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Em primeiro lugar, porque existe a percepção de que ele será um dos nomes que fica. Claro que ser primeiro-ministro é sempre uma coisa marcante, mas não quer dizer que depois, daqui por alguns anos, se tenha de referir obviamente o nome de todos eles. E claramente, em relação a Cavaco Silva, isso vai acontecer. E vai acontecer pelo tempo que foi primeiro-ministro, pela forma como exerceu o cargo, pela forma como mudou o país e também por algo que não é irrelevante. Cavaco Silva, esse é um dos seus traços de caráter, é muito meticuloso e tomou muito a sério ser ele mesmo a contar a sua história. Quando nós vamos procurar livros sobre Cavaco Silva, percebemos que a parte fundamental foi feita por ele nas suas memórias. Em Portugal não existe muito essa tradição de se fazer livros sobre as pessoas, mas em relação a Cavaco Silva, tendo em conta a importância e relevância que teve e tem, seria de esperar que houvesse mais produção. Não há. O que também dá conta dessa nossa dificuldade e também muitas vezes do hermetismo da figura. Porque uma pessoa que se ponha a pensar em fazer uma biografia de Cavaco Silva, sabe que vai confrontar-se com uma espécie de cerco daqueles que lhe são próximos.
Uma versão blindada.
Ou uma versão adequada. É sem dúvida uma personalidade marcante. Está um artigo hoje no Observador. Aquela fotografia mostra algo para o que aqui temos chamado a atenção, que é a profunda relação entre ele e a mulher. Ele mesmo, assim que soube desta distinção, disse que a iria receber acompanhado da sua mulher, pilar da sua vida. Estou a citar. Portanto, dá muito conta que aquilo não é apenas um caminho feito por uma pessoa, é por duas pessoas. E Cavaco Silva, por que irrita? Irrita porque, apesar de tudo, ele está lá. Ou seja, ele foi profundamente criticado, como terá sempre de ser alguém que faça alguma coisa. E foi muito criticado também pela sua área política. Pensemos o que Paulo Portas disse de Cavaco Silva. Temos também pessoas dentro do PSD, porque é óbvio que Cavaco Silva era muito focado, muitas vezes, naquilo que ele entendia como o que deveria ser feito, em outros casos, aquilo que taticamente também lhe era adequado, ou que ele definia como tal. Sacrificou várias pessoas ao longo desse caminho. É uma pessoa que gerou animosidades, como é óbvio. E depois, eu acho que à esquerda, claro, Catarina Martins e Paulo Raimundo tentam sempre fazer aquela figura. O que é curioso, porque o argumentário a certa altura é que ele tinha sido presidente da República durante o tempo da troika. Bem, na verdade, terá sido a coisa mais complicada para Cavaco Silva, porque em parte é ver o cair de um sonho. Ele é profundamente europeísta e, portanto, nesse sentido, esta medalha faz todo o sentido. E note-se muito daquilo que tem sido a sua intervenção agora, defendendo um investimento europeu em defesa e em segurança, criticando muito aquilo que definiu como a presidência errática dos Estados Unidos e vendo aí uma dificuldade para aquilo que é a segurança europeia. Ele afirmando-se. É claro, ele veio, vocês já referiram isso aqui, de um tempo de uma outra Europa. E Cavaco Silva, que é um homem muito tímido e que tem o profundo orgulho dos tímidos, fala muito da outra Europa, dos líderes europeus que ele conheceu e com quem ele se sentou à mesa. Nesta fase da sua vida, eu acho que Cavaco Silva, depois de ter construído ou ter sedimentado aquilo que foi a sua imagem como líder em Portugal, o primeiro-ministro que vai sem dúvida ficar como marcante. Há um Portugal antes e outro depois de Cavaco Silva, não apenas graças a ele, e a Europa também foi determinante, como é óbvio. Mas também conseguir, e eu acho que ele ontem achou isso, ficar naquela galeria dos líderes europeus. Ele refere sempre aqueles que conheceu, aqueles com quem se sentou à mesa, a sua relação privilegiada com Margaret Thatcher, Margaret Thatcher com ele. Há aqui um firmar-se também nessa galeria de personalidades. E foi isso que nós vimos ontem. Quanto às irritações. O que é espantoso, e isso eu acho que talvez para Cavaco Silva seja visto não como uma derrota, mas como um trunfo, é que ele continua a irritar. Ou seja, ele está naquela fase da sua vida em que já devia ter aqueles elogios consensuais, quase pré-obituário, mas não é nada disso que acontece. Ele continua a irritar. E nesse sentido, e nós vemos isso até quando ele escreve alguns artigos, que faz questão de escrever, vemos que ele continua a manter peso político e eu creio que isso não lhe será de modo algum desagradável. É desta personalidade, porque é uma personalidade marcante da política portuguesa, da democracia, que nós vamos falar hoje e vamos ter alguns testemunhos interessantes ou algumas opiniões.
De pessoas muito próximas.
De pessoas muito próximas.
É isso mesmo. Até já, Helena.
Até já.
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