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Em 2025, a culpa da pobreza em Angola é de Portugal ou alargando a outros continentes, também são os portugueses culpados do analfabetismo no Brasil, como defende Lula. O tema voltou a debate nos últimos dias. Helena Matos, bom dia. Queres saber a quem interessa a exploração desta culpa eterna e coletiva? Voltou a ser tema, não é?

Sim, volta a ser tema e não apenas em Portugal. Recordo aqui a nossa vizinha Espanha, que está envolvida numa enorme polêmica acerca do que foi ou não a conquista do México. No Reino Unido, este é também um assunto. Digamos que ele é um assunto em vários países, porque muitos dos países da Europa têm um passado que os levou a outros continentes. Agora, aqui, e muito para lá desse assunto, que também é polémico e que também abordaremos, e não apenas a questão das reparações, mas o próprio conceito da questão da escravatura, que há aqui quase que a ideia que a escravatura começou, no nosso caso, com os portugueses, como se não tivesse havido escravaturantes e como se não houvesse outros povos envolvidos no negócio dos escravos. Mas o que é particularmente urgente e interessante, penso eu, para lá dessas questões, que são muito polêmicas, é a própria desresponsabilização dos atuais dirigentes, por exemplo, do continente africano. Quando nós vemos o discurso de João Lourenço, e é óbvio que é ele o pretexto para este programa, e depois houve toda aquela polêmica em Portugal sobre a reação ou não reação de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas para lá disso, quando se vê o discurso de João Lourenço, o que é espantoso é que 50 anos depois daquilo que foi a cerimônia da independência e daquilo que foi a independência, e é relevante que João Lourenço, mesmo neste seu discurso, não tenha referido que Angola era um país dividido no dia da sua independência, e houve mais do que uma independência, e não apenas a do MPLA e de Agostinho Neto. Aquilo é uma passagem, particularmente aquela referência a Portugal, o colonialismo português que nos oprimiu e escravizou durante séculos. Mas se isso, do ponto de vista histórico, nos pode chocar, a verdade é que o discurso é particularmente chocante, mas é daí pra frente, por aquilo que é a enorme desresponsabilização. Ou seja, João Lourenço vai sucessivamente enumerando razões para as dificuldades de Angola, vai ao apartheid na África do Sul, vai às questões da Guerra Fria, mas nunca à responsabilidade dos dirigentes. Nunca. E depois, num país que sabemos que estava em 1974 com taxas de crescimento espantosas, que tem uma imensidão de recursos, azarmente desse discurso, por exemplo, ouve-se João Lourenço dizer que hoje Angola já tem uma produção elétrica suficiente para as suas necessidades. Ora, segundo a página do próprio governo de Angola, uma página do Ministério da Energia e Águas, nós estamos num país que espera, dentro de alguns anos, conseguir ter uma cobertura superior a 50%, de distribuição de água e energia. Portanto, temos aqui um óbvio falhanço das classes dirigentes e não há qualquer reflexão sobre isso. Tudo é sempre culpa de outrem, em primeiro lugar de Portugal, depois do regime do apartheid da África do Sul, depois da conjuntura internacional, depois das questões climáticas, mas nunca há uma reflexão. Também há uma referência à guerra civil, mas nunca uma reflexão sobre aquilo que tem sido a governação de Angola. Digamos que nos 50 anos de independência, esperava-se uma reflexão com mais profundidade. Este era um discurso que podia ter sido feito perfeitamente e sem qualquer problema numa questão local, num encontro com autoridades locais, mas não naquilo que era uma data tão importante para aquele país e para qualquer país, que é quando assinala 50 anos da sua independência, que é fundamental, que é importantíssimo e que, sob todos os pontos de vista, Angola ser independente é algo positivo. Agora, aquilo que temos aqui também é justo dizê-lo. Nós temos em Portugal uma hipersensibilidade àquilo que são as declarações, sobretudo dos governantes de Angola. Portugal tem uma relação mais ou menos passional com Angola, mas nós temos, por exemplo, no Brasil, a questão da acusação a Portugal pelo analfabetismo no Brasil e de só ter sido criada a primeira universidade no Brasil em 1920. Esta é uma declaração que, por exemplo, o presidente Lula adora fazer, mas a verdade é que o Brasil era independente desde 1822. Portanto, há aqui um pouco de irmos a este discurso da culpa, do desculparmo-nos com os outros e como é que isso, para lá da irritação que causa nas antigas potências coloniais, que é sempre muita, não é, sobretudo, um mau sinal para estes países no presente, porque é uma enorme desresponsabilização de quem os governa. E é disso que vamos falar. Já sei que não são momentos de glória, mas são os momentos que nos cabe viver.

Pois é, há espaço para todos. Até já, Helena. Faça parte do Contracorrente, ligue 91 002 41 85. Entre em direto logo a seguir ao jornal das 10. Se não puder, envie-nos a sua mensagem de voz através de WhatsApp ou então deixe os seus comentários nas nossas redes sociais ou no nosso site.