Foi “pura sorte”. Ao chegar a casa, na aldeia de Whelford, no Reino Unido, por volta da uma da manhã da noite de sábado para domingo, a agricultora que alertou a polícia e evitou um ataque a uma base aérea usada pelos EUA deparou-se com um cenário suspeito. Numa entrevista à BBC, conta que viu um grupo de homens encapuzados e mascarados a rondar a zona, acompanhados de três grandes carrinhas brancas.

A agricultora ficou alarmada. Mesmo ali ao lado, fica a base aérea de Fairford, instalação militar britânica usada pela Força Aérea dos Estados Unidos — e que foi recentemente utilizada no contexto dos ataques contra o Irão. Os habitantes da região sabem-no bem: no verão deste ano, o Irão já tinha avisado que qualquer base usada para atacar o seu território se transformava num alvo militar legítimo.

“Quando eles me viram, correram, alguns para os campos e outros para uma aldeia vizinha”, contou a agricultora à BBC. “Percebi que algo de altamente invulgar estava a acontecer.”

Cinco suspeitos detidos por crimes com explosivos perto de base aérea no Reino Unido usada pelos EUA

Temendo estar a testemunhar algum ataque, a agricultora telefonou de imediato para o Ministério da Defesa do Reino Unido. Àquela hora da noite, num fim de semana, ninguém atendeu. Em alternativa, telefonou para o 999, o número de emergência britânico. “Em dez minutos, a aldeia estava cheia de polícia armada”, contou à BBC a mulher, que preferiu manter-se sob anonimato.

A situação precipitou-se rapidamente durante a madrugada de domingo: a aldeia foi evacuada, uma operação de larga escala foi montada na zona, a polícia encontrou explosivos nas carrinhas e cinco pessoas foram detidas por suspeitas de estarem a levar a cabo um atentado contra a base aérea. O caso ganhou proporções internacionais, o primeiro-ministro britânico cancelou os planos de domingo para acompanhar a situação e o Presidente dos EUA, Donald Trump, elogiou as forças de segurança britânicas por terem impedido um atentado que tinha como objetivo “causar grandes danos” na base aérea, mas que já estava a ser investigado “há muito tempo”.

A realidade, contudo, parece desmentir Trump: foi a polícia local, e não os serviços de segurança nacionais, que acorreu inicialmente ao local, apenas depois do telefonema daquela agricultora.

“Penso que foi pura sorte eu ter chegado à aldeia por volta da mesma hora que as carrinhas”, disse a mulher à BBC. “Estou absolutamente perplexa por caber a um cidadão comum como eu ter de ver e denunciar aquilo. Acredito que o meu telefonema para o 999 frustrou quaisquer planos que eles tivessem.”

“Alguém baixou a guarda” no que toca à segurança da base aérea, acredita a mulher que denunciou o caso. “Temos de poder confiar que as autoridades vão tomar as medidas adequadas para monitorizar e gerir ameaças às comunidades que vivem e trabalham tão perto desta base.”

“Não devia ser preciso que alguém como eu alertasse a base aérea de Fairford sobre a presença de três grandes veículos suspeitos e de um grupo de homens mascarados”, acrescentou ainda, lamentando ter a perceção de que as autoridades estavam “hiperfocadas” na defesa da base aérea, ao passo que ignoravam a proteção da aldeia vizinha.

Ministro da Defesa agradeceu à agricultora

Já esta segunda-feira, o ministro da Defesa do Reino Unido, Wes Streeting, agradeceu à cidadã que alertou as autoridades. “Quero homenagear a cidadã pela sua vigilância, ela fez exatamente aquilo que esperamos que um cidadão faça na situação em que ela se encontrava”, disse Streeting à BBC, recusando avançar detalhes sobre a operação em curso.

Na mesma entrevista, Streeting foi questionado sobre possíveis ligações do Irão a este ataque, mas garantiu que o Governo divulgará informações sobre o caso “assim que possível”, pedindo “paciência” ao público enquanto a polícia e os serviços de informações “fazem o seu trabalho”.

A unidade de contraterrorismo da polícia britânica está, neste momento, a comandar a operação, que foi iniciada pela polícia local.

De acordo com a BBC, na manhã desta segunda-feira as carrinhas suspeitas continuavam no local onde foram encontradas, uma grande operação policial continuava a decorrer no local, mas a atividade na base aérea de Fairford não parou. Mais de 80 casas foram evacuadas e um perímetro de segurança foi estabelecido num raio de 400 metros das carrinhas.