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José Manuel Fernandes quer dedicar o seu Contracorrente à conferência de imprensa de ontem do primeiro-ministro, mas parece que não é para falar da continuação do confinamento. Então é de quê, José Manuel?

É para falar de um assunto que eu já devia ter falado aqui esta semana, mas tenho vindo a adiar, têm-se metido outras coisas. Só que ontem ao ouvir o primeiro-ministro, devo dizer que a certa altura dei um salto da cadeira, porque a parte do estado de emergência foi um pouco do que já esperávamos, a continuação das medidas, a continuação do confinamento. De resto, penso que vamos falar disso um pouco mais adiante no "Vencer Toré". Quando perguntaram ao António Costa sobre porque é que em 2020 o governo não tinha investido tudo o que podia ter investido e portanto poupou muito e ficou com muito dinheiro por gastar no orçamento, o nosso primeiro-ministro teve uma resposta verdadeiramente inacreditável. Eu acho que vale a pena citá-la e portanto vou mais ou menos dizer o que ele disse. Ele disse assim: "O déficit foi mais baixo em 2020, não foi por poupança, mas porque a economia resistiu mais e isso aconteceu porque o conjunto das medidas de política pública o permitiu." Ora bem, eu acho que é preciso muita, mas mesmo muita lata para dizer uma coisa destas. Ou melhor, não é uma coisa destas, é uma mentira destas.

Como assim? Estás a chamar mentiroso ao primeiro-ministro?

Eu estou a chamar mentiroso com todas as letras, mas mesmo mentiroso com todas as letras. Eu estou mesmo a chamar mentiroso, relapso e quanto mais. Esta expressão, aliás, mentiroso, relapso e quanto mais, é um bocado gongórica, reconheço, mas nunca me esqueci dela desde que surgiu de uma polémica muito antiga, com mais de 20 anos, uma polémica cultural, que houve entre o Alfredo Barroso e o Augusto M. Seabra, que é uma coisa sobre o Teatro São Carlos. Mas quem não sabe o que é relapso e quanto mais, relapso e quanto mais até querem dizer coisas semelhantes, são sinônimos de reincidente, teimoso, de alguém que tem desprezo pelas leis. Ora, desculpe lá a minha franqueza, mas neste caso eu acho mesmo que o primeiro-ministro está a ser mentiroso, e não apenas descarado, porque realmente está a ser reincidente, e reincidente sem emenda.

Portanto, estás a ser muito duro com o primeiro-ministro.

Estou mesmo a ser duro e não posso deixar de ser duro, porque repare que nós no ano passado tivemos o déficit que tivemos porque o governo não gastou, repare bem neste número, não gastou € 7.000 milhões que tinha autorização para gastar. Portanto, poupou € 7.000 milhões. Isto é obviamente imenso dinheiro. Ora bem, ele poupou onde? Poupou, por exemplo, € 1.500 milhões em investimento, nomeadamente em investimento no SNS. Portanto, tinha € 1.500 milhões que podia ter gasto no SNS e não gastou. Depois poupou € 1.500 milhões na compra de bens. Nessa rubrica poupou, por exemplo, em computadores, os tais computadores que não chegaram às escolas. Mais, por exemplo, poupou € 700 milhões em subsídios, que eram aqueles subsídios que deviam ter chegado às empresas e não chegaram. Portanto, assim é que se explica o milagre do déficit. Isto são apenas algumas das rubricas em que o governo poupou dinheiro que estava no orçamento para ser gasto. Portanto, dizer que o déficit foi o que foi, porque foi um milagre da economia, é uma mentira pegada. Podemos concordar ou não com a política de poupança, mas dizer que não houve poupança é mentira, ponto final, parágrafo. Depois ainda houve outra coisa: no meio desta desgraça toda, o primeiro-ministro ainda se gabou de ter subido a receita do IRS.

Sim, António Costa falou disso. Considerou até que era uma prova de que os rendimentos dos portugueses tinham aumentado.

Ora bem, isso é outra mentira, ou se preferires, é uma meia mentira. Nós não temos números até ao final do ano. Só que os primeiros três trimestres, onde existem números, aquilo que parece ter acontecido é que nesse período a massa salarial do setor privado caiu 0,5%, mas nas administrações públicas aumentou 3,9%. É fácil perceber por quê: porque, para variar, o choque da pandemia foi no setor privado e na administração pública houve efeito dos aumentos e das progressões salariais. Portanto, num sítio houve desemprego e houve cortes, noutro sítio tudo tranquilo. A gente sabe, apesar de tudo, houve aumentos e houve progressões. Portanto, Portugal continua a ter dois mundos à parte, como a gente já sabe há muitos e bons anos. Apesar do peso do mérito das administrações públicas ser pequeno, isto foi o suficiente, até porque as administrações públicas têm um salário médio mais elevado, para nós termos uma coleta do IRS mais elevada. Não foi a economia que pagou mais IRS. No fundo, quem pagou mais IRS foi o próprio Orçamento de Estado. Portanto, é assim que estamos.

E pelos vistos tu não estás muito contente.

Claro, não posso estar muito contente. Porque em 2020 o governo voltou a enganar toda a gente. Voltou a aprovar um orçamento onde prometeu investimentos que não realizou, onde prometeu despesas que não concretizou. Isto numa altura em que Portugal dependia Desses investimentos e dessas despesas para não entrar em colapso, para aguentar melhor a crise. Nós já sabemos, diz o FMI, diz a Comissão Europeia, diz o Banco Central Europeu, que nós fomos dos países em que se ajudou menos a economia, em que se ajudou menos o tecido produtivo, as pessoas, as famílias a aguentar o impacto da pandemia. O governo chegou ao ponto de ter aprovado um orçamento retificativo pra poder investir mais no SNS e depois acabou o ano a investir menos do que tinha no orçamento inicial antes da pandemia. Portanto, poupou em relação ao orçamento que tinha feito antes de saber que vinha aí a Covid. Isto já não é incompetência, isto é uma estratégia deliberada de engano e de mistificação. Não é assim em 2020, já vimos assim desde 2016. Desde 2016 que todos os orçamentos de Estado são mentiras pomposamente aprovadas pra enganar parolos. Só que aqui os parolos são a esquerda do Bloco e do PCP, que preferem votar a favor mesmo sabendo que estão a ser enganados.

Mas achas mesmo que sabem que estão a ser enganados?

Eu acho que ao fim destes anos todos, só não sabem que estão a ser enganados porque fingem que não sabem. Já ninguém pode dizer que não sabia, que vai ao engano, porque o descaramento já é tão completo que já ninguém pode disfarçar. Ainda esta semana o Conselho de Finanças Públicas protestou porque o Ministério das Finanças não lhe enviou os dados necessários pra poder fazer as contas e calcular o déficit. Portanto, protestou, e o ministério já nem se incomoda a responder com seriedade. Aliás, esta semana, o ministro foi a uma audiência parlamentar. Os deputados faziam perguntas sobre o que se tinha passado no ano passado. E o ministro, em vez de responder diretamente às perguntas, respondia-lhes sobre a execução orçamental do município de Salvaterra de Magos, que foi o único município que em tempos o Bloco de Esquerda tinha. Quando o Bloco fazia uma pergunta, o ministro respondia com Salvaterra de Magos, como se isso fizesse sentido. Quer dizer, transparência, respeito pelo Parlamento, respeito pelas instituições, verdade, Estado, tudo isto são valores desconhecidos por esta equipe das finanças, que segue, de resto, o exemplo que vem de cima, porque se o primeiro-ministro mente.

José Manuel, tivemos aqui um problema. Estavas a explicar como consideravas que o primeiro-ministro está a mentir e que o Ministério das Finanças nem se incomoda de responder com seriedade.

Exatamente. Eu não sei bem onde é que fiquei.

Estavas a dizer que mente descaradamente. Pensei que ia terminar essa ideia.

O primeiro-ministro mente e mente descaradamente, como vimos, e se ele mente assim, os seus ministros também não se incomodam. Aparentemente, o povo gosta e eu ia mesmo a terminar, porque provavelmente isto é uma coisa que vem de trás e a inspiração, infelizmente, não é a melhor, porque eu descobri que o Salazar um dia disse que a mentira, e vou citar Salazar: "A mentira pode ser mais agradável que a verdade, porque o povo gosta que lhe mintam." Infelizmente, parece que Salazar tinha razão e há quem lhe siga as pisadas. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7 na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto.