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Muito bom dia. Falta menos de uma semana para o eclipse e está a ser difícil arranjar óculos. Mais difícil ainda, senão impossível, é arranjar dormida em Bragança. Pelo que quisemos falar também desse momento tão singular no Contracorrente, para recordar eclipses do passado, para tentar perceber o que ainda podemos aprender com o eclipse e também para lembrar que 12 de agosto, próxima quarta-feira, vai ser mesmo um dia a olhar para o céu. Depois, teremos um alinhamento de planetas ao amanhecer e, já na madrugada de dia 13, uma chuva de meteoritos. Bom dia, José Manuel.
Bom dia.
Antes de mais, já tens os óculos para ver o eclipse?
Ainda não.
Então.
Ainda não, mas é de arranjar. Até porque nós vamos fazer uma emissão especial. Vamos pro MAAT, aqui em Lisboa, e eu vou estar lá com o Ricardo Conceição, portanto, tenho que arranjar. Mas tenho ainda quase uma semana. Ora bem, eu estou com alguma expectativa, porque, de facto, nunca vi um eclipse tão de perto. Eu ainda andei a ver se dava pra dar um saltinho a Rio de Onor ou a Quadramil.
Lá na ponta norte, leste de Portugal.
Eu uma vez.
Onde o eclipse é visível 100%.
Exatamente, onde o eclipse é visível 100%, é mesmo a pontinha do país. E eu, a primeira vez que lá fui, que foi há mais de 40 anos, na altura tinha um Renault 4, meti-me eu, os filhos, tudo, por uma estrada de terra que ligava as duas povoações. E quem ia comigo no carro jurava que já estávamos em Espanha, mas não. Acho que andámos sempre juntinho à fronteira e chegámos a Quadramil nessa altura. Mas fora este detalhe, de facto, é natural que as pessoas estejam excitadas, ansiosas, com alguma expectativa, porque este eclipse é algo que atrai a atenção do ser humano desde há muito tempo. Eu estive à procura e, os registos, não sei se cheguei ao fim, às coisas mais antigas, mas o mais antigo que eu vi registro é um que terá ocorrido a 22 de outubro de 2137 a.C., teria sido visível na China e o imperador Zhong Kang mandou matar os seus astrónomos. Nem sei bem como é que isso se lê. Um era "Wo" e outro era "Fi", alguma coisa assim do gênero, porque não previram o eclipse, coisa que naturalmente devia ser difícil naquela altura, mesmo na China, mesmo com astrónomos na corte, devia ser difícil. Mais para os nossos lados, mais com influência na nossa cultura, teremos um eclipse a 3 de maio de 1375. Aqui há a dúvida, será esse ou será um de 5 de março de 1230 e 23, ambos antes de Cristo, e registados em Ugarit, que fica na Síria. Foi uma placa encontrada em Ugarit. Babilónia, Síria, hititas, não sei dizer quem é que registou esse. Agora, nós temos, de facto, muita indicação de que os eclipses podem chegar a ter influência na história. Como eu disse, os babilónios terão sido os primeiros a estudá-los e a tentar prever a sua ocorrência. Na altura, o máximo que eles podiam prever era registos ao longo de muitos tempos e perceber que há uma espécie de período de retorno, 18 anos. Não quer dizer que só haja eclipses de 18 em 18 anos e que passem sempre pelo mesmo sítio, mas há uma certa regularidade.
18 anos, 11 dias e oito horas, não é?
Exatamente.
O chamado ciclo de Saros.
Exatamente. Talvez fosse possível medir já no tempo dos babilónios. Apesar de eles não terem o conhecimento de como é que funcionavam os astros e essas coisas todas. Sabiam que aquilo acontecia. Nós temos alguma ideia de como é que em alguns momentos, eclipses podem ter influenciado ou não acontecimentos históricos. Por exemplo, há um que é muito interessante, porque quem é o pai da história? O Heródoto. O Heródoto era um senhor que nasceu numa cidade, que hoje em dia é muito conhecida por razões turísticas. Hoje chama-se Bodrum, na Turquia. No tempo de Heródoto, chamava-se Halicarnasso. E ele escreveu as histórias, que basicamente é uma história das guerras entre os persas e os gregos, mas ele conta mais coisas. E conta que terá havido uma batalha que estava a decorrer entre os medos e os lídios, precisamente na Ásia Menor, e que um filósofo chamado Tales de Mileto, Mileto é um sítio que ainda pode ser visitado, as suas ruínas, na Ásia Menor, que teriam parado uma batalha e cada um para seu lado quando aquilo aconteceu. Acharam que aquilo tinha um valor místico qualquer.
"Aquilo", o eclipse?
O eclipse, claro. Heródoto ainda falou de um outro, que é numa das expedições persas contra os gregos Portanto, algo que terá acontecido em 478 a.C. Houve um eclipse do sol, nesta altura, e que terá sido visto pelo Xerxes, que era o imperador persa a caminho da Grécia. E há mais, até naquela famosa obra do Heródoto também há referências a um eclipse. Agora, o que eu gosto mais, em termos de efeito ou de consequências, nesta época recuada, é um outro que não é solar, é lunar. É lunar e é o que foi visto pelo exército de Alexandre, o Grande, antes da Batalha de Gaugamela. A Batalha de Gaugamela é uma das batalhas mais fascinantes e, porventura, mais importantes da história antiga. É a batalha final entre o Alexandre e o Dário III, o rei da Pérsia. O Alexandre venceu várias batalhas e depois, em seguida, derrotou o xá da Pérsia e foi por ali adentro, até à Índia e até ao Afeganistão. Mas aquilo gerou primeiro pânico nas tropas do Alexandre. Ele era, sobretudo, um líder de homens. E depois foi transformado numa espécie de previsão de um grande sucesso, como veio a acontecer. Eu digo que isto é do tempo antigo. Do tempo menos antigo, há um outro que eu acho que, porventura, tem um reflexo na cultura popular muito interessante. O reflexo da cultura popular, que eu gosto, até porque foi uma das primeiras vezes que estive, miúdo ainda, e olhei para o que podia ser um eclipse, é "A Aventura de Tintim nos Andes", para quem não conhece esse álbum do Tintim. Aliás, acho que são duas histórias, são dois álbuns. Ele é feito prisioneiro pelos incas, que estariam lá num sítio remoto, que ninguém tinha descoberto ainda. Foi feito prisioneiro, vão ser sacrificados, ele e o capitão Haddock, e estão presos. E o Tintim encontra um recorte de jornal que dizia que ia haver um eclipse. E então, como a única coisa que eles tinham era a possibilidade de escolher o dia da execução e a hora, o Tintim escolhe aquele dia e aquela hora e depois dá a entender que ele domina o sol. Os incas adoravam o sol. Dá a entender que adorava o sol e, portanto, de repente, salva-se.
Já está mesmo é maridinho ao poste.
Exatamente.
E começa a mandar no sol.
Começa a mandar. Há um episódio parecido com este.
Exatamente.
Parecido com este, uns séculos antes, também na América e também com alguém que estava muito aflito com o que ia acontecer, mas que não foi ler um jornal, não havia na altura jornais, foi ler umas tabelas que tinha trazido no seu barco. Estou a falar de Cristóvão Colombo. Na sua quarta viagem, no regresso de volta a Espanha, à Península Ibérica, ele vai reabastecer-se à Jamaica e depois os barcos não conseguem seguir, começa a ficar lá muito tempo e os nativos começam a achar que não vai chegar a lado nenhum e aquilo começa a dar para o torto. E se os espanhóis tinham pólvora e capacidades militares que os nativos não tinham, a diferença era tão grande que ele estava a ver que aquilo ia acabar mal. E então ele usa o eclipse para, de alguma forma, transmitir a ideia aos nativos que é uma espécie de semideus ou Deus mesmo. E pronto, safa-se. Isto em termos de histórias, com alguma influência histórica. O que é que teria acontecido se o Colombo não tivesse regressado da sua quarta viagem? Não creio que nada de especial, os espanhóis já estavam a dominar a América. No que diz respeito à parte mais científica, há imensas coisas, vamos sequer falar mais delas, mas há uma que, a meu ver, destaca-se de todas as outras e tem um pesinho em Portugal, ou melhor, tem um pesinho no Portugal de há um século. Nós até, aliás, fizemos na altura, quando fez 100 anos, estamos a falar de 2019, portanto, algo que aconteceu em 1919. Quem procurar aqui no "Observador" encontra um grande texto, um texto bastante longo e muito bem feito, sobre a expedição de 1919 à Ilha do Príncipe. Ilha de São Tomé e Príncipe, ali no Equador. E houve uma expedição, no caso da Ilha do Príncipe, organizada por um senhor, deixa-me ver se não me engano no nome dele. Agora não estou aqui.
Eddington.
Eddington. Estão aqui os cientistas, não me enganam nestas coisas. Eddington, para quê? Porque na altura, pouco tempo antes, repare, estamos a sair da Primeira Guerra Mundial, pouco tempo antes, o Einstein tinha feito o desenvolvimento da sua teoria da relatividade. E era, na altura, uma coisa que levantou imensas dúvidas. Espaço-tempo, por aí adiante. E uma das coisas que foi necessário provar era saber se esse espaço-tempo poderia ser curvo, no sentido em que um raio de luz curvaria em função da gravidade. E para isso, a demonstração que procurou ser feita foi: uma vez que a Lua vai tapar o Sol, nós talvez consigamos ver, no momento em que fica tudo escuro, estrelas que ficariam tapadas pelo Sol, mas que, se a teoria do Einstein for verdadeira, a luz dessas estrelas fará uma espécie de pequena curva para contornar o Sol e chegará Até nós. E foi isso que foi demonstrado precisamente nessa expedição ao Príncipe. Houve uma outra ao norte do Brasil, mas não correu tão bem porque o céu não estava tão limpo. Einstein verdadeiramente torna-se estrela mundial depois dessa experiência. Evidente que a teoria era verdadeira e é um momento muito relevante. Agora vamos falar um pouco disso, conversar muito mais. O que nós ainda hoje podemos descobrir a partir da observação de um eclipse? Porque isto, além de fascinar as pessoas, de impressionar, de ter muitas explicações, quando nós não sabíamos porque aquilo acontecia, nós, a humanidade, não sabia porque acontecia. É estudado há muito tempo, há muitos séculos, permitiu muitos avanços, até um avanço curioso, não sei se foi a primeira vez, mas foi também em Portugal, foi num outro eclipse, que é o eclipse de 1912, que é visto nomeadamente em Ovar, e uma das observações feitas por um professor de Coimbra, Francisco Costa Lobo. Ele observa aquilo e depois tira as fotografias, faz o primeiro filme, e tem a percepção de que a Lua é achatada nos polos, coisa que não foi logo aceita, mas hoje já sabemos, que há trabalhos recentes sobre isso, que há mesmo um pequeno achatamento dos polos da Lua. Agora, o que nós hoje ainda nos falta descobrir? Há sempre muita coisa pra descobrir, apesar de nós termos eclipses artificiais, possíveis de ver através dos satélites e outros mecanismos. Há muita coisa que ainda está por descobrir. Hoje, neste eclipse, além de termos toda a parafernália dos cientistas, há também uma coisa que acaba sempre por ajudar. Vai haver milhões de pessoas a tirar fotografias, que é uma coisa que nesses eclipses antigos não acontecia. Isto ajuda sempre. Há coisas que estão a ser estudadas, mas eu creio que não vai acontecer, não creio, não vai acontecer mesmo, algo que foi uma das formas mais inventivas de tentar encontrar explicações, registos científicos novos. Em 1973, houve uma expedição muito particular. Um eclipse dura muito pouco tempo. No máximo sete minutos e meio, e muitos deles duram menos tempo. Portanto, o tempo de observação é superconcentrado. E então, houve alguém que se lembrou, em 1973, de dizer assim: "Nós estamos a construir um avião novo, que é capaz de viajar à velocidade do eclipse". Porque a sombra viaja a 2200 km/h, passa por nós muito depressa. Como é uma sombra, não é uma coisa que faça vento, mas passa por nós muito depressa. Como é que podemos pôr um objeto a voar por baixo da sombra, de forma a acompanhar? E na altura estava quase pronto, mas ainda não tinha entrado em operação comercial, um avião, que depois se tornaria muito famoso e que terminaria tragicamente, que é o Concorde. E estes cientistas conseguiram convencer, não os ingleses, mas os franceses, aquilo era um projeto franco-britânico, a adaptar um Concorde, abrindo uns buracos, umas janelas no teto do Concorde, para instalar ali uns aparelhos e, em vez de sete minutos, 70 minutos, 72 minutos, seguirem o Concorde a passar sobre a África. O avião Concorde voou sobre África. Mas ao que eu pude ver, não me parece ter havido grande avanço científico com essas observações. Apesar de que aquilo teve algumas vantagens, designadamente a observação foi feita numa zona da atmosfera mais alta e, portanto, com menos interferências, em princípio. Seja lá como for, é uma coisa bastante engenhosa. Eu, por acaso, tive a felicidade de uma vez poder voar no Concorde. E o Concorde era um charutinho pequenininíssimo. Mal cabiam lá duas pessoas de cada lado do corredor. Aquilo era mesmo uma coisinha muito pequenina. Mas também serviu para esta experiência, o que mostra que nós, a humanidade, os cientistas, procuramos fazer avançar o conhecimento, uma das coisas mais estimulantes é a inventividade, conseguir inventar para conseguir coisas novas. Deixo isto como ponto de partida. Nós tivemos tempo e ainda havemos de falar do alinhamento de planetas e das Perseidas. É pouco para o dia, não é? Quem estiver a olhar pro céu, tem mais coisas pra ver nesse dia. Mesmo quem não puder ir a Rio de Onor e Guadramil, pode pelo menos tirar partido de outros fenômenos astronômicos.
Muito bem, subir ao alto de uma serra. Olhar pro céu é sempre um gosto. Luís Tirapiques é astrônomo, é o primeiro convidado do "Contra Corrente". Temos também em estúdio o Jorge Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA. Conhecemo-lo bem dos últimos meses aqui na Rádio Observador, do podcast "E o Resto É Ciência". Luís Tirapiques, bom dia.
Bom dia.
É sempre extraordinário olhar para o céu e assistir a um eclipse do sol. Parece algo extraordinário, mas é um fenômeno astronômico comum, não é?
É relativamente raro, mas eu gostaria de desmistificar um pouquinho a ideia.
Por vezes a imprensa e a comunicação social em geral pega, há aquela tendência para criar títulos do gênero "o eclipse do século". Eu achei muito curioso, estava a ver os títulos que foram publicados em 2005, quando tivemos um eclipse anular no norte do país. Ou seja, no norte do país nós víamos a Lua e o Sol completamente centrados, só que não é total. Por quê? A órbita da Lua é elíptica, o que quer dizer que há alturas em que a Lua está mais próxima e outras alturas em que está mais afastada de nós. E no eclipse anular, a Lua está mais afastada, quer dizer que não tapa completamente o disco do Sol. Não fica completamente noite. Na fase máxima do eclipse, temos os dois discos centrados, mas com um anel em volta. E isso foi visível em 2005, não foi assim há tanto tempo.
E para o ano temos um a passar aqui perto na costa sul.
Daqui a dois anos, em janeiro, vamos ter também um eclipse anular aqui na península. Ou seja, são fenômenos relativamente raros, mas não no sentido de "o eclipse do século".
Mas o de dia 12 de agosto é um total, não é?
É um eclipse total.
Portanto, aí vamos ver dois discozinhos. O disco do Sol e o disco da Lua à sua frente.
Vamos ver dois discozinhos por uma coincidência incrível, é absolutamente espantoso. A Lua está 400 vezes mais próxima de nós do que o Sol e é 400 vezes menor em termos de diâmetro aparente, em termos de dimensão física. Portanto, os diâmetros aparentes coincidem exatamente, o que é espantoso. E quando estamos naquela faixa, há uma faixa na superfície da Terra por onde passa a sombra, e agora no próximo dia 12, essa faixa, essa zona por onde vai passar a sombra da Lua, a maior parte do trajeto é oceânico, vai passar um bocadinho sobre a Islândia e depois Península Ibérica. Portanto, quem quiser ver o eclipse agora, essencialmente tem que estar na Península Ibérica, porque a Islândia também passa um bocadinho à tangente.
Passando a Rússia, mas num sítio pouco... Na Sibéria, não é?
Não.
Não se chega a ver na Sibéria?
Não. Portanto, no fundo, é a Península Ibérica. A Península Ibérica tem uma história, que eu também fiz o meu trabalho de casa. E reuni aqui alguns eclipses notáveis que aconteceram na Península Ibérica. 1753, o eclipse total, 26 de outubro. Os franceses aproveitaram, enviaram uma expedição da Academia das Ciências para observar o eclipse em Aveiro. Nós sabemos que havia aqui um contexto de competição imperial e os franceses estavam muito interessados em fazer a cartografia desta zona, da península, que não era bem conhecida. 1753.
1753, dois anos antes do terremoto de Lisboa.
Exatamente.
E a relação tem que ter alguma, atenção. Nós estamos na "Ciência", não vamos levar isto a sério. Estamos em agosto. Qual é a relação que houve?
Não sei.
Sim, mas nos discursos, desculpe interromper, bom dia. Mas nos discursos apocalípticos, as conexões são feitas.
Sim, eu não faço essas conexões.
Mas isto foi uma das coisas que foi muito usada. Tudo que são fenômenos que saem, e sobretudo aquilo que é visto como podendo comprometer, esses fenômenos, que vocês sabem explicar todos maravilhosamente, em vários contextos, são vistos como consequência do mau comportamento dos povos, determinados grupos e, portanto, havia muito, sobretudo depois em 1755, essa ideia de que teríamos de expiar alguma coisa e que havia que fazer alguma coisa, agora aqui já na Cristandade, para reencontrar a boa relação com Deus. Noutros contextos, e aqui isso traduz-se depois em perseguições, mortes, execuções de determinadas pessoas, nomeadamente o padre Malagrid era um dos que tinha muito esse tipo de discurso, mas quando recuamos para os maias, percebemos o que é que podia acontecer.
E o de 1912 não foi dois dias antes do afundamento do Titanic?
Exatamente.
Vocês acham que foi por acaso?
Ninguém sabia que ia acontecer.
Oh, não, Jorge Miguel Miranda não faz isso.
Acho que foi depois.
Cenas de pânico absoluto no Chiado. Cenas de pânico absoluto.
Sim.
Nós temos que mostrar aqui um bocadinho de ciência com a nossa vida, de agosto, estamos em agosto. E nós até podíamos pensar que estávamos numa boa altura para que a guerra que está em curso entre os persas e os americanos encontrasse uma paragem por causa do eclipse.
Pois, mas não.
Aparentemente é difícil, porque ambos sabem prever os eclipses. O problema está aí. Há, neste momento, maior igualdade tecnológica na Terra que não permite encontrar acontecimentos deste gênero. Então que outros eclipses é que houve na história de Portugal?
Pronto, eu já agora, se me permitem, queria só contar uma história relacionada com 1753, que é: os astrônomos vieram antes, obviamente num navio de guerra francês, e depois, antes do eclipse, quando estavam a fazer os preparativos, passaram por Coimbra e visitaram os conventos. Isto está escrito nas memórias da Academia Francesa, da Academia das Ciências de Paris. Eles foram visitar os conventos e repararam que havia livros de ciência muito recentes Fazer aqui um contraponto àquela ideia que nós temos de que Portugal é um país muito atrasado. Eles foram visitar os conventos e viram que eles tinham Newton, tinham os últimos livros de ciência. Afinal, se calhar, não é assim tão atrasado como se pensava.
Se calhar foram ver, não sei de que ordem era.
Micro, Helena.
Se tivessem ido aos jesuítas, teriam encontrado melhor.
Isso eu recordo que não foi no convento jesuíta, foi em outra ordem, agora não consigo precisar qual. Os jesuítas tinham, obviamente, os últimos livros de ciência, mas depois havia outras. Os oratorianos, por exemplo, também eram muito interessados nas ciências e havia outras ordens que também tinham grandes bibliotecas, e atualizadas. Isto é um pequeno à parte. Na Península Ibérica há, sobretudo, dois, já no século XIX, dois eclipses que são historicamente muito importantes. O primeiro é em 1860, porque temos no norte de Espanha, vários astrónomos estrangeiros a observar e um deles é o Warren de la Rue, que é um astrónomo, o que geralmente se chama os grandes amadores. Eram astrónomos, não eram profissionais, mas a maior parte deles eram pessoas ricas, com posses e que aplicavam parte da sua fortuna em equipamentos. Eles tinham os equipamentos mais recentes que havia na altura. E o Warren de la Rue criou uma câmara especial pra fotografar o eclipse. E é aí que se descobre que as protuberâncias, aquelas línguas de plasma que vamos ver, quem estiver na zona da totalidade vai ver umas línguas no bordo da lua sol, vermelhas, que são estruturas de plasma que se veem junto ao limbo e que na altura não se sabia se eram efeitos óticos ou da atmosfera, não se sabia se eram mesmo estruturas do Sol. Provou-se neste eclipse que sim, que são estruturas do Sol, através destas novas tecnologias que foram sendo experimentadas. Isto é o de 1860. Mais tarde, em 1905, temos um eclipse que também é observado na península e que é considerado o primeiro eclipse observado em grande escala. Temos balões, temos observações feitas em balões, temos mais de seis expedições organizadas pra observar este eclipse. Só as expedições francesas eram 21, as expedições oficiais.
O tal eclipse de 1753.
1905. Já estamos em 1905. 1905 é o primeiro eclipse observado em grande escala.
Penso que é esse, não sei. Que os príncipes reais em Portugal, o príncipe real e o irmão, que depois vem a ser rei, que vão também ver o eclipse. Penso que é esse que eles vão ver.
Qual é o do ano?
1905.
Sim, vão pra Ovar. Vão pra Ovar com o Mouzinho da Silveira.
Não, 1905 foi observado em Ovar. Possivelmente.
1907.
Não.
Pode ter sido 1900 ou 1912. As duas observações eram em Ovar.
É 1900 e vai o Mouzinho da Silveira. O Mouzinho da Silveira quer fazer pote de cabeleira. Em 1900, o governo criou condições especiais pra expedições estrangeiras, oferece as passagens nos comboios e isenta da inspeção alfandegária, à semelhança do que tinham feito outros governos. Por exemplo, em Espanha também tinham dado condições semelhantes num eclipse logo em 1860. Há um contexto internacional e aqui não estamos em guerra, nesta altura, que permite, de facto, observações em grande escala. Os de 1900 e 1912, de facto, são observados em Portugal. O de 1900, vai a Ovar uma expedição britânica do Observatório de Greenwich com o astrónomo real inglês. O Christie vai observar pra Ovar, há um relatório muito extenso também que é publicado na altura, também com estas facilidades concedidas pelo governo português.
Jorge Miguel Miranda: "Foi através dos eclipses que se fizeram grandes descobertas pra humanidade. Confirmou-se a teoria geral da..."
Eu diria que isso é um bocadinho exagerado.
Tal como a expressão "eclipse do século", é isso.
Não, o eclipse tem aquela vantagem de ser um fenômeno raro na mesma região. Ele não é raro se visto à escala da Terra inteira. É raro pra uma mesma região. E sendo raro, é sempre objeto de alguma atenção. Agora, quando nós ouvimos dizer, como eu ouvi ainda ontem, que os não sei quantos segundos que demora o eclipse total, que vai alterar dramaticamente a produção de energia fotovoltaica, e coisas parecidas com isso, eu diria que estamos a entrar no domínio realmente da estação louca, em que nós agora entramos há poucos dias. É um fenômeno interessante. Há, como o José Manuel falou, questões relacionadas com a relatividade, com a teoria da relatividade, que por um problema de ocultação, tem importância em termos da história da física. Situações que despertam a atenção das pessoas. Nós hoje em dia já não queimamos os astrónomos, às vezes desempregamo-los, que é o melhor que nós fazemos de mais agressivo. Mas são situações interessantes, importantes e a sua observação deve-nos movimentar, porque o que é a vida e o que é a felicidade para cada um? É uma boa pergunta.
Mas foi descoberto, por exemplo, através da observação do eclipse, o hélio?
O eclipse em si cria uma situação física particular. Nos tempos do século XVII, XVIII, em que a deslocação das pessoas não era muito fácil, obviamente que ter a possibilidade de observar um eclipse ou na Europa ou numa região de fácil acesso, era uma vantagem enorme do ponto de vista científico. Hoje em dia, que nós podemos deslocar-nos quando quisermos, em particular aqueles que dispõem dos seus próprios Falcon, já não é uma coisa assim tão complicada e já podemos observar noutras situações. Isto para dizer que sendo um fenómeno que é fisicamente interessante, ele lembra-nos bem a nossa dependência do sistema natural, a nossa dependência do universo, a nossa pequenez ao pé do universo. Permite-nos levar-nos ao limite da nossa capacidade de observação visível. A maioria dos eclipses são vistos sem instrumentos auxiliares, mas eu diria que tão interessante como ver o eclipse, é vermos o alinhamento dos planetas que se vai observar na mesma noite e é vermos a chuva de Perseidas e pensarmos no cometa Swift-Tuttle, que já foi destruído e cuja poeira nós cruzamos praticamente todos os verões.
Luís Tirapiques, há alguma explicação científica para o facto de assistirmos a estes três fenómenos astronómicos tão concentrados no tempo? Ou é uma casualidade?
Os eclipses têm um comportamento cíclico. E uma das coisas que por vezes se verifica é esta concentração. O facto de haver três eclipses agora na península não é por acaso, é porque os eclipses têm este comportamento cíclico. Repare, nós na viragem do século XX tivemos 1900, 1905 e 1912 os eclipses totais ou anulares visíveis na península. E agora também vamos ter aqui um trio. Vamos ter este ano, próximo e o seguinte, também vamos ter eclipses totais, dois totais e um anular, também observados aqui na península. Isto não é por acaso, porque isto tem a ver com o comportamento cíclico destes fenómenos.
Mas há uma questão que soma a esta. Perdoar-me-ás. É que o eclipse só se verifica em lua nova. E quando estamos em lua nova, nós temos uma capacidade acrescida de observar os fenómenos celestes.
O céu está mais escuro.
O céu está mais escuro.
Essa ligação, é claro.
E portanto, nessa ligação permite, por exemplo, que as Perseidas que se vão observar a 12 de agosto, serão seguramente mais impressionantes do que aquelas que observaram há 15 dias.
O céu está completamente escuro.
Aliás, o facto de os eclipses só ocorrerem em lua nova, porque é óbvio, a lua tem que estar entre nós e o sol, é uma das razões porque se desqualificam as especulações sobre o possível eclipse que teria havido no momento da crucificação de Cristo, porque a crucificação de Cristo terá acontecido na altura da Páscoa judaica, e a Páscoa judaica era em lua cheia. Portanto, não bate certo. Mas sim, há um quadro fabuloso do Ribera com esse escurecimento do céu que era atribuído, mas terá outras razões que não propriamente um eclipse.
Manuel Fernandes, os milagres não têm que seguir completamente as leis da física. Temos que ser claros sobre isso. Aliás, é milagre quando não segue a lei da física.
Também, tu estás a falar do milagre do sol.
Porque isso é um fenómeno, já falámos sobre ele.
Já falámos sobre ele.
Porque isso é um fenómeno puramente natural, mas é interessante as pessoas pensarem, mais uma vez, que como as Perseidas são intensas, vejam bem a quantidade de desejos que não vão poder pedir nessa noite. Imaginando que é um desejo por cada meteoro que cruza o céu. Portanto, aconselho todos a fazerem uma lista com as 12 passas do fim do ano e estarem prontos, porque depois na altura é muito difícil nós imaginarmos qual é o desejo que queremos pedir a seguir ao segundo ou ao terceiro. Primeiro toda a gente tem de saber.
A Santa Casa que se ponha a pau. Vamos continuar a falar de eclipses. Luís Tirapiques, há algum momento na história da humanidade em que se percebeu claramente o que era aquele fenómeno que estava a acontecer no céu?
Eu não sei se existe um momento definidor. Na antiguidade já se compreendia bem este tipo de fenómenos. Aliás, na antiguidade já se sabia que a Terra era esférica. Uma das observações simples para saber que a Terra é esférica é olhar para a Lua durante um eclipse lunar. A sombra da Terra é circular. Eles percebiam que era a sombra da Terra que estava a ser projetada na Lua. E vemos que ela é circular, não tem outra forma, não é plana, nem tem outra forma.
Terraplanistas, olhem para o céu.
Olhem para o céu no eclipse da Lua. Não é agora, mas proximamente haverá uma oportunidade.
Jorge Miguel Miranda.
Não é todos os eclipses, exatamente por causa dessa questão que falou o Luís agora, não esquecer de uma questão que também já falámos aqui, que é que isso foi importante para determinar a escala absoluta do universo, devido à distância da Terra ao Sol. E que a curvatura que se vê durante o eclipse e nas fases iniciais, em particular, permite tirar várias conclusões geométricas sobre o sistema solar e que são todas elas muito importantes. Agora, isso é passado. Foi sobre isso que construímos a ciência que temos hoje e uma boa parte da tecnologia. Temos hoje a capacidade de ter uma aproximação mais holística da situação e, portanto, gozarmos suficientemente com a noite de 12 de agosto e aproveitar o facto desse privilégio só se repetir daqui a um período muito prolongado. Não quer dizer que não possamos viver.
A nossa esperança de vida não dá pra chegar à próxima.
Eu sou um otimista, Zé Manuel. Vamos ver.
Podes chamar 100 anos aos que já tens.
Os eclipses têm, de facto, esta particularidade de ser um fenômeno que nós conseguimos prever com um rigor impressionante. Repara, a meteorologia e uma série de outras áreas, nós conseguimos fazer previsões, mas há ali uma margem. Embora cada vez melhor, porque a meteorologia, pelo menos a curto prazo, as previsões são cada vez melhores. Mas o eclipse nós conseguimos prever ao segundo. Conseguimos prever exatamente o que vai acontecer, onde. É um daqueles fenômenos que está nesta classe de fenômenos que nós conseguimos prever com um rigor incrível. E isso permite também falarmos aqui em coisas do passado que por vezes não sabemos bem a data e então podemos utilizar estes cálculos rigorosos para afinar até acontecimentos históricos, que nas fontes sabemos que ocorreu um eclipse ou um fenômeno que sabemos que tínhamos de marcar no tempo.
Isso aplica-se, por exemplo, às batalhas que falou o Zé Manuel Frantes ao princípio, em que a coincidência com o eclipse permite estabelecer uma escala temporal que de outra maneira não seria obtida.
Portanto, pode-se usar essa calculadora, digamos assim, pra frente e também para trás.
Exatamente.
Que grandes avanços é que resultaram da observação de eclipses, Luís Teripico? Grandes avanços pra ciência.
Desde logo, o conhecimento do Sol. Quando falo do Sol, falo da coroa, daquela atmosfera exterior do Sol, que os eclipses eram a oportunidade para estudar a física do Sol. Nós agora temos sondas e satélites no espaço que observam continuamente o Sol. Mas, no passado, eram só estes momentos que nos davam a oportunidade de estudar essa parte do Sol. Se formos um bocadinho ainda mais pra trás, os eclipses foram também importantes por isto. Isto aqui cruza também com a época que chamamos os descobrimentos portugueses ou a expansão marítima, é que os eclipses foram usados para saber a longitude, que é uma coordenada. A latitude é relativamente fácil.
Latitude mede-se bem porque é a altura do Sol. A longitude sempre foi mais complicada.
A longitude é mais complicada, envolvia saber o tempo com rigor. E os eclipses foram usados. Aliás, sabemos hoje até que, por exemplo, na expedição do Magalhães, foi um cosmógrafo espanhol que tinha como missão determinar com rigor a longitude das Molucas. E ele fez isso utilizando os eclipses.
Isso é muito interessante, porque ele chegou à conclusão que a viagem do Magalhães era inútil pro Magalhães.
Sim.
Porque ele queria, no fundo, que as Molucas ficassem do lado de Espanha e ficaram do lado de Portugal. Mas é uma medição, no fundo, pra saber onde é que o meridiano de Tordesilhas passa do outro lado do planeta. Ou o antimeridiano, não é? Do outro lado. E como é que ele fez isso?
São os eclipses da Lua.
Que são muito mais frequentes.
São muito mais frequentes e podem ser observados na metade. No fundo, não é metade, é mais de metade, porque a Terra vai girando. Na metade em que está de noite. Toda a gente que está de noite, que está na parte noturna, estando o eclipse a decorrer, pode observar. Os eclipses solares, temos que estar na zona por onde passa a sombra ou a penumbra da Lua. É uma pequena zona da superfície. Os lunares são muito mais democráticos, porque basta que esteja de noite e se consiga observar a Lua.
Nós temos um parcial no final deste mês, não é?
Sim.
Mais um.
Um eclipse da Lua, sim. Ou seja, os eclipses ocorrem mais ou menos de seis em seis meses, um pouquinho menos de seis meses, porque como a órbita da Lua está inclinada 5° em relação ao plano da órbita terrestre, este alinhamento não ocorre sempre, sempre que a Lua está em lua nova ou lua cheia, mas mais ou menos seis em seis meses.
Helena Mattos, faço a mesma pergunta que fiz ao Zé Manuel. Já tens os óculos pra ver o sol?
Tenho, porque nos deram agora. Senão, nada.
É um produto raro nos dias que correm.
Sim.
Hoje de manhã foi aberta novamente a inscrição pra levantar óculos, daqueles que estavam a ser promovidos, e já tinha aqui uma notícia a dizer que já esgotaram, tiveram pra aí uma hora aberta a inscrição.
Estou aqui a pensar: "Acho que vou ter de ir ver aqueles caixotes onde se guardam os brinquedos e aquelas coisas".
Mas atenção que nem todos funcionavam os da última vez.
Sim, aquilo também já deve estar um bocado fora de prazo.
É curioso ter uma certificação. Uma ISO qualquer, ISO 12003, não sei o quê.
O que eu acho que é interessante é que os-
Não digas isso assim, que as pessoas têm que saber. É mesmo preciso ter cuidado.
Sim, tens razão.
O que eu acho que é interessante é que os eclipses certamente ganharam muito com o fato de estarmos numa época profundamente midiatizada, porque os eclipses são muito telegénicos. Em termos de imagem, são um espetáculo gratuito para os habitantes do planeta Terra e não têm o impacto que outros, que também têm um impacto visual, não têm o impacto físico e de risco, que têm outros fenômenos, como, por exemplo, os vulcões. Realmente, os vulcões têm alguma coisa de magnético, uma pessoa fica a olhar para aquilo e a pensar. Só que há um problema: os vulcões são de risco, causam muitas vezes fortes danos, e não acontece nada disso com os eclipses. Acabam por ser aquela visão, ecrã gigante da natureza que nos ultrapassa, dos seus mecanismos, mas sem outras consequências. É claro que há aspectos que eu acho fascinante durante os eclipses, o fato de os pássaros se calarem. Desta vez, em Portugal e noutros países, vamos ter, para lá da monitorização por alguns biólogos e em alguns sítios da questão das aves, até por cavas em cativeiro, também de mamíferos. Os mamíferos não se calam, mas apresentam elevada desorientação. Penso que já houve observações em mamíferos e desta vez vai voltar a acontecer para se perceber o que acontece. Por exemplo, o que acontece com os cavalos, com os cães. Há observações, há quem refira a questão das girafas, como é que elas se comportam. Mas depois também temos mamíferos noturnos. No caso dos morcegos, o que vai acontecer? Acho este lado muito interessante e percebe-se o impacto terrível que isto teria em povos que viam isto como reflexo da desordem da vida dos humanos. E isto vamos encontrá-lo até muito tarde e de alguma forma fazendo aquilo que o Miguel Miranda aqui estava a fazer, a ironizar, mas que é muito interessante, que é quando as pessoas procuram começar a fazer associação entre factos que não se-
São isolados, não é?
São isolados, mas que quando postos em linha acabam a construir histórias coerentes ou a confirmar convicções. Seja, por exemplo, o fato de termos num ano dois eclipses. Isso acontece em 1605, e vai ser usado pelo Shakespeare no "Rei Lear". Tinha havido dois eclipses, tinha havido um eclipse lunar e depois houve um eclipse solar com muito pouca diferença. Isto é interpretado como um prenúncio de tragédias, de desgraças. Os romanos, que eram um povo notável do ponto de vista da organização, da forma como combatiam, como se preparavam, como se organizavam, como construíam, e depois tinham um lado supersticioso, que às vezes quase que constrange. Tinham aquele momento da abertura das vísceras das aves antes da partida para as batalhas. Eu pensava sempre que o melhor de tudo seria aqueles que eram visados como alvos pelos romanos conseguirem, de alguma forma, influenciar os adivinhos, porque era a melhor forma de se livrarem de um ataque, pelo menos por algum tempo, para alguém abrir as vísceras e dizer que não, que não era a altura de se partir em campanha. Também daí vem esta interpretação dos eclipses. Temos mais ou menos duas possibilidades: uma, o reflexo dos erros cometidos pelos humanos, e outra como um prenúncio de catástrofes que estão para vir, de guerras, tragédias, desgraças. As duas muitas vezes acumulavam. E não é por acaso que nós vamos encontrar entre os monumentos, os vestígios de monumentos mais antigos que encontramos, ou pelo menos alguns daqueles que permaneceram, efetivamente estruturas que poderiam servir como observatórios astronômicos e que se procurava saber o que poderia acontecer, prever, observar os astros, porque era efetivamente fundamental. Uma pessoa estava aqui e conseguir perceber os astros e prever aquilo que estava para acontecer. Vocês sabem que eu sou de Letras. É curioso, porque muitas vezes desvaloriza-se a literatura como fonte de dados, de informação. E nós portugueses até temos uma descrição de um eclipse no poema de Camões, que é "O Dia em Que Nasci Moura Impressa" Morre presa. Ele tem a descrição completa: "O dia em que nasci morre presa, não o queira jamais o tempo dar, não torne mais ao mundo e se tornar eclipse, nesse passo o sol padeça". E depois daí para frente, ele começa a descrever o eclipse. "A luz lhe falte, o céu se lhe escureça, mostre o mundo sinais de acabar, nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas de ignorantes, as lágrimas no rosto, a cor perdida, cuidem que o mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou ao mundo a vida mais desgraçada que jamais se viu". Nós temos aqui a descrição daquilo que muitas vezes seria a reação durante um eclipse e que isto permite, além da descrição do eclipse, datar aquilo que terá sido o dia em que nasceu a vida mais desgraçada, que ele acha que é a sua, e que aponta que tendo acontecido um eclipse em 23 de janeiro de 1525, isto permitirá fixar a data de nascimento de Camões, exatamente em 23 de janeiro de 1524. Nós sobre Camões, temos muitas dúvidas, o sítio onde nasceu, alguns detalhes da sua vida, mas em relação à sua data de nascimento, uma das possibilidades é precisamente em função deste eclipse. E há várias outras coisas em que a literatura muitas vezes pode ser uma fonte. E curiosamente, nós temos como aquele que se considera ser o primeiro documentário científico português, as filmagens que são feitas precisamente no eclipse de 1912. E depois até há um filme que se chama "O Eclipse do Sol em Lisboa", que são as gravações feitas em Lisboa durante esse eclipse. Esse filme foi, aliás, estreado pouco tempo depois do eclipse, aqui em Lisboa. Foi estreado em duas salas de cinema. Imagine-se o público que havia. E aquilo era curtinho, que é estreado no Salão Central e no Teatro Terrazz, e as pessoas iam ver a filmagem do eclipse. Isso queria dizer alguma coisa. Mas aquele que se considera, assim mesmo, o primeiro documentário científico, também é feito durante este eclipse, e é feito pelos serviços do exército. Nós, em geral, não valorizamos muito aquilo que eram os serviços de cinema do exército português, mas eles fazem dos primeiros registros de imagem. E isso é particularmente interessante. E de outras coisas que eles também vão recolher imagem. Nós vamos ter este eclipse de 1912, já como um espetáculo, que depois se leva para as salas de cinema, além das fotografias. E nas fotografias, temos dois aspectos que eu acho particularmente interessantes: o eclipse em si, o que acontece, e as pessoas. Nós vemos as pessoas numa situação de cotidiano, de dia a dia. Portanto, podemos ver, por exemplo, em Lisboa, se havia gente calçada, quem é que estava descalço, como é que estavam vestidos, como é que naquele momento, há mesmo cenas de pânico. As pessoas se juntam, pessoas tão diferenciadas socialmente, como é que ficam todas naquele momento. Portanto, esta questão dos eclipses é também um grande espetáculo do mundo. Nesse sentido, nós vemos isso agora, e as televisões, as redes sociais. Neste momento, temos também as redes sociais, e que é talvez uma das grandes novidades em relação aos eclipses anteriores, é este papel que as redes sociais têm. E eu presumo que não se consegue arranjar o sítio para dormir em Bragança. Com a Espanha também em ebulição por causa do eclipse.
Com níveis estratosféricos de preços para dormida em Espanha.
Sim, e portanto, nós temos aqui também a transformação do eclipse. Eu sei que isso deve irritar, particularmente o Miguel, mas a transformação do eclipse num grande espetáculo, um enorme espetáculo global e que, ao contrário de outras manifestações da natureza e do universo, é inócuo se tivermos cuidado ao olhar para ele. É um grande espetáculo, mas não há lava, a Terra não treme.
Não há incômodo para a humanidade.
Não há incômodo, é pacífico nesse sentido. E permite-nos também sempre este exercício de olhando para trás pensarmos como nós agora somos inteligentes e racionais, portanto, já não achamos que o mundo vai acabar, já não fazemos sacrifícios humanos, já não achamos, que é muito patente no texto do Camões, o prenúncio do fim do mundo. Isso é uma coisa que nós vamos encontrar muito, esta ideia do prenúncio do fim do mundo, por exemplo, no pós-terramoto de 1755, e a ideia que dias antes, ou anos antes, ou meses antes. É um bocadinho como o coro das tragédias gregas. Nós já tínhamos recebido os avisos, portanto, a ideia de que o céu tinha caído sangue, de que os animais, as fontes também. Isso no caso do terramoto é verdade, porque já tinha havido alguma alteração nas fontes que abasteciam Lisboa E esta ideia também dos monstros, que é muito curiosa, de que tinham surgido monstros antes. Há aqui esta questão de como também mudou a forma como nós olhamos para os eclipses. Podemos não perceber nada, por que acontece um eclipse, mas o eclipse é um grande espetáculo que nos vai entrar pelos telemóveis e pelos ecrãs dentro.
Luís Sirapicos, além de ser astrónomo de formação, é também historiador da ciência.
É verdade.
Por que os eclipses são tão fascinantes pra humanidade? Ou sempre resultaram em tanto fascínio?
Eu penso que são espetaculares. Repara, a meio do dia ficar de noite e poder-se observar o sol de um modo muito particular, aquela atmosfera exterior do sol que nunca se vê. Há fenômenos, estou a lembrar das auroras boreais, das chuvas de meteoros, são fenômenos impressionantes por natureza. E no passado, as reações que provocaram também têm a ver com isso, serem algo excecional, que sai fora da experiência do dia a dia e que inicialmente foram interpretados como prenúncios, por vezes, de coisas boas, por vezes de coisas más. Mas agora, nós entendendo a física e a mecânica do fenômeno, acaba por ficar a sua espetacularidade.
Jorge Miguel Miranda, uma vez mais, bom dia.
Bom dia. Eu tenho que desmentir a Helena. O mundo vai mesmo acabar, a gente não sabe é quando, mas o mundo vai acabar, seguramente. Isso estamos razoavelmente seguros. Brincando menos. Vamos lá ver o problema dos sismos. Os sismos, à escala da Terra, não matam muita gente, tem que se compreender isso. O risco, se calculado matematicamente, é muito inferior ao risco de fumar.
Sim.
E as pessoas aceitam que o fumo é aceitável socialmente, é um risco que as pessoas estão, muitas delas, dispostas a correr, até aquelas que não fumam. Enquanto, por exemplo, todos os acontecimentos naturais que são claramente incontroláveis. Ou seja, que nós sabemos que não somos capazes nem de os prever, na maioria dos casos, ou mesmo que sejamos capazes de os prever, a antecedência é tão pequena que não somos capazes de agir a tempo. Dá-nos a ideia da nossa pequenez, da nossa fragilidade. Os eclipses estão exatamente do outro lado do espectro. São aqueles que são espetaculares do ponto de vista visual, como a Helena falou aí muito bem, e nós temos aquela fantasia de que somos capazes de os prever bem. E portanto, dá-nos aquela ideia do homem a dominar o mundo, o homem a dominar o espaço interestelar. Mas, na verdade, eles são, como vocês sabem, os avós das teorias da conspiração. As boas teorias da conspiração nascem todas relacionadas com eclipses. As boas, aquelas antes de haver redes sociais. E depois há outro aspecto interessante, que é a ideia de humanidade. A humanidade é um conceito muito recente, porque só há humanidade desde que os povos têm realmente transferência de informação entre eles. Antes de haver essa transferência de informação, havia vários povos, não havia humanidade no seu conjunto. E o eclipse dá aquela ideia de que somos todos o mesmo. Nós não pensamos se é Portugal, se é Espanha, se é Bragança, se é Galiza. Não pensamos se por acaso os imigrantes também vão poder ver o eclipse e será razoável. Nós não pomos as coisas nesse ponto de vista. Nós somos humanidade naqueles poucos minutos que vão preceder e suceder à passagem da Lua em frente do Sol. E aí, realmente, somos mais humanos do que antes.
Vamos todos ver o mesmo.
Vamos todos ver o mesmo.
Independentemente da condição de cada um. Não sei se tem resposta pra esta pergunta, Luís Sirapicos, como é que as religiões entenderam ou olharam para os eclipses ao longo dos tempos?
Eu penso que as religiões, em geral-
Luís está mais do lado da ciência.
Sim, mas em geral, as religiões também, de certa forma, incorporaram estas reações quando não eram bem compreendidos. Incorporaram estas reações de temor.
Ou de fascínio. Há aquele exemplo da crucificação, em que havia o fascínio, que provavelmente era um sinal de divindade. E há outro exemplo também importante, mas que depois foi muito desvalorizado pela própria religião, que é um eclipse que acontece na altura em que Maomé perde o filho, e que foi às vezes relacionado com isso. Mas depois o Corão desvaloriza essa coincidência. Não dá importância, não valoriza o eclipse como sendo um fenômeno a valorizar religiosamente.
Mas, em geral, as religiões são também grandes grelhas de interpretação do mundo e de conseguir que as pessoas vivam com aquilo que não entendem, ou que não só não entendem, mas com o qual têm de viver, entendendo ou não. Isso é estar a apresentar as religiões como um sinal de desconhecimento, o que não é verdade. Agora, elas procuram A maior parte delas, eu por acaso fiz uma pesquisa muito grosseira sobre esse assunto, dão sempre conta como se houvesse uma espécie de desarmonia entre os homens e o universo, e é um pouco nessa linha que nós nos enquadramos.
As religiões que tinham o sol como centro. Por exemplo, os astecas.
Aí é mais complicado.
Ou os maias tinham alguma dificuldade em lidar com isso.
Já é muito mais difícil. Porque naquelas em que nós nos inserimos, em que é visto como reflexo dos nossos pecados, dos nossos atos maus, é uma linha de entendimento que não gera as consequências que gerou, por exemplo, neste tipo de religiões, como o José Manuel está a dizer, em que o sol está no centro, porque se o sol está no centro, então algo de muito mau aconteceu ao sol. E aí chegamos aos maias, com os sacrifícios humanos, por exemplo. E depois há, mais para o Oriente, alguma interpretação mais no sentido de que, porque a sua forma de conceber o universo é diferente, então é como se tivesse havido uma zanga no cosmos. Uma zanga entre a lua e o sol. É mais animado. Mas é como se fosse uma zanga nessas figuras, entre o sol e a lua. E depois há a versão dos chineses, claro, que tinha de ter dragões. Há um dragão que engole. Mas existe a necessidade de a explicar e enquadrar. Por exemplo, não se encontra muitas vezes essa necessidade de explicar os sismos. É como se, perante um eclipse, houvesse a percepção que se está perante algo que claramente nos ultrapassa.
Porque o eclipse vem do céu e os sismos do inferno. Do submundo, porque nós assumimos sempre o céu como o que está por cima e o inferno como o que está por baixo.
Mas digam-me uma coisa, falando na parte mais científica. Há alguns temas sobre os quais talvez haja, pelo menos, interesse. Uma questão tem a ver com um tema que não estará resolvido, haverá teorias concorrentes sobre o que é que faz com que a coroa solar, aquilo que nós vemos quando há um eclipse, a temperatura seja superior à temperatura do sol. Pelo que eu percebi, não há ainda uma boa resposta para isso.
Sim, é um dos grandes temas da física solar, é compreender porque é que a superfície tem milhares de graus e depois temos da ordem dos milhões na coroa.
Se bem que a definição de temperatura naquela circunstância não é trivial. Não estamos já na termodinâmica clássica.
Outro aspecto que pode ter algum interesse, e há pessoas a olhar para isso, é a interferência em sistemas terrestres. Aparentemente, em 2015, já houve interferência em alguns sistemas e há, pelo menos uma coisa, os espanhóis parecem que vão ter cuidado com isso, que é a sombra ao passar sobre a península, vai apagar os sistemas de produção fotovoltaica.
O Miguel não concorda.
Durante um período bastante curto.
Sim, mas há pessoas com receio disso e eles parece que vão desligar algumas coisas antes.
Eles tiveram um apagão no ano passado.
Eles tiveram aquele apagão por causa de flutuações.
Não me parece que tenha sido um eclipse.
Não foi.
Algo se eclipsou, mas não foi o eclipse.
Eclipsou-se a energia.
E a própria produção eólica também, mas aí é menos sensível.
Reparem o que isso significaria.
A tua dúvida, José Manuel, é se o eclipse tem interferência.
Não, e também pode haver, há quem fale em interferências magnéticas. Portanto, questões que tenham a ver com...
Interferências magnéticas são, apesar de tudo, mais realistas. Tem que ser compreendido, muito mais realistas. Devido à chuva do vento solar sobre a Terra.
Ou seja, o eclipse não é neutro.
O eclipse não é neutro. Mas os seus impactos estão a ser, na minha opinião, claramente sobrevalorizados, exatamente por causa do sistema do "casa roubada, trancas à porta".
Na parte da questão elétrica.
Claro, na parte da questão da rede elétrica. Eu nunca ouvi falar de nada de tão impactante e custa-me um bocadinho a crer, porque reparem, basta um dia estar profundamente enevoado durante um dia de inverno, com nuvens a ocupar o céu durante o dia todo, que a produção baixe imediatamente.
Aquele é muito rápido. De repente desaparece numa área, apesar de tudo, relativamente grande.
Então alguma coisa dos sistemas não está bem desenhada.
Talvez. Não, mas isso o ano passado ficámos a perceber. O outro tema que tu há bocado falaste é: por que o alinhamento dos planetas pode ser mais interessante? A perceção é bastante mais dá para os desejos, pelo menos.
Porque não é muito fácil, nós, sem instrumentos e sem apoio aqui dos colegas de astronomia, identificarmos sequer a maioria dos planetas no céu. Além de Vénus, que somos todos razoavelmente capazes de identificar no princípio e no fim da noite, os outros são difíceis de identificar. E já este ano, houve uma situação em que houve um alinhamento de praticamente sete planetas.
Ou eram difíceis de identificar, porque agora há uma aplicação no telemóvel.
Claro, com a aplicação de telemóvel toda a gente faz tudo. Mas mais uma vez, a aplicação de telemóvel também nos dá a humanidade. Atenção a esse assunto, porque dá-nos aquela ideia de que estamos todos a ver o mesmo e todos a compreender o que se passa.
São aplicações fascinantes.
E nós precisamos de transcendência. Não é, Helena? Nós precisamos de transcendência. Isto é um pequeno contributo da astronomia para alguma transcendência.
Essas aplicações permitem ver os astros que estão abaixo do horizonte. Que é uma coisa muito antes de nascer, digamos assim.
Claro, como sabes, isso antecipa o tempo em que nós nem precisamos de olhar para o céu. Basta vermos na aplicação e já ficamos todos informados.
Não é a mesma coisa.
Sim, podemos estar em casa.
Por que não é a mesma coisa? Isso é que é um bom problema.
Vamos lá ver Porque não é, não é?
Não há o contacto.
Porque estender uma manta no alto de uma serra e olhar para o céu não é a mesma coisa que estar sentado no sofá.
Exatamente. O telemóvel não consegue criar, por enquanto, a noção da abóbada, da profundidade.
Da curvatura.
Quase que da nossa pequenez perante a grandiosidade.
Mas o planetário consegue.
Está bem.
Por que não é a mesma coisa o planetário e a Bragança?
O problema é que nós não temos um planetário.
E não é a mesma coisa. Mas por que não é?
Não é a mesma coisa. Quer dizer, por causa da atmosfera. Mas mesmo assim, o planetário é impressionante. Agora, é completamente diferente a perspectiva de estar a olhar para um ecrã ou para um telemóvel, do que estar a olhar para o céu.
O ecrã do telemóvel, às vezes uso à noite, sobretudo quando estou na praia, depois de um jantar na praia, que é para identificar, porque nós às vezes não conseguimos identificar. Eu não estou treinado a identificar as constelações. De maneira nenhuma. Exceto a Ursa Menor e a Ursa Maior, e Cassiopeia e Orion, que essas nunca mais esqueci onde é que ficam.
Eu, se isso fizesse parte da escolaridade obrigatória, tinha ficado analfabeta toda a vida.
É rápido, essas três são fáceis.
A Ursa Maior e a Menor são fundamentais pra teres a orientação do norte.
Mas eu não preciso.
Não precisas agora, tens telemóvel. Mas nós vamos ver Marte, Vênus, Saturno. Esses são os que se veem. E Júpiter. E depois há mais dois que lá estão, mas que nós não vamos conseguir ver.
Nos meus tempos de astrónomo amador, obviamente, nós não havia essas aplicações de telemóvel, mas nas revistas de astronomia já traziam mapas com a localização dos planetas. No fundo, nós sempre precisávamos desse tipo de orientação, só que agora talvez os recursos sejam um pouco diferentes.
Eu devo dizer que às vezes estou nesse ambiente e não sei se tenho uma, mas pelo menos há uma que eu uso mais. E quando mostro aquilo às pessoas que às vezes estão comigo, quando a noite começa a cair, toda gente fica fascinada, porque a maior parte das pessoas nem sequer tem noção de que essas aplicações são tão amigáveis, digamos assim, e ajudam tanto a perceber. Aparece uma luz, aparece uma estrela maior. "Aquela o que é? É um planeta ou são já estrelas?" Depois vemos no telemóvel.
Claro, depois com alguma experiência, nós até pelo brilho e pela cor identificamos logo.
Claro. Mas às vezes é aquela zona em que a noite não está completamente escura, portanto, o céu está a acender-se, digamos assim, a pouco e pouco, conforme vai ficando mais escuro.
A Lua está muito próxima do Sol.
E nós podíamos ter essa experiência desta vez, porque o eclipse já é bastante tarde no dia. O Sol já está quase a pôr-se.
E este tipo de acontecimentos faz aumentar o interesse, por exemplo, pela astronomia, até nas candidaturas universitárias, no estudo, na investigação?
Isso não sei se conseguimos medir ou se alguém já uma vez mediu, mas sim, obviamente que estes eventos aumentam o interesse. Aliás, sabemos, por exemplo, que o Tycho Brahe começou a se interessar por astronomia por causa de um eclipse. Ele escreveu isso. O grande astrónomo do século XVI. Há casos em que existe essa informação.
Tycho Brahe era checo, não é?
É dinamarquês.
Dinamarquês. Mas por que há uma estátua dele em Praga?
Porque ele viveu o último ano em Praga. Ele perdeu o patrono que tinha na Dinamarca e depois andou à procura de outro.
É o financiamento.
O financiamento já era importante naquela época.
Agora o financiamento leva as pessoas para outros pontos.
Para outros pontos do mundo.
Portanto, há 391 ações ao longo do país para as pessoas que se interessam pela observação em comunidade deste fenômeno astronômico. O que nos permite descobrir ainda mais os eclipses solares, Jorge Miguel Miranda?
A nossa pequenez, a nossa dificuldade de compreender o universo, a nossa relação também com o universo e a nossa dependência. Em relação à questão que foi colocada ainda antes pela Helena, eu diria, em termos genéricos, não acredito que haja nenhuma ligação genérica entre o estudo da astronomia e o número de alunos que se inscreveram nos cursos respectivos. Contudo, eu sei que isto desperta vocações. E a maioria destas áreas dependem menos do número de pessoas que lá está e mais das pessoas excepcionais que se interessam por estes assuntos, porque a evolução da humanidade depende bastante, mais do que se quer admitir, de pessoas que são realmente excepcionais e são capazes de fazer aquilo que os outros não foram capazes de fazer antes, os que são capazes de ter ideias disruptivas sobre as coisas. É muito interessante e é muito positivo que hoje em dia nós nos interessemos e muita gente se interesse pelo eclipse e pela sua observação, e que não esteja mais um dia a ver filmes em streaming ou a ouvir estupidamente TikToks, e que passem algum tempo a olhar pro céu escuro, com uma manta, no alto de uma serra. Eu claro que aconselho todos a juntar-se às iniciativas do Ciência Viva, porque é uma organização que eu tenho uma ligação pessoal, e que é uma organização fantástica em Portugal, reconhecidamente, do ponto de vista internacional, como uma das mais importantes organizações de promoção da ciência. E utilizarem esses momentos pra pensar realmente que é preciso nós termos uma relação mais saudável O universo. Se calhar, muitas vezes é preciso termos uma vida mais simples. É preciso muitas vezes nós percebermos que muita da felicidade não está bem no número de bolas de Berlim que somos capazes de comer na praia.
Sim, e até porque observar o eclipse é uma forma também de usufruto do tempo. E insere-se muito na linha daquilo que nós temos hoje, que é o viver das experiências. É a experiência ou uma possível experiência. As pessoas não vão dizer que vão observar um tremor de terra ou que vão observar um incêndio, embora isso aconteça muito, porque há ali algo de encantatório nas chamas. Mas ao passo que outras manifestações da natureza, como os vulcões, inspiram este lado de receio, isto não acontece aqui. E portanto, eu acho que se me perguntassem qual era a manifestação ideal do universo e do seu funcionamento para o tempo em que nós estamos, eu diria os eclipses. Porque reúnem praticamente todos os fatores, de serem fotogênicos e tudo isso, e também aquele pequeno toque de que há aqui qualquer coisa que não dominamos, porque há sempre este lado do transcendente. Porque às vezes há coisas que estiveram sempre diante dos nossos olhos e que nós não vimos desta forma. A onda gigante da Nazaré. Eu até porque fiz férias naquelas zonas. A onda gigante da Nazaré estava lá, era o canhão lá do outro lado. E de repente, ela ganha uma visibilidade, um impacto, quando nos começa a chegar nos telemóveis, também na televisão, e sobretudo pelo contraste com a figura mínima, que parece um ponto que vem lá no meio da pessoa que está a fazer a onda, naquelas coisas do surf. E portanto, os eclipses têm uma excepcionalidade, eles não estão sempre lá. Eles aparecem de vez em quando, acontecem de vez em quando. E portanto, para o tempo em que nós estamos e para a forma como nós vemos.
E tem algo de poético, não é? Porque de repente é algo que se apaga e que se acende.
Sim, e o silêncio dos pássaros e o dia em que os pássaros se calam. Os minutos em que os pássaros deixam de cantar. Portanto, reúne todo um conjunto de circunstâncias que pode levar a que seja um grande momento no século XXI e seja vivido de uma forma completamente diferente daquilo que era vivido no passado, em que havia outros fenômenos, às vezes, que eram observados de outra forma.
Há algo que também acho que é interessante, que é: nós hoje, quando temos um fenômeno destes, temos uma chamada de atenção, não só para as pessoas terem cuidado com os olhos, como é óbvio, não só onde é que se pode ver ou não pode ver, mas também uma preocupação de procurar explicar o que se passa, o que está à volta, o que pode ser interessante. Eu acho que isso suscita sempre entre as pessoas muita curiosidade. Nós hoje temos, desde esta manhã, até uma boa notícia, digo eu, acho que uma boa notícia, um pouquinho a contrapor das notícias mais perturbadoras dos últimos tempos. As candidaturas às universidades bateram os recordes. 60 mil, que não havia tantas desde 1996. Não será tudo para curso de Ciência, imagino eu. Não serão seguramente curso de Ciência, mas é bom. É bom, é sinal.
O eclipse não é só um problema científico, também é um problema humanístico, é um problema social. Se o facto de nós estarmos, muitos de nós, fartos da forma como todo o sistema comunicacional, não é só a comunicação social hoje em dia, a comunicação social, as redes sociais e toda a pressão sobre nós, com a porcaria, com a cloaca em que muito se transformou, leva a que por vezes, pelo menos, temos estes pequenos momentos em que podemos esquecer e podemos menorizar os problemas e minimizá-los e ver que eles não são tão importantes quanto isso ao pé de um astro que se coloca à frente de outro, que pensamos que se irá repetir só daqui a muito tempo, que é escasso, que é difícil de obter e perante o qual nós somos, como há bocadinho disse, mais humanidade. E nós temos que ter estes momentos. Eram momentos que no passado a religião ocupava em grande parte, momentos de reflexão, de afastamento da realidade manhosa do dia a dia. E nós precisamos de parar um bocadinho a realidade manhosa do dia a dia, se queremos sobreviver.
Sim, e já agora, deixa-me meter aqui outra colherada, que é: entre as referências literárias, que a Helena falou algumas delas, há uma que por acaso não aparece no filme, que é uma referência de passagem, não é substantiva.
Na Odisseia.
Na Odisseia há um eclipse. É apenas uma estrofe, não é mais do que isso. Mas é mais um sinal. E quando estamos a falar da Odisseia, estamos a falar da fundação da cultura ocidental.
Sim, e o que me parece é que nós começamos a ter já, este fenómeno já é assim um bocadinho o que o Mitchell Alley, ou seja, o começar a É como se o céu da religião estivesse a ser substituído pelo céu dos astrónomos, porque nós precisamos sempre de olhar para o céu. E precisamos sempre de ver lá qualquer coisa. Portanto, nesse sentido, a astronomia está a dar-nos o céu na medida em que nós precisamos dele. Vocês há bocado já vão referir a questão do sol em Fátima e das coisas que mais contribuem para que Fátima se tenha tornado naquilo que é. É a presença de fotógrafos em Fátima naquele dia, 13 de outubro de 1917.
E do repórter do Século.
Nomeadamente o repórter do Século, e por quê? Porque o Século é um jornal anticlerical. Havia mais anticlericais que o Século.
Sim, e na altura penso que já era o maior de circulação.
Um jornal de maior circulação, com fotografia, com tudo isso. Ou seja, e quando nós vemos o que são as descrições de uma multidão que está num local e que de repente olhando para o céu, acha que está a acontecer alguma coisa, percebe-se aquilo que o Miguel referia há bocado, que é pequenez. E os primeiros a ajoelhar foram os ateus, digo eu, porque o pânico é enorme. Gera-se uma situação em que eles, de facto, ficam todos iguais ao olhar para o céu e, portanto, claro, vai-se encrescendo. Há um problema com aquilo que acontece. Hoje sabe-se quanto tempo é que vai durar o eclipse. Mas é que quando começa o fenômeno, em Fátima, em 1917, ninguém sabe quanto tempo é que aquilo vai durar.
Ninguém estava à espera.
Para já, ninguém estava à espera. Depois começa e depois ninguém sabe quanto é que vai durar. Ora, isso é sem dúvida uma sensação, que penso eu, que deve ser terrivelmente assustadora, porque num sismo, eu só vivi o de 1969, mesmo assim o tempo pareceu-
Infinito.
Pareceu grande. Mas esta ideia de que se está ali reduzido ao ínfimo da escala da fragilidade. Portanto, isto eu não sei o que será mais impressionante, mas eu creio que achar que o céu nos pode cair em cima da cabeça ou um fenômeno dessa natureza pode ser mais assustador que um sismo. Nós o sismo percebemos o que é que vai acontecer, que pode ser terrível, pode cair tudo, mas o céu.
Eu estava a voltar a um tema que o Egas falou há pouco e que tinha alguma curiosidade, que é: falou que os franceses quando vieram cá num desses eclipses totais, de 1753, salvo erro, ficaram surpreendidos com os livros que havia nas bibliotecas, creio que de Coimbra, sobretudo.
Sim, era uma biblioteca religiosa de uma ordem em Coimbra.
Uma biblioteca religiosa, precisamente sobre isso, porque depois uma das coisas que eu vi nos seus artigos é que nos eclipses de 1900 e depois o de 1905 até em Espanha, além dos cientistas de Coimbra, novamente, que fazem essa atenção, há estudantes que vão à procura desse eclipse, que são os estudantes dos colégios jesuítas. São fiel, que era um dos alunos do Egas Moniz ou de Campolide.
E que organizam mesmo.
E como é que foi esse fascínio? Estamos a falar de colégios religiosos.
Sim, mas eles tinham um ensino científico bastante desenvolvido. Aliás, uma das primeiras experiências que se fez com radioatividade em Portugal foi num desses colégios. Isto é uma tradição que os jesuítas têm.
Sim, a aula da esfera aqui também em Lisboa também era uma coisa.
O ensino científico.
E não só os jesuítas. Existe uma ideia muito generalizada que os jesuítas eram únicos.
Não.
Não é verdade, ordens religiosas.
Havia outras ordens que também se dedicavam ao ensino e também ao ensino das ciências.
Essa biblioteca não era dos jesuítas.
Penso que não.
E a da Academia das Ciências era da Ordem Terceira de São Francisco.
Também tinham, e têm.
É o habitual. A grande coleção da Academia das Ciências era da Ordem Terceira de São Francisco. Não era da academia.
Eu penso que isso também tinha a ver com o papel dos professores. Havia professores que faziam, por exemplo, no caso de botânica, faziam investigação. Aliás, até publicaram uma série de espécies que não eram conhecidas pela ciência, que resulta desse trabalho. E no caso da astronomia, foi um fenômeno que foi muito falado na altura, que era conhecido, e aliás, que nós sabemos hoje que gerou a primeira grande observação em larga escala. Historicamente, até é o primeiro eclipse que é observado, de facto, por imensas expedições.
Estás a falar do eclipse de?
De 1905.
1905. 1905 passa aqui em Espanha, por Burgos.
Sim, aqui no norte de Espanha. E, por outro lado, também era a oportunidade, era relativamente próximo. E, portanto, era fácil organizar uma expedição para ir observar. Aliás, existe uma publicação que é relativamente fácil de encontrar nas bibliotecas, nas nossas bibliotecas de investigação. A Biblioteca Nacional, por exemplo, tem esta publicação e eu tenho até na minha A pequena coleção de livros antigos de astronomia tem também essa publicação que resultou destas observações desta expedição organizada pelos jesuítas.
O que também dá conta, porque nós acabamos por ter visões muito de clichê daquilo que eram as ordens religiosas e os religiosos, mas dá conta de um interesse, da capacidade de conciliar em absoluto esse interesse científico com aquilo que eram as suas crenças religiosas mais profundas. E, portanto, já se tinha ultrapassado aquela fase da incompatibilidade entre algumas das perspectivas sobre o universo e aquilo que eram as crenças religiosas. E isso é particularmente interessante. Eu acho que nós não temos muita noção, porque depois temos sempre um discurso muito da progressão, da forma de organização do Estado, mas nós muitas vezes não temos a noção do impacto que teve a expulsão das ordens religiosas, o impacto que teve na aprendizagem, na divulgação de princípios de conhecimento, porque não se consegue progredir quando se expulsam de um país os melhores professores. Pode-se odiar aqueles professores, por todas as razões, mas quando se resolveu expulsar, no caso, os jesuítas, e não apenas os jesuítas, porque no caso das mulheres, isso foi mesmo uma condenação ao analfabetismo, as ordens religiosas, aquilo que se perde e aquilo que se notava era, de facto, essa curiosidade. Claro que não era generalizada.
Há ali uma fase de transição, digamos assim, nas últimas décadas do século XVIII, em que é muito interessante ler o que os professores católicos escrevem, por exemplo, sobre o Copérnico. No fundo, o que eles fazem, é dizer assim: "Bom, esta é a teoria que é aceita por todos os matemáticos", e depois apresentam toda a argumentação a defender o Copérnico. E depois dizem: "Mas nós vemos esta teoria apenas como uma hipótese e respeitamos todas as determinações da Igreja". Ou seja, no fundo, eles dizem: "Esta teoria é a melhor. Ok, já toda a gente aceitou isto". No fundo, eles estão ali a tentar conciliar a obediência às determinações da Igreja, a ciência e a fé, numa situação de compromisso entre uma coisa e outra.
E por que nós esta noite devemos estar, nesta noite não, daqui a uma semana, tão atentos às Perseidas? Eu lembro-me de uma vez, há perto de quase 30 anos, houve uma noite que foi toda a gente ali pra Costa da Caparica, pra ver e depois não aconteceu nada. Mas há condições especiais pra isso?
É o facto de estarmos em lua nova, é o facto de estarmos com o céu muito escuro, e é o fato que já que nos vamos deslocar pra tentar ver o eclipse, aproveitar estar mais um pouco e aproveitar pra ver as Perseidas.
Não se espera uma chuva maior do que o habitual.
Em termos de visibilidade, sim. Eu vi a previsão e a previsão aponta pra uma grande visibilidade e um grande número de meteoros a passar a atmosfera terrestre. E, portanto, em princípio, será um espetáculo particularmente interessante.
É interessante, por vezes vê-se dois ou três ao mesmo tempo. Mais pro final da noite.
Será, portanto, depois das duas da manhã, não é?
Sim.
Sim, porque pro final da noite, nós temos o céu que está voltado pro movimento da Terra. A Terra está a varrer aquela nuvem e é na segunda metade da noite que nós temos a maior parte do céu, para onde estamos a mover-nos. Portanto, aí vemos mais.
Antes do programa acabar, eu queria fazer uma pergunta. Se nós tivéssemos de tar no tempo, mais ou menos quando é que se conseguiu começar os astrônomos a não terem aquele problema dos astrônomos naquela corte chinesa. Quando é que se conseguiu começar a ter previsibilidade no anúncio de algum tipo de fenômenos como os eclipses?
Eu diria, pelo menos nos assírios, seguramente. Ou seja, vamos lá ver, a religião, como tu há bocadinho disseste, tenta ser um quadro explicativo. E, portanto, nós temos sempre dois movimentos, o primeiro movimento de recusa e depois o segundo movimento de absorção. E isso é tomado como sendo um patrimônio da sua capacidade de previsão do universo. E, de certa forma, permitindo exatamente aquela ideia de que há uma força mais forte que nós, há um poder maior que o poder dos homens, e nós, sacerdotes, somos os seus instrumentos. Porque, como evidente está, a religião, pois há os sacerdotes da religião. E eu diria que desde o tempo dos assírios, pelo menos aqui na nossa civilização, que essa capacidade de previsão existe.
Há aqui um fator que é o registro. A partir do momento em que há a escrita e há o registro, nós podemos comparar com estes ciclos astronômicos. Na altura, puderam tentar identificá-los porque havia o registro.
Mas vejamos uma questão: quando é que a observação astronômica se tornou importante? Com a agricultura. Quando nós precisamos prever as estações do ano e as colheitas.
Medir o tempo. No fundo, medir o tempo.
E a partir desse momento, ou seja, a partir do momento em que a agricultura começou a dominar o processo, a forma dos homens ocuparem a Terra E começarem a destruir o ambiente com a agricultura. A partir dessa altura, nós precisamos de perceber o que é que ia acontecer. Ainda não estamos na fase de controlar, apenas de perceber. As religiões, que eram claramente o quadro mais explicativo, tentaram absorver uma parte desse conhecimento. E nós temos duas situações que caracterizam ainda o mundo hoje. Sejamos claros: há as religiões que conseguem absorver de fora uma parte importante do conhecimento filosófico, científico e humanístico, e as que não conseguem, as que são rígidas e continuam a manter o seu cânone quase original. As primeiras conseguem chegar à modernidade, as segundas não conseguem chegar à modernidade. E portanto, o que será o futuro? O futuro vai ser seguramente muito secularizado. É quase impossível evitar por uma questão até de egoísmo, de defesa própria e de isolamento a que a comunicação também nos condena, de certa forma. Mas a verdade é que esta pulsão vai se manter durante muito tempo e esta diferença de ser capaz de observar o real, absorvê-lo, contar com ele e viver com ele. Falavam há bocado dos terraplanistas. Ainda há terraplanistas. E por muitos eclipses que observem, continuarão terraplanistas.
Ainda há pessoas que acham que o homem não foi à Lua.
Como estamos a poucos minutos do fim, penso que a um ou dois minutos do fim, eu tenho que chamar a atenção que é preciso usar os óculos. Os óculos têm que ser de boa qualidade, que a perda de visão não tem dor.
E é irreversível.
E é irreversível.
Eu tenho uma proposta para quem não conseguiu encontrar óculos.
Vamos lá.
Que é colocar-se por baixo de uma árvore durante o eclipse e observar a natureza, observar o ambiente, olhar para a atmosfera. A atmosfera vai adquirir uma cor muito diferente, isso é um ambiente muito estranho.
Quão diferente?
É difícil de descrever. É uma cor diferente do habitual e um tom diferente do habitual. Mas o que se vê debaixo de uma árvore? É que há raios de luz a passar pelos intervalos entre as folhas e vai projetar ou no chão ou numa superfície qualquer. Tem que encontrar uma árvore que esteja a ser iluminada pelo Sol e que se projete algures. Pode ser no chão ou numa parede ou onde for. E vão ver uma miríade de crescentes, que é precisamente o eclipse projetado, reproduzindo ou seguindo o efeito que nós chamamos de câmara escura. É uma coisa também que nós podemos fazer. Por exemplo, com uma caixa de sapatos, fazer um orifício numa das extremidades e depois, interiormente na caixa, projetar a imagem do Sol na superfície oposta e vamos ver também o crescente. Essa é uma forma perfeitamente segura de observar. Aliás, foi assim que o Galileu estudou as manchas solares, no caso dele, projetando a imagem usando o telescópio. O telescópio pode ser utilizado como um projetor num ecrã. É uma forma perfeitamente segura e não é preciso óculos.
Eu não tenho nenhuma caixa de sapatos.
Não. Mas há uma imagem, penso que da Ilustração Portuguesa, de um desses eclipses, não sei se é o de 1900 ou 1912, em que se mostra a projeção numa casa. Um bocadinho efebulada. Não pode ter sido tão perfeito como está naquela imagem, mas que é precisamente um exemplo muito interessante sobre como é que se pode tentar tornear esse problema.
Muito bem. Fazia sinal o Jorge Miguel Miranda. Não tem nada para dizer? Muito bem. Vão lá arranjar os óculos, os tais com a ISO certa, com a certificação certa para poder olhar para o céu na quarta-feira a partir das 18h30. É um fenômeno que durará sensivelmente duas horas, mas para nós só é visível sete minutos, não é?
É o ISO 11312.
Obrigado. Bom fim de semana a todos.