Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

8:20. É sempre por volta desta hora que conhecemos o tema do "Contra Corrente". Se quiser entrar em direto depois das 10, só tem de ligar 910 002 41 85, mas também pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp 910 002 41 85. Carla. Há 55 anos, entre 13 e 17 de abril de 1970, o mundo susteve a respiração para acompanhar o destino dos três homens que, naquela que seria a terceira viagem de um ser humano até à Lua, de repente perceberam que qualquer coisa tinha corrido mal. Como todos já ouvimos imensas vezes, informaram o centro de controle: "Houston, we have a problem." Houston, tivemos um problema. E que problema! A explosão de um dos depósitos de oxigênio da nave em que viajavam. O regresso com vida à Terra parecia impossível, mas aconteceu, com milhões e milhões de pessoas a assistir, com o Papa a rezar e os russos a oferecerem ajuda aos americanos numa das fases mais tensas da Guerra Fria. Tudo acabou da melhor forma, mas a euforia espacial da década de 1960 em breve iria esmorecer. Nunca se chegaram a construir as imaginadas cidades na Lua e só agora, passados mais de 50 anos, se fala de novo na colonização de outro planeta, Marte, já não pela mão da NASA, mas pela de Elon Musk. É por isso oportuno recordar porque houve tanto entusiasmo no passado e como hoje o tema foi como que privatizado, pelo que será de memórias, sonhos e rivalidades que falaremos no "Contra Corrente" de hoje. José Manuel, bom dia. Lembras-te de seguir a epopeia da Apollo 13?

Lembro. Lembro-me mais da Apollo 11, que foi aquela que aterrou na Lua. Mas lembro-me também da Apollo 13. Aquilo foi, como referiste, em abril, por volta da Páscoa, mais ou menos como estamos agora. Tinha acabado de fazer 13 anos. Lembro-me muito bem de como é que foi a chegada à Lua em julho de 69. Sei onde é que estava, sei onde é que vi. Sei que férias foram aquelas. Julho era tempo de férias. Tive uma curiosidade ontem, vou contar um pequeno pormenor. O tempo, de facto, é muito diferente e todos nós temos proporções diferentes do tempo, ideia de como as coisas se passam. Estamos a falar de 69. A Ponte 25 de Abril, na altura Ponte Salazar, nem sei se já se chamava Ponte Salazar, porque o Salazar ainda era vivo, creio eu. A Ponte Salazar tinha dois anos e por isso a minha família nesse ano decidiu alugar um pequeníssimo apartamento, uma coisa que estávamos todos sempre a ficar com ondas negras a passar entre os móveis, em Sesimbra. E eu recordo-me de duas coisas desse verão, da micro televisão onde se viu o pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade, e de outra coisa: é que foi o primeiro ano em que o Joaquim Agostinho foi à Volta a França e ficou logo em terceiro lugar e ganhou logo duas etapas. Eu lembro-me de, na altura, o jornal A Bola, que era o jornal que seguia melhor isto, saía três vezes por semana e não todos os dias.

Naquele tamanhão enorme, já era assim muito grande.

Era uma coisa enorme, era uma publicação grande, formato broadsheet, não formato pequenino. E nessa altura também, o meu pai não podia ter as férias todas como nós tínhamos, nós tínhamos férias muito longas, e então combinou com um amigo que ia e vinha para Lisboa, e então um pagava a portagem e outro pagava a gasolina. Agora repara neste detalhe, eu fui fazer as contas. Sabes quanto é que na altura custava a portagem da ponte, aquilo que hoje é a Ponte 25 de Abril?

Não faço ideia.

Tinha uma coisa curiosa. Havia uma portagem para os carros muito pequeninos, os Minis, e havia uma portagem para os carros normais. Mas os carros normais, quando nós vamos ver o tamanho, são para metade dos carros de hoje em dia. Atenção, que eram carros muito mais pequenos do que são hoje. Os carros engordaram imenso com o passar do tempo. A mini portagem desapareceu passados uns anos e para um carro normal, 14 euros.

14 euros!

Eu acho que hoje não sei se chega a três euros. Agora com a Via Verde, nós não temos tanta noção das portagens. Acho que nem chega a três euros e portanto na altura eram 14.

Eram 14 euros. E a gasolina na altura também. Já estávamos com o choque petrolífero, ou ainda não?

Não, o choque petrolífero veio mais tarde, em 73. Portanto, a gasolina ainda era um bom preço, digamos assim. Bem, mas feito este pequeno intervalo, o que era fascinante era a atenção que se dava na altura a estas coisas todas. Porque eu estava no Liceu e, por exemplo, houve um dia que foi ao Liceu um senhor que aparecia na televisão, chamado Eurico da Fonseca, a comentar estas viagens. Para quê? Para nos explicar como é que aquilo era feito, para nos explicar como é que era o foguetão. E houve coisas que nunca mais me esqueci, designadamente sobre a descrição daqueles foguetões que eram projetados pelo Von Braun, que era um alemão que até tinha estado ligado aos projetos da V2, aqueles foguetões que já do final, arma secreta dita no fim da guerra E toda a dimensão gigantesca daqueles foguetes, acho que era Saturno o nome, era absolutamente fascinante. E tudo isto porque havia um ambiente, em muitos aspectos, muito diferente. Primeiro, foi o tempo daquele "2001: Uma Odisseia no Espaço". Havia a ideia que nós íamos para o espaço. Até hoje não fomos. Repara, era 2001, já passaram 24 anos desde 2001. Havia uma coisa que era muito importante, que era que o mundo estava dividido em dois e havia uma corrida, tudo era uma corrida. Quando eram os Jogos Olímpicos, contavam-se as medalhas até ao último detalhe, saber se a Rússia ou os Estados Unidos tinham tido mais medalhas. Naturalmente, quem seguia mais de perto a política percebia como as coisas avançavam de um lado para o outro, de uma maneira e de outra. Tinha sido pouco tempo antes a invasão da Checoslováquia, em relação à aterrissagem na Lua, um ano antes. Nem chegava a um ano antes, agosto de 68, estávamos em julho de 69, estávamos agora em abril de 70. E depois havia a Guerra do Vietname, um confronto praticamente direto entre as grandes potências. Havia isso tudo e mesmo assim, saber quem chegava primeiro à Lua era fundamental, até porque nos primeiros anos desta corrida, os russos tinham estado à frente, ou melhor, os comunistas, os soviéticos tinham estado à frente e isso tinha sido uma coisa muito importante. Tudo isto aconteceu e esta viagem, apesar de como a NASA disse depois, foi um fracasso que se tornou num sucesso, porque de facto toda a operação de resgate é fascinante. Quem viu aquele filme com o-

Tom Hanks.

Com o Tom Hanks, exatamente. Sabes uma coisa que eu reparei? Tu disseste há pouco que isto aconteceu há 55 anos.

Sim.

Sabes há quantos anos é que saiu esse filme?

Não.

Isto agora pareço o Bruno a fazer perguntas, não é?

Pois.

Foi há 30.

Não foi nada. Foi há 30?

Foi sim, senhora. É 95. Foi há 30 anos. Quer dizer, esse filme está mais longe de nós do que o filme estava dos acontecimentos.

Isso é incrível.

Faz uma pequena dimensão. Mas dito isto, acho que vale a pena recordar isto, porque estamos no tempo em que se fala novamente de ir para o espaço. É uma espécie de nova corrida ao espaço, só que agora com outros protagonistas. O programa espacial soviético, agora é russo, não é uma prioridade do Putin, mas os chineses estão a fazer coisas que ninguém fez até hoje. Os indianos também já foram para o espaço. A coisa na Europa não está a correr assim tão bem. E sobretudo há o Musk, não é?

Sim.

Há o Musk e a SpaceX e há o projeto de Marte, de fazer coisas em Marte. E há uma coisa que nós não sabemos do "2001: Uma Odisseia no Espaço", e eu também não vou conseguir explicar, só vou dar uma dica. Não vou conseguir explicar, porque não consegui saber tudo ontem, mas fiquei muito curioso com um podcast do "The Economist", cujo tema é como é que se resolve o problema de ter filhos no espaço.

Bem, está lançado aqui. E para mais, ouçam depois das 10. Até já.

Até já.