Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
8:21. É hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Para participar, só tem de ligar 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp. Carla.
É hoje apresentado em Lisboa o livro "José Sócrates: Ascensão", de João Miguel Tavares. Cobre o período que vai de 1957, ano em que nasceu o antigo primeiro-ministro, a 2005, ano a que chegou a primeiro-ministro. É o primeiro volume de uma obra que o autor pensou chamar "José Sócrates Nunca Existiu", um livro que tem como únicas fontes o que foi publicado em jornais e em livros e que procura perceber como é que o chamado mindor do PS nos enganou e como é que o país se deixou enganar. No Contracorrente de hoje vamos ter em estúdio o autor. Mas tu, João Manuel, também foste um espetador, de certa forma privilegiada, desses anos. Tens uma resposta para essa pergunta? Achas que o país se deixou mesmo enganar? Bom dia.
Bom dia, Carla. Eu acho que o país quis se deixar enganar também. Houve aqui uma mistura de várias coisas. O livro é muito interessante, porque parte de algo que não é propriamente uma biografia no sentido clássico do termo. Normalmente, numa biografia, fazem-se entrevistas com pessoas que conheceram bem o personagem, às vezes tem-se acesso ao próprio biografado, o biografado dá acesso a documentos próprios, a cartas. Quando isso acontece, não é obrigatoriamente uma biografia oficial, pode ser uma biografia autorizada, digamos assim, porque nuns casos o próprio revê, noutros casos não revê, enfim, não interessa. Não é isso que se está a falar aqui. O que se está a falar aqui é de um trabalho do João Miguel, em que ele basicamente andou à cata do que saiu nos jornais, sobretudo nos jornais, em alguns livros, designadamente no famoso "O Mindinho de Ouro", e também naquilo que apareceu na blogosfera, na altura em que a blogosfera era muito relevante, mais relevante do que é hoje. E ao ver isso, ele diz basicamente algo que quem esteve atento percebeu, como ele percebeu e, desta parte, também me parece que tenha percebido, que é que estava quase tudo à mostra. Era uma questão de não querer deixar de ver. Houve muitas pessoas que não quiseram ver, politicamente não quiseram ver. Da parte dos seus próximos, era um trunfo eleitoral quando ganhava eleições e desse ponto de vista conseguia chegar ao poder e garantir o poder, e sabe que nos partidos isso é importante. Muitos daqueles que, mesmo próximos dele, desconfiavam, tinham dúvidas, tinham reservas, preferiram claramente olhar para o outro lado. Não tenhamos ilusões sobre isso. E depois, há algo que também teve muito a ver com a atitude do jornalismo e de muito jornalismo em Portugal, que eu não creio que nós possamos politicamente varrer para baixo da mesa. Eu acho que sobre isso temos que meditar. O João Miguel refere que houve um falhanço das instituições. Quer dizer, houve um falhanço das instituições no sentido que, durante muito tempo, muitas denúncias levaram muito tempo a investigar e muitas instituições não reagiram como porventura deviam ter reagido. Mas eu acho que, sobretudo, uma falhanço da cidadania, um falhanço do escrutínio jornalístico e algo que em Portugal ainda mesmo assim continua a funcionar. Pode ser que ele tenha feito umas trapalhadas, mas faz. E nós sabemos, conhecemos outras figuras políticas neste país a quem isso aconteceu. Sabemos que isso muitas vezes leva a que se olhe para o outro lado. Eu acho que isso é extraordinariamente corrosivo, sobretudo quando para fazer se utilizam o mesmo tipo de métodos, designadamente métodos de intimidação, que se utilizam para poder ir viver para Paris, para poder trazer muitas outras coisas que não estavam ao alcance de quem não tinha a herança do avô e que foi o mito que viveu durante demasiados anos sem uma investigação feita a sério sobre esse período, mesmo por algumas das pessoas que mais trabalharam para investigar José Sócrates, mas que, reconheço, não era uma tarefa fácil. E se quiseres, mais do que dizer coisas sobre as instituições, diz coisas sobre a organização do Estado, o acesso a certo tipo de fontes, a transparência, tudo isso que nós achamos que está tudo bem. Na verdade, não está tudo bem. Há muitas coisas que não estão bem. Por exemplo, uma coisa tão simples como ter ou não acesso online às declarações de rendimentos dos políticos. Quer dizer, elas estão lá, estão depositadas, mas para as consultar é um cabo dos trabalhos. E nós achamos que assim é que deve ser, porque só pessoas que se deem mesmo a muito trabalho é que o podem fazer. Quando isso se é para garantir o princípio da transparência, então devia ser transparência de facto efetiva, num tempo em que isso é fácil de fazer, mas não é o caminho que nós habitualmente preferimos seguir, preferimos complicar. É um pouco por todo lado. E eu acho que vale muito a pena debater isto, porque boa parte dos problemas que temos hoje em Portugal, enfim, não foram só os que tivemos no período da troika, boa parte dos problemas que temos hoje em Portugal, designadamente problemas políticos, têm a ver com a forma como não soubemos lidar com aquilo que estava à nossa frente no tempo de José Sócrates.
E os teus cães agora assinalaram que é a altura de pararmos.
É quinta-feira, tu sabes.
É quinta-feira, é o dia que eles ficam mais agitados, mas vamos ter duas horas para falar sobre Sócrates. Até já.
Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no Contracorrente depois das 10:00. Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp 91 002 41 85.