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Os novos números do INE sobre a população portuguesa confirmaram a rápida subida do número de imigrantes, mais 850 mil desde 2021. Estamos a falar do saldo, pois continua a haver quem chega e depois vai embora, como comprovam os números mais recentes da Segurança Social, que mesmo assim registou no ano passado um aumento no número de inscritos a descontar. E mesmo se a chegada de imigrantes abrandou nos últimos dois anos, o tema continua no topo da agenda política, com posições que vão do desejo de copiar as portas abertas de Espanha, a sugestões de que devemos é ter políticas de remigração, isto é, de devolução aos países de origem do que se considera serem imigrantes a mais. No Contracorrente de hoje vamos tentar perceber melhor como mitigar o impacto que este aumento súbito da população teve nos serviços públicos e também onde devemos situar o ponto de equilíbrio no que respeita às políticas de imigração e também de integração. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Achas que a imigração se está a tornar no tema politicamente mais decisivo?

Tem se tornado um pouco por toda a Europa, um pouco por todo o mundo, porque nós assistimos a algo que assistimos sempre na história da humanidade, com algumas novidades. Os povos sempre migraram. Migraram pelas razões mais variadas, migraram por causa de guerras, migraram por causa de desastres económicos, ecológicos, o que tu quiseres. Mas o que agora está a acontecer é a enorme visibilidade das diferentes condições de vida entre as diferentes partes do mundo e portanto, quem vive em zonas sem esperança tem vontade de migrar para zonas onde tenha mais possibilidades de singrar na vida. E, por outro lado, as condições para realizar a viagem são também muito mais fáceis. Isto cria uma enorme pressão sobre os países mais desenvolvidos, sobre o conjunto da Europa, sobre a América do Norte, sobre mais alguns países. A Europa menos, mas a América do Norte, a Austrália, a Nova Zelândia são países de imigrantes. Ora bem, no caso concreto de Portugal, o que se passou nos últimos tempos foi uma mudança que eu arriscaria dizer estrutural. Nós fomos durante muitos anos, muitas décadas, historicamente mesmo, um país de onde se saía e agora somos um país para onde se vem. Isto é um ciclo por que passaram também outros países europeus. O que se passou em Portugal, no entanto, foi uma rapidez nesta transformação sem paralelo. E essa rapidez cria um tipo de desequilíbrios que o mínimo que podemos dizer é que não estávamos preparados para eles. E como não estávamos preparados para eles, fomos de alguma forma apanhados de surpresa, uns mais do que outros, com os números recentes do INE, e temos uma realidade que tem muitos aspetos. Nós temos já falado das consequências que isto tem pra saúde, porque de repente temos centenas de milhares de utentes a mais a solicitar serviços a um Serviço Nacional de Saúde que já estava em dificuldades. Nós temos dificuldades na habitação, quer dizer, se chegam de repente mais 800 mil pessoas, elas têm que, no limite, dormir em qualquer sítio. Temos pressão também sobre os serviços públicos de educação, temos muitas questões e não podemos olhar apenas pra esse tema da forma matemática, quase aritmética, que é: chegaram, descontam pra Segurança Social, estamos a ganhar. É evidente que estamos a ganhar no curto prazo, convém fazer contas a longo prazo, mas independentemente disso, há um tipo de tensões que sempre que ocorrem estes movimentos de grande escala acontecem. E surgem outros problemas, para além dos problemas de apenas resolver a necessidade de prestar serviços públicos. E esses problemas são problemas de dois tipos, na minha perspectiva. E acho que nós nem sempre os abordamos com tal clareza, se bem que eles estejam um bocadinho a borbulhar por baixo dessas discussões todas. O primeiro é o tema da integração. Uma coisa é ter muitas pessoas a chegar, outra coisa é ter essas pessoas que chegam com condições para viverem cá, falarem a língua, comportarem-se de acordo com o nosso quadro legal, enfim, estarem integrados na nossa sociedade. E isso é virtualmente impossível com a velocidade a que estão a acontecer as chegadas. E depois temos outro aspeto, que está um pouco por trás disso tudo, que é saber em que condições essas pessoas se integram. Há sociedades que historicamente estavam habituadas a integrar pessoas que vinham de fora e que essas pessoas muito rapidamente se tornavam nacionais. E aqui não estou a discutir o tema da nacionalidade, estou a falar de nacional no sentido de sentirem a nação, sentirem o país. Por exemplo, o tema evoluiu um pouco, mas os Estados Unidos eram considerados uma espécie de melting pot, portanto, as pessoas chegavam lá Havia uma espécie de matriz, encaixavam-se nessa matriz e viessem primeiro. Começaram a vir sobretudo das Ilhas Britânicas, mas depois vieram da Europa toda. Isso não foi fácil. Uma coisa foi os alemães primeiro, depois os italianos era mais difícil, os irlandeses foi complicado, os polacos também não foi fácil, mas depois tudo isso esteve bem. Depois começaram a chegar os latinos, e os latinos em grande número, e os latinos no princípio também se criou uma sensação de que podiam, de repente, a natureza, aquela maneira de ser americana alterar-se pela chegada dos latinos. E agora, ao fim de 20, 30 anos, já de muitos latinos, percebeu-se que até nas coisas eleitorais a coisa começou a ficar igual ao resto. É mais complicado o que se passa nalguns países europeus, onde a ideia de que mais do que levar aqueles que chegam a adotarem os hábitos, as leis, os costumes, a cultura de quem está, o que temos é que tratar todas as culturas por igual. Isto criou em muitas zonas, em muitos países ou em regiões de muitos países, verdadeiras ilhas, arquipélagos, por assim dizer, de comunidades diferentes, não integradas e muitas vezes em contraposição ao dominante. E há países que estão a viver crises gravíssimas e de forma até um pouquinho diferente uns dos outros. O Reino Unido é um deles. Também há problemas de outro tipo na Alemanha e em França. E nós era bom que não repetíssemos isso, até porque o tipo de imigrantes que estamos a receber, depois há o tema económico do tipo de imigrantes que recebemos e que queremos. Portanto, há aqui muitos temas, nós vamos ter pessoas que pensaram já sobre esses assuntos de várias perspetivas. Vamos tentar falar disto e não apenas falar, porque isto depois tem consequências políticas óbvias. Porque uma coisa é nós acharmos que isto tem que correr tudo bem, que precisamos deles e que precisamos deles para a economia. Outra coisa é perceber que eles têm que dormir em algum sítio, eles têm que viver em algum sítio, eles têm que conviver com o resto da sociedade e quando, de repente, há déficit de serviços públicos, nomeadamente, criam-se tensões, que às vezes são tensões que quem vive em certas bolhas não dá por elas e acha tudo muito bem, mas quem vive nas zonas de fronteira, de repente começa a sentir-se muito desconfortável e é por aí que muitas vezes surgem os problemas políticos mais graves.

Até já, José Manuel.

Até já.