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Hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Para participar, só tem que ligar 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no nosso site, ou então enviar-nos o seu áudio por WhatsApp 91 002 41 85. Carla. Faz hoje 45 anos que, ao princípio da noite, o avião em que seguia Sá Carneiro caía sobre o bairro de Camarate, no enfamento do Aeroporto de Lisboa. Poucos políticos como ele foram tão controversos e tão marcantes, porventura nenhum gerou o mesmo tipo de energia transformadora nos nossos 50 anos de democracia. Durante anos discutimos se a sua morte e a morte de Adelino Amaro da Costa tinha sido acidental ou fruto de um atentado, e poderíamos continuar a discutir, mas não é isso que queremos fazer no Contracorrente de hoje. Hoje queremos recordar o que fazia de Sá Carneiro um político diferente e especular sobre uma questão a que, porventura, ninguém saberá responder. Se ele não tivesse morrido, será que conseguiria provocar as rupturas pelas quais se batia, ou será que o velho atavismo de Portugal se iria revelar mais forte? José Manuel, bom dia a ti e aos teus cães.
Bom dia, Carla.
Arriscas uma resposta nesta matéria?
É difícil responder por duas razões principais. Primeiro, porque de facto o atavismo de Portugal é muito grande e porque tudo indica que ele estaria numa posição difícil dois ou três dias depois, porque muito provavelmente iria perder a eleição presidencial. Portanto, Ramalho Eanes voltaria a ser eleito, o que significa que aquela maioria de mudança rápida que ele queria não se concretizaria e ele, em princípio, sairia de primeiro-ministro. E ninguém sabe exatamente o que aconteceria a seguir. Ele era um jogador político muito rápido, muito imprevisível, muito próprio, voluntarista. Mas há algo que nós podemos arriscar, que é nós, para sairmos do regime pós-revolucionário decorrente da Constituição, que de alguma forma teve pontos de compromisso com os militares, e quando ele morreu, ainda éramos um regime semidemocrático. A maior parte das pessoas esquece-se disso. No regime ainda havia uma tutela militar sobre a democracia, por via do Conselho da Revolução. Ele não queria apenas isso, isso foi o que acabou com a revisão constitucional de 82. Ele queria também a libertação da sociedade civil, queria a libertação da economia, e isso só foi possível a partir de 1989, com a segunda revisão. Nove anos depois de ele morrer. Eu creio que uma pessoa com a urgência que ele tinha viveria mal com tanta espera. E Portugal também viveu mal com tanta espera. Nós chegamos atrasados a muito que teria sido possível no desenvolvimento da nossa economia, chegamos atrasados a muito que poderia ter sido a reconstrução do nosso tecido empresarial e industrial, precisamente porque levámos muitos anos a curar as feridas económicas do período revolucionário, e com Sá Carneiro talvez as coisas tivessem ocorrido de maneira diferente. E há sobretudo aqui um ponto que me parece importante, que é um ponto de cultura política. Sá Carneiro era alguém que claramente estava em ruptura com a forma de fazer política em Portugal, com os pequenos passos, com os compromissos constantes, com o não incomoda quem está ao lado, que é um pouco a forma de funcionar em Portugal. Ele queria fazer reformas, ele não tinha medo de fazer reformas, ele construía maiorias para conseguir essas reformas, ele arriscava. E tudo isso são qualidades políticas que se nós olharmos para trás e para todos os primeiros-ministros que tivemos, não são assim tão frequentes como isso. Tivemos outros primeiros-ministros que fizeram reformas, tivemos outros primeiros-ministros que queriam mudar o país, tivemos outros primeiros-ministros que também arriscaram no seu momento próprio. Tivemos primeiros-ministros que tomaram medidas duras e difíceis, tivemos isso tudo, mas não voltámos a ter alguém com aquele sentido de urgência e de rutura que tinha Francisco Sá Carneiro e com algo que também só ele tinha. Aliás, de alguma forma recordo de um texto que nós publicamos no Observador, um texto de José Manuel Durão Barroso, que é uma coisa que não se inventa, que é o carisma. A capacidade de arrastar os outros, mesmo quando os outros não estão convencidos do argumento. Aquele magnetismo muito particular que Sá Carneiro tinha. Nós vamos ter connosco duas pessoas que conviveram com ele de perto, a Maria João Velez, que fez as campanhas eleitorais, esteve com ele, acompanhou naqueles anos frenéticos, e também alguém que o conheceu nessa altura, que é o José Miguel Júdice. Eles vão ajudar-nos a perceber melhor não só a figura, vamos recordar um pouco quem ele era. Para todos os efeitos, já morreu há 45 anos. Haverá muitos portugueses que não se lembram bem de como é que ele era como político, como primeiro-ministro, as dificuldades que teve, tudo aquilo por que passou. E depois também eventualmente falar um pouco do que é preciso fazer para sacudir um pouco este país, que às vezes anda muito parado.
Vamos sacudir depois das 10h00. Obrigada, José Manuel. Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto depois das 10h00. Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador, e pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp 91 002 41 85.