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Vamos começar o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar já em direto pra nos dar a sua opinião logo a seguir ao jornal das 10, que é quando começa o Contracorrente, ligue 910 002 41 85, ou então envie-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 910 002 41 85. Carla. Não é a primeira vez que Portugal é varrido por um grande temporal como o que devastou boa parte da região Centro, mas não há memória de nenhum ter destruído tantas infraestruturas, com especial destaque para as redes elétricas. É possível que esse tipo de fenômeno se repita agora com mais frequência por causa das alterações climáticas, o que leva muitos a interrogarem-se sobre o que devemos fazer para que o nosso país fique menos frágil. É isso mesmo que queremos discutir no Contracorrente de hoje, procurando começar a tirar lições do que se passou, lições que possam um dia traduzir-se em ações no terreno. E desta vez, José Manuel Bonadia, não queres propriamente falar de proteção civil, pois não?
Não, nunca falo de proteção civil. Acho que temos, porventura, falado demasiado de proteção civil. Isso não significa que, por exemplo, não seja necessário falar do SIRESP, porque uma vez que vamos reconstruir, e alguma necessidade de reconstrução há, será necessário perceber se faz sentido continuar a reconstruir da forma como tradicionalmente o temos feito, isto é, à superfície, com antenas, com cabos, com postes, com todas essas infraestruturas que, no caso do SIRESP, quando estavam nas zonas florestais, provaram poder ser destruídas facilmente por um fogo mais intenso. E no caso destas infraestruturas de transporte de eletricidade, por exemplo, podem ser destruídas por eventos que nunca tinham sido registrados em Portugal e que agora a questão que se levanta é saber se isto se vai tornar o novo comum, o novo habitual. Há quem diga que sim, há quem diga que podemos estar, por esse momento, perante a repetição de fenômenos muito ocasionais, daqueles que acontecem em 20 em 20 anos, ou 30 em 30 anos, ou 50 em 50 anos, e que, portanto, não faz sentido, de repente, mudar tudo. A perspectiva, como temos visto em relação às alterações climáticas, é que elas vão implicar mudanças que podem não corresponder exatamente, por exemplo, chover mais ou chover menos em tantos lados, ou fazer mais calor, ou fazer mais frio aqui ou acolá. Portanto, vão ser dinâmicas diferentes que vão surgir e, no caso concreto de Portugal, parece haver indicações de que a chuva vai estar distribuída de uma forma diferente e vamos ter, porventura, o acontecimento de mais fenômenos extremos. Nós temos, às vezes, que ter um pouquinho cuidado, porque a forma como medimos os fenômenos hoje é muito diferente da forma como os medíamos noutras alturas. E só pra dar uma ideia, o sul dos Estados Unidos não é a única região do mundo a ser atingida por furacões, tornados, tufões e por aí adiante. Há muitas outras regiões naquele anel que anda à volta do globo, onde estas tempestades se formam, que são também atingidas pelo mesmo tipo de ventos ciclônicos, de ventos muito elevados, mas quando vamos fazer o balanço anual dos prejuízos, dois terços ficam nos Estados Unidos, ou três quartos. Por quê? Primeiro, porque são melhor contabilizados, depois, porque essa contabilização, entre outras coisas, é feita por quem paga, nomeadamente as seguradoras, e depois também porque a ocupação do território é completamente diferente hoje. Há estudos que mostram que se nós fizermos uma projeção da atual ocupação do território no sul dos Estados Unidos para há 100 anos atrás, e depois recolocarmos no terreno as tempestades que foi havendo ao longo destes 100 anos, não há uma alteração assim tão radical nos prejuízos. Inclusive, o ano de maiores prejuízos não foi um ano recente, foi para aí um ano há quase 100 anos. Independentemente disto, que às vezes nos faz reagir a quente, uma das questões que vai estar em cima da mesa, seguramente, é a rede elétrica. Nós inclusive publicamos aqui no observador, ontem ainda, ao fim do dia, um trabalho de suspiro sobre essa matéria, saber se a rede elétrica deve continuar a ser como é, que é muito comum nos países do sul da Europa, ou deve passar pela transformação que, por exemplo, passou a rede francesa, depois também de um fenômeno extremo, esse já em 1999, portanto há 27 anos. Nós temos apenas cerca de 20%, ou pouco mais de 20% da nossa rede enterrada. Eu até admito que a maior parte desse enterramento seja feito nas zonas mais urbanas. O texto é ano, não é claro, eu não consegui obter esse dado. Na Europa, há países equivalentes ao nosso que já vão nos 40, 45%, e os países que começaram a fazer isso primeiro foram países onde o vento é mais forte habitualmente, países do norte da Europa. Se esse for o nosso destino, temos que pensar nisso. Só que, e aí a discussão, novamente, é uma discussão grande, às vezes, entre os técnicos, o custo pode ser três, quatro, cinco, 10 vezes superior nessas instalações. Ele é maior nas linhas de muito alta tensão, e nós vimos que algumas dessas linhas foram vítimas desta tempestade na zona de Leiria também caíram. São linhas mais resistentes, são linhas que têm backup. Mas falamos depois melhor disso tudo e tentamos perceber o que se pode fazer nessa frente. Mas há outras frentes, eu diria que há uma discussão que é absolutamente central. Há muitos anos, eu entrevistei, quase há 20 anos, há pessoas que têm dito que quando nós olhamos para as alterações climáticas, não devemos investir tudo, por assim dizer, na tentativa de mudar as nossas economias e a nossa forma de funcionar, para evitar a emissão de CO₂. E como parte das consequências dessa política são económicas, e estamos a vê-lo de forma dramática na Europa, a Europa adotou políticas muito ambiciosas nessa frente e elas causaram tantos problemas económicos que está a haver algum recuo, e que, em vez disso, devemos procurar fazer aquilo que, ao longo da história da humanidade, o homem fez muitas vezes, que é procurar adaptar-se. Neste momento, já há políticas portuguesas e europeias e há planos de adaptação. Esses planos passam, por exemplo, para estarmos melhor prevenidos para cheias, para termos infraestruturas mais resistentes ao vento ou mais preparadas para maiores vagas de calor. Enfim, fazermos um tipo de trabalho um pouco diferente daquele que é trocar o automóvel a gasolina por um automóvel elétrico ou trocar o aquecimento em casa por uma bomba de calor ou esse tipo de investimentos, que são investimentos caros. E é uma questão de saber onde é que colocamos os recursos, porque os recursos nunca são infinitos. Nunca são infinitos e há que ter prioridades. Eu acho que vale a pena falar sobre isso, porque a primeira pessoa que falou disso foi alguém muito controverso, mas que tem sido muito discutido ao longo dos anos, que é um sociólogo, economista dinamarquês chamado Bjorn Lomborg, que diz que há muito tempo defende a ideia de que nós devemos investir muito mais na adaptação e não estar tão focados apenas na chamada mitigação ou transformação no CO₂, portanto, olharmos mais para os diques, por exemplo, olharmos mais para as construções, olharmos mais para o ordenamento urbano, e que isso é melhor para o futuro da humanidade do que tudo aquilo que estamos a gastar em combate, por assim dizer, às alterações climáticas. Eu acho que é uma discussão importante a ter numa altura desta. Nestas alturas não é apenas para saber, voltando um pouco atrás, quem é que disse "falecidos" ou "mortos", já nem sei qual é a frase.
É uma frase muito longa, muito elaborada.
É uma frase muito longa e muito rebusada, muito juridiquês, nem sei bem o que é. Mas independentemente disso, em vez de estarmos a falar apenas dessas coisas, que é literalmente a espuma dos dias, é importante perceber o que vai fazer a seguir, porque vamos ter que saber canalizar bem os recursos que, repito, não são elásticos nem eternos. Isso percebe-se bem olhando para as pessoas que estão a procurar esticar os seus recursos e até a sua força braçal para rapidamente repor telhados, que vão ser telhados iguais aos que lá estavam. E uma das questões que se coloca é se devem continuar no futuro a termos telhados como aqueles que vão às telhas.
Muitas questões. Vamos tentar respondê-las depois das 10:00. Até já, José Manuel.
Até já.
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