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Muito bom dia. No Contracorrente de hoje temos tesouros musicais, memórias que são tesouros e uma caça ao tesouro em busca dos mitos de verão. Onde estão eles? A Helena Matos já vai explicar. Recordo o número de telefone, é o habitual 91 002 4185. Liguem-nos até ao meio-dia. Estamos em direto no Facebook. Pode dizer-nos o que pensa sobre os mitos de verão na caixa de comentários. Se preferir, há um e-mail à sua disposição, é o ouvinte@oobservador.pt.

O mês de agosto já vai a meio, as temperaturas altas parecem estar para durar e nesta sexta-feira a Helena Matos vai aos mitos, vai ao verão dos anos 70 e 80 para recordar algumas regras que se perderam e outras que se acharam. E com uma grande inquietação que a DGS recuperou agora, Helena, que tem a ver com os tempos de digestão.

Sim, a DGS recuperou e depois deixou de recuperar, mas no Twitter apareceu uma imagem, porque até é interessante, de uma coxinha de frango assado, umas batatinhas fritas e uma alfacinha, e ainda umas folhinhas de alface, e ainda ali um quarto de limão. E a nossa santa DGS escreve assim: "Evite refeições pesadas e não beba álcool. Após uma refeição, aguarde duas a três horas antes de entrar na água." O conselho era evite refeições pesadas, mas não nos vão dizer que a coxinha de frango mais aquelas poucas batatas fritas, isto não é nem meia dose naqueles momentos mais difíceis do Algarve, não é?

E é levezinho.

E é muito levezinho. E a alfacinha, estava lá tudo, até tem um raminho de salsa. Também não percebo o que a salsa faz aqui. Deve ter sobrado das recomendações do bacalhau à Brás, acho eu.

Que é obrigatório.

Não sei. A nossa DGS realmente tem esta fixação alimentar. Já tivemos a história das compotas, depois tivemos a questão do bacalhau à Brás, agora foi a questão da digestão. Eu aí reencontrei-me. Isto foi um reencontro desses, como quando nós encontramos uma colega que andou conosco na escola e diz: "Ai, olá!" E depois falamos ali dois minutos e já não temos assim muito mais pra dizer. Porque estamos todos muito diferentes. Mas isto era a velha digestão. A digestão era o assombro da minha geração. Os nossos pais garantiam-nos que nós não podíamos mergulhar, molhar os pezinhos sequer, se não tivéssemos feito a digestão. Havia depois sempre uma discussão mais ou menos épica entre as 14h30 ou as 15h. Havia criancinhas tão insistentes que os pais penduravam o relógio no chamado pau da barraca para que as criancinhas fossem vendo as horas e não passassem a perguntar: "Já posso ir tomar banho? Já fiz a digestão. Já posso ir tomar banho? Já fiz a digestão." Portanto, a grande libertação da minha geração, eu nasci nos anos 60, também passa por outras coisas, as pessoas associam sempre isto a uma grande revolução sexual, essas coisas todas. Mas uma coisa que fez uma alteração substancial foi quando nós percebemos que a digestão tinha desaparecido. Acabou-se, não há mais, ninguém morre, podem tomar banho. Claro, eu percebo se a DGS, em vez de ter aqui aquela coxinha de frango, tivesse um prato, uma feijoada, daquelas coisas. Ou quiçá, aqueles como eu, que gostam de arroz de lingueirão e que de repente comem uma dose muito avantajada, porque quando ele é bem feito, eu não o consigo fazer em condições em casa.

Temos que combinar um dia, Helena.

Tu fazes, tu cozinha isso.

Eu não faço, mas sou grande apreciador de arroz de lingueirão.

Ah, pronto, está bem. E então uma pessoa come e esquece. Mas agora realmente, quer dizer, só uma coxinha de frango. Se nos trouxessem aquilo no restaurante, eu usaria a frase que uma vez ouvi num restaurante em Lisboa. Era mais uma taberna, era alguém a descrever a sua ida a um restaurante gourmet. Tinha ido lá a trabalho e depois serviram-nos. Ele tinha ido lá em trabalho e quando aquilo veio, depois nós calculamos o que é. Uma rodela de cenoura, um brócolo, uma rodela de um outro legume não identificado e uma coisa minúscula, vá lá saber-se, de um bocadinho de peixe. O homem, coitado, tinha estado a trabalhar ali uma manhã inteira, olhou para o chefe e perguntou-lhe: "Ó companheiro, isto é pra provar e saber se gosta e depois..." Pronto. Eu, esta dose aqui do aviso da DGS, não está bem nesses pontos, mas enfim. Isto permitiu o reencontro. Havia realmente alguns clássicos nos anos 70, que era a santa da digestão, que realmente era uma coisa extraordinária. Também tínhamos o penso nas costas para as crianças, que era uma coisa verdadeiramente assustadora. Eu não sei como é que nós sobrevivemos à nossa infância, digo-vos desde já. Fomos educados com os livros da Anita, que era uma criança que passava por situações em que ela tomava conta do irmão, ela ia ao circo e tinha sempre uma característica, é que usava umas saias que serviam sempre as cuecas.

Impensável nos tempos de hoje.

Impensável nos tempos de hoje. Tínhamos brinquedos verdadeiramente assombrosos, quer dizer, que não passam pela cabeça de ninguém, hoje em dia. Mas havia outras coisas também. Por exemplo, das idas à praia, esta questão dos pensos era o seguinte: uns tempos antes, os nossos pais não nos costumavam acompanhar a essas coisas. As nossas mães levavam-nos a uma farmácia ou a um centro de vacinação, onde nos punham o penso nas costas e diziam-nos com ar misterioso: "Se não fizer reação, ou se a reação não for como devia ser, não vais à praia." Ou seja, as famílias todas dispostas para irem pra praia e a criança ali pendurada a ver. Depois havia um monte de coisas que nós tínhamos que ter muito cuidado, porque aquilo dava alguma comichão, mas não se podia coçar, porque sabe-se lá se íamos influir na reação.

E muito cuidado no banho.

Era o problema do banho. A pessoa andava ali uns dias. Depois, lá nos tiravam o penso E pareciam umas vestais a ler um oráculo, diziam que sim, que estava tudo bem, podíamos ir à praia. Nunca conheci ninguém que não tivesse tido a reação que devia ter. Mas a verdade é que isto assombrou a minha infância. E se eu não fizesse aquela reação? Sei lá, se calhar por isso é que hoje há pessoas que me chamam reacionária, vivi sempre obcecada com este problema da reação, não sei. Mas havia depois um must, que é o momento em que nós adoramos os nossos pais. Dizíamos aquela coisa pequena, a palavra mais pequena que o mundo tem, com três letrinhas apenas escreve a palavra "mãe", mas havia um dia em que nós pensávamos: "Oh, meu Deus, por que não se abre o areal e traga as mulheres da nossa família todas para ali baixo?" É que as nossas mães adoravam uma coisa, é difícil explicar, que era a touca de banho. Ri-te, ri-te. Garanto, não era só a touca, havia umas toucas fabulosas.

Com relevo, não era?

Sim, com flores. Com as flores aplicadas.

Mas na praia? Isso não era só na piscina?

Qual na piscina? Para já, havia poucas piscinas. E depois, não, Carla Jorge Carvalho, era um momento extraordinário. Elas corriam para a água e, por exemplo, havia toucas com malmequeres aplicados. Sim, e aquilo tudo se acolejava lá em cima. Pior, às vezes também pretendiam que nós, as meninas, os rapazes, felizmente, estavam livres desse calvário, também deveríamos usar a touca para não molhar o cabelo. Mas isso dava direito a uns berreiros monumentais e não há pior que isso. Só o dia do pleno agosto, porque isto também era um clássico do verão das praias a norte, que tinham pescadores, tinham aquelas coisas todas, que é o dia em que vais te vestir de nazarena para fazer a fotografia. E uma pessoa está na praia e de repente percebe que se vai enfiar naquela coisa toda das sete saias, da blusa, do chapeuzinho na cabeça, além de que fica uma fotografia, olha, felizmente, eu nunca tenho aqueles intuitos que os nossos ouvintes ontem aqui sugeriam, de carreiras políticas e públicas, além de estar aqui no microfone, que já até que se lhe liga, porque uma pessoa estava ali entre o sorvete, a hesitar se ia comer gelado ou se ia ao sorvete, qual é que ia ser o bolo que ia tirar da caixa dos bolos, porque havia as mulheres que vendiam bolos. Depois havia um momento fabuloso, e aí sim, de saudades de infância, que nós fazíamos muito férias a norte, que era o momento da barraca. Eu acho que a barraca de praia é uma coisa extraordinária. Eu percebo que as pessoas gostem dos toldos, das palhotas, mas quem alguma vez na sua infância leu um livro dos cinco a comer um pacotinho de batatas fritas com muito sal dentro de uma barraca, com a barraca fechada e a seguir adormeceu, há de facto ali alguma coisa de muito bom. Mas nós temos esta questão dos pesos nas costas, das toucas de praia. O sexo masculino teve, ali mais nos anos 80, também 70, uma coisa extraordinária, que era: eles iam tomar banho com relógio, porque os relógios eram à prova d'água. Uma pessoa está na praia, não sei se era para ver quanto tempo é que estavam dentro da água, se tinham uma vida, mas não, porque as pessoas estavam ali na praia descansadas. Iam tomar banho de relógio, porque o relógio era à prova d'água. Havia uma legião de homens à beira-mar, de relógio no pulso, não se fosse dar o caso, sei lá, de alguma grande alteração.

De alguém perguntar as horas no meio da água.

Sei lá.

Entre uma vaga e outra.

Repara, ainda para mais, uma parte da minha infância, antes de termos rumado ao Algarve, foi passada na Nazaré e outras praias com o mar razoável como aquela. E como se calcula o relógio, não era propriamente, às vezes, o adereço mais óbvio para se ter dentro d'água. Havia, e isso também muito nas praias a norte, uma figura que nós hoje temos a questão do nadador salvador. A norte havia uma figura que era o banheiro. As barracas eram alugadas, no caso da Nazaré, porque aquilo era mais ou menos um matriarcado e nessas praias, muito por mulheres, mas depois havia um homem ou dois que estavam na praia e que quando era preciso, iam buscar as pessoas. Eu não sei se os procedimentos, uma vez salvo e resgatado, sobretudo o adolescente, que não tinha cumprido as instruções do banheiro, se hoje não seriam alvo de grande fúria nas redes sociais, porque eu recordo perfeitamente que além de umas manobras de uma ligeira reanimação, também levávamos umas certas chapadas acompanhadas por: "Bata-lhe, mas bata-lhe!" dos assistentes e às vezes dos próprios familiares, porque aquilo não era simples. Isto tudo que estamos aqui a falar, e depois falaremos de outras coisas, tem aqui um lado que é muito importante ter em conta, que é: se nós estivéssemos nos anos 60, 70 e ainda nos anos 80, esta semana em que nós estamos agora, era a semana em que muitas pessoas começavam a fazer as suas férias. E por quê? Porque nós estamos a passar de um paradigma de um país que para já começa a ter férias, mas é um país ainda muito marcado pelo calendário rural. E muitas pessoas têm um calendário marcado pelas vindimas, por festas nas aldeias, logo, aquilo que nós temos, esta contabilidade começa a ser feita muito nos anos 70. Só para se ver a diferença, em 1969, 15 de agosto, saíram pela então Ponte Salazar em Lisboa, 12.360 automóveis, dia 15 de agosto.

Num dia?

Num dia. A 15 de agosto de 1970, um ano depois, já passam 15.488 automóveis. Isto vai crescendo também nesse feriado de agosto de 1960. A cada 60 minutos passaram, em média, 1.300 carros pela portagem, ou seja, três vezes mais do que o habitual, mas isso quando caminhávamos para norte. Começam a aparecer muitos títulos como "Lisboa Deserta", "Êxodo", "Dilúvio Humano em Santa Apolónia", porque muitos partem de comboio. E temos muito a ver com esta data, que era esta semana do 15 de agosto, até porque como tem o feriado, colava às vezes aos fins de semana, e era uma data muito importante na marcação de férias, porque era ainda uns hábitos de férias muito marcados, como disse, pelo calendário da ruralidade. E é claro que isto também não se percebe, ou talvez se explique, quer seja neste dilúvio humano, quer seja depois nas saídas dos tais automóveis pela ponte sobre o Tejo ou pelas portagens para a autoestrada, que então tinha uma dimensão muito reduzida, acabava logo ali à frente, é preciso perceber, os portugueses viajavam bem carregados de tudo. Há uma estrutura que eu não sei se as novas gerações têm noção, aquilo ainda se vende, mas que é o tejadilho.

Uma grade, não era uma grade para pôr num tejadilho?

Sim, punha-se em cima e aquilo levava tudo. Para já, as pessoas viajavam, como sabem, sem cintos de segurança, muitas pessoas dentro do mesmo automóvel, e ia tudo. Até porque muitas vezes as casas de férias eram muito precárias, não tinham, outras vezes os que iam para as aldeias também não havia. Portanto, no tejadilho, aquilo ia tudo. Havia até campanhas para os senhores automobilistas arrumarem em condições o tejadilho, não levarem coisas tão extraordinárias quando podia acontecer, pois lá acontecia às vezes colchões voarem.

Isso. Até havia muitas famílias que iam acampar com grandes tendas e despachavam o material de campismo 15 dias antes de comboio.

Sim, mesmo para casas no Algarve, porque as casas de férias eram muito precárias, e portanto, as pessoas tinham que despachar. É interessante teres referido o campismo, porque exatamente o campismo começa a popularizar-se muito nesta época. Há muitas pessoas que optam por fazer campismo e os jornais enchem-se com campanhas de venda de material de campismo. Eu faço, de vez em quando, fiz e espero continuar a fazer, consultoria para algumas séries históricas de televisão. E entre as coisas mais assombrosas que aparecem é exatamente o material de campismo. A certa altura, até há umas coisas que parecem naves espaciais, depois há umas tendas, depois as pessoas que levavam coisas, tu falaste do despachar os frigoríficos. No meio daquilo tudo, temos muitos naprons. Há muitos pinguins também em cima do napro nas tendas de campismo.

Nas tendas de campismo, claro. Nem era a mesma coisa.

Está claro que não. Há tanta procura, que mesmo nos anos 70 nós vamos encontrar os parques de campismo, as pessoas tinham que fazer uma marcação para entrarem. E obrigava depois a termos cartas de campista. Havia diferentes modalidades. E nós registamos, por exemplo, na Caparica, na véspera de se poder fazer o registo para entrada, pessoas que vão dormir para lá. Mas estamos a falar de filas com muitas pessoas. Está aqui um desejo de férias muito grande, uma marcação no calendário, a passagem, se quisermos, de um calendário rural para um calendário já com ritmos e com marcações de tempo mais urbanos. A forma como as pessoas fazem férias também dá muito conta das transformações da sua vida. Portanto, esta questão, que às vezes parece aparentemente, vamos falar, não sei o quê. Para lá de tudo isso, também se percebe muito bem como a sua vida está a mudar. Com tudo isto, nós ao longo deste programa, temos os nossos ouvintes, temos os nossos convidados e temos algo que eu acho que também é muito importante, e que é uma playlist feita por um dos nossos convidados. É uma extraordinária pessoa de rádio. Eu trabalhei com ele e tinha aquele ar, que é muito importante, e tu saberás isso também muito bem, Carla, que é fazer sentir quem fala, em rádio ou em televisão, a pessoa mais inteligente do mundo. Ou seja, nós podemos ser as pessoas mais estúpidas da criação e estar a dizer as maiores baboseiras que existem na Terra, mas quem nos está a ouvir tem de ter aquele ar, em primeiro lugar, que nos ouve. E depois, que nos faz sentir muito inteligentes. Esta pessoa, que é o António Macedo, nem sempre fazia isso, quando eu comecei a fazer rádio com ele. O pior é que quando eu achava que ele não me estava a ouvir, ele despertava lá da sua aparente indiferença e do seu torpor com uma pergunta. Eu contava histórias noutra estação de rádio. E ele, que parecia que não ouvia nada, de repente me saía de lá com uma pergunta, que às vezes era muito irritante, porque são coisas que eu detesto, que é distâncias. E ele: "E isso então ficava a que distância?" E depois, claro, fazia perguntas informadíssimas de quem tinha feito rádio, muita rádio, tinha ouvido muitas pessoas na mesma situação em que eu estava e, portanto, dava ali aquele quê para nós continuarmos. E ele é também um homem, está claro, muito ligado a estas questões da música e fez-nos uma playlist. E agora vocês têm-na aí. Vá lá, João, qual é que tu queres ouvir?

Estás a fazer discos pedidos. Vamos lá. "Yesterday" dos Beatles, pode ser?

Pode, claro.

Vamos embora. Yesterday all my troubles seemed so far away. Now it looks as though they're here to stay. Oh, I believe in yesterday. Suddenly I'm not half the man I used to be. There's a shadow hanging over me. Oh, yesterday came suddenly. Why she-

Bem, João.

Em inglês e tudo.

Claro, mas também vai haver muito em português. E sim, temos aquelas óbvias. O António nunca tinha deixado de falar. Mas antes de irmos ao nosso primeiro convidado e talvez até para quando acharem oportuno chamá-lo, antes de o chamarem, eu peço que depois ponham uns sons muito especiais daquilo que era, porque este nosso convidado tem a ver com a publicidade, a chamada publicidade de verão.

Muito bem, queres meter já?

A Carla é que manda no tempo. Temos convidado.

Sim, eu acho que sim. Vai fazer, como se diz, um bom tapete.

Vamos embora.

Vamos lá, João.

Ora, vamos pôr o primeiro anúncio, que é este.

Um momento pra ti, um momento pra mim. E a vida sorri.

Bom dia, Edson Ataíde.

Alô, bom dia.

Bom dia. Há publicidade de verão, Edson?

Como?

Há publicidade de verão, publicidade que é feita para o verão?

Há publicidade de tudo. A publicidade costuma acompanhar a vida. Então se é Natal, há publicidade de Natal, se há Campeonato do Mundo, há publicidade dos Campeonatos do Mundo, também há de verão.

O que caracteriza a publicidade de verão? É muito este lado da vida sorri?

É várias coisas. Se a gente vai acompanhar então o ritmo da vida das pessoas, no verão, por exemplo, não é a hora ideal de você lançar coisas ou promover coisas muito racionais. As pessoas estão mais desligadas, as pessoas muitas vezes não estão na sua própria zona de residência, elas estão ou preparando para viajar ou já durante a viagem, e que vão estar muito mais aceitas a comprar coisas que lhes deem prazer, prazer imediato, coisas que lhes refresquem a vida. Então já tem toda uma categoria de produtos ligado a essa época do ano. Saem mais à noite, então também tem outras categorias de produtos que são vendidas mais nessa época do ano. Normalmente estamos falando de bebidas, sejam alcoólicas ou não alcoólicas, snacks, doces, gelados, algum tipo de roupa mais leve também. Enfim, o verão tem essas características e é normal que seja assim.

E há, portanto, corpos à mostra, há música, também é muito importante a música, Edson Ataíde?

Como a música é muito importante no verão. No verão, as pessoas querem dançar, querem cantar, querem beber. Essa coisa do verão é mais sentida até em países onde a meteorologia é muito marcada, ainda. Como a Europa. Eu que passei a minha juventude em um país que é verão o ano inteiro. Então lá, por exemplo, já não era tão clara essa coisa do que é publicidade de verão. Agora na Europa, sim. Incomoda as pessoas verem publicidade com pessoas com agasalhos em pleno verão, ou seja, causa aqui um estranhamento.

Causa mesmo uma sensação de rejeição, Edson.

E pode causar rejeição, ou seja, dependendo como a coisa for colocada. Não é habitual, pelo menos. Ou seja, não é comum. Por quê? Porque as pessoas vivem mais uma vez. A publicidade entra na vida das pessoas. Ela quer estar presente na vida das pessoas, ela não está à procura de rejeição. Não está à procura de criar um problema ou uma dissociação cognitiva das pessoas com que elas estão a viver.

Edson, para alguém que tem trabalhado tanto em publicidade e comunicação em Portugal, eu gostava que ouvisse um anúncio que nos pôs a dançar. Não sei se nos pôs a beber mais o refrigerante que publicitava, mas um anúncio que nos pôs a dançar nos anos 80.

Dançar, sentir a emoção de uma Coca-Cola. Sensação de viver, vou dançar até o dia acabar. Sentir a música que paira no ar, sentir o ritmo que me faz vibrar. Não posso deixar de partilhar esta emoção a valer. Coca-Cola, sensação de viver. Não posso esconder a imensa alegria que eu sei que vou ter contigo. Coca-Cola aqui é. Cantar, dançar, sentir a emoção de uma Coca-Cola. Coca-Cola, sensação de viver.

Toda a gente cantava isto, certo?

E ainda. Edson, não estava em Portugal nesta altura ou já estava?

Essa campanha era mundial, então tinha o equivalente dela no Brasil, com outro sotaque, com certeza, e outra letra, mas muito parecido.

É para ter sempre esta ideia de sensação de viver

Vou dançar.

Refrescar, fazer amizades, estarem juntos e todos são bonitos, magros, morenos ou loiros. E é assim a vida. Isso é muito dos anos 80, tinha esse lado mais ingênuo e até eu vivi essa fase, tenho saudades, é normal. Mas quero crer que hoje em dia o espaço pra esse tipo de coisa é menor. Um pouco menor, não é que não exista, mas é um pouco menor, porque os jovens, digamos assim, porque essa publicidade era muito dedicada aos jovens, se calhar, não querem só isso. Até podem alguns quererem alegria de uma maneira descontraída, outros quererão outro tipo de proposta. Por isso que esse tipo de publicidade tem caído mais em desuso. Não é que não exista mais, mas não é tão frequente mais.

E é frequente existirem ainda hoje anúncios publicitários na televisão com 59 segundos? Que é o tempo deste "Sensação de Viver". Desde que paguem, não é?

Não é nenhum problema.

Mas já não é muito usual, ou é?

Não, é cada vez menos usual, pra imensa pena minha. Porque hoje em dia a publicidade é muito cobrada de emocionar as pessoas. E uma das maneiras de emocionar as pessoas é cantar. A música tem esse efeito.

Edson, desculpe interrompê-lo. Nós vemos neste momento, talvez esta aposta esteja a ser feita por algumas campanhas de supermercados, que contratam cantores. Aquilo que nós temos hoje mais aproximado com isso, serão as campanhas dos supermercados no verão.

Voltamos ao dinheiro outra vez. Dinheiro.

Pois é, publicidade é sempre dinheiro, ou não, Edson?

Desde que você pague e passe muitas vezes, porque pra você realmente ser memorizado, não basta a música ser boa. Ela pode ser ótima, mas só passar duas, três vezes, ela não vai marcar. Você tem que escolher essa equação. Eu quero que as pessoas repitam minha música, então tem que passar numa primeira fase, pelo menos, muitas vezes. Depois de passar muitas e muitas vezes, se ela for boa, ela será decorada e será memorizada e será uma coisa que emocionará as pessoas. Então você não pode ter isso em 15 segundos. Não há música em 15 segundos. Em 15 segundos você tem melodias rápidas. Já deu. Falta um pouco desse tipo de investimento pra que se chega lá.

Edson, o que gostava de publicitar num anúncio de verão? E se pudesse e tivesse tempo, como é que gostava de fazer um anúncio de verão?

Eu já fiz alguns, mas em geral não foge muito da coisa de realmente você ter um ambiente fresco, o calor, e jogar com isso, porque as pessoas sentem o que veem. O ser humano tem essa coisa de repetir emocionalmente aquilo que está a ver. Se você vê as pessoas num ambiente de praia, se sente um pouco lá também. Então, um pouco de humor, um pouco de música e um pouco de história, contar coisas que divirtam as pessoas e que tornem a vida delas mais leves.

A tal sensação de viver, é isso?

É, por outras palavras, sim.

Mas a publicidade também serve, ou já serviu, ou ainda serve para mudar mentalidades? É porque nós, recuperando aqui estes anúncios dos anos 70, 80, havia, sobretudo, uma relação com o corpo que nós ainda não vimos na nossa sociedade. E uma forma de ser jovem e livre, que ainda não existia bem. Isso é uma função da publicidade ou é uma mais-valia que aparece de vez em quando?

É um pouco questionável. Mostrando essa felicidade, essa jovialidade, essa informalidade, que se calhar não era real, se calhar era bom vender isso. Ao mesmo tempo, também vendia corpos de modelos lindos e que não é também a realidade. Isso é uma coisa negativa.

Mas, Edson, a realidade não é pra anunciantes?

A publicidade vai se adaptando. A publicidade não força.

Mas, Edson, vamos lá ver. A realidade não tem as notícias já.

Não, mas as pessoas hoje não querem esse mundo maravilhoso, está testado. Se eu fizer assim: todo mundo vai ser lindo no meu anúncio, todo mundo vai ser branco, e todo mundo vai ser loiro. Não, acho que vai ter uma reação muito negativa da sociedade. Ou seja, a publicidade trabalha com aquilo que a sociedade quer. No momento, a sociedade não quer mais isso.

Sim. E, portanto, acha que na publicidade destes anos há muito esse lado de uma construção de uma realidade que não existe, é isso?

De corpos que não existem e de relações de uma sociedade que não reflete a realidade. Não é que a publicidade tem que imitar o telejornal, não é isso, mas hoje em dia já não é mais aceitável, via de regra, que a publicidade seja uma coisa totalmente alijada da realidade. Eu hoje não posso fazer anúncios com piadas sobre gordos, ou seja, não é bonito, as pessoas vão reagir. Eu não posso fazer publicidade machista, não é bonito e as mulheres vão reagir. E por aí vai. Já houve uma fase que isso não era problema nenhum, aliás, era até bem comum.

Sim.

Era mais fácil fazer publicidade no século passado.

Não sei se era mais fácil, mas os valores eram outros.

As regras eram outras.

As mecânicas eram outras. Hoje em dia nós temos outras limitações. Temos bastante limitações, mas não impede de se fazer boa publicidade. Havia outras limitações no passado, talvez.

Está bem. Edson, espero que

Continue a fazer publicidade, porque nós, na verdade, precisamos de sonhar. E eu acho que a publicidade também tem essa função, que é fazer sonhar.

Graças a Deus, tem o aspecto lúdico. A gente não pode perder o aspecto lúdico, mesmo que a gente tenha que lidar com a realidade do mundo. As duas coisas têm que conviver.

É a Sra. Taís. Muito obrigada. Bom dia, bom fim de semana ou boas férias e bom verão. É isso mesmo, é uma boa despedida para hoje, em que falamos do verão, dos mitos, em que viajamos no tempo. O que estão a dizer os nossos ouvintes nas redes, João?

Olha, Carla, com alguma nostalgia, António Maria Lamas escreve que verões de 70 nunca mais voltarão, nem os de 60. Ainda hoje, todos os verões, António Maria Lamas se lembra e trauteia o hit do Les Chats Sauvages chamado "Dernier Baiser". Fátima Gonçalves esclarece aqui a questão dos relógios.

Da Helena Matos.

"Ouvidos bem abertos, Helena Matos", escreve Fátima Gonçalves, "os rapazes faziam concursos de quem aguentava mais tempo sem respirar debaixo d'água."

É verdade.

"E para isso era preciso um relógio à prova d'água com cronômetro para eleger o vencedor." Está explicado. Obrigado, Fátima Gonçalves. Maria João Belford, que é médica, escreve que é dos anos 50, passava férias na Arrábida, onde tinha casa. Escreve que nessa altura eram uns selvagens, passavam o dia na praia, em mergulhos, a fazer ski. Nunca os adultos nos fizeram ter horas para digestão. A regra era: depois de almoçar, entrar devagar na água e arrefecer a zona da barriga, o que, escreve a Maria João Belford, que é médica, fisiologicamente faz sentido. Escreve esta ouvinte que fez o mesmo com filhos e agora com os netos, e pelos vistos funcionou, porque não há notícia de tragédias. Escreve ainda Maria João Belford que se lembra das senhoras com as toucas de flores, mas a nós, às miúdas, nunca, nem pensar nisso. São algumas das memórias e alguns dos relatos que vamos lendo aqui nas redes sociais. Lembrar só, Carla, o número de telefone para onde os nossos ouvintes podem ligar é o 91 002 4185.

Eu agora vou dizer a idade do próximo ouvinte, até para nos situarmos aqui nas memórias. O Rui Afonso, posso dizer, tem 47 anos, é gestor e está a ouvir-nos de Linda-a-Velha. Bom dia.

Muito bom dia. Em primeiro lugar, obrigado pela oportunidade e quero dar os parabéns à Rádio Observador, porque agora que está a calhar bem no verão, esta lufada dá ar fresco na nossa comunicação social. Em primeiro lugar, eu liguei porque me lembrei, no início do programa, de duas situações, uma de um spot que eu creio que talvez se lembrarão, que tem a ver também com a praia, que era o Amar e Mar a Ir e Voltar.

Sim.

Estou a ouvir.

É uma campanha publicitária que, aliás, tem um poeta na sua origem, o O'Neill, porque havia muito também aquele lado da prevenção dos afogamentos.

Havia imenso.

Exato. Tinha até aquela pedagogia das bandeiras, da cor das bandeiras. Eu lembro que havia essa sensação de já ouvir. Outra, que não tem exatamente a ver com o verão, mas lembrei-me quando falou daquele suspenso nas costas, que eu também passei por esse trauma, que era outro trauma que não ligado ao verão, que era as botas ortopédicas que desapareceram.

Sim, partilharmo-lo.

Esse trauma e de repente parece que toda a gente deixou de ter o pé chato.

Sim, isso era um trauma terrível, não é? Porque vendia-se em muito poucas sapatarias.

Era sempre o mesmo modelo horroroso.

Sempre o mesmo modelo horroroso.

Horroroso. Como também era isso, tinha uma prescrição.

Sim.

Eu lembro perfeitamente disso, e era horrível.

E não sei se-

Aliás, espera, deixa-me só fazer um parêntesis. Neste anúncio da Coca-Cola, o Sensação de Viver, a rapariga que dançava usava botas ortopédicas, portanto, libertava-se desse fardo.

Sim, é que aquilo era uma tristeza. Era incompatível. Aliás, quando chegava à adolescência, acabavam-se os pés chatos. Porque ninguém conseguia viver uma adolescência com aquilo enfiado nos pés. Quer dizer, também não sei se passou por essa experiência, eu passei, que as doenças das crianças também têm as suas fases. E as únicas pessoas, porque eu nasci nos anos 70, que comiam gelados fora de época, eram as crianças que eram operadas à garganta.

Exatamente.

Quem nasceu nos anos 70, como eu e o Rui Afonso, também passaram por isso. Tínhamos inveja de quem era operado à garganta.

Eu também tive, porque nunca fui.

Nem eu.

Nunca fui.

Verão era a única altura de comer gelado.

Exatamente. Havia aqui este lado do verão, mas esta questão das botas ortopédicas, realmente, há coisas que marcam uma época e que são cruciais numa época, e depois é muito difícil explicar como é que aquilo acabou de repente.

O que é que aconteceu exatamente.

Era outro flagelo que o Rui Afonso aqui nos recordou. Obrigada.

Rui, já agora, tendo quase a mesma idade que eu, deixe-me perguntar-lhe: lembra-se do cornete do uísque?

Lembro, sim.

Que hoje seria impensável ser servido nos cafés.

Rui Afonso, muito obrigada. Bom dia. E bom verão. O Manuel Monteiro é um bocadinho mais velho, posso dizer também. É motorista de táxi, liga de Carcavelos, tem 64 anos. Bom dia, Manuel.

Exatamente, bom dia. Eu quero contar apenas uma pequena situação que acontecia quando íamos à praia, que eu morava na altura na Bobadela. Devia ter, meu, nove, 10 anos e às 6:00 da manhã, tinham de me acordar pra eu ir pra praia. Lembro-me de um dia de domingo em que eu disse que não acordava, que não me acordava e que não me interessava nada ir pra praia, porque eu queria era dormir, e toda a gente ficava Lá em casa todos ficaram a insistir e depois com muita dificuldade me levantei, fomos para o Cais do Sodré. No Cais do Sodré apanhamos um comboio onde estava tanta gente, eu lembro-me bem desse dia, que eu praticamente me perdi dos meus pais para podermos entrar nos comboios, que era um aperto total, parecia que estávamos a entrar para um concerto. Era uma multidão imensa para podermos entrar para o comboio. E eu sei que o meu pai agarrava-me na mão e eu cheguei numa altura a ficar separado dele, porque era tanta gente e tantos encontrões que aquilo era praticamente impossível. Era isso que eu queria contar, era assim que era ir para a praia nos anos 60, talvez. E queria dizer também que eu tive a sorte de ser operado à garganta e de comer os gelados todos que estavam constantemente a insistir comigo, se eu não queria um gelado. Então eu aproveitei essa altura para comer os gelados todos que havia disponíveis para poderem ser comidos.

Vingou-se.

Vinguei-me, exatamente. Muito bom dia.

Obrigada. Manuel Monteiro, bom dia. Nem sempre era fácil, imagino, encontrar gelados à venda no inverno.

Não, não era fácil.

Só nas farmácias.

Temos aqui esta referência à dificuldade em chegar à praia. Para se chegar à praia, eu sei que as palavras também vão mudando ao longo das épocas, e como se percebe aqui, nós vivemos numa época em que todas as palavras são muito policiadas, tudo é muito complicado, mas não se pode falar de praia nos anos 60, 70 e 80, sem falar de bichas. Havia bichas para se chegar à praia. E as bichas faziam logo título, porque tínhamos logo uma bicha que começava em Algés para as pessoas, estamos a falar das pessoas que iam de automóvel, ficavam em fila, longo tempo, para conseguirem chegar às praias na linha do Estoril. Alguns também iam de comboio, outros já iam de automóvel. Depois tínhamos um clássico que era a fila ou bicha, como lhe quiserem chamar, na Praça de Espanha. Também havia o Cais do Sodré.

Para as praias da costa.

E também havia no Cais do Sodré. E na Estrada da Serra, para aceder à Praia Grande, Praia Pequena, as praias ali da zona de Sintra, não é?

Sim, mas já lá estavam mais próximo. Agora, a Praça de Espanha era uma coisa que serpenteava e a pessoa pensava: "Bem, quando chegarem à praia, como é que vai ser? Porque isto vai demorar o seu tempo". Havia até muitas pessoas aqui na zona de Lisboa, fazendo isto em relação à Costa da Caparica, que é: de manhã faziam praia, porque tínhamos sempre esta questão do sol da manhã, e que o sol da manhã fazia muito bem, aquelas coisas todas. Portanto, de manhã fazia-se praia e à tarde ia-se respirar o bom ar dos pinhais.

Ou comer, como aqui diz a Ana Isabel Costa, desculpem estar a interromper. Diz: "A melhor recordação de verão, ir à praia de Santa Mar de Oeiras em grupo, família e vizinhos, e depois ir almoçar à mata arroz no tacho, embrulhado em jornal."

Olha, posso dizer-te uma coisa. Nestas praias do norte em que eu fazia praia, em que a minha família fez praia durante muito tempo, por causa do iodo. Eu odeio o iodo. Hoje gosto imenso de praias com mar, mas durante alguns anos, um dos meus ódios de estimação era o iodo. E por quê? Porque o meu irmão precisava, segundo o pediatra, de praia com iodo. Muito iodo. E portanto, toda a gente caminhava para o Algarve e nós cada vez mais para norte. Para ter o iodo, porque tinha de ser o iodo. E recordo uma família de lavradores, agricultores, das zonas de Bombarral, Rio Maior, que convidou os meus pais para um almoço na praia. Eu na altura, adolescente, insuportável, intratável, achei aquilo abominável. Mas recordo hoje com imensa saudade, mas imensa saudade. Para já a imagem dos cestos de verga de onde saía louça, talheres, toalhas, tudo como devia ser, e exatamente um arroz que acompanhava um frango. De leirão, Helena.

Não, de frango. Ai, se é nossa, é da GS, obviamente. Um arroz extraordinário. Porque eu não sei, aliás, cá uma investigação a fazer. Por que o arroz num tacho tem um sabor diferente na praia? Mas eu garanto que há aqui um lado de memória e de infância. Mas havia também todo um imaginário ligado à praia, que passa por outras coisas, por exemplo, por óculos de sol, as coisas novas que nós passamos a comprar para levar à praia e que também podemos ouvir ou não.

Vamos lá. Óculos de sol.

E depois ainda íamos aos biquínis, à saga dos biquínis.

Também já lá iremos, mas se calhar.

Então vamos esperar pelos óculos de sol.

Vem a expedição ainda. Vamos esperar pelos óculos de sol.

Vai chegar, Helena. Estás a falar do arroz.

Do arroz, sim. As coisas que as pessoas comiam.

E do cansaço. Deixa-me só aqui dizer que estás aqui a falar da memória da criança. O trabalho das mães, um dia de praia devia ser uma canseira, porque tinham que acordar mais cedo para fazer o arroz, carregar as toalhas turcas, que não são estas agora todas fantásticas.

Tu desculpa, mas eu, por acaso, não concordei muito com aquilo que o Edson disse sobre a publicidade, mas ele é nosso convidado, um dia podemos falar aqui sobre publicidade. Mas o assunto das toalhas turcas, nós não saímos daqui sem esclarecer.

Uma boa toalha turca. As toalhas desta época eram muito pequenas, não se percebe porquê, mas eram muito pequeninas. Hoje as toalhas são grandes. Mas não há nada que chegue a uma boa toalha turca para limpar o corpo do sal, como já se percebeu até por um vencedor que eu aqui fiz. Eu sou daqueles que adora sair da praia e passar-se por um chuveiro e aquelas coisas todas, que acabaram agora por causa do Covid, não se sabe se alguma vez irão voltar.

Para tirar a areia é muito mais fácil.

Sim, é uma coisa que limpa. Eu percebo hoje a atração, porque eles têm desenhos lindíssimos, aqueles panos, aqueles pareôs, aquelas microfibras, seja lá o que for. Vamos defender o turco nacional. Os espanhóis vêm a Portugal comprar turcos. Não há nada que chegue a um turco nacional. Eu tenho ainda uma toalha desta época. Elas tinham, por exemplo, tenho uma que é Algarve, em tons de azul, era pequenina, mas era uma toalha de adulto.

Porque havia toalhas para crianças.

Havia toalhas para criança, que isso é só se nós fôssemos anõezinhos. E portanto, eu devo ter exigido uma toalha para adulto, que era muito aborrecida com a questão das areias, e depois tinha um pormenor delicioso na ponta, que era uma franja. Um franjado, que era para dar ali todo um toque. Mas as toalhas, sim, há todo um conjunto de coisas que se vão divulgar por causa das praias. Nós vemos isso na publicidade, nos jornais. Temos a questão da geleira, para poder levar as coisas para a praia, as toalhas, depois há todo um conjunto de brinquedos que as crianças tinham, os baldinhos, os moinhos. Aliás, aquilo era mais ou menos atualizado todos os anos. Portanto, tínhamos ali todo este lado. Embora eu gostasse mesmo de ouvir os óculos de sol, João, se puder ser. Pode?

Vamos dar mais um pouco à produção para encontrar os óculos de sol que tu queres.

E as biquínis. Não?

Os biquínis...

Também não.

Também não.

Também não. Então pronto, porque esta faz parte da tal playlist que nos foi feita pelo António Macedo. Temos realmente os óculos de sol de Natércia Barreto, interpretados por Natércia Barreto, e os óculos de sol que hoje nós usamos muito comumente, vão vulgarizar-se muito.

Até os óculos de sol agora, até no inverno, se usam. Porque era uma coisa que se calhar só se usaria ali no verão, na ida para a praia, e agora também passou para o ano inteiro.

Sim, mas rapidamente há pessoas que percebem que aquilo dá estilo. Eu recordo, começa também nesta época, os anos 70, ali no princípio mesmo dos anos 70, uma coisa que eram os assaltos a bancos. E há um assalto, olha, bem perto aqui da Rádio Observador, aqui na Avenida de Roma. E o que é espantoso, porque as pessoas não têm noção, as pessoas acham que só agora é que os fotógrafos estão lá e vão lá. Bem, eles são detidos e o que é espantoso é que a pessoa que está à frente do assalto, que depois vai ser protagonista de outras coisas mais tarde, mais de cariz político, pousa para os jornalistas e para os fotógrafos com um ar espantoso. Tinha assim uns óculos de sol na ponta do nariz. Está contentíssimo, acabou de fazer uma coisa que o pôs nas notícias, que o pôs na primeira página dos jornais e pousa com o que devia ser uma imitação daqueles óculos de aviadores, para não continuarmos aqui a dizer marcas.

À Marcello Mastroianni.

Sim, fabuloso. Ele era um perfeito moço e ficou muito bem nas fotografias. Podemos ir?

Valeu a espera, não valeu? Há aqui uma rima que hoje em dia quase seria impossível ou imperceptível, "rol" com "sol". Hoje em dia já ninguém sabe o que é um rol. Digo eu.

Mas eu agora acordei aqui para um problema. Tu vais falar de amores de verão, é isso? Porque esta canção está cheia de desgostos de verão.

Isto era um desgosto. Mas note-se, há aqui uma coisa muito importante que ela também refere, que é o rádio portátil. Havia uns que eram mais ou menos do tamanho dos nossos telemóveis hoje, que as pessoas levavam e estavam sempre na praia a ouvir rádio portátil. Aliás, há também um lado de rádio nas praias desta época, que para as crianças mais ou menos algadas, como era o meu caso, estimulavam imenso a imaginação. Estou a falar da cabine de som, que existia em várias praias, punham música, passavam publicidade, publicidade local, como é óbvio. E depois, a dado momento, ouvia-se: "Está aqui um menino perdido na nossa cabine de som". Às vezes o menino sabia dizer o nome, outras vezes não sabia dizer muito bem. "Pede-se aos seus pais que o venham buscar". E tudo aquilo atiçava imenso a imaginação de crianças, quer dizer, que teriam ali o seu momento, mas o seu momento de grande protagonismo. E havia mensagens que se trocavam neste lado da cabine de som.

Mas isso havia em todas as praias?

Não Não, eu como expliquei.

Só as praias com iodo.

Com iodo havia, nas outras, porque a família chegou tarde ao Algarve, onde as coisas eram já de outra natureza, menos regionais, por assim dizer, por causa desta questão do iodo. Havia todo um conjunto de rituais, que aliás o José Manuel também já abordou aqui num programa que fez sobre as férias, e que passa a ideia de que se chegava à praia e se ia para a praia, quer dizer, desistam. Havia ali a ideia de que no primeiro dia só se podia ir um bocadinho, uma hora ou uma meia hora, ou lá o que é. Depois no segundo dia, ia-se ali mais uma hora. E tudo isto era muito progressivo. Havia até quem dissesse que demoravam tanto tempo, que realmente só mesmo no último dia de férias é que conseguiriam fazer o dia de praia em condições. É claro que havia umas crianças mais, nós ponhamo-nos a pensar, então mas como é que é? As pessoas que vivem na praia também não escondem os filhos, não os levam para outros lados, eles estão aqui o ano todo, mas havia muito este lado. E depois havia aqui também uma outra coisa que hoje será muito difícil de entender, que era os escaldões que nós apanhávamos. Apanhávamos verdadeiros escaldões. E também a questão do estar bronzeado.

Como é que se tratavam os escaldões, Helena? Tens ideia? Lembras-te o que é que se fazia?

Eu sou morena, felizmente.

Passava?

Passava. Muita coisa passava. Eu aliás acho que há várias coisas que se deixarem passar, talvez não tenham aquela dimensão estratosférica que se lhe dá hoje. Há bocado, quando o Edson estava a falar da publicidade, que se tem de reger, porque os tempos são outros, a publicidade, eram corpos perfeitos, era piadas machistas. Eu não sei, eu acho que o Edson nunca, felizmente, foi às praias do norte, não sei como é que seria no Brasil, nos anos 70, em que havia uns bonecos, umas marionetes, que apareciam na praia. Nós chamávamos-lhes os Robertos. E eles apareciam nas praias, as crianças todas corriam, pediam aos pais uma moeda para depois dar às pessoas que faziam aquela prestação. E isto é terrível, mas a única coisa que o Roberto, que era o boneco masculino e a sua parceira feminina faziam, era bater-se. Mas batiam-se. Às vezes havia uma terceira marionete, que era um diabo, se bem me lembro.

Mas quanto mais batiam, mais gargalhadas se ouviam. Era o momento mais importante aí dessa representação.

Sim.

Era o objetivo, aliás.

Eu nunca percebi qual era o argumento daquilo. Nunca na minha vida percebi qual era o argumento, quer dizer, se havia algum enredo naquela bonecada toda, que não fosse baterem-se alarvemente. Mas aquilo, tenho essa memória, dezenas de crianças sentadas no areal. Aquilo tinha uma espécie de um pano à volta. E eles batiam-se. E depois havia quase um azo que nós às vezes temos quando vemos os bastidores das coisas, que era quando aquilo se desmanchava e nós os víamos partir para fazerem a sua representação um pouco mais à frente. Mas tu estavas aí a falar das questões dos amores. Sim, há muito um imaginário, não necessariamente, são estas coisas que só acontecem quando nós somos novos. Não necessariamente feliz destes amores de verão. Por exemplo, se nós ouvirmos Milena, À praia, pelo conjunto académico João Paulo, nós vemos o que é sofrer na mais tenra juventude, senhores. Pode tocar.

Na praia tu e eu não estamos sós. A sombra de outro alguém vive entre nós. Não, nunca o saberás, Milena. Mesmo ao beijar-te nunca te amei. Tu sempre ouviste palavras vãs. Não, nunca te direi, Milena. Foi noutra praia e um outro mar. Um verão passado para que recordar. Se a sua imagem me não te deixa amar. Na praia tu e eu não estamos sós. A sombra de outro alguém vive entre nós. Não, nunca o saberás, Milena. Na praia deserta ela disse-me adeus, mas não, Milena, nunca te direi que são os seus lábios que eu procuro quando toco os teus. Mas perdoa, Milena. Foi noutra praia e um outro mar. Um verão passado para que recordar. Se a sua imagem me não te deixa amar. Amar

Helena, são 11h da manhã, tanto sofrimento? Caramba!

E o que é espantoso é a juventude destas pessoas.

Eu adoro o título, porque é Milena, a da praia, porque se supõe que existe a outra. Agora, se sofre assim com a da praia, imagina a do campo. Sem desprimor para o campo.

Mas é isso que é muito impressionante nisso tudo, e que é a juventude destas pessoas, e o que eles cantavam, a dor com que cantavam, este ar de sofrimento, este ar dos amores.

É novo, não é? Isto é novo na cultura portuguesa, a praia, o amor de verão, o amor na praia.

Quando nós vemos, por exemplo, às vezes algumas pinturas, até estou a lembrar-me alguns quadros do Malhoa, que já tem a Praia das Maçãs, e nós percebemos que há ali um lado de cumplicidade naquelas pessoas, mas estamos a falar das elites. Aquilo que nós temos aqui depois é uma massificação, e isso passa também pelo alargar dos destinos, pelas tais filas para ir pra praia, pelos tais dias épicos que a Carla aqui referia para muitas mulheres. Imaginemos o que era ter tudo preparado para sair de casa, as crianças, tudo, e não sei o quê. Ir pra caminhonete ou enfiar-se dentro de um carro, mas muitos iam para a fila da caminhonete, estar na fila da caminhonete, chegar à Costa da Caparica.

A carregar o tacho.

A carregar a comida toda, várias crianças. Estar lá um dia, voltar ao fim do dia, fazer o percurso inverso. É exatamente a mesma sensação de surpresa que se tem aqui com estas pessoas. Estamos a falar do conjunto acadêmico João Paulo, eles eram todos novíssimos. Que vidas sofridas teriam.

Música de 1965.

Que vidas sofridas teriam estas almas pra estar a cantar isto desta forma, mas também pensa isso em relação a este lado da praia. Agora, o que se pode dizer é que se percebe que há um grande mercado para tudo isto. O Edson referia aqui a questão do dinheiro. É muito importante, porque se percebe, nós temos já campanhas publicitárias de supermercados no verão. Estou a falar de 71, 72, 73. Os produtos nem sequer são muito diferentes. Têm é outro formato. Mas temos o colchão de praia, temos a geleira, temos os enlatados, portanto não vai mudar muito. Agora, é óbvio que começa a vir uma grande procura, até porque, simultaneamente com isto, e nós aqui estamos a falar muito da praia, nós tivemos também, começando um bocadinho antes, uma campanha que procura alertar os portugueses que há muito para descobrir em Portugal, que é a campanha do: "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si". E portanto, a ideia era que as pessoas conhecessem Portugal, o que é que há em Portugal, o que é que havia para ver em Portugal, e que passava por Nazaré, Óbidos, Fátima, Alcobaça, Mafra, Ericeira, Sintra, Bom Jesus de Braga, Viana do Castelo. Tínhamos muito também as amendoeiras em flor no Algarve. Os jornais enchem-se também muito de uma publicidade. As pessoas gostavam muito de excursões e portanto, nós temos excursões que fazem um dia, dois dias, três dias para irem a diferentes locais. Olha, João, a propósito do teu gosto por material de campismo.

Onde é que leste isso?

Conhecimento profundo.

Conhecimento profundo. Eu posso dizer-te que tu conseguias comprar um belo material de campismo no Grandela. Por exemplo, nós tínhamos cadeiras de praia, umas maiores, outras mais pequeninas, tínhamos tendas, tínhamos colchões, eram uns armazéns que existiam, e que faz uma linda publicidade de campismo. Estamos também a falar nos grandes armazéns Grandela. Dizem que também faziam entregas ao domicílio. E temos aqui também já o saco-cama, que é essencial para quem faz campismo. Portanto, temos aqui um lado muito importante neste lado das férias e do equipamento que as pessoas começam a comprar pra férias. Eu tenho aqui, depois é um tesourinho muito deprimente, de uma coisa que acontecia aos ricos que faziam férias, com viagens de avião, isto também nos anos 70, aqui já não tem a ver com os anos 80, 90, mas eu não resisto a falar-vos de um anúncio feito por uma companhia de seguros portuguesa, a Companhia de Seguros Tranquilidade, em 1970, e que é um seguro que se fazia por 100 escudos. Se a Judite França nos está a ouvir, já deve estar a fazer a conversão de quanto é que isto. Eu já vi seguros pra tudo. Há seguros e a imaginação dos agentes de seguros e das companhias de seguro é uma coisa que nos ultrapassa, ou pelo menos a mim, ultrapassa-me completamente. Mas para as pessoas, não pensem só que era difícil a vida de quem fazia férias, a ir na caminhonete pra praia mais próxima, ou de automóvel. Não. Os ricos, e na altura, era preciso ter algum dinheiro e alguns meios econômicos para se poder ir para fazer férias assim tão longe.

Espera aí, a Judite ensinou-me o truque. Em que ano é que se pagava esse seguro de 100 escudos?

1970, vais apontar a data.

1970, 30 € hoje.

Pois é. Então, por essa quantia, tu podias proteger-se, e era isso que dizia a Companhia de Seguros Tranquilidade: "Proteja-se contra salteamento em pleno voo."

Salteamento?

Em pleno voo Aceitam a suposição.

Voo lá em cima.

Sim, voo lá em cima. Era tudo conforme se tem dito aqui, era tudo um bocadinho mais leve. A realidade era o que era, mas havia uma ingenuidade muito grande. Vá lá, o que era o salteamento em pleno voo? Um seguro de seis escudos. Era interessante o que eles se propunham pagar. Eles propunham-se dar até 3500 escudos para proteger os danos. Também faziam uma cobertura de alguns dias. Se for viajar, consulte-nos imediatamente. Por seis escudos, proteja-se contra salteamento em pleno voo.

Eu não faço a minha viagem se não tiver o salteamento.

Senhores, era o desvio de aviões! Aquilo que nós agora chamamos de terrorismo. E havia imensos aviões desviados.

Então era muito barato, só €100.

Ó Carla, tu imaginas hoje alguém fazer um anúncio: "Proteja-se contra um ato terrorista no voo". O que acontecia? Havia muitos aviões desviados, sobretudo desviados para Cuba. As companhias de seguros, aquilo era visto com alguma banalidade, as pessoas iam para Cuba, depois saíam, depois apanhavam o avião, vinham-se embora e com isto tudo por seis escudos. Havia, às vezes, algum problema com as bagagens, outros que tinham problemas com os seus trabalhos, até com as suas próprias férias, e a tranquilidade fez este seguro para proteger as pessoas. Eu acho que isto só se percebe, eu sei que isto é dos anos 70, ouvindo uma canção, "In the Summertime".

Vamos lá. "In the Summertime", de Mungo Jerry, a pedido da ouvinte Helena Matos.

Exato.

Queres pôr a tua voz anasalada de locutora dos anos 70, a Carla Jorge Carvalho?

Não sei se consigo, mas estamos a falar de verão, num contracorrente que começa com a dúvida eterna.

Existencial, até, digo eu. Existencial.

Existencial, e que marcou várias gerações. Podemos ou não ir à água, ir ao mar com a digestão feita? Professor José Parício, pediatra, bom dia. O senhor é coordenador da Unidade do Atendimento Urgente Pediátrico do Hospital Lusíadas, Porto. Pode explicar-nos? É preciso mesmo fazer a digestão para entrar no mar?

Bom dia. Portanto, vamos pensar em que local é que nos encontramos. Se nós estamos em nossa casa, em que vamos tomar uma temperatura com águas de 30, 27, 28, nós não temos esse problema. Mas nas águas nacionais, as águas do Atlântico Norte são águas frias. Portanto, grande parte das pessoas vai para as Caraíbas e não precisa fazer digestão. Por quê? Porque o organismo, quando nós fazemos a digestão, nós temos um fluxo enorme de sangue nas zonas do intestino para que a nossa digestão e absorção dos alimentos se faça adequadamente. Quando nós sujeitamos o nosso organismo a uma mudança de temperatura brusca, como é, por exemplo, mergulhar numa água a 18 graus, 19 graus ou 16 graus, que são as águas do nosso Atlântico Norte, corremos o risco de o nosso organismo se defender e enviar sangue à pele para que o organismo não fique tão frio. E é esse choque de temperatura que pode fazer com que o nosso coração não goste dessa mudança de temperatura e possam aparecer os sinais de congestão, aquilo que se falava antigamente, que a pessoa se sentia mal, que a pessoa podia morrer afogada. Portanto, nos nossos dias, com as nossas temperaturas, é prudente que as pessoas deixem a digestão duas horas, sem grande problema, para evitar que possam apanhar um choque de temperatura se forem para águas frias. É evidente que antigamente era tudo generalizado. Não se podia cortar o cabelo, porque se tinha comido. Não se podia lavar a cabeça, porque se tinha comido. Não se podia ir para a água, porque se tinha comido. Agora, bom senso. Se tivermos temperaturas, águas de piscinas que estão quentes, Caraívas, não há risco nenhum em nossa casa, lavar o cabelo, tomar um banho, a seguir ao almoço, não há risco desse choque de temperatura. Mas com águas do Atlântico Norte, as nossas praias, eu sugiro que pais e filhos tenham cuidado ou pelo menos quando entram na água, façam uma adaptação à água. Portanto, têm que se molhar, passar água no corpo.

Mas, senhor doutor, como a água está tão fria, a adaptação faz-se porque a pessoa demora tanto tempo a conseguir molhar-se.

Que já faz a digestão.

Portanto, eu encontrei finalmente uma justificação para a figura triste que passei a fazer em adulta, porque em criança nunca achei que a água estivesse fria, e garanto que era em praias onde hoje eu acho que ela é muito fria, mas as crianças não acham que a água esteja fria, mas quando em adulta passei a demorar algum tempo até conseguir mergulhar, então agora eu já tenho uma justificação para aquele tempo que ali estou, molho o bracinho, molho a mão, molho a bochecha.

Acho que isso é prudente. Acho que nos dias de hoje as pessoas têm que ter noção de que mais vale Estarmos seguros de férias, de apanhar um susto. É evidente que a pediatria está menos sujeita a isto, provavelmente por mecanismos fisiológicos. Ou seja, estes problemas não eram problema da criança, era um problema do adulto. Portanto, haverá, se calhar, outros mecanismos, mas o que nós não podemos é obrigar o nosso organismo a estar grande parte do fluxo a fazer a digestão e depois obrigar a trazer sangue à pele, porque o nosso corpo fica muito frio e esse risco existe.

Em todo o caso, quando falamos de digestão, é quando falamos de uma refeição completa. E isto acontece muito na praia, os pequenos snacks intervalados durante o dia, não há-

Um pequeno snack não tem problema nenhum. Agora, atenção, independentemente de estarmos a fazer a digestão, nós temos sempre que pensar que o nosso organismo, que está com calor, nós estamos habitualmente a receber água, sol no corpo, o nosso organismo tira sangue da pele, porque nós não precisamos ter muito sangue à pele. Se de repente sujeitamos o organismo a uma mudança brusca de fluxo, isso independentemente da digestão, pode fazer, nomeadamente no adulto, perturbações do funcionamento do coração e isso pode realmente ter risco. A pediatria está menos sujeita a isso, porque é um coração jovem, é um coração saudável, um coração com uma resiliência enorme, com uma capacidade de adaptação. De qualquer das maneiras, é prudente que se incuta isto nos pais e nos filhos, que a adaptação deve ser gradual e, nomeadamente, sobre uma refeição completa, devemos ter agora um gelado, um iogurte, uma sands. Isso não. Antigamente era muito generalizado, qualquer coisa que se comia não se podia fazer. E acho que isso deve ser desmistificado nesta altura, que não há risco nessa altura.

Sr. Doutor, mais um mistério da minha infância, eu nasci nos anos 70, que era aquela ideia que nós nos tínhamos de ir adaptando progressivamente à praia. Portanto, um dia era uma hora, depois no dia seguinte eram duas horas, depois era mais meia hora. E ali andávamos. Qual é que era a razão de ser?

Acho que era uma razão de prudência, mas uma prudência não justificada cientificamente. É evidente que se nós olharmos para trás e pensarmos que antigamente a dicotomia que era durante o inverno estamos dentro de casa, durante o verão estamos fora de casa e o estar fora de casa é só na altura das férias. Hoje em dia as crianças têm muito mais tempo ao ar livre, as crianças passam desde maio, junho nos recreios. Portanto, eu acho que esse problema nem passa pela cabeça dos pais. Provavelmente os avós falarão no tema, mas não havia razão para haver uma adaptação ao sol. Não há razão para que a pessoa hoje esteja uma hora, amanhã esteja duas. Acho que foi a mudança geracional em que de repente estávamos todos dentro de casa, começamos a sair e por alguma prudência, e acho que a prudência nunca ficou mal a ninguém, havia aquela preocupação que nos temos que adaptar gradualmente à temperatura exterior, ao sol, mas não há fundamento para isso, desde que haja a devida proteção com o protetor solar, que isso é fundamental, seja para uma hora, seja para sete ou oito horas, o que temos é que ter a proteção solar adequada à pele de cada um de nós.

Sr. Doutor, eu vou depois passar parte da sua intervenção à minha mãe, já não posso recuperar o tempo perdido.

Pode recuperar. Pode recuperar esse tempo com umas férias extra, mãe. Dá-lhe esse tempo todo de férias.

Exatamente. Muito obrigada, então. Mas vai ter que nos explicar por que tantos de nós andamos a meter um penso nas costas no início do verão. Para que aquilo servia, porque muitos de nós têm essa memória, mas ninguém sabe explicar para que aquilo servia.

Nós estamos a falar numa época, hoje em dia, nós se perguntarmos aos jovens pediatras, eles nem sabem o que isso é. Portanto, se fizermos essa pergunta, eu sou da fase de geração no início, ainda havia essa cultura. Nós estamos numa altura em que nessa época em que a tuberculose era uma doença frequente, em que a BCG era uma vacina universal, em que a preocupação com as reativações da tuberculose existiam, e havia um penso, que do ponto de vista científico, hoje em dia seria muito questionável, que as pessoas punham para ver se havia alguma reativação da dita tuberculose, que podia estar latente e que de repente se podia tornar doença. E então havia o ritual, que antes de férias, mais uma vez, antes de férias era bom ir para férias com saúde e sem nenhum risco. E havia este ritual de ir ao pediatra, ir ao médico de família, punha-se o selo e via-se passado algum tempo, se debaixo do selo havia alguma reação. Se houvesse esta reação, era melhor ser visto para depois fazer alguma coisa antes de férias. Agora, do ponto de vista científico, não tem fundamento, até porque desapareceu essa prática, mas temos que respeitar a ciência e a ciência vai evoluindo. Portanto, o que se sabia há 30 anos atrás, hoje sabe-se muito mais e por isso já não se aplica. A própria BCG já não se dá a toda a gente, quando antigamente era uma vacina universal. Portanto, é uma questão de época, é uma questão de sermos respeitadores do passado e perceber que só estamos hoje aqui porque os nossos antepassados e quem veio antes de nós teve determinadas atitudes com bom senso, discutíveis do ponto de vista científico, mas provavelmente daqui a 20 anos estarão a comentar aquilo que nós fizemos.

Portanto, o que está a explicar é que esse penso que punhamos nas costas não tinha nenhuma relação direta com a segurança de ir à praia, era só um modo de verificar o nosso estado de saúde.

Acho que era uma questão de prudência. Eu costumo dizer na brincadeira. Antigamente, o meu pai, por exemplo, antes de fazer uma viagem, ia sempre ao mecânico ver se estava tudo bem, se os níveis estavam bem, se estava tudo em ordem. Só se podia fazer uma viagem depois de passar no mecânico. Eu acho que aqui era um bocado a mesma coisa. Era o momento em que as famílias, para ter a certeza se podiam ir de férias, iam ao pediatra, iam ao médico de família, ver se não havia nada. E a tuberculose era realmente uma doença que preocupava. Portanto, era provavelmente, porque era uma doença que podia estar a evoluir sem grandes sintomas nessa fase, mas hoje em dia sabemos que as coisas não são assim. Mas acho que foi uma prudência algo exagerada, mas era o conhecimento científico na altura e que nós temos que respeitar.

Claro que sim. O professor José Parísio estava a dizer que daqui a uns anos vamos rir com algumas práticas que temos agora.

Não tenho dúvida nenhuma.

Consegue pensar em qual? O que nós estaremos a fazer que não fará sentido daqui a uns anos?

Provavelmente algumas preocupações que nós temos alimentares. O problema é que a ciência evolui e nós descobrimos depois determinadas coisas que à data não sabíamos. Portanto, provavelmente iremos ser criticados da quantidade de carne que comemos, iremos ser criticados da quantidade de açúcar que comemos. Acho que nós hoje em dia estamos mais abertos à diferença, ao futuro, do que estaríamos antigamente. Hoje em dia sabemos que a ciência evolui rapidamente, mas provavelmente até podemos discutir um dia que se calhar alguém vai, agora estou aqui a especular, que se calhar mais vale não comermos determinados ingredientes em vez de outros. Podemos quase no limite criticar. Eu acho que hoje em dia é essencial termos um protetor solar adequado, mas temos que estar preparados que alguém diga que afinal pode não ser tão adequado daqui a 20 anos, porque afinal o sol fazia bem a mais este fator da pele. Acho que a ciência é muito cíclica, muda rapidamente. Agora, é como lhe digo, à data de hoje, nós temos que respeitar o que a ciência nos diz para fazer. Mas como isto evolui, eu não ponho de lado que daqui a 20 ou 30 anos alguém critique aquilo que eu hoje estou a dizer que é o melhor pra criança, que é o melhor pra um pai. Mas a ciência evolui, portanto, nada é estável e nós temos é que ter o espírito aberto e respeitar decisões que venham a aparecer daqui a 20 anos, como esta do selo, que era uma coisa institucionalizada, tem que ser, vamos vigiar. Portanto, acho que temos que saber viver, temos que saber reconhecer o passado e perceber que é o passado que nos traz o futuro. Portanto, vamos ter sempre esperança de que o cliente vai sempre estar melhor.

Vamos ter essa esperança. Professor José Farinha e Silva, muito obrigada. Pediatra aqui a ajudar a pôr na ordem uma série de questões e de inquietações que marcaram a juventude de muitos de nós.

É muito curioso.

É verdade.

A própria linguagem. Nós vimos aqui a questão do protetor solar. Nós hoje temos o protetor solar, mas o tempo de que nós estamos a falar era o tempo do bronzeador. Ou seja, ninguém ia comprar um protetor solar, as pessoas iam comprar um bronzeador para ficarem muito bronzeadas.

Já falámos aqui da Coca-Cola, muito boa gente usava Coca-Cola para ficar douradinho mais rápido.

E os mais variados produtos para conseguir ficar verdadeiramente bronzeado. Depois há coisas que num determinado momento são vistas como muito importantes e muito libertadoras. Eu recebi aqui uma mensagem por WhatsApp de um nosso ouvinte fiel. Eu já tinha aqui agendado falar disso, vocês lembram-se, e até temos uma fotografia fantástica de Mário Soares na praia, que é quando o topless parecia que ia ser assim no futuro.

Essa fotografia é fantástica.

E temos Mário Soares na praia com uma cidadã, que está em topless, explicando aos ouvintes. Do biquíni só tem os calções.

Não chamamos calções, que aquilo era umas tirinhas.

Eram umas tirinhas, está bem, pronto. Mas era, estava bem vestida e era uma rapariga. O Edson explica-nos aqui que esta questão dos corpos perfeitos, cada um tem o corpo que tem. Agora também não vamos proibir os corpos perfeitos. E era realmente um perfeito corpo.

Era.

E portanto, parecia que ia ser a grande libertação e mesmo o nudismo, e por que não se pode fazer nudismo, e vamos fazer nudismo, e porque tem que ser nudismo, e porque o nudismo, coitadinhos dos nudistas, os nudistas não têm praia. E depois ficou sempre aquela coisa, que você nota aqui também nas vossas inquéritos: "Se encontrares o chefe na praia e ele estiver nu, o que é que diz?" Tornou-se um clássico. Mas houve coisas que se pensaram que poderiam vir a ser muito mais generalizadas do que depois vieram realmente a ser. A questão do topless tem razões óbvias. Depois perceberam-se uma série de perigos em relação ao sol. Eu acho que nós temos de dar a palavra aos nossos ouvintes, mas eu gostava de lhes dar com música e portanto, se pudesse ser com o Yellow River, não desmerecíamos, pois não, João?

Nada disso, vamos lá. A voz de Jeff Christie neste Yellow River, música de 1970

Convidado por António Macedo.

Fiz uma pausa dramática. Já vamos chamar o António Macedo, Carla. Deixa-me só dar conta de alguns dos comentários dos nossos ouvintes que vão sendo escritos nas redes sociais. Manuel Gonçalves escreve que antigamente ninguém se queixava do calor, portanto, toda a gente gozava o verão sem grande problema. Helena Coelho escreve que também nasceu nos anos 60, à semelhança da Helena Matos, partilha também destas saudosas memórias. Há uma em particular, escreve a ouvinte Helena Coelho, na Praia da Nazaré, que a Helena Matos já mencionou, a senhora de bata branca que vendia bolos na praia, transportando-os num grande baú em lata azul. Lá dentro, arrumados em prateleiras, também de lata, estavam bolos de várias qualidades e delícias. Lembra-se Helena Coelho dos barquinhos com creme de ovos. Hum, a esta hora já comia. "Que excitação à hora do lanche", escreve Helena Coelho. Quanto a Luís Lourenço, sublinha aqui um aspecto particular: o caminho para a praia era épico. A prevenção rodoviária atual teria um treco, gosto imenso desta palavra, com os miúdos aos pulos no banco de trás ou com a cabeça de fora da janela. Claro, isto tudo hoje em dia seria impensável, não é?

Era. Rui Nunes, bom dia, está reformado, está em Torres Vedras e também vou dizer a idade, tem 67 anos. São memórias assim mais ou menos parecidas com as da Helena Matos?

Sem dúvida nenhuma, são grandes memórias.

Também andou aos saltos no banco de trás, a caminho da praia?

Olha, a caminho da praia. Eu, como vivi em Angola, a caminho da reserva de caça. Fizemos muita coisa, muita loucura. Eu tenho pena até agora que ainda não tenham posto as músicas românticas francesas. O Adamo, por exemplo.

Mas estão aqui.

Já levamos.

Eu pensava que a Helena ia se esquecer disso. Eram músicas incríveis. Isso mesmo. Portanto, foram momentos incríveis que hoje em dia, eu tenho duas filhas já com 30 anos, nunca viveram. Elas nem imaginam os momentos de férias loucas que nós tivemos, sem problema algum. Era uma loucura. Eu vivi em África, nós vínhamos aqui, lembro-me plenamente aqui, usava-se muito a proteção solar. Nós em África nunca ouvimos falar em proteção solar, não se usava. Foram momentos incríveis. E fiquei já muito agradecido da doutora Helena ter colocado este tema em conversa, porque dá pra recordar grandes momentos.

Estamos aqui a fazê-lo, Rui Nunes, muito obrigada. Um bom dia.

Eu é que agradeço. Continuação de bom dia pra você.

Obrigada pra si também, Rui Nunes, e também para o André Ferreira, liga de Lisboa. É engenheiro, tem 50 anos, é aqui da minha criação. Bom dia, André.

Olá, bom dia. Eu não sei se já falaram no creme Nivea.

Estava prometido, sim.

Sim, e a bola Nivea.

Havia umas latinhas azuis.

Sim.

Que era aquilo com que minha mãe me protegia do sol. Untava-me com aquilo, mas aquilo servia pra muita coisa. Servia pro sol, servia pra chuva, servia pras feridas, servia pra tudo. Então aquilo era um creme universal.

Pra inveja, também diziam às vezes: "Quem tem dor de cotovelo, mete creme Nivea que passa".

E tínhamos a bola Nivea, que em muitas praias era um ponto de encontro.

Exatamente, era a bola Nivea. Outra coisa que desapareceu, que existia, havia pessoas a levantar papagaios. Não sei se lembra dos objetos que voavam com um cordel.

Sim.

E nas praias também se usava isso, isso desapareceu. E havia muito mais crianças com aqueles anfinhos e com aquelas pás. Não sei, aquilo vendia-se muito, eu tinha um pra fazer castelos. Isso desapareceu. E desapareceu a senhora que fazia batatas fritas caseiras e que embalava aquilo dentro de um saco plástico daqueles normais e que andava com uns cestos. Outra coisa que ainda bem que desapareceu foram as alforrecas. Havia muita alforreca. E não sei por que essa bicharada desapareceu.

O peixe-aranha é que resiste, o peixe-aranha é o resistente.

Fui mordido há pouco tempo com um peixe-aranha, é verdade, picado.

Onde é que ia à praia, André, quando era mais pequeno?

Ia a Sesimbra. Ainda Sesimbra tinha aquelas rochas, que depois cortaram, partiram aquilo tudo, estragaram aquilo tudo. Tinha uma zona com muitas algas e com muitos animais, especial ali pra alguns mergulhos, aquilo era muito engraçado. Mas essa música do Yellow River transportou-me. Vocês vão desenterrar essas músicas, depois a gente fica nostálgico. Veja bem onde é que eu fui, só pra acabar a conversa. Naquela altura, em Sesimbra, havia uma discoteca, eu era pequeno, tinha 12, 14 anos, eu não podia entrar nessa discoteca, mas havia uma discoteca que se chamava La Belle Époque. E aí havia uma senhora, que acho que ainda anda por aí a circular, que era a Helena Laureano, que era Miss Simpatia de Sesimbra, e a gente sabia que ela frequentava aquela discoteca. A gente fazia filas só pra tentar entrar. A mim não deixavam entrar que eu era pequeno, mas um dia, não sei por quê, porque arte do diabo, deixaram-me entrar. E eu lembro-me dessa música, que me fez transportar, porque nesse dia eu fui tocado por ela, porque eu estava na frente dela, ela pra me desviar, ela: "Com licença". E aquilo, está a ver, ficou pra o resto da minha vida. Pronto.

Muito bem, André Ferreira. Obrigada por ter partilhado esta memória com Helena Laureano, foi tocado pela Helena Laureano. António Macedo, bom dia, finalmente. Obrigada por este desafio e pela playlist do Contracorrente de hoje. Isto é o poder da música do verão.

Sim, mas a minha intenção não foi propriamente fazer uma playlist para o programa. Foi aquilo que me lembrei. Ocorreu-me na altura que a produtora Mariana me pediu para eu sugerir uma música, uma canção de verão e quando escrevi a primeira, comecei a me lembrar de outras e escrevi. Foi só isso. Mais nada.

António, daqui fala a Helena Matos.

Eu já tinha ouvido. "Fala a Helena".

Olá, António.

"Vamos contar umas histórias", ou melhor, "eu vou ouvi-la contar umas histórias". Estava aqui para isso.

Eu e o António. O António dirigia um programa numa rádio e eu contava histórias e ele fazia perguntas. Contamos desde a história do pudim do Abade de Priscos, à revolta de umas freiras, coitadas, a quem puseram uma grade num convento em Braga e elas não podiam passar as mãos para o outro lado. Tivemos ali grandes momentos de rádio. António, como é que era isso das músicas de verão?

A memória que eu tenho é que havia as músicas de verão e as músicas de verão que se estendiam para lá do verão. Porque havia os êxitos de verão. O "Yellow River", por exemplo, foi um êxito de verão que foi recuperado muitos anos depois por outro grupo, não me lembro agora o nome do grupo, mas foi de facto um êxito de verão. O "In The Summertime" dos Mungo Jerry também foi um êxito de verão. Mas depois havia muitas canções. Havia canções que eram lançadas por essa altura, que era um momento bom para vender discos ou singles, mas que eram canções tão boas que ultrapassavam a época de verão e deixavam de ser meramente canções de verão. Agora, as canções de verão naquela altura. Eu sou um bocado mais velho, eu tenho 71 anos, eu ainda sou dos anos 50. Depois, eu vim nos anos 50. As minhas memórias de praia e de férias, evidentemente, são dos anos 60. Mas aconteceu que os êxitos tanto eram êxitos tipo "Yellow River", para abanar o capacete e o resto do corpo, como eram as canções que nós chamávamos "as canções para constituir família". Para dançar agarradinho. As canções francesas eram ótimas para isso. Muitas canções do pop inglês também da altura, dos Marmalade, dos Hollies. Muitos grupos que na altura eram conhecidos em Portugal. Naquela época, nos anos 60, para mim, as férias, a praia, e eu tenho memórias de praia, desde a Figueira da Foz até à Praia da Rocha, passando pela Azujinha, aqui na costa do sol. Tenho memórias por aí fora. Eram tempos de absoluta liberdade. Eu ouvi há pouco um ouvinte que falava das praias em Angola e das férias, das idas à praia, etc. E realmente transmitiu-me esse sentimento. É um sentimento de liberdade total que havia naquela altura, inclusive porque no princípio dos anos 60 nem sequer havia bandeiras. Nós picávamos carreiras na Figueira com a água a 12 e 13 graus, 30, 40 minutos, ondas de dois e três metros de altura. Hoje em dia, provavelmente a bandeira estará aos quadrados. Era impossível tomar banho. Nós tomávamos banho. Tomávamos banho, não. Picávamos carreiras, tomávamos banho de areia. Andávamos um bocado, ficávamos ali um bocadinho sem pé e depois vínhamos para ali fora. Aos 20 e 30 minutos, fazíamos aquilo. É uma memória inultrapassável, como havia outras coisas. Por exemplo, isso do protetor solar. Também o ouvinte falou do creme Nívea. Eu até me ri, porque era mesmo isso. Era a única coisa que punhamos no corpo, que a minha mãe me punha no corpo, era o creme Nívea. E realmente as bolas de praia eram os pontos de encontro. Nas praias grandes, como por exemplo, na Figueira da Foz, que não era tão grande como é agora, mas que já era uma praia razoavelmente grande, o ponto de encontro era na bola de Nívea. E tudo isso são coisas que efetivamente não se repetem. Hoje, a ida à praia está muito mais sofisticada. Não estou a dizer que não é bom. À minha idade, então, é ótimo. Ter um sitio para me sentar, para beber uma cervejinha. Naquele tempo, não havia nada disso. Ninguém se lembrava de coisas dessas.

António, e há aqui uma pergunta inevitável, até pela questão da idade, também. E eu fui testemunha desse sucesso. Uma vez fui apresentar um livro, que uma outra pessoa tinha escrito, e quando eu pensei que no fim várias senhoras se me estavam a dirigir para me dar os parabéns, não, queriam mandar recados para o António Macedo. E eu ouvindo lá carregadinha de recados para o Macedo. E elas faziam questão de reiterar para eu dizer ao Macedo que a senhora não sei quantas tinha dito que era isso, dizer tudo o que queira. António, como é que era? E o verão era tempo de amor ou não? De namorar.

De amor, não. De namorar, era.

Namorar. Amores de verão, portanto.

Namorar, sim. Amores de verão, há isso completamente. E então, ali em meados dos anos 60, na parte final dos anos 60, a partir de 66, 67, começou a chegar a Portugal verdadeiras paletes, para citar o grande Carlos Cobra Estrangeiras, nomeadamente nórdicas, suecas, dinamarquesas, também muitas inglesas que já vinham em bom número para Portugal. E isso era outro aspecto.

Portanto, digamos que o sexo masculino à época treinou muito os idiomas estrangeiros. É isso?

Olhe que se falava menos. Se calhar não havia muito tempo para falar. Eu, por exemplo, aprendi a dizer umas coisas em dinamarquês, de fato, que ainda digo. Uma que eu posso dizer é: "Jeg kan godt lide sol", eu gosto muito de sol.

Era um bom princípio de conversa.

Então não era.

Falar do tempo, claro.

Exatamente, era sobretudo o melhor princípio de conversa se nós estávamos a conversar de madrugada. À 01:30, às 02:00 da manhã, saímos de uma discoteca. "Poxa, eu gosto muito de sol", combinava a saída para a praia na manhã seguinte. Ou então não se combinava, levava-se o resto da noite até chegarmos à praia de manhãzinha.

Portanto, temos aqui esse lado também do verão, um verão cosmopolita, e em que acaba a conviver-se com uma data de gente que vem de fora, ouvir outras coisas, a ver outras coisas. Portanto, o verão vai também constituir-se como um tempo de abertura.

Noutro sentido, também. Porque já agora que falamos de música, na parte final dos anos 60, início dos anos 70, outra memória que eu tenho é da música de verão não ser propriamente música gravada. Juntávamo-nos na praia, nomeadamente na Figueira da Foz, que era uma praia grande e que permitia isto, e para onde ia muita gente, inclusive muitos espanhóis e muita gente de todo o país, sobretudo do centro do país, Covilhã, da Guarda, Coimbra, evidentemente, também dali mais do norte, de Aveiro e por aí fora. Juntávamo-nos, fazíamos fogueiras na praia e à volta da fogueira havia sempre um ou dois, ou três que tinham uma viola ou uma guitarra, que sabia tocar e cantar, sabia imitar as gravações e cantávamos ali. E o que nós cantávamos? Helena, além dos êxitos, evidentemente, que era por aí que se começava, cantávamos as canções proibidas naquela altura. Sou dessa geração. As canções do José Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, as canções francesas do Reggiani, por exemplo, e do Jacques Brel, e por aí fora, dessa gente que já se distinguia, dos espanhóis, o Joaquin Diaz, o Manolo Diaz, que começava nessa altura a despontar. E divertíamo-nos também assim de uma forma que nós entendíamos ser já uma maneira mais séria, porque já éramos miúdos com 17 ou 18 anos e já tínhamos mais responsabilidades. Não era só andar aos pinotes e a beber cerveja nas discotecas.

E a treinar um dinamarquês mais ou menos incipiente.

Sim.

O incipiente é meu, não digo que não fosse eficaz.

Helena Matos, como deve calcular, a língua não fazia grande diferença. A linguagem não fazia grande diferença.

Claro, a linguagem do amor é universal.

Sim.

Pois é. E da paixão, evidentemente, porque aconteceram coisas. Eu fiz amigas para a vida.

Isso eu não duvido. Depois daquele momento porque passei naquela livraria lisboeta, não tenho qualquer dúvida da capacidade do António Macedo em cultivar as amizades. António Macedo, muito obrigada. E para nós é uma honra, já podemos dizer, João Miguel, que temos o António Macedo na Rádio Observador.

É verdade. Obrigado, António.

E continuando na seleção que o António nos sugeriu.

Deixa eu só dar um beijo particular à Helena Matos, faz favor.

António, que saudades.

Saudades. Gostei muito de reencontrar.

Também eu.

Gostei muito de reencontrar neste que é o nosso meio.

Exatamente, António.

Um grande beijo para si.

Obrigada!

Tudo de bom. E para vocês também, Observador.

Obrigado.

Vamos, em homenagem ao António Macedo, por uma canção que é toda uma época. A Françoise. Hoje trouxemos aqui memórias de outro verão, na altura em que se usava bronzeador e não protetor solar, em que se achava que o topless tinha vindo para ficar, em que tínhamos rituais estranhos como aqueles adesivos antes de irmos para a praia, em que chegar à própria praia era muitas vezes uma aventura. Também num tempo em que as férias muitas vezes começavam exatamente nesta semana em que estamos agora, de meados de agosto. Estamos a falar dos anos 80 do século passado, mas como aqui os nossos convidados foram deixando ficar, há muitas memórias de liberdade, de libertação, de convívio, até com outras nacionalidades. Temos também algumas imagens que ficaram, chocantes. Não, não é o topless, é mesmo aquelas toucas com aquelas flores aplicadas. Temos também aqui o mistério decifrado, finalmente, de por que se usava relógio à prova d'água para tomar banhos de mar. Tivemos a intervenção do médico a explicar várias destas questões, a questão da publicidade de verão. Tivemos também o António Macedo a dar-nos conta da questão da importância que a música tinha. Há aqui algo que é muito importante e que ele frisou, já sei que temos pouco tempo, mas que não era apenas a música que se ouvia, era também a música que muitos jovens cantavam. Cantava-se muito nas praias, mesmo muitas pessoas levavam guitarra, punham-se a cantar, faziam uma fogueira. Havia ali todo um clima, e não apenas do lado e do ponto de vista amoroso. E portanto, eu acho que se calhar nós nos podemos despedir ouvindo um grande êxito de verão. Carlos Mendes, também uma sugestão do António Macedo, porque a melhor certeza das nossas vidas, quando somos novos e também quando somos menos novos, é que haverá sempre um verão para o ano que vem.

Muito bem.

Muito bem. Bom fim de semana.

Fantástico. Verão de Carlos Mendes. Deixa-me só dirigir duas palavrinhas à Carla. Bom verão.

Obrigadinha.

Exatamente.

Sem penso nas costas.

Sem penso nas costas, mas com muita música.

Como tudo o que acaba, como pedra rolando duma fraga, como fumo subindo no ar. Assim estou quase indiferente, caminhando sem mais notar a gente, que por mim vejo passar. O verão já terminou. Foi um sonho que findou. Não interessa mais pensar. Assim deixo esta tristeza, vogando embalado na certeza, que o verão há de voltar.