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Vamos lá ver. Do ponto de vista afetivo e em muitos aspetos cultural, nós podemos dizer que Olivença é parcialmente nossa. Não sei se já foste a Olivença alguma vez, Carla.

Não, ainda não. E já sei que vale a pena.

Vale a pena ir, porque é uma cidadezinha muito agradável e que, sobretudo, tem um centro histórico com umas igrejas e uma Casa da Misericórdia que parecem Portugal. De facto, aquilo é manuelino, tem muito mais a ver com o Alentejo do que com a Andaluzia ou com a Estremadura, de que faz parte. Aquilo é Estremadura, é Badajoz. Mas depois entras nos restaurantes, falas com as pessoas, ninguém fala português, toda a gente fala espanhol, naturalmente, e tudo o resto, saindo esse centro histórico, percebe-se pelo próprio ambiente da cidade, que já é uma cidade com outras características. Independentemente disso, é muito curioso também notar, tu falaste há pouco de Olivença e Juromenha. Juromenha é uma povoação fronteiriça, quase abandonada, muito pouco habitada, que fica numa colina sobranceira ao Guadiana. E quando se está em Juromenha, veem-se os campos de Olivença. E há uma enorme diferença entre os campos do lado português, que é uma zona do Alentejo que não é muito rica, são uns montes daqueles típicos com algumas searas e pouco mais, e do lado de Olivença vê-se terrenos tratados e bons, cheios de laranjais e de outras árvores de fruto e muito mais ricos. E agora o fim do monte da albufeira do Alqueva. É uma situação muito diferente. Historicamente, isto é uma história muito interessante, porque isto vem de muito detrás. Para irmos à origem das origens, é 1230, que foi quando aquela povoação foi ocupada, primeiro pelos templários, depois em 1279, o Tratado de Alcanizes, o reino de D. Dinis, um daqueles de que a gente está sempre a falar. Depois falamos de D. João II, D. Manuel e finalmente da famosa, ou não muito famosa, nós quase não sabemos nada sobre ela, Guerra das Laranjas, que é também um episódio histórico interessante, mas um pouquinho deprimente para Portugal. Do ponto de vista jurídico, a questão discute-se muito, porque Portugal cedeu, depois da Guerra das Laranjas, aquele bocadinho de Olivença. Depois falamos um pouquinho melhor disso, para perceber por que isso aconteceu, como é que os soldados portugueses se portaram, que não se portaram muito bem nessa Guerra das Laranjas. Só os de Campo Maior é que tiveram alguma capacidade de resistência. Em Olivença desistiram logo, em Elvas também. Aquilo foi uma espécie de passeio no parque para as tropas espanholas. Mas para a guerra acabar, e acabar rapidamente, foi cedido aquele pequeno pedaço de território, são à volta de 400 km quadrados, e depois, supostamente, isso foi revertido nos acordos no Tratado de Viena, que finalizou as guerras napoleónicas. A questão é saber, e depois há uma discussão jurídica sobre isso, se o Tratado de Viena tem as características de um tratado equivalente ao Tratado de Badajoz, que é bilateral, e se tem as mesmas características vinculativas do Tratado de Badajoz, e se o Tratado de Badajoz está ou não em vigor. E depois também o que é que são os verdadeiros interesses das populações locais, que nunca verdadeiramente foram auscultadas, apesar de haver quem defenda que se realize um referendo. Eu não creio que tivesse alguma conclusão diferente da modificação da situação atual. Mas vale a pena recordar estes episódios, até porque há ali, de facto, um aroma português quando se visita Olivença, apesar de eu não crer que nem 5% da população quisesse neste momento alterar as fronteiras. E há outra coisa curiosa. A primeira vez que eu estive naquela, não sei se foi a primeira vez, pelo menos a primeira vez que eu andei ali pelo Guadiana, numa altura em que ainda se usavam as cartas militares antigas. Não sei se tens ideia, aquelas a 1:25.000, que nós usávamos para poder orientar-nos no campo, e que ainda hoje os escuteiros usam quando andam a aprender a orientar-se por bússola e não por GPS. Quando andas com essas cartas, há uma coisa curiosa, que é de repente a fronteira desaparece. E há ali um período ao longo do rio Guadiana, a sul da Ribeira do Caia, que não há fronteira. E nunca foi marcada, nunca foi delimitada. Temos ali um bocadinho sem fronteira, ou melhor, sem fronteira delimitada. O rio Guadiana, como é óbvio, marca a fronteira. Mas falamos um pouco melhor disso tudo depois das 10.

Vamos a Olivença nessa altura. Até já, José Manuel.

Até já.

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