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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quinta-feira. Já sabe que para participar basta ligar para nós 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio, a sua mensagem de voz, através do WhatsApp 91 002 41 85. Carla. Donald Trump tem repetido nos últimos dias, depois da intervenção na Venezuela, que a Gronelândia constitui uma prioridade de segurança nacional para os Estados Unidos e que, por isso, os Estados Unidos farão o que for necessário para controlar a maior ilha do mundo, atualmente um território autônomo da Dinamarca. A Dinamarca é que não está pelos ajustes. Vários países europeus, Portugal incluído, cerraram forças com o pequeno país nórdico e houve até quem considerasse que qualquer movimentação militar norte-americana poderia representar pura e simplesmente o fim da NATO. Isso não impediu que ontem Estados Unidos e Reino Unido tivessem colaborado numa operação militar para apresarem um petroleiro de bandeira russa no Atlântico Norte. No Contracorrente de hoje vamos procurar perceber o que afinal se passa e por que a Gronelândia se tornou no novo epicentro das tensões internacionais. José Manuel, bom dia. Acreditas mesmo que pode acontecer na Gronelândia o que aconteceu na Venezuela no último sábado?

Para ser franco, acho que não.

Não, não tem nada a ver.

Acho que não. Acho que as circunstâncias são completamente diferentes. Há claramente bullying por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas daí a chegarmos a uma operação militar vai uma distância grande e não se trata de saber se ele cumpre ou não. Isto é algo que sabemos que é quase uma obsessão de Donald Trump desde 2019, portanto não nasceu depois da Venezuela, é antiga. E se formos olhar um pouco para a história, é muito mais antiga, porque a primeira vez que os Estados Unidos começaram a olhar para a Gronelândia ainda foi no século XIX. Houve explorações naquela zona. Aliás, há agora um filme que está disponível no Netflix sobre uma exploração dinamarquesa que, numa altura em que a Gronelândia não estava sequer toda mapeada, para dirimir uma questão com exploradores americanos, que também tinham andado por ali, sobre se uma parte da Gronelândia, uma parte mais a norte, era uma ilha diferente ou era a mesma ilha. Era só uma ilha, é a maior ilha do mundo, é uma ilha gigantesca. Para ter uma ideia, é qualquer coisa que vai daqui até à Polónia, em termos de área, portanto é mesmo muito grande. Independentemente disto, isso passou no século XIX, depois no século XX, temos novamente uma oferta de compra durante a Primeira Guerra Mundial, ou melhor, por essa altura, 1910, e depois Primeira Guerra Mundial, só que na altura os Estados Unidos acabam por comprar umas ilhas à Dinamarca, as Ilhas Virgens Dinamarquesas, que hoje é um território autônomo dos Estados Unidos, na altura mais preocupados com a proteção do Canal do Panamá do que com a proteção do tráfico marítimo perto do Ártico. Este tema volta a estar em cima da mesa durante a Segunda Guerra Mundial, e durante a Segunda Guerra Mundial a Dinamarca é ocupada pelos alemães e os Estados Unidos ocupam a Gronelândia. E quando a Segunda Guerra Mundial acabou, não quiseram sair propriamente de lá. E aí há um aspecto que talvez nos ajude a perceber melhor o que está em causa, porque quem fez essas discussões, depois houve acordo, naturalmente, foi o presidente Truman, que é uma figura completamente diferente de Donald Trump, democrata, que foi eleito até de forma também surpreendente, digamos assim, sobretudo na sua segunda vez, e que percebeu a importância para os Estados Unidos da Gronelândia quando lhe mostraram um mapa-mundo, que em vez de ser aquela chamada projeção Mercator, a projeção Mercator é aquela que é feita a partir do Equador e em que projetamos num plano, planisfério, as zonas polares quase como se fossem gigantescas. E aí a Gronelândia aparece muito grande, cria a ilusão que é maior em área do que realmente é. Mas a questão ali não é a área, é a localização. E se se virar essa projeção, em vez de ter no centro o Oceano Atlântico, que é a que nós habitualmente vemos, tiver no centro o Polo Norte, percebemos por que é que num tempo de alterações climáticas aquilo pode ser tão relevante, designadamente para a defesa dos Estados Unidos. Neste momento continua a haver uma base militar lá, houve mais bases militares americanas. Há um tratado que inclusivamente permite, entre os Estados Unidos e a Dinamarca, que permite aos Estados Unidos regressar e reabrir sem pedir grande coisa à Dinamarca. E há um elemento que se tem falado pouco ainda nisto, que é o que pode acontecer à Gronelândia em si, porque do ponto de vista do seu estatuto é realmente uma região autônoma da Dinamarca, mas em termos históricos aquilo parece mais com uma colônia dinamarquesa do que propriamente com uma província, digamos assim. Porque aquilo é habitado por pouquíssimas pessoas, 55, 56 mil pessoas. É mais ou menos imaginar que a população da Ilha Terceira, nos Açores, ocupa um território que vai daqui até à Polónia. Estás a ver? É um pouquinho vazio. E dessa população são quase todos inuítes. Inuítes é o nome São esquimós.

Sim.

E eles têm autonomia e, aparentemente, vontade de independência. Já têm Parlamento, já têm uma espécie de pré-constituição aprovada e, mais tarde ou mais cedo, a ideia dos vários partidos da Groenlândia é fazer um referendo para se tornarem independentes, até porque o atual estatuto lhes permite tornarem-se independentes sem grandes conflitos com a Dinamarca. Isso não quer dizer que eles queiram tornar-se independentes da Dinamarca para se tornarem no 51º estado dos Estados Unidos, porque as sondagens dão a indicação que não é essa a sua vontade. Seja lá como for, há aqui duas ou três questões geoestratégicas muito relevantes, que é, primeiro, a Groenlândia é crucial na defesa antimíssil dos Estados Unidos, porque, tal como no Alasca, há vários postos que estão preparados para uma eventual troca de mísseis, sobretudo com a Rússia, mas também com a China. Esses mísseis habitualmente voam por cima do Ártico e o aviso prévio e o próprio controle dos sistemas de defesa é fundamental à Groenlândia. Depois há o problema das rotas marítimas, há degelo no Ártico e a rota chamada Passagem Noroeste pode vir a estar aberta e está a ser muito cobiçada, designadamente pelos chineses. E finalmente há esse tema que agora toda a gente fala, que são as terras raras. Há estimativas de que na Groenlândia, estamos a falar de uma exploração difícil, porque nalgumas zonas o gelo tem 3 km de espessura, mas na Groenlândia poderá haver cerca de 25% das terras raras do mundo, e numa altura em que as terras raras são um quase monopólio chinês, e as terras raras são determinantes, por exemplo, para turbinas eólicas, para motores elétricos, para tudo o que tem a ver com ímanes, tudo o que tem a ver com a construção também dos ecrãs dos telemóveis, dos computadores. São elementos que não sendo propriamente raros, são muito difíceis de explorar e a Groenlândia poderá ser importante nisso. Não é algo a que qualquer potência relevante envolvida numa competição com a China e com a Rússia, e ontem tivemos, como tu referiste, aliás, mais um episódio dessa disputa, desta vez com colaboração entre os Estados Unidos e o Reino Unido para apresar um petroleiro fantasma que navegava com bandeira russa e estava protegido por um submarino russo, vê lá o ponto de proximidade que estas coisas já estão. E é natural que nos Estados Unidos não seja só Donald Trump a pensar na importância estratégica da Groenlândia e a considerar, como de resto entra pelos olhos dentro, que um país com a dimensão da Dinamarca, que é muito mais pequeno que Portugal, tem uma população que também é sensivelmente metade da nossa, é mais rico, muito mais rico, não tem capacidade para defender aquela área imensa. Agora, isto devia ser feito no quadro da NATO e num quadro completamente diferente daquele que está a acontecer neste momento. E eu creio que isto é mais bullying. Tem muito a ver com algo que é a mentalidade de Trump, que é, os Estados Unidos, há muitos presidentes dos Estados Unidos que estão associados, no fundo, à compra de terrenos que permitiu aos Estados Unidos ter a dimensão que têm. A compra da Louisiana, Louisiana aos franceses, a Louisiana é aquele território central, enfim, não é o estado da Louisiana, é todo o vale do Mississippi e do Missouri, tudo o que está Midwest para lá. E depois temos a Flórida, que foi comprada aos espanhóis, ao México foi a Califórnia e o Texas, e o Alasca foi à Rússia. E curiosamente, repara, a Califórnia foi comprada ao México e passado pouco tempo foi descoberto ouro. O Alasca foi comprado aos russos, passado pouco tempo foi descoberto petróleo. Se calhar há a ideia de que compram agora a Groenlândia e descobrem qualquer coisa lá extraordinária. Há aqui muitos fatores, vale a pena recuperar um bocadinho isto. Há aqui muita efervescência que tem a ver, naturalmente, com as perguntas que sucedem à operação na Venezuela, mas eu creio que isto provavelmente não vai ser vendido, mas também não vai haver operações militares, mas alguma coisa vai acontecer e, para ser franco, é bom que aconteça, porque é de facto um território que começa a ter uma-

Um valor

...valia muito especial, como teve na Segunda Guerra Mundial. Na Segunda Guerra Mundial ninguém pediu autorização para enviar para lá tropas, como foram enviadas, porque os alemães também estavam a pensar no mesmo.

Vamos então olhar para todos estes cenários e recuperar um pouco da história. Até já.

Até já.

91 002 41 85.