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E no Contra-Corrente de hoje, José Manuel Fernandes não podia escapar ao tema do fim de semana: a mudança de Cristina Ferreira da TVI para a SIC.

Bom dia. Sim, eu acho que era inevitável, de alguma forma. Primeiro de tudo, deixa-me dizer-te uma coisa que talvez um pouquinho óbvia, mas eu não costumo ver os programas da Cristina Ferreira. Não tenho nada contra, mas é um tipo de programa que não me interessa muito, mesmo nada, e só de vez em quando, por razões muito específicas, é que vejo um ou outro. Mas também devo dizer outra coisa, que é: mesmo sem ver os programas dela, eu tinha muito respeito pela Cristina Ferreira, pela carreira dela e pelo percurso dela. Eu gosto de ver pessoas que, como ela, nascem humildes e depois triunfam na vida porque têm talento, porque trabalham muito e também porque não se deixam intimidar, que acho que é uma coisa que fazia parte do perfil dela. Aquilo que eu sei da sua carreira, enfim, não ando a ler as revistas, portanto não sei muito, mas encaixa nesse perfil. Ela não nasceu em berço de ouro, pelo contrário. Parece que não era uma pessoa fácil, também pelo contrário, mas quando teve oportunidades, soube agarrá-las. Tem intuição e dizem que tem garra, e se não fossem essas duas coisas, provavelmente não teria tido o sucesso que tem.

De tal forma que se tornou na estrela de televisão mais bem paga do país.

Não tenho nada contra isso. Se as audiências e a publicidade vão atrás dela, então provavelmente ela vale todo o dinheiro que ganha. Eu não tenho nenhum problema com as pessoas que ganham muito dinheiro, desde que o mereçam. E nos últimos dois anos, quando se mudou para a SIC, parece que a Cristina Ferreira provou merecer o dinheiro que ganhava, pelo menos fez a SIC ganhar muito dinheiro. Portanto, até aqui, nada fazia vacilar na avaliação positiva da sua carreira. Agora, já não posso dizer o mesmo com a sua regresso à TVI.

Como assim? Acabaste de dizer que não tens problemas com as pessoas que ganham. Se na TVI acham que ela pode valer o que lhe vão pagar, qual é que é o teu problema?

O meu problema não é o dinheiro. Eu sei que uma parte das pessoas que andou a criticá-la nas redes sociais, nestes últimos dias, focou-se muito no dinheiro, foi quase sempre no dinheiro. A ideia de que ela se tinha vendido por mais uns milhões. Sinceramente, o meu problema é mais humano. E aliás, parece-me, se calhar estou enganado, mas nota-se que ela está a viver mal com a decisão que tomou. Pelo menos, isso transparece um bocadinho se formos ver o Instagram dela. Não sei se foi ontem, penso que foi ontem. Ela colocou um post com uma imagem da equipa que deixou na SIC. É um post um bocado longo, mas dizia uma coisa interessante, que eu acho que é significativa. Eu vou ler: "Ninguém faz nada sozinho. Posso dizer que foram os escolhidos, e os escolhidos por mim nunca deixarão de ser meus. Eles sabem que estarão sempre comigo. Eles e mais ninguém. Devo a cada um, para o resto da vida, o amor que me deram". Eu acho isto uma frase particularmente equívoca para alguém que acabou de os abandonar. Portanto, no fundo, ela está a confessar que deixou ali uma equipa, que foi ela que escolheu, que é dela, mas que nem sequer se vai despedir pessoalmente dessas pessoas. Eu nem sei imaginar como é que toda aquela gente se sentiu quando soube da notícia. A maior parte daquelas pessoas não são estrelas, provavelmente alguns nem sequer têm contrato de trabalho e provavelmente, se calhar, todos juntos não ganham o que ela ganhava.

Se calhar não, mas às vezes há escolhas difíceis, não é?

Sem dúvida, eu acho que ela viveu seguramente um dilema. Mas a questão que eu coloco é se a escolha que ela fez foi a mais correta e a mais ética. E repito, não é uma questão de dinheiro. É porque acho que quando se está num lugar como ela tinha, há deveres para com as pessoas com quem se trabalha, para com a equipa. Isso não se deita borda fora muito facilmente. Eu acho que essas questões são importantes. Quando se chega a certos lugares de responsabilidade, e ela já tinha lugar de responsabilidade, não se salta da carruagem sem se pensar nessas responsabilidades e, sobretudo, naquilo que são as pessoas com quem se trabalha. E falo para baixo, mas também falo para cima. Não se rompem contratos sem que tenha havido razões para isso fortes, e não me parece que tenha havido naquele caso. Isso faz-me pensar um pouco naquela Cristina que ponderava se um dia podia ser presidente da Câmara de Mafra ou mesmo presidente da República. Se calhar ela não estava tão a brincar com isso.

Por que dizes isso agora?

Eu digo isso porque isto de não ter lealdades, ora estar aqui, ora estar ali, é algo que infelizmente vemos muito, ou vemos com muita frequência na política. E depois há um outro sinal, um sinal que para mim está no Instagram dela e que também pode valer alguma coisa. Ela estava a ser tão atacada que ontem fez um post com outro texto, que não é um texto dela, é um texto de um realizador chamado Vicente Alves Do Ó, e que também vale a pena ler um bocado. Que diz assim: "A Cristina claramente não foi atrás do dinheiro, foi atrás do poder. Aquela coisa fofinha que, por norma, e em todas as grandes empresas, está na mão dos homens". Ora bem, eu não sei se o Vicente Alves Do Ó tem razão ou não, mas é significativo que tenha sido a própria Cristina Ferreira a colocar esse texto em autodefesa.

Então, se não foi por dinheiro e foi por poder, se foi para ser administradora, se foi para agarrar essa oportunidade na vida dela, ainda assim achas isso mal?

Se foi por isso, então ela tinha que o dizer e tinha que o dizer com toda a clareza, quer dizer, pela boca dela e sem meias-palavras, porque essas coisas têm que se assumir. Assim ficamos sem saber se é o dinheiro, se é o poder, se é um projeto, porque também nem isso ela disse com clareza, disse que era apenas voltar à casa-mãe. Ora bem, vamos ver se me engano. Mas ainda há outra regra que Cristina Ferreira quebrou. E agora é aquela regra do velho ditado popular, cantado pelo Rui Veloso naquela canção que é "As Regras da Cesatê": "Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz. Por muito que o coração diga, não faças o que ele diz". Só que eu suspeito, aliás, todos suspeitamos, que nem sequer foi o coração a falar, foi muito mais a carteira.

José Manuel Fernandes no Contra-Corrente. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.