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José Manuel Fernandes quer voltar no Contracorrente de hoje a um tema sobre o qual já tem falado muitas vezes, mas onde estamos sempre a ser surpreendidos com novas notícias. Que tema é esse, José Manuel? Bom dia.
Bom dia. Olha, é esta mania de destruir a nossa forma de falar e de comunicar em nome daquilo que eu acho que são basicamente preconceitos. Eu, neste caso concreto, estou a falar daquilo que eu acho que é uma agenda ideológica e ontem devo dizer que fiquei completamente boquiaberto, mas mesmo boquiaberto, quando soube que o Conselho Económico e Social se preparava para votar uma proposta de manual, e vou citar: "Para uma linguagem neutra e inclusiva". Aparentemente, achava que era assim que se devia assinalar o Dia da Mulher. E devo dizer que fiquei boquiaberto, porque eu tenho muita consideração, mas mesmo muita consideração pelo atual presidente do CES, que é o Francisco Assis. Acho que é um daqueles políticos que têm os pés bem assentes na Terra, é um homem que não anda com ideias um bocadinho fora do que é habitual, e por isso não consigo entender como é que ele pode ver alguma vantagem em literalmente esfrangalhar a língua portuguesa. Eu não vejo nenhuma vantagem para as mulheres, sinceramente, que deixemos de falar em trabalhadores para, por exemplo, passar a falar em população trabalhadora. E por aí adiante. Eu podia dar aqui imensos exemplos. Acho que isto é mais impessoal, é mais frio, é mais burocrático e deixa de ser português. É outra coisa qualquer, mas não é português.
Mas o argumento é que é mais inclusivo. Trabalhadores ou velhos ou contribuintes são substantivos masculinos.
Olha, eu acho que isso são, sinceramente, e estou a falar contigo, acho que são tretas. Não acho, sinceramente, que seja por aí que se ganha alguma coisa na condição feminina com mudanças que, no fundo, são cosméticas. Se formos por esse caminho, eu posso passar a contrapor que população é um substantivo feminino, e então passo eu a ficar ofendido, mas eu acho que tudo isso é um disparate. Mas, sobretudo, não é um disparate inocente. Esta história não começou agora. A ideia de que as mulheres são prejudicadas com a linguagem é uma ideia ideológica e começou com a Simone de Beauvoir e com o livro "O Segundo Sexo". Portanto, é uma ideia antiga. A ideia é que a mulher está logo a perder, porque demos à nossa espécie o nome de Homo sapiens. Estás a ver? Homem, homo, homem, Adão, não é Eva. Vem tudo daí. Começou tudo logo mal. Portanto, eu acho que toda esta linguagem feminista, que foi construída a partir deste raciocínio e que passou a considerar ofensivo tudo o que na linguagem não fosse uma equiparação absoluta, ou mesmo uma subordinação do masculino ao feminino, é um disparate. Uma coisa, a meu ver, é tratar senhoras e senhores, trabalhadoras e trabalhadores, quando a gente está a fazer um discurso. Outra coisa é esta coisa que agora querem fazer, que é completamente diferente.
José Manuel, mas tu não achas que podia haver uma vantagem na utilização de uma linguagem neutra?
Olha, para ser direto e frontal, acho que não. Devemos usar a linguagem que reflete a nossa forma de viver, a nossa forma de nos relacionarmos. E nos relacionarmos amorosamente, carinhosamente, educadamente, com respeito, com elevação, com memória. E que isso é que é importante. E vou ser sincero, não vou passar a falar e a escrever como um burocrata de qualquer conselho econômico e social, que entende que se deve escrever ou falar. E, portanto, não vou escrever surdo-mudo, em vez de escrever surdo-mudo, vou escrever pessoa surda. Ou em vez de escrever jovem, vou passar a escrever população jovem. Esse tipo de instruções mando pura e simplesmente bugiar. Portanto, pensa tu agora, por exemplo, que se eu quiser escrever gestor, podia passar a escrever uma pessoa em cargo de gestão. Tudo isto é um disparate. Quem olhasse acharia que eu tinha voltado à escola primária ou que me tinha passado uma travadinha qualquer pela cabeça. Mas atenção, eu acho que essas sugestões do CES até são quase inocentes, mas são um começo, porque são apenas a abertura de uma porta para o muito pior que vem depois. É uma questão de tempo.
Mas quando falas de muito pior, estás a pensar em quê? Referes-te a quê, em concreto?
Olha, refiro-me, por exemplo, às regras de linguagem que agora acabaram de ser aprovadas, por exemplo, pela Universidade de Manchester. É um verdadeiro pesadelo orwelliano, que apareceu, por acaso, no país onde até nasceu o George Orwell. Basta ler o livro de estilo dessa universidade e vê-se, por exemplo, que de lá desapareceram palavras como mãe e marido. Mãe e marido agora não se podem usar. Ou pai ou mulher. Portanto, agora o que temos são progenitores e companheiras. Por quê? O que isso significa? Significa que eu já passei da fase que eu não quero ofender ninguém, que é a fase tolerável, para a fase que é eu quero impor o meu modelo de sociedade. E no meu modelo de sociedade, não há mãe e marido, há progenitores e companheiras, que é uma coisa completamente diferente. Corresponde a uma visão do que é a sociedade diferente, ponto final, parágrafo. E no meu modelo de sociedade Essa coisa de marido e mulher, essa coisa do pai e mãe, são coisas caretas, são coisas do passado, são coisas típicas daquilo que eles dizem que é uma sociedade patriarcal, dominada pelo homem branco e que é isso que queremos terminar. E por isso eu não devo usar pai e mãe, marido e mulher, tenho que usar companheiros, progenitores. É evidente que ninguém explicita formalmente esta última parte. Isto é uma coisa que está reservada aos círculos iniciados, é à margem da política cultural, vem em alguns livros, mas não é dito abertamente. Mas começa-se devagarinho e depois chega-se lá.
Certo. Mas apesar de tudo, o nosso Conselho Económico e Social acabou por não votar o dito manual.
Sim, eu acho que houve algum bom senso, eles perceberam que havia resistências e queriam que aquilo fosse mais consensual e iam ver como era consensual. Mas eu fiquei inquieto e fiquei inquieto com as corações de Francisco de Assis, que no fundo não desautorizou completamente o disparate. E eu acho que é mesmo um disparate e um disparate perigoso, porque há muitas palavras, ou melhor, muitos substantivos, que representando características genéricas, podem às vezes ser masculinos e outras vezes femininos. Eu vou dar um exemplo. Idosos, que era uma das palavras que era pra desaparecer e pra ser tratado por população idosa. Idosos, de facto, é masculino. Mas crianças? Crianças é feminino. E como é que eu vou fazer com as crianças? As crianças já não havia nenhuma sugestão do sexo pras crianças. Já não havia uma preocupação com a linguagem inclusiva pra como é que devíamos escrever crianças. Será que nesse caso não interessa? Esqueceram-se. Eu só estou a dar este exemplo, não é porque esteja preocupado por crianças ser um substantivo feminino. É só pra sublinhar a dimensão do disparate. Por exemplo, Alemanha. Alemanha é feminino. Será que Alemanha se sente diminuída ao lado de Luxemburgo, que é masculino? Tudo isto é mesmo absurdo e tudo isto tem mesmo a ver com o objetivo último, que é impor a tal agenda política da linguagem. Por isso eu resisto. E não resisto apenas por uma questão de estética ou de respeito pela minha língua. Eu resisto também por uma questão política, porque sei pra onde que isto vai. Porque não é uma questão de igualdade homem e mulher pela qual eu me bato. E porque eu acho que não é só isso que está em causa quando chega a esta manipulação da linguagem. Quando chega a este ponto, o que se pretende é forçar uma engenharia social. E nessa engenharia social, não é a igualdade só de homem e mulher que está em causa, é deixar que eles tenham identidades próprias. E isso é diferente. É esse o desígnio último. Mas essa é uma outra conversa, uma conversa mais longa e talvez eu volte a ela um dia destes. Eu sou José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.