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Altura de conhecermos o tema do Contracorrente desta quinta-feira. Para participar, basta ligar para nós, 91 002 41 85, mas já sabe que também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp 91 002 41 85. Carla. Há 100 anos, a 28 de maio de 1928, iniciava-se em Braga uma revolta militar que resultaria na queda da Primeira República. O general Gomes da Costa marchou sobre Lisboa quase sem oposição, pois já quase ninguém defendia o regime saído do 5 de outubro de 1910. O Estado Novo de Salazar só começaria anos mais tarde, em 1933, mas o regime que então se iniciava e que se autodefiniu como sendo uma ditadura militar, não tinha obrigatoriamente de conduzir a Salazar, pelo que vale a pena perceber por que os revoltosos de maio triunfaram, por que quase ninguém quis defender a Primeira República, e também tentar encontrar paralelos entre o que se passava no Portugal de há 100 anos e os desafios dos dias de hoje. É o que faremos no Contracorrente. José Manuel, bom dia.
Bom dia.
O nosso regime pode estar, de facto, em risco, como esteve a nossa Primeira República?
Carla, não creio que as situações sejam idênticas, apesar de haver pessoas que querem estabelecer paralelos. Mas ao mesmo tempo digo isto, também acho que temos a obrigação de meditar sobre alguns aspetos importantes. Vamos lá ver. O que nos deve inquietar como portugueses? O que nos deve inquietar é que nos últimos séculos, Portugal, quando chegou a altura de fazer reformas, quando chegou a altura de pôr as coisas direitas, quase sempre entrou em impasses e, por regra, só saiu desses impasses não com líderes reformistas, mas com revoluções. Repara, e essas revoluções tiveram uma característica: quando aconteceram, ninguém defendeu os regimes que estavam anteriormente. Foi assim com a Revolução Republicana, que praticamente caiu na rua. Praticamente nenhuns militares saíram pra rua para defender a monarquia. Aconteceu o mesmo em 28 de maio e aconteceu o mesmo no 25 de abril. Houve uma outra figura que ainda arrastou os pés, o Pádua Couceiro, no 5 de outubro. Em 28 de maio, praticamente nem isso. Tivemos aquele brigadeiro na Rua do Arsenal, que também houve ali um momento em que deu ordens para disparar, mas praticamente nada. No 25 de Abril também. Em qualquer uma destas alturas, os regimes estavam em impasses e tinham falhado soluções reformistas. Na monarquia, tinha sido João Franco, que com o assassinato de Dom Carlos, essa experiência terminou e a seguir optou-se pelo impasse. No caso da Primeira República, podemos dizer que, de alguma forma, mais do que o partido dominante, o partido que na prática era o partido do regime, que era o Partido Democrático, ainda no final tentou fazer alguma coisa, mas também correu tudo mal, e o fim do Estado Novo foi marcado também pelo falhanço da experiência do Marechal Caetano. Portanto, isso devia-nos fazer meditar sobre esta dificuldade que nós temos no momento em que chegamos a grandes dificuldades e impasses, não sermos capazes de encontrar saídas. Isso talvez seja aquilo que é semelhante. O que é diferente? Para todos os efeitos, não estamos num regime com o grau de domínio de um partido, domínio ao nível quase ditatorial, não seria ditatorial, mas era quase ditatorial, não permitia que outras forças políticas ganhassem, não permitia que elas governassem. Quando isso sucedeu, por regra, ensaiava atos violentos, o último dos quais, que eu acho que moralmente é aquele que abalou de vez a República, foi a Noite Sangrenta, um pouco menos de cinco anos antes do 28 de maio, quando foram assassinados não só alguns dos heróis da Revolução Republicana, como o Primeiro-Ministro, enfim, um primeiro-ministro missionário, António Granjo. Esse aspeto, de facto, é diferente, mas há outros aspetos que curiosamente são comuns, que é a dificuldade de pôr as contas em ordem. Portugal aparentemente ultrapassou esse problema, mas ultrapassou esse problema com um líder reformista que acabou por ser afastado nas circunstâncias que todos nos recordamos. E estamos numa fase que em muitos aspetos pode recordar, pela incapacidade de promover reformas e alterações, pode recordar algumas dessas dificuldades dos regimes anteriores. Há, contudo, um aspeto que é extraordinariamente diferente, alguns aspetos extraordinariamente diferentes. Quer dizer, por um lado, é muito mais confortável e estamos muito mais perto da média europeia. Estamos a falar de um país que não é apenas um terço da riqueza dos países europeus, que na altura Portugal era comparativamente muitíssimo mais pobre do que é hoje. É um país também demograficamente muito mais velho do que era na época, o que tem defeitos, mas tem uma vantagem, há menos tendência pra violência, é uma coisa que as pessoas raramente falam disso. E finalmente, estamos integrados na União Europeia, que nos dá umas garantias de estabilidade e de, não sei se hei de dizer cofres cheios, se hei de dizer financiamento garantido, que faz com que as pessoas acabem também por não olhar pra alguns problemas. Mas vale a pena debater isto tudo, porque como na história dos povos, na história dos países, há questões que são constantes e outras que são alertas, estar-se a ignorar, enfim, há uns artigos evocativos que falam da Marcha de Braga para Lisboa e retomam alguns deles a mitologia da santidade da Primeira República, mas não falar disto às vezes pode abrir caminho a não resolvermos os problemas que levam à degradação dos regimes. E acho que vale a pena falar um pouco sobre isso.
E por isso falaremos depois das 10:00. Até já, José.