ter ganho. Basta repararmos a forma como eles tinham preparado o discurso final. Aquilo era uma confusão tremenda, não havia espaço para ninguém, contrariamente ao Partido Socialista que estava, não sei, num palácio lá na Vila Galé. Houve aqui, de facto, uma surpresa. Não é possível também falarmos demasiado nas sondagens relativamente a terem falhado ou não terem falhado. As sondagens não falham, como dizia ontem também alguém. As sondagens são uma projeção e baseiam-se nos dados que utilizam. Por que as sondagens erram tanto? Porque as pessoas alteram o seu sentido de voto. Muitas das vezes, as pessoas não têm uma convicção plena porque não estão informadas verdadeiramente. Terão os seus problemas de bairro, das cidades, mas focam-se nas pessoas que vão executar as questões, porque depois, verdadeiramente, o que importa é a forma como as pessoas trabalham, é a forma como resolvem os problemas. Vai ser interessantíssimo ver como é que Carlos Moedas vai fazer o trabalho no executivo da câmara. Vai ser fabuloso. E isso vai responsabilizar tremendamente também a própria esquerda. Reparem que ontem Fernandinha não disse que ia ser vereador. Isso é que era de valor também, apesar de ter feito um discurso altamente digno. É de assinalar isso. Portanto, Carlos Moedas é uma figura importante. Ele tem aqui um papel muito grande. Ele também se centrou em Lisboa. Reparem, os jornalistas têm sempre a tendência de dizer: "Agora há mais uma sombra, Rui Rio." Nada disso. Ele focou-se olhos nos olhos, de graça para nós, a dizer: "O meu projeto é Lisboa, a minha cadeira é Lisboa." E ele vai cumprir isso. Estou convencido disso, tendo em conta a sua personalidade e o que tenho ouvido e lido dele e seu projeto. Agora, Rui Rio. Rui Rio é provavelmente o melhor, ou foi provavelmente o melhor presidente da câmara que tivemos depois do Vinicius de Oliveira, na cidade do Porto. É importante que Rui Rio tenha uma oportunidade de governar este país. E Rui Rio não tem a preocupação de fazer um discurso político de simpatia, de agradar a este e àquele. Provavelmente, ele tem que ser ajudado nesse sentido. Mas isso também é uma lição para nós e é evidente que ele apoiou a candidatura de Carlos Moedas e deve ser reconhecido como tal. E peço que façam leituras relativamente à conduta dos discursos políticos e dos líderes partidários, tendo em conta também quem somos nós enquanto povo. Isto faz lembrar a história da religião católica. As pessoas não conhecem os textos, vão e retiram um bocadinho daquilo que lhes apetece. A política é a mesma coisa. Pronto. Muito obrigado. Eu gosto imenso de vos ouvir. Parabéns pelo vosso trabalho e obrigado também por me terem ouvido.

Nós é que agradecemos, Luís Ribeiro. É importante que os nossos ouvintes consigam participar e tenham a oportunidade de participar nos espaços da Rádio Observador como estamos a fazer hoje. José Manuel Fernandes, estamos no comentário final, depois de termos ouvido tantas opiniões e tão diversas. Não sei se queres fazer alguma ressalva em concreto, mas gostava de te ouvir falar também sobre o futuro. Está cada vez mais diluído este acordo à esquerda, esta geringonça? Pode, de facto, terminar agora na lógica que o André Abrantes Amaral explicava, porque todos os partidos da geringonça saíram mal destas autárquicas?

Paradoxalmente, penso que não. Uma das coisas que fez a força e que fez o cimento da primeira geringonça, da verdadeira geringonça, porque penso que nós já não temos uma geringonça, temos um andaime mais sólido. Aquilo que fez a força da primeira geringonça era a sua fraqueza. A noção de que se aquilo se partisse, havia um grupo parlamentar mais forte na Assembleia da República, que na altura era o grupo parlamentar do PSD. A noção de que estes partidos estão mais fracos obriga-os a unirem-se no sentido em que eles não podem ir para eleições, eles correm riscos grandes se forem para eleições. Nenhum deles tem vantagens óbvias, evidentes a provocar uma crise e, portanto, têm que tentar encontrar qualquer saída. António Costa podia ter sido a estas eleições com a percepção de que é agora que eu consigo, com a bazuca na mão, provocar uma crise e trazer uma maioria absoluta Não ficou evidente. Vai ser como as sondagens publicadas ontem à noite que o colocam mais longe do PSD, mais perto da maioria. Já conversamos sobre sondagens, valem o que valem. Acho que o próprio António Costa tem noção disso. Viu o que se passou no Porto, mau resultado, viu o que se passou em Lisboa, mau resultado. Se nós formos, por exemplo, olhar para o que se passou em Oeiras. Vamos falar das zonas urbanas. Oeiras. Isaltino Morais tem o melhor resultado de sempre, elege oito vereadores. É uma coisa inacreditável. Vamos ver o que se passou em Cascais por comparação com Sintra. Em Cascais, o PSD reforma a sua maioria, o PSD tem um resultado incrivelmente mau. Em Sintra, Basílio Horta perde a maioria absoluta. Estes dois municípios, Oeiras e Cascais, tiveram uma gestão da pandemia claramente melhor do que a gestão que fez Basílio Horta em Sintra e isso nota-se no resultado eleitoral. Mesmo, por exemplo, os resultados de Amadora, onde o PS ganha perdendo votos. Não dão confiança para ir daqui de peito feito para uma eleição legislativa a achar que isto são favas contadas. Não são. E os partidos à esquerda, o PCP e o Bloco, estão fragilizadíssimos. Incluirão o que tiverem que incluir para fazer passar o Orçamento de Estado. Não creio que tenhamos uma situação de fim de geringonça. Ela já acabou.

Estes partidos vão de alguma forma continuar a sustentar estes momentos-chave da vida parlamentar.

Vão sustentar, porque isso vai ser necessário. O PCP, sobretudo, tem noção disso, sabe que isso lhe custa muito, mas agora o próximo teste é daqui a quatro anos, o que tinha a perder, já perdeu. Perderá mais se provocar uma crise. Toda a gente sabe que quem provoca as crises é que perde. Entre manter a força sindical, que vai continuar a manter as greves que todos vamos experimentando e tivemos já uma amostra disso neste mês de setembro. O PCP vai continuar a ser o PCP e Jerónimo de Sousa vai continuar a falar com António Costa, porque dão-se bem um com o outro. As coisas vão continuar mais ou menos assim. Não estou a ver que o PCP de repente vá roer a corda. O Bloco é mais complicado. O Bloco teve uma noite má, o Bloco vai provavelmente perceber que começa a ter problemas com o seu tradicional voto urbano, que já não é voto jovem e urbano, que já não é tão seguro como isso.

E como recordava aqui um ouvinte, ainda não houve uma reação de Catarina Martins com os resultados já conhecidos.

Não sei bem o que eles estão a pensar dizer, mas de facto têm uma dificuldade para explicar o que se passou. Vamos ver o que eles terão para apresentar no Orçamento, mas nenhum destes dois partidos se sai bem desta noite eleitoral. E o PSD, de facto, tem um pingo no folego. Há muita gente que anuncia a morte política de Paulo Rangel. Eu tenho uma posição que já valeu-me um comentário num Vencedor curioso da Sara aqui destes dias. Eu acho que o Paulo Rangel, de facto, colocou-se no terreno, dizendo que desta vez não ia ficar fechado em Bruxelas, como ficou da vez anterior, havendo uma corrida à liderança do PSD, mas colocou-se no terreno como muitas pessoas muitas vezes se colocam, andando a apoiar os candidatos do partido. Ele esteve em Lisboa no último dia de campanha do Carlos Moedas. Ele também esteve com candidatos do PSD que perderam as eleições, como por exemplo, um que tinha esperanças de ganhar em Odivelas. Aliás, há uma coisa curiosa: ser candidato das televisões nem sempre dá vitórias. Não deu a Susana Garcia e não deu Marco qualquer coisa, agora não me recordo o nome dele.

Marco Pina.

Marco Pina, o candidato de Odivelas. Vir das televisões para o terreno nem sempre-

Não é entrada direta

...não é entrada direta para a presença de Câmara. A notoriedade não chega. Há aqui vários fatores. Vamos ver o que o Rangel vai fazer, mas penso que ele não se vai retirar e deixar uma passadeira vermelha. Eu apostaria que ele não se vai retirar e deixar uma passadeira vermelha para-

Para Rui Rio e vai haver então debate interno nessas diretas de janeiro. José Manuel Fernandes, está feito este Contracorrente alargado. Talvez agora consigas descansar um pouco depois desta noite eleitoral. Agradeço a todos os ouvintes e eleitores que participaram na discussão que fizemos aqui ao longo das últimas duas horas. Amanhã o Contracorrente está de regresso com um tema, quem sabe, até pode ser semelhante ao de hoje. Bom dia e até amanhã.

Eu sou José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.