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8:24, altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no "Contra-Corrente" de hoje. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar 91 002 41 85. Carla. O dia de ontem começou praticamente com a notícia de que dezenas de agentes da Polícia Judiciária estavam a executar mandatos de busca em vários locais, nomeadamente numa junta de freguesia de Lisboa e na sede do Partido Socialista. Os principais visados são duas figuras ligadas ao PS: Miguel Coelho, um histórico do partido, e Duarte Moral, um assessor pouco conhecido da opinião pública, mas não dos jornalistas. A investigação estende-se a outras figuras e os contratos suspeitos valerão € 2 milhões. Trata-se de mais uma situação que lança sombras sobre a forma como funcionam os partidos e também as redes de poder autárquico, pelo que é sobre isso que queremos falar no Contra-Corrente de hoje. Bom dia, José Manuel. Creio que conheces bem Duarte Moral, não é? Ficaste surpreendido?
Eu conheço, de facto, Duarte Moral, é mais uma recordação de entesos que outro assunto. Trabalhei com ele há mais de 30 anos, na altura no "Público", e dávamo-nos bem, sem dúvida nenhuma, mas depois as coisas não acabaram lá muito bem, por características próprias do Duarte Moral. Aliás, pelo que eu percebi do que foi a carreira dele depois disso, ele teve muitos momentos de rutura com muitas pessoas com quem trabalhou, incluindo com António Costa, arrufos e regresses e coisas desse género. Se eu fiquei surpreendido? Sim e não. Em relação ao caso concreto, não tenho opinião, não conheço o suficiente, não sei tudo o que está em causa. Daquilo que nós vamos sabendo, há procedimentos que são no mínimo pouco curiais. Veremos o que a investigação dá. Agora, aquilo que me parece mais relevante deste caso, e aquilo que talvez valha a pena discutir, mais do que saber exatamente o que se passa com estas figuras, é ter noção de que nós temos níveis de poder político que praticamente não são escrutinados. Estou a falar de alguns níveis autárquicos. Na governação, apesar de tudo, há uma atenção grande, governação do país, governo do país, mas quando descemos para o nível das autarquias e saímos de duas ou três autarquias maiores e a que damos mais atenção, tudo o resto passa um pouco debaixo do radar. E nalguns casos concretos, como por exemplo nas juntas de freguesia de Lisboa, que têm um estatuto muito particular, têm os maiores orçamentos do país. A reforma que foi feita no município de Lisboa, e que não é exatamente a mesma que levou à fusão de freguesias noutras regiões do país, essa reforma criou grandes autarquias em Lisboa, sobretudo com grandes orçamentos. Criaram-se aí centros de poder e já tivemos mais problemas noutras alturas. Todos se recordam do caso Tutti Frutti. O caso Tutti Frutti já teve acusação, mas nem sequer teve instrução. Começou a ser investigado há 10 anos, ou soubemos das buscas há 10 anos. É um caso que se passou há muito tempo e fomos percebendo, aliás, por alguns protagonistas, que nestas juntas de freguesia, sobretudo no que se refere aos dois maiores partidos, PS e PSD, há redes, literalmente, por onde circula muito dinheiro e por onde circulam também muitos pequenos poderes, nomeadamente os poderes de manipular eleições internas nos partidos, de nomear ou desnomear candidatos, e que isso tem enorme influência na forma como os próprios partidos funcionam. E há figuras tutelares que por aí andam desconhecidas da opinião pública ou praticamente desconhecidas, às vezes nem sequer são muito conhecidas nas suas próprias freguesias, mas que têm um poder muito grande porque controlam os aparelhos e por vezes com ligações que não deixam de nos deixar surpreendidos, que de vez em quando são denunciadas, mas nem sempre. Por exemplo, neste caso, soubemos de ligações que depois passam figuras que ora estão no Partido Socialista, ora se juntam a outras forças políticas. Há um caso aqui em Oeiras de uma candidata, pessoa com algum peso no Partido Socialista local, que depois aparece a fazer maiorias com Isaltino Morais e depois aparece como assessora de Isaltino Morais, ou pelo menos assessora da maioria de Isaltino Morais. Tudo bastante bizarro, digamos assim, e sobretudo com muito pouco controle por parte da opinião pública, porque nós não temos uma imprensa local forte. Nós não temos imprensa forte, ponto final, e local ainda menos. E os mecanismos que temos para ir fiscalizando o que se passa, designadamente algumas coisas que são boas, como aquele portal GOV, que nos permite ter conhecimento dos contratos que são feitos por entidades públicas. Podia estar melhor, podia a informação estar mais atualizada. Mas mesmo assim é um aspeto positivo, porque permite a qualquer cidadão fazer pesquisas. No entanto, nós muitas vezes só nos apercebemos do que se passa muito tempo depois. E mesmo neste caso, por exemplo, as primeiras notícias sobre alguns destes contratos já têm alguns anos, saíram penso que na revista Sábado, e só agora é que lá chegou o Ministério Público, a Polícia Judiciária e outras forças de investigação. Não creio, pelo menos neste caso concreto, que sejam aqueles casos em que de repente vemos o erário público a ser prejudicado em contratos, como conhecemos noutros tempos, em que as verbas em causa eram coisas muito milionárias. Desta vez parece ser uma coisa bastante mais pequenina, mas como se costuma dizer nestes temas, de pequenino se torce o pinico e quando as coisas são pequeninas, às vezes são sinais de males bastante maiores. E portanto, acho que vale a pena falar disto. A maior parte das pessoas não conhecem, como nós, os jornalistas conhecemos alguns destes personagens, porque não são pessoas dos bastidores da política e, neste caso concreto, da política lisboeta, mas ao conhecer um bocadinho estes bastidores, percebemos o que é que se passa não apenas em pequenas autarquias, mas também nas redes de poder dos partidos. Vamos falar um pouco sobre isso no Contra-Corrente.
No Contra-Corrente, a seguir às 10:00. Até já, José Manuel.
Até já.