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José Manuel Fernandes interrompeu o Contracorrente na semana passada e, por isso, nunca se chegou a referir às polémicas em que tem estado envolvido Francisco Louçã por causa de um comentário que fez na televisão, mas mesmo assim ainda queres falar delas. É isso, José Manuel? Bom dia.
Bom dia. Sim, acho que se tornou quase inevitável, até porque ontem Francisco Louçã voltou ao tema na coluna que tem no Expresso Digital. Eu achei esta polémica, para ser franco, reveladora e instrutiva, até mais reveladora e instrutiva do que interessante. Reveladora por vários motivos. O primeiro motivo é que nos mostra, em muitos aspectos, como é que se degradou o debate político, até mais do que debate político, eu diria o comentário político. Sempre fui contra o comentário político feito por políticos. Acho que é uma bizarrice portuguesa. Nasceu com Marcelo, mas Marcelo, apesar de tudo, tinha a desculpa de ter começado por ser jornalista antes de ser político. Mas como sabes, hoje em dia os políticos estão por todo lado, infestam o espaço mediático. Não vou citar nomes, eles são bem conhecidos. Mas Francisco Louçã é apenas mais um político que tem direito a uma tribuna televisiva sem contraditório. Eu acho que isso é algo que só se passa em Portugal. Não conheço nenhum país em que isto se passe. A forma como ele utilizou aquele famoso espaço que ele tem no seu tabu, que é o Espaço Zen, em que truncou um pedaço de uma intervenção de uma deputada da Assembleia Municipal de Lisboa do PPM, mostrou até que ponto este tipo de espaços pode ser usado, neste caso concreto, até que ponto, no caso de Francisco Louçã, lhe faltam escrúpulos nas suas pregações. E ele criou uma verdadeira fake news.
E foi precisamente essa acusação que lhe fez a deputada municipal.
Sim, ela até fez isso num texto aqui no Observador e eu acho que ela tinha razão, porque a piada correu bastante mal a Francisco Louçã. Francisco Louçã meteu-se com uma portuguesa que é descendente de ucranianos e que tem bem viva a memória do que foi o sofrimento do povo ucraniano durante o comunismo em geral e em especial durante um período conhecido como Holodomor, que é o período da grande fome. Eu não vou agora contar toda essa história, porque já houve muitos textos nos últimos dias que contaram essa história, que é absolutamente horrível. A piada de Louçã teve a virtude de lembrar a muita gente precisamente o que foram os horrores do stalinismo, em especial os horrores de uma fome provocada por motivos políticos, que esse é que é o ponto. Não foi uma fome que tivesse havido uma seca ou tivesse havido um desastre natural, foi por motivos políticos. Uma fome que matou muitos milhões de pessoas. Ainda hoje discute-se quantos milhões de pessoas foram. Uma fome a que as autoridades assistiram com absoluta indiferença. Discute-se se foi uma fome deliberada ou uma fome provocada por má gestão, mas o que é indiscutível é que foi indiferente às autoridades o número de pessoas que estava a morrer. E também uma fome que levou a atos de canibalismo horríveis, dentro talvez das próprias famílias e onde, de facto, houve crianças que infelizmente serviram de alimento. É horrível dizer isto. Mas aconteceu. Tudo isto é história, tudo isto está bem documentado, tudo isto infelizmente era pouco conhecido, tudo isto se tornou mais conhecido depois da piadola do nosso conselheiro de Estado.
Que entretanto já se defendeu. Louçã diz que ninguém o pode acusar de ser stalinista, porque ele sempre foi anti-stalinista.
Nessa parte o Louçã tem verdade e tem razão. Eu conheço o Francisco Louçã praticamente desde a adolescência. Ele é um ano mais velho do que eu, éramos de grupos diferentes no tempo dos liceus e posso testemunhar que isso é verdade. Não tenho dúvidas. Louçã sempre foi trotskista. Só que Trotsky, como todos sabemos, foi o grande adversário de Stalin, foi o político que Stalin mandou assassinar no seu exílio no México, com uma martelada na cabeça. Só que essa é só uma parte da história. Quem conhece a história do comunismo, quem conhece a história da Revolução Russa, quem conhece o papel que nela desempenharam Lenin, Stalin, mas também Trotsky, sabe que todos eles não hesitaram em matar e em mandar matar, não só adversários políticos, mas também companheiros de partido. E tudo isso em nome do exercício do poder. Ainda há uns tempos, não sei exatamente há quanto tempo, a Netflix passou uma série histórica, daquelas séries tipo "The Crown", mas só que o herói, neste caso, não era a Rainha de Inglaterra, era o Trotsky. Era sobre a vida do Trotsky, que estava relativamente rigorosa e contava a história do líder espiritual do nosso conselheiro de Estado. Eu ontem, por acaso, fiz uma busca na Netflix pra ver se ela ainda estava disponível, não encontrei, mas quem quiser informar-se seriamente sobre quem foi Trotsky, acho que tem um bom livro que pode fazê-lo, que é a biografia escrita por Robert Service. É um historiador britânico, um grande historiador britânico do comunismo, e ele não tem dúvidas. Se Trotsky tivesse derrotado Stalin, se tivesse sido ele a vencer, o resultado não teria sido muito diferente. Há uma certa efabulação sobre se Trotsky teria sido muito diferente, mas não teria sido muito diferente. Tudo o que era necessário para A Rússia ter sido um Estado totalitário já estava lá quando Lênin e Trotsky deixaram o poder ou perderam o poder, para aquilo que depois mais tarde se chamaria o grande pai dos povos. Ser trotskista não tornou Louçã de repente num santo, nem o torna sequer um grande democrata. Eu diria até que pelo contrário.
José Manuel, como é que pode estar tão convicto disso que estás agora a dizer?
Porque Louçã, de alguma forma, afirma-o sem o afirmar. Outra vez que o entrevistei, já foi há muitos anos, em 2009, em setembro. Eu guardo todos os textos que escrevo e os originais, portanto fui ontem ler. Sabia o que ele me tinha dito, porque havia uma parte da entrevista que eu não me esqueci, e fui reler as palavras exatamente. Na altura, ele ainda era o coordenador do Bloco, setembro de 2009. Foi das eleições que houve nesse ano. Na altura eu fiz algumas perguntas que ninguém lhe faz, que é pena que ninguém lhe faça. Eu perguntei-lhe, por exemplo, se ele ainda mantinha relações ao mais alto nível na Quarta Internacional. A Quarta Internacional, pouco se fala dela, porque está quase desativada, mas é basicamente um movimento de coordenação do trotskismo a nível internacional e na altura ainda estava um pouco mais ativa. A resposta dele foi evasiva, mas ele disse: "Tenho as opiniões que tinha desde os 15 anos." Eu insisti e perguntei se ele continuava a ser revolucionário. E ele respondeu: "Sou o que sempre fui." E depois sobre o que era o Bloco e o que era ser socialista em Portugal, porque o Bloco começou, veio de um partido chamado Socialista Revolucionário. Ele disse que ser socialista e para o Bloco ser socialista em Portugal era ser contra o capitalismo. As palavras foram exatamente: "O B é anticapitalista, sim, senhor, com todo o gosto pelas palavras e com toda a clareza." Toda a clareza anticapitalista. Hoje é social-democrata, dizem eles. Estas respostas foram muito extraordinárias. Porquê muito extraordinárias? Vistas à luz de hoje, porque as peripécias dos últimos dias mostram que no fundo, essas respostas estão atuais. Francisco Louçã, com aquele seu ar de frade láico, digamos assim, e com aquela sua voz de pregador, no fundo continua a pensar como na adolescência. É o que esta polêmica mostra. Continua a defender a revolução, continua a ser comunista, mas só que na versão trotskista. Por exemplo, ele ontem escrevia candidamente no "Expresso", e cito: "Que o stalinismo foi uma catástrofe do século XX." Não, doutor Louçã, não. O que foi uma catástrofe do século XX não foi o stalinismo, foi o comunismo. E foi o comunismo em todas as suas variantes, todas mesmo, incluindo a variante cubana, a variante venezuelana, todos os comunismos pós-stalinistas, todos os comunismos pós-20º Congresso, os do Leste Europeu, também o comunismo do Vietname, e claro, também a China e a Coreia, mas isso ele sempre disse mal também. Foi tudo uma catástrofe, e tudo começou no tempo em que Trotsky comandava o Exército Vermelho, quando tudo começou nessa altura.
E então é por isso que achaste interessante toda a polêmica destes dias.
Claro, eu acho que é interessante, porque nós vivemos tempos de dissimulação. O Bloco agora, como eu recordei, deu-lhe para dizer que é social-democrata. Eu acho que as palavras já não valem nada ou deviam valer. É mentira, é óbvio que o Bloco não é social-democrata. As ideias têm importância, têm sobretudo importância quando estão escondidas. Ora, a vantagem desta controvérsia é que vimos que afinal, digamos assim, o monge Louçã continua a ser o velho trotskista Louçã, o revolucionário de toda a vida. E portanto, ao menos com isto, as coisas ficaram um bocado mais claras. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.