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De Lisboa a Paris, de Madrid a Bruxelas, o poder da rua parece estar a sobrepor-se ao poder dos parlamentos. Há simples contestação, há apelos à revolução, há também algumas cenas mais fortes de barbárie que se cruzam nas ruas de uma Europa que mandou muitos anos a considerar-se demasiado perfeita. Importa, por isso, perceber, e até à luz daquilo que se passou ao início da manhã de hoje em Lisboa, Helena Matos, se na Europa quem manda é a revolução ou a eleição.
Eu espero sinceramente que seja a eleição, como é óbvio. E isso é um ponto importante. Nós também podíamos já ir à partida, embora esse não esteja propriamente na agenda do Contracorrente, mas aqui é percebermos que um dos fatores que pode ter levado a que esta operação tivesse lugar agora, pelo menos no Porto, é que o Porto vai receber as comemorações do Dia do Exército, de 20 a 25 de outubro. As comemorações do Dia do Exército estão espalhadas por diversos pontos da cidade e alguns dos atos, dos eventos, dos momentos, acontecem precisamente na zona onde estava a acontecer aquele acampamento e naquela zona limítrofe. Pelo menos no Porto, seria muito difícil e muito constrangedor vermos passar as cerimónias do Dia do Exército dos locais mais nobres da cidade para uns outros igualmente nobres, mas mais periféricos, porque tínhamos ali aquele acampamento. Há aqui também uma questão de hierarquia simbólica e que era vermos o exército perder o espaço da sua comemoração para aquele acontecimento que ali estava a ter lugar e que leva exatamente à tua pergunta, que é se estamos a falar de eleição ou se estamos a falar de revolução. Nós vimos muito rapidamente isto que começou, e é em parte esse o tema do Contracorrente, e claro que hoje terá muito como alavanca também, ou irá muito a esta questão dos acontecimentos desta noite, e que é se nós temos uma legitimidade que decorre das eleições, em que nós na prática aceitamos medidas, umas que nos agradam, outras que não nos agradam, em que aceitamos o uso da força pelas autoridades policiais, porque é completamente o uso da força numa ditadura ou numa democracia. Não estou a dizer que usem mais ou menos, estou a dizer a legitimidade para o fazer, mesmo quando não concordamos. Isto numa democracia, porque entendemos que as instituições se corrigem através do seu escrutínio, que é livre, e através de eleições e através do nosso próprio direito de manifestação, de publicação e de opinião. Depois temos a lógica revolucionária, que passa pelas assembleias populares, pelos acampamentos, pelas manifestações e que depois podem chegar aos extremos que têm chegado em França e em que a própria dinâmica revolucionária leva a que os revolucionários de hoje destruam os revolucionários de ontem. Nós já não conseguimos encontrar ali os estudantes, os protestos pela escola e aquilo que temos neste momento são cenas de grande violência, em que se isto não fosse parado, levaria depois a que aparecessem outras figuras. Paris hoje está em estado, traduzindo para português, não quer dizer que corresponda exatamente ao nosso estado de sítio, à nossa situação de urgência. Mas estamos a falar de normas para a noite, para uma espécie de recolher mais ou menos obrigatório em determinadas zonas e é em parte essa discussão que estamos aqui a ter, até onde é que se pode ou deve chegar para que a ordem democrática seja reposta, ou segundo alguns, ela não deve sequer ser reposta. Vemos entrar numa lógica revolucionária. Também gostava muito que conseguíssemos falar de como é que partidos, aqui no caso de extrema-esquerda, mas convém sempre pensar que a extrema-direita pode, se nós legitimarmos isto à extrema-esquerda, porque achamos muito fofo, muito bonito, muito engraçado, a extrema-direita também o pode vir a fazer com causas que lhe sejam próximas. Eu recordei aqui há pouco a questão do porco assado no Martim Moniz, que a PSP não autorizou. E vermos em que medida é que os partidos, neste caso de extrema-esquerda, e em França claramente está a acontecer com a France Insoumise, vão ou não cavalgar estas ondas para se afirmarem no seu espaço político ou para ganharem ali um ascendente. É disto tudo que vamos falar no Contracorrente, que acabou a coincidir com o dia em que este seria necessariamente um assunto obrigatório.
E é depois das 10:00. Até já, Helena.
Até já.
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