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José Manuel Fernandes, parece que quer surpreender-nos no "Conta-Corrente" de hoje. Dizes que vais, sobretudo, fazer elogios e vais falar de um acontecimento de que ninguém está a falar. Avança, José Manuel, estou a ficar com muita curiosidade. Bom dia.

Bom dia. É verdade. Como sabes, para a semana vai ser a tomada de posse do novo presidente dos Estados Unidos. Há quase 250 anos que é sempre assim, de quatro em quatro anos, no dia 20 de janeiro, sem falta, religiosamente, há um novo presidente ou então há um presidente reeleito. Nunca falha. 20 de janeiro. Eu estava a ler umas coisas sobre essa cerimônia, que os americanos chamam "inauguration", inauguração, e de repente tropecei com uma que aconteceu há precisamente 40 anos. Foi a tomada de posse de Ronald Reagan. Estive a ver o vídeo no YouTube e só te posso dizer que fiquei com uma enorme nostalgia desses tempos. Essa altura até me comoveu um bocado.

É sério? Comovido, 40 anos depois, ainda dá pra isso?

Ainda dá pra isso. Dá pra isso, e dizes bem, 40 anos depois. Como sabes, Reagan era um presidente especial. Mas era um presidente republicano, tal como Trump. Sabes como é que ele começou o seu discurso?

Não.

Começou assim. O contraste não podia ser maior com tudo o que Trump fez nos últimos meses e, sobretudo, nos últimos dias. Pelo que Reagan disse e também pela forma como a administração que ele substituía se comportou, é tudo tão diferente que até faz impressão. Ele começou o discurso assim, eu vou citar que vale a pena, é uma citação um bocadinho longa, mas vale a pena: "Na história da nossa nação, esta é uma ocorrência vulgar. A transferência ordeira de poder, tal como prevista na Constituição, ocorre rotineiramente há quase dois séculos e poucos de nós param pra pensar como isso nos torna realmente únicos. Aos olhos de muitos em todo o mundo, esta cerimônia que realizamos todos os quatro anos é nada menos do que um milagre". Esta frase é extraordinária a vários títulos. É extraordinária porque eu diria que é uma seta apontada ao coração de todos os que tentaram sabotar a transferência ordeira de poder, que vai ocorrer agora, outra vez, no próximo dia 20. No fundo, é uma seta apontada ao coração dos que, no partido de Reagan, estão agora a subverter os valores pelos quais Reagan se bateu toda a vida. É uma antecipação extraordinária, uma denúncia do que está a acontecer agora. Depois, também é extraordinária porque na altura em que Reagan discursava, em 1981, a maioria dos países do mundo não havia forma de transferir ordeiramente o poder. Quase metade do mundo nessa altura, por exemplo, estava ainda dominado por ditadores comunistas, e isso era uma realidade que ele não sabia na altura, mas ajudaria a transformar radicalmente e muito depressa.

Verdade. Parece até que adivinhava o 6 de janeiro.

Pois, eu não creio que Reagan, que era um otimista -

Não irritante.

Muito irritante. E acreditava imensamente no povo americano poder se adivinhar o que se passou a 6 de janeiro. O que se passou nestes 40 anos na política americana mostra como quase tudo em Washington se degradou imenso, porque no discurso Reagan também agradece a Carter, que é o presidente que estava antes dele, e agradece-lhe a forma como ele o ajudou naquele período de transição, de passagem de poderes. É esse o dever dos presidentes que saem, mas a forma como tudo se faz ordeiramente é uma tradição que se tem vindo a perder. Por exemplo, 20 anos, que é precisamente a transição que se passou, foi a meia viagem nestes 40 anos, foi em 2001, que foi quando George W. Bush bateu Al Gore. Quando ele entrou na Casa Branca, todas as máquinas de escrever tinham ficado sem o W do meio, uma espécie de vingança da equipe de Clinton. Passaram mais 20 anos e chegamos a essa desgraça que está a ser a saída de Trump. Só se salva o comportamento digno do vice-presidente.

José Manuel, tu disseste que te emocionaste a ver a cerimônia da tomada de posse de Ronald Reagan. Foi só por causa desse momento, desse discurso inicial?

Não. Ao ouvir o discurso, recordei-me que foi nesse discurso que Reagan disse uma das suas frases mais famosas, que foi esta: "Na presente crise, o governo não é a solução para o nosso problema, o governo é o problema". É extraordinário que tenham sido necessários 40 anos para finalmente aparecerem em Portugal políticos a dizer a mesma coisa, a fazer um discurso tão frontal do ponto de vista das ideias e a dizerem-lhes numa campanha eleitoral, como estava acontecendo esta campanha eleitoral. Claro que a seguir ele explicava que a sua intenção não era acabar com o governo ou com o Estado, que quando se fala em governo, os americanos querem falar Estado. Mas explicar que o que eles pretendiam, no fundo, é tirar o Estado de cima das costas dos cidadãos e pô-lo a trabalhar ao seu lado. Por quê? Explicava ele nos seus discursos, porque os heróis são os cidadãos. E ele começava a dizer assim: "Vemo-los todos os dias a entrar e a sair das fábricas", e depois descrevia uma série de outras funções que os cidadãos comuns fazem. Foi uma daquelas alturas em que me pareceu que ele estava, neste caso, o próprio Reagan, verdadeiramente emocionado.

Pois, mas ele era um ator. E também era quase empilhante nos seus discursos.

Sim, mas neste caso a emoção notava-se nos olhos. Via-se que os olhos brilhavam e notava-se também nas paragens que às vezes ele tinha que fazer no discurso. Aliás, naquela altura não havia teleponto, ele ainda lia pelos papéis. De resto, naquele ano, foi a primeira vez que a cerimónia se realizou no lado ocidental do Capitólio, portanto, naquelas escadarias que têm em frente a Mall, o monumento a George Washington e ao fundo o Memorial de Lincoln. Antes não era aí que era a cerimónia, nem sabia isto. Aprendi nessa altura. E ele, no discurso, recordou que quer Washington, quer Lincoln, foram também momentos fortes, mas o outro momento fortíssimo, e também contrasta com os dias que hoje vivemos, contrasta muito, novamente, com a presença de Trump, é que no fim, quem foi chamada a cantar o hino dos Estados Unidos foi uma cantora negra. Era um presidente republicano. E essa cantora negra cantou o hino maravilhosamente mesmo e depois, isto foi outro momento muito emocionante, abraçou-se longamente a Reagan. Isto passou-se tudo 40 anos antes do Black Lives Matter, 40 anos antes destas políticas identitárias, 40 anos antes, sobretudo, de termos visto estes manifestantes trumpistas com as bandeiras da Confederação, que são bandeiras do tempo da Guerra Civil, a profanarem o Capitólio. Devo dizer que foi um dos momentos em que eu me emocionei.

Percebe-se.

Eu não sou nada de nostalgias e achar que antes é que era bom. Mas neste caso, é evidente que a degradação do clima político na América é indiscutível. Não é só por na inauguração de Trump a cantora ter sido uma caucasiana loira, porque foi o que aconteceu. Eu fui verificar só para ver como é que tinha sido. E por tudo o que se passou depois, nestes últimos tempos. Por isso, para não te deixar ainda mais deprimida e porque também já não tenho tempo, não conto o que entretanto também descobri ao rever bocados dos debates presidenciais entre Mário Soares e Freitas do Amaral em 1986, porque também os fui ver para comparar com os de agora. Quem quiser que procure no YouTube, porque dá para ocupar os tempos, agora que estamos um pouco confinados.

José Manuel Fernandes no "Contra-Corrente" desta sexta-feira. É uma edição que vai ficar disponível nas plataformas podcast e também em observador.pt.

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