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Hoje, José Manuel Fernandes quer descansar um pouco do coronavírus e decidiu dedicar o Contra-Corrente ao PCP. Por que, José Manuel?
Bom dia.
Bom dia.
Porque o amor do PCP por ditadores, como diria eu, nunca nos desilude. Esta semana, por exemplo, já tínhamos tido elogios dos comunistas à forma autoritária, bem autoritária, como o Partido Comunista Chinês lutou contra a epidemia do coronavírus. Não sei se eles quereriam o mesmo tipo de autoritarismo cá, mas elogiaram o autoritarismo chinês. Eu acho que se tivéssemos a assembleia aberta, com aqueles votos habituais de sexta-feira, amanhã teríamos provavelmente um voto a propósito da Venezuela. Há sempre votos a propósito da Venezuela quase todas as semanas e sei lá se não haveria um voto pra desejar melhor saúde para o Kim Jong-un, aquele grotesco senhor que manda na Coreia do Norte. Mas como a assembleia está fechada ou está semifechada, como sabemos, vai estar aberta no sábado, as atenções dos comunistas foram todas para uma efeméride.
Qual efeméride?
Uma de que só verdadeiramente eles é que se lembraram. Os 150 anos do nascimento de Lênin. Ontem, se fôssemos ao Facebook do PCP, eram quase só posts sobre Lênin, o site do Avante tinha um grande artigo sobre Lênin, havia mais uma quantidade de outras páginas no site do PCP cheias de elogios ao fundador da URSS.
Mas não achas isso natural? O PCP considera-se um partido marxista-leninista.
Exatamente. Natural é no sentido doutrinário do termo. Eles são leninistas, é natural que honrem a memória de Lênin. Aquilo que eu diria que é menos natural é passados estes anos todos, eles ainda serem leninistas e apresentarem Lênin como um defensor dos trabalhadores e, sobretudo, como um defensor da democracia, que é o que vinha lá em vários sítios. Andei a folhear um pouquinho essas páginas. É que ainda há pouco mais de dois anos, assinalamos o centenário da Revolução Russa e nessa altura foi possível revisitar tudo o que então se passou, ver agora com a distância da história, agora eu diria que já sem muitas das paixões de outras épocas, e agora sobretudo com a ajuda dos documentos que estavam em arquivos, arquivos que têm vindo a ser abertos e que nos têm revelado muitas coisas. E algo ficou absolutamente claro, se ainda é que havia dúvidas. É que se alguma coisa caracterizou Lênin, é que ele era um político implacável, um político que não olhava a meios e pra quem tivesse dúvidas, um político que não tinha nenhuns problemas em ter as mãos sujas de sangue.
Mas repara, a ideia que muitas pessoas têm é que há uma Revolução Russa boa com Lênin e que depois é estragada com Stalin.
Eu sei que essa ideia está muito difundida, mas é uma ideia errada, é uma ideia muito e profundamente errada. A primeira coisa que temos que perceber é que a Revolução Russa não foi bem uma revolução. A Revolução Russa foi, no essencial, um golpe de Estado que teve lugar em Petrogrado, que era na altura a capital. E o gênio de Lênin, porque ele era realmente um gênio político, foi perceber que tinha ali uma pequena oportunidade de tomar o poder e tomou o poder. Portanto, foi isso que ele fez e fez de forma muito habilidosa e rápida, digamos, cirúrgica. Depois é que se criou o mito da revolução. Mas antes disso, pra conseguir ficar no poder, Lênin teve que matar a democracia, porque houve um período curto em que a Rússia foi uma democracia. E logo a seguir ao golpe de Petrogrado, houve eleições, umas semanas depois. E acontece que os bolcheviques perderam-na, tiveram menos de um quarto dos votos. Quem as ganhou foram os socialistas revolucionários. Só que eles nunca conseguiram sequer fazer reunir a assembleia constituinte.
Os socialistas revolucionários não eram aliados dos bolcheviques.
Uma parte deles eram, mas depressa deixaram de ser, devo dizer. Os bolcheviques eram mesmo uma pequena minoria e só conservaram o poder através do que ficou conhecido pelo Terror Vermelho. E quem ordenou o Terror Vermelho foi Lênin. Nessa altura, Stalin era apenas um subalterno pouco conhecido. Tinha funções no Partido Comunista, mas que não eram muito importantes ao nível de topo. E esse Terror Vermelho não se dirigiu apenas contra os inimigos declarados da revolução, contra a corte do czar, contra essa gente. Depressa se virou contra muitos dos que inicialmente tinham estado com a revolução. Alguns meses depois, logo em 1918, há uma revolta camponesa apoiada pelos socialistas revolucionários, que tinham muito apoio nos meios rurais. Essa revolta teve muito apoio, portanto, foi uma revolta importante, e o Lênin, nessa altura, assina um telegrama. Eu acho que vale a pena ler esse telegrama, porque é um bom exemplo do que era o Terror Vermelho. E acho que vou ler um bocadinho dele pra não teres dúvida do tipo de pessoa que ele era. Ele começa assim: "A insurreição dos kulaks", os kulaks eram os camponeses mais abastados, ou melhor, os menos pobres. "A insurreição dos kulaks tem que ser esmagada sem piedade. É preciso mostrar do que somos capazes." Isto era como começava o telegrama. E depois vinham as ordens muito concretas. "Enforquem, enforquem mesmo, à vista de toda a gente, pelo menos 100 kulaks conhecidos. Publiquem os nomes deles. Apreendam todos os cereais que eles tenham Façam reféns. Façam tudo isto de uma forma que a 1000 km em redor todos vejam, tremam e chorem. Este telegrama é indesmentível. Estes eram os métodos de Lênin. Isso é apenas um exemplo do tipo de líder que ele era.
E o PCP não conhece estes documentos?
O PCP só vê aquilo que encaixa no seu dogma. E se ele ler este telegrama, João de Pessoa ou Albano Nunes ou outra gente, eles terão sempre uma boa justificação para ele. Nós é que não nos devemos esquecer do que foi o comunismo soviético, nem dos outros comunismos. Não nos devemos iludir, por exemplo, sobre a aparente eficiência do comunismo/totalitarismo chinês. Nós temos que ter sempre bem presente que comunismo não rima com democracia e que leninismo é o oposto de liberdade.
O PCP sempre disse o contrário e sempre quis ser o campeão das comemorações do 25 de Abril.
Eu sei, estamos mesmo é à porta. E eu sei que o PCP sempre apregoou isso, mas também sei, até porque me recordo bem, que mal teve um pouco de poder, e isso aconteceu em 1975, durante a revolução, o PCP tratou logo de limitar as liberdades. O PCP, aliás, nessa altura, em 75, tentou fazer em Portugal o que Lênin fizera na Rússia em 1917. Só que os tempos eram outros e eu diria que o povo também era outro. Por isso é que é bom ver o PCP celebrar a memória de Lênin. É sobretudo bom porque nos recorda que o PCP nunca perde uma boa oportunidade para prestar homenagem a um ditador.
"Contracorrente" na Rádio Observador, com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge de Carvalho.
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