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Altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem que ligar 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp 91 002 41 85. Luís.

Passaram nove semanas desde que dezenas de milhares de candidatos a imigrantes entraram em Ceuta, procuravam uma porta de entrada para Espanha e para a Europa. Nos dias seguintes, a maioria regressou a Marrocos, mas entre 15 e 20 mil, um número que ainda continua a ser discutido, permanecem no território onde antes só viviam umas 84 mil pessoas. Felipe VI, o rei, vai visitar Ceuta neste mês de outubro, mas Pedro Sánchez não o acompanha, o que pode ser um sinal de que permanece uma tensão institucional entre a Casa Real e a Moncloa. Numa altura também de máxima tensão política em Madrid, por causa da crise da habitação, mas não só. Bom dia, José Manuel. Espanha é aqui ao lado, temos também laços históricos com Ceuta, mas tudo às vezes parece muito distante. Devíamos estar mais atentos a tudo isto?

Sim, devíamos estar mais atentos a tudo isso por várias razões. Primeiro, o que se está a passar em Ceuta é, a meu ver, bastante preocupante, porque é um sinal de que, no caso concreto de Espanha, se criaram condições para alguma abertura de portas à imigração e que isso provoca imediatamente movimentos descontrolados. O que aconteceu no penúltimo dia de julho é muito significativo. Setenta mil pessoas que entraram por ali adentro. A maior parte saiu, mas boa parte ficou lá e desde aí, isto tem sido um tema político escaldante, que o governo espanhol parece não apenas não querer resolver, como querer instrumentalizar. A situação política em Espanha tem muitos aspetos kafkianos. Não há preocupação em resolver os problemas, há preocupação em pensar como é que se instrumentaliza a política para polarizar a vida pública e através dessa polarização, porventura, continuar no governo depois de umas eleições, que não se sabe se serão ainda este ano, serão no início do ano que vem, enfim, já não estão muito longe. Continuando a governar em condições incríveis como aquelas que atualmente Pedro Sánchez governa. Só pra dar uma ideia. Neste momento, há um juiz a investigar quantas vezes o governo central foi ou não avisado ou alertado para que vinha aí uma crise. E aparentemente foi várias vezes, houve já demissões, houve pessoas que foram obrigadas a sair dos lugares em que estavam, nomeadamente o delegado do governo em Ceuta. Desde o princípio que o governo dá números contraditórios sobre quantas pessoas ainda estão no território. Todas as semanas, para não dizer quase todos os dias, se descobre mais esconderijos onde está gente acumulada, nomeadamente crianças. Um dos instrumentos usados pelas redes de imigração e por estes mecanismos, às vezes nem sequer são redes, são esquemas, é fazer passar crianças ou menores, depois esses menores são recolocados em várias zonas do território espanhol e a partir daí, em nome do reagrupamento familiar, começam a chamar familiares. E isto está a ser feito paulatinamente, apesar da reação das várias regiões. E ao mesmo tempo que isto acontece, há a tentativa de, por um lado, instrumentalizar os imigrantes, quem defende a imigração, e o governo de Pedro Sánchez não só a defende como a promove, porque promove também a regularização extraordinária contracorrente da Europa, procura manter aquelas pessoas ali, não criando desconforto que as poderia levar a abandonar o território. Estamos a falar de um número de pessoas, como tu referiste, entre 15 e 20 mil, os números não são exatos, num território de 80 mil. Portanto, gente a dormir em jardins, gente a dormir nas praias, gente a dormir na rua, gente a dormir em abrigos, casos já que houve de tentativas de violação ou mesmo violação de jovens, praias que não podem ser utilizadas pela população local. Um enorme mal-estar. E depois isto tudo também é uma enorme tensão com o rei. O rei desde o princípio que tem tido uma posição bastante firme nesta matéria e isso tem desagradado ao governo. Poder-se-á dizer, não é habitual, não é regra o primeiro-ministro, o presidente do governo, acompanhar o rei sempre que ele se desloca, nomeadamente em períodos de crise. É verdade, protocolarmente não há essa regra em Espanha, mas também nós não nos esquecemos que recentemente, quando houve uma outra crise, desta vez foi uma crise provocada por umas inundações na zona de Valência, quando o rei e o primeiro-ministro foram juntos, a forma como Pedro Sánchez fugiu da fúria dos Populares e o rei deu a cara, mesmo apanhando com lama e falou às pessoas, ficou na memória dos espanhóis. E Pedro Sánchez, que neste período da crise de Ceuta achou que o melhor que tinha a fazer era ir de férias pras Canárias. Não foi só a crise Ceuta, foi a crise Ceuta e a crise dos incêndios. Continua a achar que consegue resolver os problemas instrumentalizando a opinião pública, como está agora a fazer, de resto, com esta história da Lei das Rendas. Apresentou uma proposta de lei negociada em cima do joelho com a extrema-esquerda. Enfim, só para dar uma ideia, em dois ou três dias desapareceram 4 mil anúncios de casas para arrendar, porque obviamente aquilo vai fazer um mal incrível a um mercado que já está em tensão. Mas agora diz que a cidadania que está em causa se os partidos, nomeadamente os partidos independentistas, não votarem a lei, como tudo indica que não votarão, e haverá uma crise política por causa disso. É assim que se faz política em Espanha, é aqui ao lado. É uma forma de fazer política que acentua as divisões na expectativa de que com isso se mantenha o poder. Mas eu creio que não só em Ceuta o tema não está resolvido, como na Europa a Espanha está a fazer um papel triste, porque ainda ontem houve uma reunião dos ministros do Interior, todos os ministros que votaram, houve uma abstenção belga, houve dois países que não votaram, mas de resto todos os outros países, exceto Espanha, que votou contra, aprovaram uma resolução no sentido de mudar algumas leis europeias que permitam em situações de crise, como a crise de Ceuta, tornar a possibilidade de expulsar as pessoas de forma mais célere, sem todos os procedimentos burocrático-jurídicos que atualmente, na prática, bloqueiam muitas destas operações. E a Espanha, porque o governo está prisioneiro da extrema-esquerda, votou contra. É assim que estamos, e isto é aqui ao lado, e nós sabemos que estes temas também nos tocam a nós, porque na Europa o tema da imigração tornou-se um tema central, politicamente explosivo, e que em muitas circunstâncias pode até ameaçar a estabilidade das democracias europeias. Vamos falar um pouco disso tudo depois das 10, com a ajuda de quem está em Espanha, o Jorge Fernandes, que vive em Madrid e que vive esta situação também mais de perto.

Até já, José Manuel.

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