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No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes quer fugir um bocado ao mais óbvio e por isso dizes tu que não vais falar nem da confirmação da eleição de Joe Biden, nem de estarmos de novo em estado de emergência.

Bom dia.

Bom dia.

De facto, não vou. São temas que me apetecia voltar. Vamos ver quando é que o Trump finalmente se dá por vencido. Infelizmente, suspeito que não vai ser tão depressa e que isso irá envenenar o ambiente durante este período de transição. Não basta um discurso boa vontade de Biden, não chega a haver também muitos republicanos que querem virar a página, mas eu hei de voltar ao tema. Temos tempo, apesar de tudo. Também com esta nova condição de emergência. Há tanta coisa sobre a qual acho que ainda vamos ter que refletir, tanta coisa que eu acho que não podemos aceitar assim, sem mais. Só para dar um exemplo, eu hei de voltar a esses temas, mas onde estão os estudos, por exemplo, que nos dizem que em convívios familiares é que se dão 68% das contaminações? Já nos disseram tanta coisa diferente no passado. Eu acho que temos a obrigação de perguntar. Eu diria mesmo que temos a obrigação de desconfiar, até porque o primeiro-ministro, quando apresentou aquelas contas naquela madrugada, que nos atormentou um bocadinho com este novo estado de emergência, apresentou umas contas que deviam somar 100% e afinal só somavam 95%. Quer dizer, quando se apresentam contas daquelas, já é tão grande a falta de competência. Mas enfim, tudo isto fica pra outro dia.

Então fica combinado. Falamos nisso noutro dia. Hoje queres falar de quê, José Manuel?

Hoje quero falar das almas atormentadas por o PSD ter feito acordos que permitem formar governo nos Açores. Como sabes, há um mês já se tinha percebido que isso podia acontecer. O PS não perdeu nos Açores apenas a maioria, perdeu as eleições, mas a esquerda também ficou em minoria no Parlamento Regional. Portanto, com este quadro parlamentar, era óbvio que o PS não tinha condições pra governar. Ou melhor, se as regras ainda fossem as que vigoravam em Portugal até 2015, talvez esperássemos que o PS, como partido mais votado, governasse com a abstenção do PSD e de outros partidos à sua direita, porque era habitualmente assim que acontecia. Mas depois do que aconteceu em 2015, acho que já ninguém esperava que isso fosse possível.

Pronto, quando te referes a 2015, estás te a referir à formação da Geringonça.

Claro. Aquilo a que estamos a assistir nos Açores, no fundo, é uma Geringonça ao contrário, agora um pouquinho mais de partidos, um pouquinho mais complicada. A primeira Geringonça, como te lembras, tinha quatro partidos: o PS, depois o Bloco, o PCP e os Verdes. Bem, vamos lá chamar a caranguejola dos Açores, vai ter cinco: o PS, o CDS e o PPM, que desta vez vão em coligação, uma coligação formal, e depois tem dois partidos de fora, com acordos escritos, que são o Chega e o Iniciativa Liberal. O que a direita está a fazer nos Açores ao PS é aquilo que Costa fez a Passos Coelho em 2015. Quer dizer, o PS não tem nada que se queixar.

O argumento do PS, no entanto, é que o Chega é diferente, é um partido da extrema-direita xenófoba.

Bem, é um argumento muito conveniente, só que, na minha perspectiva, não cola. E não cola por várias razões. Primeiro, porque o Chega não vai para o governo dos Açores, como o PCP e o Bloco não entraram nos governos de Costa. É uma diferença, mas não é um detalhe. É uma diferença entre respeitar ou não aquilo que foi a vontade dos eleitores açorianos. Na verdade, os eleitores açorianos votaram maioritariamente em partidos da oposição. Votaram pela mudança. No fundo, isto é uma mudança que se escreve por linhas tortas. E foi por linhas tortas também que se votou a mudança da Geringonça. Agora, outra coisa que eu acho que é mais importante, é que esta era mesmo a única forma de haver mudança.

O que queres dizer com a única forma de haver mudança?

No fundo, uma coisa simples. O que significou a Geringonça? A Geringonça significou que o PS percebeu que pra voltar ao governo sem o PSD, ou tinha maioria absoluta, ou como disse na altura Costa, tinha que derrubar o muro. Para Costa, o facto do PCP ser stalinista não o atrapalhou. Ou o facto de o Bloco continuar a defender um modelo de sociedade, onde quer que se aplicasse, sempre levou a ditaduras, também não lhe trouxe problemas de consciência. Ora, nós hoje sabemos que dificilmente haverá em Portugal, nos próximos tempos, maiorias absolutas de um só partido, quer do PS, quer à direita do PSD, mesmo que o PSD se alie com o CDS. Logo, se quisermos ter governos, os partidos vão ter que ter algum tipo de acordos com partidos um bocadinho menos palatáveis, como são o Bloco e o PCP à esquerda e o Chega à direita. Logo, é natural que se comecem a formar à direita coligações simétricas da Geringonça. Sem elas, ficamos condenados a governos tipo Bloco Central, mesmo que não sejam governos formais de Bloco Central, ficamos condenados a governos que andam encostados, em que o PS e PSD andam encostados. Ora, isso pra mim será sempre a pior das soluções.

José Manuel, mas tu não achas que ainda assim o Chega é diferente do Bloco e do PCP?

Diferente é claro que é. Aliás, não podia deixar de ser diferente. Agora, em muitos aspectos, não é nem mais radical, nem mais extremista. Costa, por exemplo, acusou o Chega de ser xenófobo. O Chega tem posições, por exemplo, sobre os ciganos, que podemos considerar xenófobas, mas não deixa de ter graça considerar o Chega um partido xenófobo, quando o Chega tem como vice-presidente uma pessoa de cor que nasceu em Moçambique. Ideologicamente é difícil chamar o Chega de xenófobo assim. Eu sei que essa acusação é por causa daquilo que Ventura tem dito sobre os ciganos. Mas pensemos um bocadinho. Eu não me esqueço, por exemplo, que Paulo Portas também andou muito tempo a falar dos ciganos no rendimento mínimo. Será que nós achamos que Paulo Portas é xenófobo? Chamamos-lhe de xenófobo? Ou associamo-lo por ser xenófobo? Não falamos dele por ele ser xenófobo? Temos que condenar o que é de ser condenável, e eu condeno algumas propostas do Chega, mas não meter tudo no mesmo saco. Eu acho testáveis, como disse, muitas propostas do Chega, mas também não acho menos testável, por exemplo, que o PCP defenda a Coreia do Norte e aquele tipo de regime odioso. Ou que muita gente ande por aí a defender a Venezuela, como por exemplo, andaram durante muito tempo apoiantes e pessoas importantes do Bloco. De resto, o Chega nos Açores é, sobretudo, o veículo oportunista para eleger candidatos que já estavam como políticos no terreno. Há uma coisa, aliás, extraordinária, que é o deputado do Chega pelo Pico é De La Tou, autarca eleito pelo PS desde 2009 numa junta de freguesia. Ele não é militante do PS. Atenção, não há confusões, é independente, mas foi eleito pelo PS numa junta de freguesia do Pico. Não é, pois, tempo para lamentações de virgens ofendidas, sobretudo de virgens ofendidas do PS. O que está a acontecer à direita nos Açores, foi o que aconteceu à esquerda a nível nacional há cinco anos. Portanto, como diz o povo, lá venho eu com o povo, como o João Lemos de Sousa: "Quem com ferro mata, com ferro morre."

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