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E começa agora mais um Contracorrente, que também pode acompanhar nas nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Esta manhã falamos sobre a mudança de hora que acontece este fim de semana, o que é que ganhamos realmente com esta alteração. Queremos saber o que pensa, só tem de ligar 910 002 41 85. Também pode deixar os seus comentários no nosso site e redes sociais ou então enviar a sua mensagem de voz por WhatsApp para o mesmo número 910 002 41 85. Carla. Vem aí o fim de semana mais curto do ano. Na noite de sábado para domingo, os relógios avançam uma hora, o que significa que vamos dormir menos, pelo menos neste fim de semana, mas vamos passar a ter sol até mais tarde, quase à hora de jantar ou mesmo para lá dela. Vamos passar a ter a hora de verão e vamos voltar a discutir se ganhamos alguma coisa com estas mudanças, como durante tanto tempo se acreditou que sim, que ganhávamos. Este é um debate com mais de 100 anos e que vamos ter também aqui hoje no Contracorrente. José Manuel, achas que ganhamos alguma coisa com esta mudança de hora?

É discutível.

É discutível.

É discutível e em muitos aspectos, provavelmente não ganhamos. Houve um grande debate sobre isto aqui há 20 anos, mais ou menos. Nós já mudámos a hora muitas vezes, já mudámos o regime muitas vezes, primeiro que tudo. Mas houve um período ali entre 93, 94 e 96, em que até por estarmos numa caminhada para a Europa, adesão ao euro, não sei o quê, foi decidido, ainda pelo governo Cavaco Silva, alinhar o horário de Portugal com o horário de Espanha, de França, de Itália. No final ficávamos alinhados com o Reino Unido, porque o Reino Unido manteve o horário deles. Isto depois mudou precisamente porque, na prática, isto significava que tínhamos a atual hora de verão no nosso inverno, e depois tínhamos a hora de verão europeia, que ainda era mais para lá. Eu, na altura, não gostei nada da mudança. Não gostei nada, por quê? Porque eu tinha uma vida um tanto diferente. Hoje em dia trabalho aqui na rádio, levanto-me mais cedo. Na altura, trabalhava num jornal diário, deitava-me mais tarde. Mas a vida da maior parte das pessoas é mais parecida com aquela que eu tenho hoje do que com aquela que eu tinha nessa altura.

Nessa altura, a noite era muito tarde, não é?

A noite era muito tarde. E aquilo que foi o grande argumento, foi nomeadamente o argumento de Marçal Grilo, que era o Ministro da Educação, quando isto regressou ao sistema anterior. O argumento de Marçal Grilo era: com estes horários, as crianças vão de noite pra escola praticamente o ano todo.

Isso já com António Guterres.

Isso já com António Guterres. Foi na passagem para António Guterres.

Na passagem para o governo de António Guterres.

A necessidade de alinhar com a Europa e aquela ideia, precisamos de nos integrar na economia comum, fazer as compras à mesma hora.

Os escritórios abertos todos à mesma hora.

Os escritórios abertos todos ao mesmo tempo. Não deu resultado positivo e tinha resultados negativos. Vamos lá ver, qual é a lógica disto tudo? A lógica disto tudo é: nós devemos ter uma hora que idealmente deve ser o mais próxima possível da hora solar. A nossa hora legal deve ser o mais próxima possível da hora solar. O ciclo diário não é igual todo o ano, porque nós não vivemos no Equador, no Equador é praticamente igual todo o ano. Vivemos numa altura em que temos dias mais curtos, dias mais longos, mas a diferença não é tão grande como se formos para as cidades do norte da Europa, para Oslo ou mesmo para São Petersburgo, por exemplo, onde há as famosas noites brancas, que nunca chega a ser noite, nunca há noite ali no mês de junho, julho. Nós não, estamos numa zona, apesar de tudo, mais temperada, mais equilibrada, mas há diferenças, apesar de tudo, significativas na duração do tempo de luz. Todos os seres vivos estão adaptados a haver luz ou não haver luz. Não são só as árvores, não são só os girassóis, não sei se rodam assim tanto como diz a mitologia. Mesmo nós, animais, temos ritmos diferentes e que têm a ver com haver luz ou não haver luz. E não é só ser escuro ou ser claro. A coisa tem a ver até com a tonalidade da luz. Por exemplo, se for de manhã cedo, o sol ao nascer é mais azul e ao pôr-se é mais cor de laranja. Muitas pessoas nunca viram o nascer do sol, nem têm bem noção de como as luzes são diferentes. A luz do nascer tu sabes.

Não. Agora deixei de ver luz de manhã.

Deixaste de ver luz de manhã, mas tens noção clara de que o nascer do sol tem uma temperatura de luz, digamos assim, diferente do pôr do sol. E nós temos células nos nossos próprios olhos que detetam isso e que induzem, por exemplo, a produção de algumas hormonas que fazem com que a parte da manhã, digamos, o arranque do dia, em princípio, seja mais ativo. Não é só acordar-nos e dar-nos atividade, é dar-nos também um pouco mais de energia. Não vou agora entrar no nome dessas hormonas, acho que não vale a pena. Por exemplo, a nossa hora legal, até 1911, era uma hora legal que não tinha ainda alinhado internacionalmente, porque no final do século XIX houve uma convenção dos fusos horários, que foi de 1884, e Portugal só adere a isso em 1911. E a partir daí, com pequenas flutuações, nós, de uma forma genérica, andamos mais acertados com a hora solar Porque nos acertámos com o meridiano de Greenwich. O meridiano de Greenwich é aquele que passa em Greenwich, em Londres. Quem alguma vez foi de carro daqui até Barcelona, por exemplo, há uma altura em que passamos pelo meridiano de Greenwich, na autoestrada entre Zaragoza e Barcelona. Tem a ideia que nós estamos um pouquinho para cá. Esse um pouquinho para cá significa, de uma forma genérica, que nós estamos 37 minutos desencontrados da hora biológica ideal. E já estamos, com esse desencontro, a fazer-nos acordar mais tarde do que o sol se levanta em termos diurnos. No verão, esse desencontro aumenta para uma hora e 37 minutos. Esta hora de inverno, este desencontro das horas é uma consequência da Primeira Guerra Mundial, da falta de energia, que toda a energia disponível era um tempo diferente, era para a guerra e criou-se os dois horários, o horário de inverno e o horário de verão, por causa do que se gastava ou não gastava em iluminação. Hoje em dia, a ideia, isto apesar de depender dos países, há outros fatores além da iluminação, hoje em dia não ser na conta de eletricidade o que nos pesa mais, todos nós temos noção disso. Quando eu era miúdo, a minha avó andava sempre atrás de nós, éramos muitos irmãos: "Apaguem as luzes, não deixem as luzes acesas." Era uma grande preocupação. Hoje em dia é mais não deixem o radiador aceso ou não acendam o radiador quando não precisam ou tenham cuidado com o fogão, coisas desse gênero. Estima-se, isso está num estudo, temos até um dos autores do estudo aqui conosco hoje, que em termos de poupança de energia, será 0,37%, portanto, quase nada. Estamos a falar de uma coisa negligenciável, sendo que em alguns países até se gastará mais por haver hora de verão e hora de inverno. A União Europeia, contudo, quer acabar com a hora de verão. Ou quer acabar com a mudança horária. Eu penso que, na prática, será acabar com a hora de verão, portanto, termos hora de inverno todo o ano. Ou hora legal. O nome correto disso hoje diz é UTC. UTC quer dizer Universal Time Coordinator. Deixou de ser GMT, porque passou a ser gerido atomicamente. Isto é, a velocidade de rotação da Terra não é completamente estável e há variações de segundos. E essas variações de segundos hoje em dia estão incorporadas no UTC, e não estavam no GMT. Que era mais fixo. Era mais fixo. E além disso, o GMT remete uma coisa completamente anglo-saxônica, e isto já é um acordo global e toda gente gosta nos dias que vivemos, isto já tem alguns anos. Agora, esta questão não é indiferente. Como disse, nós devíamos andar o mais perto possível da hora real do sol, por causa dos tais ciclos circadianos, que é o nome que se dá a esses ciclos normais, que não são iguais em todas as pessoas. Todos sabemos que há pessoas que trabalham melhor à noite, outras trabalham melhor de manhã, e eu não sei explicar exatamente qual é a razão de ser disso. Agora, sabemos que há coisas sem as quais não vivemos. Por exemplo, quê? Dormir bem. Todos devemos dormir bem, devia ser uma preocupação. E para dormir bem, a maior parte das pessoas dorme melhor se estiver num ambiente escuro ou escurecido. Eu durmo em qualquer circunstância, devo dizer. Não tenho cortinas que querem no meu quarto, quer dizer que a luz entra à vontade, não tenho esse problema, mas a minha neta cada vez que lá vai protesta. Porque precisa do escuro. Sim, porque ela também tem horários de levantar um pouco diferente dos meus. Acho que depende um pouco das pessoas. Eu vejo nos aviões, as pessoas nos aviões para dormir precisam de pôr aquelas máscaras nos olhos, eles também me dão a mim uma e eu nunca uso. E durmo na mesma. Varia um pouquinho com as pessoas, não tem que ser tudo igual. Agora, que temos que dormir e devemos dormir bem, é importante, e isso tem influência a hora que deixa de haver luz. E se tivermos luz no verão, até muito tarde, como aconteceu durante esse período de roteamento curto, significava que o sol punha-se depois das 10 da noite. Eu gosto muito do pôr do sol depois das 21:00, porque eu tenho uns hábitos de ir a alguns restaurantes à beira-mar, perto de onde eu moro, e de estar lá a ver o pôr do sol, é muito bonito. Sei que há um período no ano em que não preciso de ir para o restaurante às 19:30, posso ir às 20:00 e pouco, que ainda vejo o pôr do sol, ou mesmo às 20:30, porque o sol se põe um bocado depois das 21:00. Agora, pôr-se depois das 22:00 e manter-se luminosidade até quase à meia-noite é uma coisa completamente diferente e tem aí alguma influência nas pessoas. E é isso que nós temos que ter em consideração. Eu digo, do meu ponto de vista egoísta, tanto me faz. Mas talvez até preferisse, até porque gosto mais da hora de verão. Gosto de ter luz ao fim do dia. Apesar, como te digo, agora levanto-me mais cedo e também gosto de ter luz de manhã. Mas não é uma coisa muito trágica. Agora, se nós pensarmos naquilo que é a biologia das pessoas, e nós somos seres biológicos, convém estarmos o mais ajustado possível com o sol, porque isso não é cultural. São milhares de milhões de anos de evolução dos seres vivos. Portanto, alguma coisa cá deixaram e nós não mudamos isso. Nós perturbamos isso com as chamadas luzes azuis do fim do dia, que são os ecrãs. Não é só ter as lâmpadas acesas, é depois ter ecrãs, que é a chamada luz azul, e que podem perturbar muito o sono.

Fala-se mais dessa luz azul e menos da importância da luz da manhã, não é?

Exatamente.

José Manuel, vamos aproveitar, temos aqui dois convidados de luxo, a entender em relação ao astrónomo Rui Agostinho, mas também a Teresa Paiva, que é uma médica especialista no sono e na qualidade do sono. Bem-vindos. É mesmo muito importante, Teresa Paiva, a ideia de preservar o sono e a mudança do horário tem muito impacto aí?

Quer dizer, para já, foi um prazer ouvi-lo, porque disse tudo o que é preciso dizer sobre o assunto.

Tudo, não.

Não, disse. Só acrescento uma pequena coisa: nós não dormimos bem só no escuro, dormimos bem porque temos que estar em fase, quer dizer, em consonância biológica com o nosso sistema biológico circadiano. Eu dou um exemplo simples: uma vez estava na Coreia, cheia de sono, era de noite lá, e como eu estava fora da fase do meu relógio biológico, não se consegue dormir. Está a perceber? Mesmo apesar de ter sono. Portanto, esta coisa de estar em fase com o relógio biológico, é uma coisa fundamental.

É um problema, um jet lag. Quem viaja para sítios com grandes diferenças horárias percebe que existe.

Pois, sim, precisamos estar mesmo todos certos, porque temos uma relojoaria complicada e complexa no nosso corpo e devemos ter todos os relógios sincronizados uns com os outros. Isso implica o sono, obviamente, a alimentação, o trabalho, a atividade física, etc. Portanto, todos os atos, e você estava a dizer milhões de anos, são bilhões, porque os ritmos circadianos apareceram na vida na Terra pela primeira vez em bactérias. E isso foi no início, ainda não havia oxigênio na Terra e já havia ritmos circadianos em bactérias. Portanto, a gente tem que perceber que os ritmos circadianos são uma coisa ultraorgânica e que nós preservamos os mesmos ritmos circadianos que as bactérias tiveram há bilhões de anos. É preciso ter muito respeito por isso. O que eu digo desta mudança é que a primeira coisa, como o José Manuel Fernandes disse, é desnecessária do ponto de vista energético. Portanto, se é desnecessária, por causa da energia que se fazia, é desnecessário.

Já está resolvida essa questão. Porque já não é uma questão.

Não é uma questão. Depois, do ponto de vista da saúde, é terrível. É terrível porque ele falou muito bem em relação com a disparidade entre a hora solar e a hora real, que vamos ter no verão. Quero só dizer duas coisas. Na Rússia, que tem muitos fusos horários, eles estudaram os fusos horários de várias regiões e quanto mais afastadas as pessoas estavam da sua hora biológica, maior era a prevalência de câncer. Portanto, um dos riscos grandes da desorganização circadiana é o risco de câncer. Que não é assim um risco qualquer. A gente tem que ter cuidado com as coisas. E depois, em Portugal, que nós já somos o país do mundo com horários mais tardios, a hora de verão é uma hora que agrava imenso estes horários tardios, porque vamos cada vez ter mais tarde, jantar mais tarde, ir para a cama mais tarde, fazer atividades noturnas mais tarde, etc. Portanto, a médio prazo, é mau para toda a gente. Na transição, as pessoas vão dormir menos uma hora e, portanto, há um aumento de risco de acidentes de viação, pela privação de sono de uma hora, que não é de certa forma irrelevante. Há pessoas que aguentam bem, mas muitas não aguentam, e aumentam os riscos cardiovasculares. Portanto, nesta transição.

Ou seja, vamos entrar este fim de semana e os próximos dias, entramos num período de risco.

De risco cardiovascular e de acidentes, que são as coisas mais importantes. Mas, de facto, o que eu acho é completamente estúpido, já se disse isso 200 vezes. Há uma tentativa de fazer isto em termos da União Europeia, mas, de facto, quando você falou daquela mudança de cérebros, de nos pôr todos com a hora da Europa, eu tinha as minhas filhas pequenas e ninguém convence uma criança a ir para a cama com luz cá fora. É uma coisa, foi dramático.

Nem tirá-las da cama de noite para ir para a escola.

Nem com o vitinho. Isto é no tempo do vitinho, nem vitinho.

Foi, de facto, uma catástrofe, mas graças a Deus tiveram o bom senso de nos pôr na hora de Inglaterra. Portanto, nós já estamos um bocadinho, como eu disse, 37 minutos fora da hora solar. Mesmo na hora de inverno. Portanto, ficar uma hora e meia é estar muito longe da hora solar. Está a ver a importância que tem o sol para nós? É uma coisa fundamental. O sol é o nosso sincronizador.

Sim.

E, portanto, precisamos do sol.

Precisamos.

Temos que estar sincronizadas com ele.

Rui Agostinho, ganhamos alguma coisa com a mudança de hora que vai acontecer este fim de semana?

Sim, ganhamos bastante mesmo.

Então.

Ganhamos bastante. Mas primeiro deixe-me só fazer uma pequena correção sobre a hora que o país teve em 1911. Ou antes de 1911, Portugal não usava a hora de Greenwich, utilizava a hora solar local. O Observatório Astronômico de Lisboa foi construído em 1863.

Foi o que ele disse.

Foi isso que eu quis dizer, se calhar percebi-me mal.

Ok. Quando o observatório foi construído, na realidade, o país assumiu que seria a hora solar do observatório em Lisboa. É que antes do observatório de Lisboa, na realidade-

Havia um relógio no Castro Daire, não era?

Isso já é mais tarde. Mas antes disso, cada cidade tinha o seu círculo meridiano para medir a passagem do sol e tinha a hora solar local. É uma história interessante. Portugal só ajusta com a Conferência dos Meridianos já com a República. Portanto, é a partir de 1911, na realidade é em 1912, que o país decide entrar numa hora de um fuso horário e, curiosamente, em vez de ajustar a hora do seu país pela hora do fuso menos um, porque o grosso de Portugal continental está no fuso menos um, dois terços está em fuso menos um, decide ajustar pelo vizinho mais próximo, que é a Espanha. E aqui entra o outro aspecto importantíssimo disto, que são o quê? Os fatores sociais, a vida social.

A vida social.

Que é a economia, que são as trocas que se fazem entre os países. Portanto, este é um fator que não deve ser descurado. Não é simplesmente a questão da pessoa sentir-se melhor ou pior, é porque esse melhor ou pior é como é que eu vivo. E o eu viver é um viver em sociedade, é um viver que é de partilha com as outras pessoas.

E as trocas econômicas são mais importantes do que, por exemplo, a hora do jantar, porque os espanhóis jantam muito cedo e os portugueses, pela maioria, vai tarde.

Desculpe, eu não concordo com o que o professor Rui Agostinho diz, porque eu acho que um dos riscos da sociedade atual e um dos problemas dominantes da sociedade atual, que levou ao estado mais ou menos catastrófico e perigoso que estamos agora, é pôr sempre o lucro ou a economia à frente dos outros problemas. E os problemas da relação familiar, os problemas da atividade cognitiva, os problemas do risco de demência, os problemas de saúde, os problemas da saúde mental, etc, são fundamentais para que haja uma harmonia social. E, portanto, nós pensarmos: "Agora vamos ter a mesma hora de Espanha", quer dizer, eu fugia, porque, de facto, não quero ter a hora de Espanha, eu durmo como ele, sem cortinas. E sou noctívaga, claramente, assumidamente noctívaga. Mas exatamente para conseguir ter a minha vida regular e levantar-me a umas horas normais, etc. Eu deito-me sempre um pouquinho tarde, tenho que ter imenso cuidado e não posso fazer disparates.

Sim, autodestruidor.

Como os quais é jantar muito tarde ou fazer outras coisas muito tardiamente. Está a perceber? Porque eu sei que isso é um risco para a saúde. E, portanto, nós temos que pensar que a saúde também é um bem econômico. Não é? Tem custos. A saúde tem custos. Não é?

Claro que tem.

Eu acho que há aqui, e da sua parte, eu já vi algumas disparidades publicadas internacionalmente. Numas coisas diz umas coisas, noutras diz outras. Mas acho que a importância, por exemplo, dos horários escolares, a importância para os alunos, etc, é muito importante. Percebe? E quando eu vejo miúdos a chegarem lá e que se deitam, vão jantar às 10:00 da noite, deitam-se à meia-noite, depois não conseguem estudar. Claro, não conseguem, depois têm que levantar cedo, não conseguem estudar.

Mas quer dizer, o jantar às 10:00 da noite não é por causa da hora ter mudado, é porque em casa as horas de jantar não têm juízo nenhum.

Não têm juízo nenhum. Sim, mas quer dizer, quando a hora muda, vão agravar isso. Está a perceber?

Mas também depende, porque quando a hora muda, muda. Quer dizer, quando muda, muda.

Não muda, porque o seu corpo não muda.

Mas a hora de jantar mudava.

Mas não pode mudar.

Tem de mudar.

Porque o seu corpo não muda. Está a perceber?

Estou a perceber, sim.

O seu corpo tem umas determinadas características.

Para dar exemplo, a natação é às 18:00, seja tarde, seja escuro ou seja noite, as atividades extracurriculares. Há algum ritmo que se mantém.

Exatamente.

Mas depois o nosso relógio biológico é que muda um bocadinho.

Eu sou daqueles seres que nesta matéria sou perfeitamente oportunista e interesseira. Gosto muito

Quando a hora muda e eu ganho uma hora.

Nessa noite dormes mais uma hora.

E tudo parece que o tempo me sobra, é maravilhoso.

Mas é nesse dia.

É só nessa fase, depois na outra, não.

Isso em outubro.

Sim. Nós temos aqui a doutora Teresa Paiva e eu tenho uma pergunta para fazer. Eu sei que não tem tanto a ver com esta questão da mudança da hora, mas eu também faço parte daquelas almas que dormem sempre, não há problemas. E há coisas também que vão mudando ao longo do tempo. Eu lembro-me de ser miúda, as pessoas na altura viajavam muito menos e havia um problema que era aquelas pessoas que estranhavam a cama, não dormiam noutros sítios. Esta questão do sono também tem fases, tem modas. E há pouco tempo, ao ler uma coisa de história, aquelas coisas banais, mas que me chamou a atenção porque já me tinha parecido que isso acontecia noutras culturas e noutros tempos. Nós não dormimos ao longo da nossa história sempre da mesma forma. A questão, por exemplo, porque não havia luz elétrica, ou seja, nós estávamos dependentes da noite natural. E portanto, sobretudo no inverno, a noite natural era muito grande e a noite estaria mesmo organizada, o sono poderia organizar-se de uma outra forma. As pessoas iam muito cedo para a cama, estavam na cama e depois ali a meio da noite, eles iam para a cama quando estava escuro, estavam ali um bocadinho e depois deitavam-se, e depois a meio da noite, pela nossa contagem do tempo, porque depois também há aqui outra coisa. Nós agora falamos de horas, mas a hora ela mesma também é um conceito, que não esteve cá sempre. E depois ali a meia-noite tinham um período de vigília e depois passavam para o segundo sono. Ou seja, a forma como dormimos também tem mudado ao longo do tempo ou das sociedades, mais propriamente.

Isso mudou fundamentalmente com a revolução industrial, porque o que acontecia é que quando dormia primeiro quatro horas, depois estava uma ou duas acordado e depois dormia mais outras quatro ou cinco, no fim disto soma 10 ou 11.

Pois, exato.

E portanto, isso do ponto de vista do trabalho ou da organização do trabalho, era inconveniente.

E do sono?

Do sono, não se sabe exatamente. As crianças têm um sono polifásico, isto é, dormem várias vezes. Todos os animais, os seus cães, gatos, etc, têm sonos polifásicos. Nós atualmente acreditamos que o sono tem que ser monofásico, quer dizer, que temos que dormir tudo inteiro, o que não é verdade. A gente pode dormir em dois bocados durante a noite, desde que durma bem e não há um grande problema. Percebe? Não é um enorme problema. Quer dizer, pode-se dormir, desde que a duração global seja igual, não há grande problema. Mas disse uma coisa muito importante, é que, de facto, todas as opiniões em que dizem "one for all" são erradas. Nós somos todos diferentes uns dos outros. E há pessoas que não aguentam dormir sem cortinas, como eu e ele dormimos, e outras que precisam dormir com cortinas.

Com quebra-luas.

Há uma enorme variação, e graças a Deus que existe esta variação, porque efetivamente a biodiversidade e as variações entre as pessoas são fundamentais para a nossa sobrevivência. E portanto, todos os ecossistemas sustentáveis têm uma grande biodiversidade. E é bom que nós sejamos diferentes uns dos outros, mas temos que reconhecer as nossas diferenças. E temos que nos adaptar ao nosso ritmo biológico. Foi o que eu disse que eu fazia. Tenho já alguma provecta idade e, portanto, apesar de tudo, tem sido eficaz. Porque eu sempre respeitei os meus relógios biológicos, mesmo quando eles eram um bocado chatos. Que eu não conseguia chegar a certa hora ao hospital, etc. Está a perceber? Mas eu sempre respeitei isso e graças a Deus fiquei com o meu sistema circadiano mantido e ainda durmo bastante bem. Esta situação de ter o primeiro e o segundo sono, é diferente, mas se as pessoas acordam muitas vezes e têm o primeiro e o segundo sono e depois acordam muito cansadas, já é um problema. Está a perceber?

Sim.

Para uns pode não ser um problema, para outros pode ser um problema.

Poderem estar 10 horas acordados.

É a tal coisa do "one does not fit all".

Claro. Nós estamos a falar das horas e do sol, mas a grande revolução que nós nem muitas vezes percebemos é que temos uma coisa que é uma noite técnica e uma noite natural. Porque a luz, primeiro era o sol, mas depois passou a ser a lâmpada. E de alguma forma mudou quase tudo.

Mas a lâmpada não substitui o sol.

Claro, eu também penso que não.

Não consegue. Podemos forçar-nos a estar em atividade à noite ligando as luzes todas. A pessoa faz isso, mas chega um momento em que o corpo simplesmente arreia de cansaço e tem que descansar. Portanto, isso pode ser forçado? Pode, mas há limites nessa coisa. A luz natural, e como a professora Teresa Paiva disse, e como o José Manuel Fernandes também introduziu, é fundamental para o ser humano. O ser humano está adaptado ao ciclo de 24 horas. O número 24 é histórico, dividir o dia em 24 partes é uma questão histórica. Mas o aparecimento da luz solar no céu induz na realidade, e quando a professora Teresa Paiva falou acerca das células que começaram a reagir a isso, são reações fotoquímicas. Na realidade, a presença de luz, a luz tem energia, cada fotão traz energia que permite reações fotoquímicas, inicia um ciclo diferente na química Resumidamente, para nós e para os animais, inicia um período de atividade. A pessoa acorda, está ligado com o cortisol. A pessoa acorda, tem atividade, mantém-se, às duas por três, ao final do dia, o cortisol desliga, deixa de haver luz e a pessoa entra numa fase de repouso.

Cortisol é uma hormona.

Sim, exatamente. Portanto, essa luz existe. A sua pergunta está ligada com a definição da hora legal de um país. A hora legal é o que diz qual é a hora de relógio que o país quer ter. A hora legal inclui a estipulação da hora de verão. Isso tudo é hora legal. Portanto, quando se fala da hora legal, fala-se disso tudo incluído.

Fala-se de uma decisão política.

Exatamente.

Já estamos um pouquinho próximo da hora, mas depois temos que ver se vale ou não a pena manter a hora de verão.

Exatamente. A questão da hora legal é assim: o nosso país é dos poucos casos no mundo que já fez as experiências todas. Nós temos dados estatísticos fundamentalíssimos. A partir de 1911, com a República, e começa em 1912. O país tem em média 6,0 bilhões de pessoas. 1912, 13, 14, 15, o país decidiu ter a hora de Greenwich, nesta altura ainda era hora de Greenwich, que era conhecida, durante o ano inteiro. A Primeira Guerra Mundial é de 14 a 18. Aparece a necessidade de poupar combustível pelo esforço de guerra e essencialmente ligado com isso. Em 1916, o país decide ter uma hora próxima da hora solar o ano inteiro, estamos a desaproveitar, em particular, o tempo de verão. 1916, o país decide entrar no regime da hora legal, que inclui uma hora de verão. E ficou assim até 2021. 2022, já não sei a história portuguesa, que governo é que entrou, diz: "Não, voltamos a ter uma hora constante durante o ano." 22 e 23. Em 24 acabou. As pessoas disseram: "Estou farto disto, acabou." 25 vem novo governo: "Não, voltamos a ter." 26 acabou. E passamos a ter hora ou hora de Greenwich, mais a hora de verão. Em 1930, volta-se a fazer a experiência: "Não, queremos ter uma hora inteira sem mudanças durante o ano." Acabou em 1931. As pessoas desistiram. Estamos a falar de seis, sete, oito milhões de pessoas. Desistiram, abandonaram. E nunca mais o país fez essa experiência. Nunca mais. A última experiência deste gênero, ter uma hora contínua, sem hora de verão, foi desde 1967 a 1975. E aí o país decidiu ter o quê? A hora central europeia, o TC+1. Quando veio a revolução do 25 de abril, aleluia, vamos acabar com isto que isto não serve. Somos 10 milhões de pessoas, estamos fartos disto. E voltamos a introduzir a hora de verão. Portanto, existe estatística de experiência do corpo humano, de viver em sociedade durante este tempo todo.

A todas estas soluções, no último minuto que temos nesta primeira parte, a professora Teresa Paiva vai-se embora. De tudo isto, o que-

Tenho que ir para a natação. Desculpem lá.

O que acontece, exatamente, que impacto é que isto tem e qual seria, na sua opinião, o melhor horário?

É a nossa hora de inverno. O José Manuel Fernandes explicou isso muito bem. A hora de inverno é a hora que está mais próxima da hora solar. Apesar de ter 37 minutos, enfim, não é dramático. Está a perceber? Mas a hora de inverno é a hora desejável. É a hora em que as crianças ainda vão para a escola com luz, etc. Vão um bocadinho às escuras, mas depois passa, etc. Percebe? E vêm para casa ainda há alguma luz, se não saírem muito tarde da escola. Esta é a hora mais biológica e é a hora que devia ser seguida, é a hora de inverno.

É aquela que vai deixar de existir a partir de amanhã por seis meses e depois regressa. Professora Teresa Paiva, muito obrigada por ter estado nesta primeira hora do Contracorrente. Um bom dia e um bom fim de semana. Vamos continuar a tentar perceber o impacto da mudança da hora e que modelo será melhor para todos nós. Helena Matos, onde é que te colocas nesta discussão?

Olha, eu não tenho sequer uma opinião muito formada, nem me considero nada. Eu adapto-me muito bem a todas as circunstâncias.

Dormes bem, portanto.

Não, durmo bem. É óbvio. Tive sempre um grande fascínio por perceber como é que aquelas atividades onde as horas são fundamentais, se adaptam. Por exemplo, aqueles tratamentos hospitalares que têm administração de medicamentos com horas muito rigorosas. E confesso que até o tentei perceber quando tive de acompanhar uma pessoa que esteve internada por algum tempo. Sim, diga.

Não, estava a ver. Eu sempre achei que se nós no antibiótico 12 em 12 horas, fizéssemos um erro de mais ou menos uma hora, não teria problemas para a saúde.

Eu também, exato.

Estava só a ver, OK, tem que ser tomado exatamente àquela hora.

Eu tinha um familiar, enfim, era noutro tempo, que quando tomava antibióticos, estava a olhar para o relógio.

Uau!

Pois, exato.

A contar os segundos.

A contar os segundos.

Até queira a hora.

Claro! Mas para lá dos antibióticos que nós tomamos nas nossas casas, há, de facto, administração de medicamentos que têm um rigor horário

Que eu presumo que tem de ser muito superior. E é, de facto, por exemplo, em questões industriais de produção de determinados bens, em que a questão do tempo em que se está a manipular.

Por exemplo, de secagem.

Ou de secagem, tudo isso, de cozedura. Como é que se consegue ajustar? Este, por exemplo, foi sempre um dos lados que me fascinou perceber. Depois nós temos, neste momento, em relação às questões horárias, dos horários, e aí até há grandes polémicas e vemos como alguns partidos, por exemplo, neste momento, têm alguma reivindicação nessa questão, que é a questão dos trabalhadores que trabalham por turnos. Não estou a dizer os trabalhadores que agora vão ter que trabalhar mais uma hora ou que trabalharam menos uma hora, porque isso será ajustável, mas é o impacto que tudo isto, estás a olhar pra mim com a intenção de dizer.

Claro, olha pra mim e pra Maria João, temos seis anos acordar às 04:00 da manhã, quase, é duro.

Pronto, e esta questão, porque quando eu há bocado referi à questão da lâmpada versus o sol, porque há claramente um mundo em que o sol determina os ciclos de vida, de trabalho, e, portanto, a noite natural. Nós hoje até dizemos que não temos. Até se fazem às vezes aí umas idas, uns passeios, pra ver o céu escuro.

Claro, na cidade não temos essa perceção.

Pouca noção do que é o céu escuro. Eu ainda tenho memória de noites em locais onde não havia eletricidade e da diferença da escuridão, e de quão diferente é sermos iluminados por objetos que hoje é até difícil explicar o que é, como um Petromax, como um candeeiro a petróleo ou, coisa absolutamente extraordinária, tendo em conta o preço a que ele está hoje, a candeia de azeite. A luz de uma candeia de azeite numa parede de cal, as sombras, parece um filme expressionista alemão. O contraste, o negro. E quando se é criança, de facto, percebe-se a questão da noite, e percebe-se o que é aquela noite antiquíssima e idêntica da poesia. Portanto, há, de facto, uma diferente forma de viver. Há estudos. Às vezes, refere-se essa questão de como era diferente trabalhar em algumas zonas do mundo, nomeadamente em alguns estados dos Estados Unidos, antes de haver ar-condicionado, e quando passou a existir ar-condicionado, e como isso permitiu adaptar as necessidades da economia, porque de facto as pessoas não conseguiam trabalhar, tendo em conta determinado tipo de temperaturas que se fazem sentir em alguns locais. E nós temos aqui, no mundo, temos sempre a questão dos espanhóis, por exemplo, também com os horários de sesta ou de não sesta, mas porque as pessoas têm de se adaptar ao local onde vivem, muitas vezes em termos de temperatura. Em termos da iluminação, eu acho que nós não temos muito bem a noção de como a nossa vida se alterou a partir do momento em que deixamos de ter de organizar a nossa vida, necessariamente, em função única e exclusivamente da luz solar. Eu até não sou nada noctívaga, portanto, a partir de determinada hora começo a ter de me beliscar pra me manter acordada e gosto das manhãs e acordo sempre muito cedo e sou daquelas pessoas que acordam sempre muito cedo, independentemente de tudo. Mas temos de entender que, apesar de tudo isto, a minha vida, tal como a de todos nós, não é condicionada só pela luz solar. A nossa vida mudou completamente. Portanto, quando se faz a pergunta: "Como é que te ajustas à mudança da hora?" Nós já estamos ajustados, porque nós, na verdade, não organizamos a nossa vida como os nossos bisavós, em função daquilo que era a luz solar e que, de facto, determinava completamente. Até havia aqueles provérbios, o que se faz à noite, de manhã aparece, no sentido, porque as pessoas, coitadas, lá tentavam fazer algumas coisas. Mas o que conseguiam fazer, muitas vezes não ficaria muito bem feito, porque eles não viam. Tinham a tal iluminação, que era muito precária, e depois, porque também acabavam, pronto, ia deitar. Mas era outra forma de organização. Eu acho que a grande alteração não é a questão da mudança ou da não mudança da hora, e que percebe-se porque é que surgiu naqueles contextos. As pessoas contavam mesmo tudo, queriam poupar velas, sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial. Logo, quando estamos agora nesta fase, a nossa discussão hoje, eu acho que mais uma hora, menos uma hora, depois temos aqueles países que, por razões políticas e pra firmarem a sua diferença e a sua independência, muitas vezes face às ordens internacionais, resolvem trabalhar à meia hora, que é uma coisa que, penso eu, por exemplo, em termos de aviação, deve ser bastante mais complicado. Por exemplo, eu referi aqui a questão dos hospitais, a questão da indústria, mas será muito interessante perceber como é que a navegação aérea consegue ajustar-se a uma mudança. Como é que faz? Porque realmente isso acontece todos os anos, com milhares e milhares de aviões. Como é que isso é feito? É uma operação que, ao mesmo tempo, as questões bancárias. Vocês nunca pensaram o que acontece aos multibancos

Posso dar aí uma chegada?

Não, claro, completamente.

Deve haver resposta para estas dúvidas, não se colocam.

Obviamente que há. E a parte da economia é das mais afetadas. Mas os sistemas informáticos estão perfeitamente adaptados a isso. Como é que a coisa funciona? Deixe-me começar por dizer, um dos mercados mais importantes nesta coisa toda tem a ver com as bolsas.

Claro.

Com as bolsas. E então nos tempos modernos.

Sim.

Nos tempos modernos, anos 1990 em diante, foi introduzido um tipo de negociação na bolsa que funcionava ao microssegundo. E a ideia é: como todas as bolsas mundiais estão interligadas, é possível a pessoa comprar rapidamente. Rapidamente, estamos a falar do microssegundo, fazer uma aquisição ou uma venda, porque as ações que tem nas várias bolsas naquele momento está favorável a fazer transação, por exemplo, manda comprar uma quantidade de ações e dois segundos depois manda vender. Se olhar ao valor de cada ação, aquilo é miseravelmente pequeno, mas como se fazem milhões de ações ao mesmo tempo, a coisa vai acumulando. É uma transação financeira que é trabalhada ao microssegundo. Por causa disso, as bolsas, na realidade, passaram a ter relógios atômicos próprios, coordenados com a infraestrutura nacional da hora legal. Em Portugal, aí é uma história paralela. E é fundamental saber exatamente a hora, o instante exato em que aquele valor-

E quando muda a hora?

Acabou. Quando muda a hora, é necessário que todos os relógios, essa é que é a questão, façam essa transação. Vou fazer isto, não falar da bolsa, mas do caso pessoal. O que nós, pessoas, sentimos? Olhe, você tem que pagar a renda até ao final do dia 24. Ok, final do dia 24, que segundo é que é exatamente? Imagine que o relógio do computador que está a utilizar para fazer a transação tem a hora certa. A primeira pergunta: o que é isso da hora certa? É por causa disso que existe o decreto da hora legal. E diz: quem dá a hora no país, e a hora do país é esta, e você pode sincronizar com o Observatório Astronômico de Lisboa, que tem que manter a hora certa pra saber. Portanto, a hora certa não é a hora do seu computador, é a hora legal que o país tem. Primeiro aspecto. Depois, mas utiliza o seu computador e faz a transação, e o seu computador diz: isto foi feito no instante tal. O computador do banco recebe aquilo. E se o computador do banco tiver a hora errada e diz: "Ops, o seu pagamento entrou depois da hora."

Houve casos em tribunal por causa disso.

Já. Você tem que pagar juros. E agora tem que provar que a transação foi feita no instante certo. Agora não é pagar a renda da casa, é submeter um concurso à construção de autoestradas até o dia 24. Olhe, entrou dois segundos depois, nós já não aceitamos. Olhe, mas são milhões que estão em jogo.

Houve um caso em Portugal célebre.

Está a perceber por que a hora, a infraestrutura da hora de um país é fundamental? O que fazem os computadores?

Como é que se resolve isso?

Os computadores, o Windows não, o Windows não é um sistema operativo adequado para fazer isso, mas se olhar a todos os computadores fundamentais que estão por detrás desta infraestrutura, todos eles correm o sistema Unix, que tem um protocolo próprio de sincronização automático, que vai fazendo o quê? Pergunta a uma série de servidores no mundo qual é a hora certa. Isto aqui há detalhes, porque quando se manda perguntar, o seu computador pergunta à Espanha qual é a hora. Ok, qual é o caminho que esse sinal de pedido, esse datagram passa? Vai daqui até o servidor português, que vai para o segundo servidor, que entrega à Espanha, ao servidor central de Espanha, que envia até ao banco, até ao observatório de Cádiz, que diz qual é a hora. Há atrasos. E o software tem que calcular os atrasos todos e permanentemente ir fazendo ajustes. Portanto, isso está integrado nos computadores. Um computador que tem estas funções fundamentais tem que estar muito bem vigiado, estar protegido pra não ser atacado. Isto é outra história.

Pois.

Por que isto tem que ser protegido? Porque se eu tiver acesso àquilo, Rui Agostinho tem acesso ao computador da hora legal, e alguém me paga para pôr a hora que lhe interessa, a pessoa diz: "Não, eu fiz a transação na hora certa". Portanto, todas estas máquinas têm que ter segurança física e segurança informática ao mais alto nível pra garantir esta infraestrutura. As questões da hora, de como é que nós ajustamos o trabalho.

Mas hoje em dia, nós temos, por exemplo, os nossos computadores, pelo menos o meu, está alinhado com a cloud.

A cloud é uma máquina que utiliza-

O telemóvel está alinhado com o que a operadora me manda. Estou tranquilo?

Pergunta à operadora. O que eu faço? Enquanto o observatório foi o fornecedor da hora legal, nós tínhamos os relógios atômicos, tínhamos o protocolo NTP a funcionar, e eu dizia a todos os clientes da hora legal que deviam de pôr o servidor NTP do observatório astronômico, porque o atraso nas comunicações dentro do país é muito menor do que o atraso para fora do país. Portanto, quem está na informática pode pôr lá NTP 02 OLLPT, NTP 04 e tem acesso a isso. Para os clientes importantes, tínhamos o NTP de estrato um, que podiam acertar a hora. Confiar nas firmas, olhe, é o que é. Eu não lhe sei responder por causa da firma.

Há um caso em tribunal, em Portugal

Era um recurso de dois grandes empresários contra uma indústria também muito grande e o processo foi enviado do escritório de um grande advogado português no dia 17 de junho de 2002. Na altura usava-se o fax, começaram a enviar o recurso, faltava um minuto e 12 segundos para as 24h. Na verdade, só chegaram três folhas e as outras não chegaram. O processo depois andou em tribunal três anos, o escritório de advogados teve de pagar uma indemnização de € 2 milhões, era superior a isso até. O tribunal, já que o fax não era um sistema falível e que havia a questão da hora da primeira folha de rosto ou não, vai dizer que deveriam ter ido a algo que era muito importante, que era a estação dos CTT do aeroporto, que então estava aberta 24h por dia e cujo registo horário de senha de entrada não era de começarem a enviar, era quando se chegava ao aeroporto, à estação dos CTT, pedia-se uma senha e tinha um registo horário que era aceite pelo tribunal como prova de hora. Portanto, presumo que os CTT estarão sincronizados.

Não faço ideia se os CTT estão. Esse é o problema.

Também já não existe estação dos CTT aberta 24h por dia no aeroporto.

Agora diga-me outra coisa, há pouco pareceu-me que achava mal que nós voltássemos a ter uma hora única durante todo o ano.

Sim.

Como parece ser a intenção da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu, só não é ainda do Conselho Europeu.

Exatamente. O Conselho Europeu parou esse processo todo. Não pôs cá para fora, tanto quanto eu segui na altura, nenhuma deliberação explícita e razões para não o ter feito. Mas isso felizmente parou. E vou dizer por quê. Porque repetindo um pouco aquilo que eu disse, é assim: o nosso país, na realidade, já teve duas experiências prolongadas de termos um regime da hora em que não há mudança para a hora de verão. E posso lhe dizer os números sobre os milhões de pessoas que passaram por isso. O primeiro período, 1912 a 1915, foram 6 milhões de pessoas. Depois voltámos a fazer isso entre 1922 a 1925, foram 6,3 milhões de pessoas. Depois 1930 a 1933, foram 6,9 milhões de pessoas. A mesma coisa em 67, 75, foram 8,9 milhões de pessoas.

Mas aí com grande desencontro com a hora biológica, nesse período.

Exatamente. Mas em todos os casos, as pessoas não quiseram viver nesse regime, porque o que se perde ao ter a hora de verão é bastante pronunciado para as pessoas. O facto de introduzir a hora de verão é extremamente importante. Antes de responder a isso, deixe-me dar um outro indicador que é importante, que é a sociedade como um todo. E utilizei aqui os valores do PIB do país. Comparando o quê? Em particular nestes anos todos, que é de 67 a 75, são muitos anos em jogo, que tivemos UTC+1, e isto vai de acordo com o quê? Com a expectativa de que estamos mais próximos do mercado central europeu. Há muita gente que defendia isso. Quando fui diretor do observatório, muita gente da parte empresarial fazia pressão: "Devemos ter a hora da Europa, porque a gente pega no telefone e fala com estas pessoas, isto é a coisa mais importante que devemos ter". E que depois é repetida em 92 a 96 com o governo do professor Cavaco Silva.

Que era o caminho para o euro. Estávamos no caminho para o euro, para Maastricht. Temos que integrar tudo. Havia uma razão, digamos, nacional.

Exatamente. Esse período dos anos 90 é mais curto, o outro de 67, 75 é muito mais prolongado. Mas o que é que acontece ao PIB? O PIB médio dos anos entre 1967 até 75 foi 11,1, isto em gigas de dólares americanos, convertidos, foram as tabelas que eu fui buscar. Nos anos a seguir, em que desapareceu o regime contínuo e foi introduzida a hora de verão na hora legal, o PIB médio dos anos a seguir aumentou para 24,96. Mas pode haver outros fatores a contribuir para isso.

Ora aí está.

Há outros fatores. Mas onde é que eu quero chegar?

Apanha a revolução pelo meio, apanha uma crise internacional a seguir, em 93. Há muita coisa complicada aqui.

Há. Por causa disso é que o valor médio vai mostrando e diluindo as flutuações anuais que existem, porque elas existem. Mas há uma tendência contínua de subida do PIB. Há flutuações, sobe e desce. Quer dizer o quê? A introdução destes regimes não produziu nada que fosse satisfatoriamente melhor em relação a ter a hora de verão. Não houve nada na economia que o produzisse.

Não ter a hora de verão, quer dizer.

Não ter a hora de verão não produziu nada de extraordinário. Que as pessoas sentem-se melhor porque não há existência de mudanças e a saúde está melhor, não há ataques cardíacos, há menos acidentes. Isso não se refletiu na economia de modo global. Não há nada. Não há efetivamente nada. O período de 92 a 96, temos exatamente o mesmo exemplo. O que acontece? O PIB médio desse período é de 108,6 e pegando na mesma quantidade de anos a seguir, passa para 122. Portanto, passamos de 109 para 122. Quer dizer que a economia continua a responder, e a economia traduz o bem-estar global que o país tem Portanto, este indicador representa como é que o país como um todo funciona, não apenas internamente, mas também externamente. Os países não são fechados em si. Nós estamos numa comunidade europeia e temos ligações ao resto do mundo. E o bem-estar da pessoa vem de quê? De ter trabalho, de ter capacidade de melhorar as suas condições de vida. É isto que está em jogo quando se olha o PIB de um país. Portanto, termos apenas uma hora constante durante o ano como hora legal, não há prova evidente de que foi benéfico fazermos isso ou que ao retirar esta situação, o que é retirar? É introduzir a hora de verão, tenha sido a ver.

Pelo que eu também percebi, apesar de tudo, a maior parte dos países do mundo, não sei se em termos de população, porque não fui verificar isso, não tem hora de verão, tem uma hora única.

Os países todos da banda equatorial não faz sentido.

Sim, mas aí não faz sentido.

Não faz sentido hora de verão. E também nas latitudes mais elevadas.

Porque aí não há variações.

Exatamente, também não faz sentido. Agora, há países que estão numa certa vizinhança em que dizem: "Nós não precisamos muito de hora de verão, mas se os vizinhos com os quais temos muitas trocas fazem uma hora de verão, é bom para nossas trocas todas, seja economia... Economy envolve o quê? Envolve turismo, envolve viagens, envolve visitas, envolve: "Olhe, vou te enviar agora 300 caixotes disto, a que horas é que chega?" Esses países acabam por assumir, aceitar ter uma hora de verão, por causa das trocas todas que fazem com países vizinhos. Isso existe. De modo que depois também acontece outra coisa. Há países que têm horas legais que andam ajustadas a quartos de hora, meia hora.

Exatamente, que é uma coisa muito estranha.

Exatamente, mas fazem isso.

Por exemplo, que país é que tem?

A Venezuela passou a estar à meia hora.

Exatamente.

Há um que está a um quarto de hora, mas é asiático, agora não me recordo qual é que é.

Também não sei de qual é. Mas vou dar outro exemplo da importância que isto tem dos vizinhos. E tem a ver com o quê? Antes de termos a CEE, a Comunidade Económica Europeia, o espaço europeu todo fazia, na realidade, a entrada e saída da hora de verão, mas cada país escolhia o dia em que o fazia.

Ia perguntar sobre isso.

Exatamente.

A regra é recente, é relativamente recente.

É 1981. Antes de 1981, todos nós na Europa, estou agora a pôr a Europa toda ao molho, cada país decidia: "Olha, eu vou fazer hora de verão no segundo domingo antes do equinócio". O outro: "Não, é no fim do domingo do equinócio". Isto criava um problema enorme nas transações. Tanto a hora e data de entrada como a data de saída era muito variada. Imagine, trabalha numa agência de viagens, está a tentar vender coisas. "Olhe, quando é que você vai? Que horas é que são lá? Qual é o voo a apanhar agora? Como é que se ajusta o voo?" As tabelas de voos eram a coisa mais complicada.

Nem os computadores.

Eu já percebi que a maior parte das pessoas no mundo vive sem hora de verão, porque a China não tem. Eu agora fui ver.

Estavas a perguntar em termos de população.

A Índia não tem. A Índia tem meia hora. Eu lembrava-me de um país em que eu estive, que tinha esse problema. A Índia tem meia hora, o UTC+5 e meio. A Indonésia também, que é superpopulosa, não tem. E o Japão, que é um país com uma parte bastante a norte e comprido, também não tem. Já teve e deixou de ter. Portanto, é uma coisa muito importante. A população aqui é importante, a vontade da população é que é importante, aquilo que as pessoas gostam. A China é um caso muito particular. A China podia ter vários fusos horários, devia, se calhar, e tem um só. E ainda por cima, a China também fica muito baixa e aquela lá é muito acima, portanto, também tem variações de latitude importantes, não é só longitude.

O caso da Europa, que é um espaço que abrange muitas longitudes e latitudes também, a questão da data de entrada e da data de saída, em 1981, fica normalizada? Não, não fica. E aqui há uma história giríssima. O que é que acontece? Os países na Europa, todos, a tradição era fazer a saída da hora de verão também ao pé do equinócio de setembro, porque é quando se sente menos a transição de mudança.

De dias iguais, não é?

Exatamente, os dias iguais.

São dias com a mesma quantidade de luz.

É isso mesmo. Em 1981, o que fica estipulado nesta regulação da CEE é que o continente europeu faz isto como faz no final de setembro, e as Ilhas Britânicas mantêm a sua tradição de fazer o final de outubro, porque tinham essa tradição histórica. E os Estados Unidos também, devido à sua influência britânica, mantêm. Esta coisa arrasta-se até 1996 e há acordos internos que eu não sei, nunca consegui encontrar os documentos que levam, e o continente europeu todo, 450 milhões de pessoas, vendem-se aos britânicos e aceitam fazer a saída da hora de verão em final de outubro. Não sei o que é que passou pela cabeça desta gente.

Mas diz, vendem-se aos britânicos.

O que é que se ganhou? É que uma experiência de quase um século, em que as pessoas se sentiam confortáveis a sair em final de setembro, de repente, sai para final de outubro. E a saída em final de outubro sente-se muito mesmo.

Pois sente.

Sente-se muito.

É verdade, é verdade.

Final de outubro é tardíssimo.

Isto é tão bizarro. Talvez o país do mundo mais bizarro seja os Estados Unidos, porque os Estados Unidos, além de não terem uma regra para todos os estados, há estados com hora de verão e estados sem hora de verão, há um estado, que é o Arizona Em que há bocados do Estado, quando digo bocados é assim: há uma ilha que é o território Navajo, que é uma espécie de Estado dentro do Estado, que tem hora de verão. E dentro do território Navajo, há outra ilha, que é uma comunidade índia mais pequena, uma tribo, como nós chamávamos antigamente, não sei se está politicamente correto, que tem uma hora diferente. E os navajos, como têm uma outra ilha separada do seu território principal, também têm um regime diferente. É um arquipélago.

Sim, um arquipélago dentro do território.

O Arizona é um arquipélago no que diz respeito à hora, é uma coisa muito engraçada.

É curioso. Deixa-me agora voltar aqui, porque estamos a falar muito da questão econômica e também das decisões sobretudo políticas. Passando novamente para a saúde, temos o médico pneumologista Pedro Americano ao telefone agora conosco. Muito bom dia, obrigada por se juntar a esta discussão, porque gostávamos de perceber se esta adaptação do corpo humano é, apesar de tudo, relativamente inócua ou não, ou é de facto muito diferente viver na hora de verão ou na hora de inverno.

Olá, bom dia. Antes de mais, agradecer pelo convite e pela oportunidade de estar aqui a falar um pouquinho de uma área também minha querida. Porque exatamente a questão dos horários é muito importante. Nós funcionamos todos com muitos relógios. Temos um relógio que é falado como relógio biológico. Na realidade, todas as nossas células acabam por ter pequenos relogiosinhos, mas a gente fala daquilo que é o nosso ritmo circadiano, que é exatamente a nossa capacidade de nos adaptarmos à hora e tentarmos coordenar isso com a luz do dia. Nós temos mecanismos hormonais em que de acordo com a exposição que temos à luz solar, conseguimos coordenar o nosso relógio biológico àquilo que se passa cá fora, aos estímulos ambientais. E portanto, esta mudança de hora que existe vai desregular um pouquinho toda essa nossa capacidade biológica. Nós precisamos de alguma regularidade, de rotinas para ter bons hábitos de sono, e ao alterar a hora, isso vai ter um grande impacto. Vai ter impacto na capacidade do sono e também em vários níveis da saúde. Há vários estudos que demonstram que esta alteração vai roubar algum tempo total de sono e, sobretudo, qualidade de sono, sobretudo para quem já tem algum tipo de patologia, e depois vai ter várias interferências a nível mesmo de risco cardiovascular, maior probabilidade de enfartes, maiores depressões. Há várias coisas que podem decorrer desta mudança. Portanto, não é de todo inócuo.

Não é de todo inócuo. Ainda assim, diz que o corpo tem uma capacidade de adaptação. Isso faz-se como? Implica uma alteração das rotinas? É como se tivéssemos rotinas para o inverno, para horário de inverno e rotinas para o horário de verão?

Pronto, aquilo é adaptável, como eu disse, um dos principais estímulos para ajudar o nosso organismo a orientar-se, a saber que horas são, é o estímulo luminoso. Nós temos nos olhos, não tem nada a ver com a nossa visão, mas nossos olhos conseguem detectar a luz e através disso produzir uma hormona que é muito falada, a melatonina, que é utilizada para adormecer, que na realidade é um bom regulador do nosso horário. Quando nós começamos a ser expostos à luz, ela diminui a sua produção e depois à noite, quando a luz desaparece, ela começa a ser produzida para nos ajudar a manter o sono. E essa é uma das coisas que faz a união entre o horário cá fora e o nosso horário biológico. Esta é uma área muito engraçada, porque na realidade o nosso horário biológico nem sequer tem 24 horas, tem menos. Tem cerca de 23,4 horas. E portanto, se nós não tivermos nenhum estímulo, não houver nenhuma adaptação, se fôssemos deixados livres num bunker sem exposição à luz solar, íamos estar a fazer um horário natural, a adormecer a cada 23 horas. Portanto, todos os dias íamos adormecendo uma horinha, um pouquinho mais cedo. Mas o que acontece é que nós temos estímulos, nomeadamente esse luminoso, para nos conseguirmos adaptar. Temos imposições sociais, temos horários, temos atividades que fazemos à noite, temos horários de acordar para ir trabalhar e portanto, nós conseguimos adaptar-nos àquilo que são as nossas necessidades. Mas quando há uma mudança de horário, no fundo, o que é que vai acontecer? Tudo aquilo que são as nossas rotinas vão ser alteradas, aquilo que é a exposição solar, sobretudo nesta passagem, nesta mudança de hora agora em que vai haver um avançar, em que vamos ser expostos a mais luz solar até mais tarde, isso pode ter um impacto negativo na nossa qualidade de sono, sobretudo nesta mudança agora que acontece em março.

José Manuel Fernandes aqui. Que importância tem o fato de as pessoas e sobretudo, por exemplo, as crianças, estarem cada vez mais habituadas, não apenas à luz artificial, mas à chamada luz azul, portanto, a luz dos aparelhos, dos telemóveis, dos ecrãs de computador, dos ecrãs dos tablets, por aí adiante?

Exato. O raciocínio é exatamente o mesmo. Da mesma maneira que esta mudança de hora nos vai fazer estar expostos à luz até mais tarde e com isso inibir a tal produção hormonal que nos ajuda a adormecer, a luz dos ecrãs também, que é uma luz artificial, e sobretudo o espectro azul da luz que é emitido por esses ecrãs, está muito relacionada exatamente com o mesmo mecanismo. Portanto, ao estarem expostos até mais tarde a esse tipo de ecrãs, seja tablet, seja telefone, seja televisão, seja luz artificial, os doentes vão produzir mais tarde a tal hormona e portanto, vão ter uma capacidade de iniciar o sono muito mais tardia. Sendo que depois aquilo que eu falava há pouco de ter rotinas fixas também vai interferir, porque normalmente nós temos uma hora em que começamos a produzir e entramos mais facilmente no sono. Se isso for respeitado, o sono tende a entrar com maior facilidade e a durar mais tempo, com menos interrupções. Se acontecer mais tarde, depois não só é mais difícil de adormecer, como depois o sono também pode ser mais fragmentado e portanto, logo aí condicionar muito também a sua qualidade.

Ainda assim, Pedro Americano, é mais normal no tempo de inverno e com o frio dormirmos mais, precisarmos de dormir mais, de nos recolher mais do que quando os dias são naturalmente mais longos?

O ser humano acaba por ter sempre, cada pessoa é uma pessoa e cada pessoa tem o seu tempo, a sua necessidade de sono individual. Existe sempre uma necessidade individual de sono. Há pessoas que dormem poucas horas, há outras que dormem muito.

Precisam de mais.

Exatamente. Aqui a questão sazonal não tende a mexer muito nessas necessidades. A questão é mesmo com esta alteração horária que existe agora, nós somos regulados também, como eu disse, pela luminosidade, à luz do sol, sobretudo. Ao estarmos expostos a essa luz mais tarde de manhã e sobretudo até mais tempo ao final do dia, vamos, eventualmente, também por questões sociais, retardar a nossa hora de ir dormir. Portanto, o que vai acontecer aqui, naturalmente, é que as pessoas que estavam habituadas no horário de inverno, por ter menos luz do sol, ter menos disponibilidade para fazer outras atividades, conseguem se organizar mais cedo. A pessoa começa a preparar o jantar mais cedo, janta mais cedo e acaba por conseguir estar um bocadinho em família, relaxar, fazer as suas atividades de uma forma mais atempada, de maneira a garantir um tempo total de sono superior. Vão mais cedo para a cama, portanto, tem mais tempo, acaba por investir mais ou cuidar um bocadinho mais naquela rotina de facto, que a gente chama da higiene do sono. No verão, é o contrário, sobretudo com esta mudança horária agora, o que vai acontecer é que nós vamos estar expostos, naturalmente vamos ter tendência para adormecer mais tarde, mas também vamos ter essa tendência de protelar as nossas atividades, ficar um bocadinho mais com as crianças no parque.

E atrasar tudo.

Atividades que são mais agradáveis, portanto, atrasa tudo. As refeições ficam mais próximas do horário de dormir, que também não é muito conveniente. Pode-se fazer atividades desportivas até horários mais tarde e portanto acabamos sempre por fazer toda essa rotina e deitarmo-nos também mais tarde. E isso vai interferir também no tempo total de sono.

Sim, bom dia, daqui Helena Matos, eu tenho uma dúvida. E nessas circunstâncias, o que é melhor? Tentarmos adaptar de imediato, sobretudo quem tem crianças ou pessoas de idade, tentarmos adaptar de imediato ao novo horário ou ir fazendo uma passagem gradual?

Não, tudo o que é imediato, normalmente, tende a ser pior do que o gradual. Portanto, esse impacto, até aquela relação com o risco cardiovascular que eu falava, tem também muito com essa alteração imediata. E como isto é uma questão de rotinas, carece sempre de tempo.

O sono gosta de rotinas, não é?

O sono adora e precisa de rotinas. Todo o nosso organismo precisa de rotinas. Se houver essa possibilidade, é sempre melhor fazer um processo mais gradual. De facto, nós agora começamos a falar sobre isto, a mudança vai ocorrer já de sábado para domingo, mas as pessoas devem começar já a tentar preparar essa mudança. Parecendo que é só uma hora, essa hora, como eu disse, é em média, as pessoas dormem menos 40 minutos nesse dia, só por causa da mudança horária, mas isso depois vai ter impactos a nível de saúde. E o que se deve fazer é começar a preparar, se possível, sabendo que vamos ter que antecipar todos os nossos horários daqui para frente, começar agora já com três, quatro dias de antecedência, a tentar ir para a cama 15, 20 minutinhos, ou um bocadinho mais cedo, para depois não ser logo uma hora imediata de recuperação.

Sim, ali. Ainda temos dois dias para quem não começou a fazer esse...

É sempre preferível, qualquer preparação é melhor que nenhuma.

Fica.

E além de tentar dormir mais cedo, eventualmente sentirem necessidade, se estiverem a perder tempo de sono, também uma sesta, a gente costuma falar em power naps. Sestas não devem ser muito prolongadas, mas 15, 20 minutinhos de sesta também para depois continuar a ter uma boa performance diária, também podem ajudar nessa transição.

Também ajuda a dar aquela energia ali a meio do dia. Pedro Americano, muito obrigada pelos conselhos e pela forma como nos trouxe aqui esta questão. Um bom dia e um bom fim de semana. Rui Agostinho, por tudo aquilo que temos aqui falado, entendemos que são decisões políticas que determinam o que é a hora legal. É assim que deve continuar a ser ou estes contributos da ciência, quer da economia, quer da saúde, devem pesar também na decisão?

Pesam sempre. Por causa disso é que desde 1940, aliás, início do século XIX, século XX em Portugal, foi criada a Comissão Permanente da Hora.

Exatamente.

O que é que está na Comissão Permanente da Hora? A direção da Comissão Permanente da Hora estava no Observatório Astronômico de Lisboa, para garantir o quê? A independência científica do cálculo da hora solar e a sua ligação. Portanto, é necessário ter alguém que não demonstre interesse social algum, mas o resto da comissão era extremamente importante. Tinha pessoas que representavam os diversos ministérios. Cada ministério tem a sua faceta social, o da educação preocupa-se com o bem-estar das crianças e das pessoas. A parte da economia, a parte do turismo, parte disto. Portanto, esta comissão reúne-se e reúne também representantes das regiões autónomas. As regiões autónomas também colocam uma pessoa nisto. De modo que esta comissão, depois, é um órgão consultivo para o governo. Faz o seu relatório, entrega ao governo, mas a decisão é governativa. O governo, foi isso que o professor Cavaco Silva fez na altura, tomou a decisão e acabou, e fez a mudança de termos UTC+1, mais hora de verão, e assim ficamos. Portanto, sim, a resposta é: tem que haver contributo desta parte social toda. Por quê? Porque a definição da hora mexe com a sociedade como um todo. Primeiro aspecto. Segundo aspecto, e agora respondendo talvez mais diretamente àquilo que o José Manuel Fernandes perguntou ainda há bocado, e eu fui falando coisas paralelas também ligadas, que é assim: por que a existência de uma hora de verão? É interessante vermos a situação de não haver hora de verão. O que aconteceria se não tivéssemos hora de verão e mantivéssemos o regime da hora UTC durante o ano inteiro? No início de maio, o sol começaria a nascer às 5:30. Em finais de junho, o sol a nascer às 5:00 e depois, em final de julho, a nascer às 5:30. E a pessoa pergunta: "Às 5:30 eu estou a dormir, que é repouso, e estou a perder horas de atividade, e estou ali fechado em casa". Qual é o preço a pagar? O preço a pagar é que depois, nesta altura do ano, que é superinteressante, o sol põe-se bastante cedo pra aquilo que estamos habituados. Mesmo no 21 de junho, ele consegue pôr-se às 20:00.

Às 20:00, se não houvesse alteração de hora.

Exatamente, não vem estar a pôr-se. As pessoas que gostam de ir comer às 20:00 e ainda ter hora de sol.

Ainda está a praia tão boa, não é?

E há mais atividade civil, há mais atividade social no final da tarde do que há no início. Quem é que aproveita sempre o início do dia, independentemente daquilo que o relógio diz? Tudo que é atividade agropecuária e de construção, o que fazem é a hora do sol, ponto final. Os animais respondem ao sol. E então, nesta altura do verão, porque depois o dia aquece.

Trabalhar de sol a sol.

Sol a sol.

Aquela expressão.

Exatamente, tem que ser.

Aliás, desculpe interromper. A questão dos relógios nas torres das igrejas é muitíssimo importante para a afirmação dos horários de trabalho no campo. Eles são fundamentais, não são uma questão ornamental, eles são fundamentais. Era muito difícil as pessoas delimitarem. Não estou a falar dos que trabalhavam nas suas próprias terras, estou a falar daqueles que iam trabalhar para outros. Era muito importante conseguir marcar um princípio e um fim da jornada de trabalho. É por isso que o meio-dia e a badalada do meio-dia também têm importância.

Sim, é fundamental. E a questão do verão quente, pra quem está a trabalhar no campo, o dia aquece tanto que é bom começar logo, até antes do nascer do sol. Começa a atividade e quando começa a ficar calor, as pessoas terminam, porque torna-se insuportável mesmo. Este tipo de atividades, e a agropecuária também, não olha pro relógio, mas o grosso da população não está nisto, está a viver em casa. E então, é esta hora, 05:00, o sol nasceu, mas ninguém liga. Excepto as pessoas aqui do observador, têm que acordar às 4:00 e têm que vir pra cá. Portanto, dar aqui um apoio.

Mas nem assim vemos o sol.

O que acontece? Ao introduzir a hora de verão, o relógio, quando o sol nasce, diz: "Não são 5:00, são 6:00". Já é mais regular, é mais normal isto acontecer. E quando o sol está a pôr, diz: "Olha, já são 21:00". Portanto, a pessoa saiu do emprego às 17:00 ou às 18:00, saiu da escola, ainda tem sol até às 21:00, e as pessoas gostam disso. A existência deste período da hora de verão é fundamental e foi isso que o povo português, estes milhões de pessoas que passaram por regimes destes, disseram: "Não, isto não é bom".

Sim, porque o que conta no fim, Helena, é nós todos que nos organizamos em sociedade e precisamos ou não de ter esse tempo.

Sim, porque isto aparece-nos de uma forma tão natural que nós não temos a noção como a nossa própria relação com o tempo foi mudando ao longo dos séculos. Nós hoje não olhamos pro tempo como os nossos avós e pra nem sequer recuarmos muito mais. Nós temos uma noção de um tempo que está fracionado em ciclos de 24 horas e temos depois uma noção de um tempo vetorial, em que os anos sucedem uns aos outros. Não era assim, nós tínhamos um tempo muito mais determinado pela natureza, pelos ciclos do sol, pela luz e a falta da luz. Para nós, hoje, temos uma sociedade montada também numa questão que é, eu referi aqui a questão dos tribunais. Eu penso que talvez o dia em que nunca podem acontecer eleições, por exemplo, são os dias em que a hora muda. A forma como nós medimos o tempo torna-se determinante, pra já não passarmos desta questão da hora pra coisas muito mais complexas. Quando acontece a Revolução Francesa, sobretudo quando chega aquele período do terror, que havia um pensamento muito jacobino e pretende-se expurgar qualquer sinal de religiosidade na sociedade. A forma como se contava ou como se definiam, como se denominavam os meses do ano, depois os dias e ao longo do dia, as diferentes fases do dia tinham ressonâncias religiosas óbvias. Os revolucionários criam um novo calendário. Estamos num tempo de uma sociedade muito agrícola. E quando criam um novo calendário, é claro que as pessoas não podiam começar a contar o tempo, só os burocratas é que podiam contar o tempo pelo novo calendário e pela nova organização do tempo. Nós temos sempre a ideia da guilhotina, aquela coisa, guilhotinavam-se os aristocratas, os padres, mas em determinadas zonas, aquilo que as estatísticas dos condenados mostram é que estão a ser guilhotinados muitos camponeses. E os camponeses estavam a ser guilhotinados não porque estivessem contra ou a favor da revolução, mas por uma razão muito simples: eles estavam a usar a contagem do tempo anterior pela prosaica razão que não conseguiam usar a nova, porque aquilo implica um automatismo. Portanto, esta nossa adaptação às formas de contar o tempo é também ela datada. Eu não faço ideia se daqui por milhares de anos nós estaremos a contar o tempo da mesma forma e a discutir estas questões. Agora, esta matéria da hora legal implica uma outra forma de organização da sociedade, uma sociedade muito mais urbana, muito mais ligada aos ciclos de produção industrial do que aos ciclos de vida natural. Eu sei que nós devemos sempre fazer a apologia da vida natural, que é uma coisa que calha sempre muito bem, mas realmente eu não sei se me estava a calhar assim tão bem ter de me levantar às 5:00 da manhã. Mas reconheço que é mesmo o tempo. Eu convivo neste momento com dificuldade com os passarinhos que resolveram fazer um ninho numa estrutura da minha casa e, portanto, garanto-vos que a hora de acordar, é verdade, agora é às cinco e pouco.

Não precisas de um galo, os passarinhos do ninho.

É que fazem imenso barulho naquela tentativa de construir um ninho dentro de uma caleira metálica. Mas é mesmo um relógio. Eles têm mesmo esse relógio a funcionar. Às 5:10 estamos já de pé.

Se me permitir dar aí uma achega.

Claro.

Gostei muito dessa sua perspectiva, é muito interessante. A Revolução Francesa criou coisas abstrusas como fazer a semana dos 10 dias para ser decimal.

Sim, exato.

As pessoas punham tabelas na parede escritas para converter a semana normal para aqueles 10 dias.

E por isso é que acabaram na guilhotina.

Tão interiorizada.

E acabaram na guilhotina. Alguns. E não era uma questão política, de verdade.

Exatamente. Não, não era.

Lembra-se quando começa estas coisas da mudança da hora, as mais recentes eu lembro, era muito comum vermos, quando se usava relógio, havia sempre umas tias que andavam com dois relógios por causa da hora nova e da hora velha.

Ah, isso não vi.

Eu sim.

Isso nunca reparei. Um comentário sobre a luz artificial, que tem puxado aqui também, que o José Manuel Fernandes tem feito um comentário giríssimo sobre a luz azul, e que é: quando a humanidade passou a ter luz artificial capaz de iluminar coisas, as pessoas perderam a noção das fases da Lua. Quando a iluminação natural à noite era a Lua, as pessoas contavam as fases. Não era apenas lua nova, quarto crescente, lua cheia, não. Havia as fases intermédias. As pessoas contavam as falcadas e as gibas, porque era a maneira de contar o mês fazendo as fases da lua. Se a pessoa estivesse um pouco perdida na contagem dos dias, olhava a fase da lua. Obviamente, com a iluminação artificial, isso desapareceu tudo. A questão da luz azul-

Eu não conto as fases da Lua, mas tenho uma noção clara de quando é que há lua cheia e não há lua cheia, por outras razões. Vivo num sítio isolado, sem iluminação natural e portanto, saber se tenho que levar uma lanterna à noite para a rua ou se posso ir confiante na lua cheia.

Ou senão é só abrir a porta e olhar. Desculpa.

Não, mas eu sei por outras razões. Há outra razão ainda, que tem a ver a lua cheia e a lua nova coincidirem com marés mais altas.

Claro.

E portanto, ter uma maré alta ou não na praia, uma diferença de maré diferente.

Isso já é um argumento.

Também tem importância.

Eu achei muito interessante quando a Apple, no iOS, introduziu as fases da lua com as gibas e as falcadas. Nunca tinha visto isso no computador, mas nos dispositivos Apple está lá indicada a fase da lua em gibas e falcadas. Olha, já ninguém se lembra disso, ninguém sabe o que isto é, mas eles ressuscitaram isso. Também fizeram outra coisa sobre a pessoa estar desperta à noite a ver os ecrãs. Há muitos anos atrás introduziram o ecrã ficar amarelado e responder à cor da iluminação da sala, para não estimular a pessoa em excesso, manter aquele brilho excessivo no ecrã. Portanto, há a parte tecnológica também.

Também tenta acompanhar. José Manuel, temos menos de um minuto. Bem, eu acho que isto foi bastante fascinante. Eu devo dizer que, como disse, tinha muita regra geral contra a corrente é porque se tem uma opinião forte. Eu, neste caso concreto, não tenho opiniões fortes, tenho apenas a percepção de que, durante muito tempo, como disse, fui um adepto da hora de verão o ano todo. Hoje tenho a noção clara que isso era um disparate. Percebo o argumento para manter a hora de verão, que não tem a ver com a economia, mas com a forma urbana como as pessoas vivem. Quer dizer, quando temos a maior parte da população a viver urbanamente, isso faz sentido. E por isso, estando bem como estou, o Conselho Europeu que não se meta nisto como se meteu o Parlamento Europeu, e porque isto nasceu tudo de uma sondagem que deu 84% a favor de uma mudança deste regime. Só que foi quase tudo votos de França e de Alemanha e houve uns ativismos muito grandes e como foram votações online, não é uma votação, foi o que deu. Portanto, deixemos estar como está, que estamos bem. Professor Rui Costa, muito obrigada. Aprendemos todos muito consigo. E agora, não esquecer os telefones, ou os relógios quase todos já atualizam sozinhos. Um bom fim de semana mais curto. Até segunda-feira.

Até segunda-feira e obrigadíssimo. Foi um gosto.