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Em primeiro lugar, o estudo foi realizado em 2023, tem dados de 2022, portanto não sei se em 2025, 54,8% ou mais, ou menos dos portugueses conseguiram poupar. Estamos a falar também de uma amostra, estamos a falar de um estudo que tratou com 1510 adultos e trata-se de um inquérito à literacia financeira da população portuguesa. Está enquadrado num estudo internacional sobre a literacia também financeira dos portugueses e aquilo que revela é que os portugueses têm uma perspetiva, agora depende do ponto de vista. Para uns será cautelosa, muito conservadora, para outros talvez negligente, porque essas poupanças não aplicadas poderiam, de alguma forma, dar alguma rentabilidade, mas sim, os portugueses adoram a sua conta à ordem. Ponto. Esta é um dado. A continha à ordem é uma relação fiel e duradoura. Uma das verdadeiras relações que temos na nossa vida é com a nossa conta à ordem. Presumo que os bancos devem gostar desta notícia, a conta à ordem na vida de cada um de nós é algo que veio para ficar. E depois, o que se pode fazer com o tal dinheiro, que estando na conta à ordem, poderia estar um bocadinho a trabalhar para nós. Eu acho que há um anúncio qualquer que diz isto. A opção é quase que uma espécie de inércia. A maior parte das pessoas que fizeram alguma aplicação para lá da conta à ordem, foram apenas 33%, mas estes que aplicaram o dinheiro, optaram por produtos de baixo risco. Estamos a falar de depósitos a prazo, obrigações. E depois, só 7,3% é que aplicou a sua poupança em produtos financeiros mais complexos. E é neste mais complexo que está o busílis da questão. Por que nós não optamos por produtos mais complexos? Porque isso obriga a combinar diferentes tipos de juro, fazer umas contas mais complicadas, também assumir algum risco e isso parece que colide com várias coisas, com a nossa maneira de ser e também com a nossa dificuldade, e é aí que entra a questão da literacia, com a nossa dificuldade em fazer algum tipo de cálculos, sobretudo quando entramos em fórmulas de juro compostas. E há esse problema de literacia. Esta questão da literacia parece afetar, eu não quero pôr as coisas em termos de literacia, mas algumas destas opções por produtos que rendem menos, que são mais arriscados, os homens parecem estar mais dispostos a fazer esse tipo de apostas. Depois também temos uma outra questão que é: quanto menos dinheiro as pessoas têm, menos arriscam. O que também se percebe. Eu acho que este estudo do Banco de Portugal, neste momento existe uma grande dinâmica, uma grande vontade no próprio espaço europeu. Nós temos a nossa comissária, Maria Luísa Albuquerque, a procurar trabalhar nisso e a trabalhar nessa área, que é criar mercados financeiros na Europa, investimento e tudo isso, mas há aqui algo que colide, que é, por um lado, muitos de nós não conseguem fazer poupanças e os que fazem poupanças têm, de facto, uma perspetiva muito cautelosa dessas poupanças. Eu acho, e também iremos procurar falar disso no Contracorrente, que todas estas pessoas que estão a estudar a forma como nos relacionamos com o nosso dinheiro, talvez também tenham de ter umas aulas de psicologia. E nestas matérias, gato escaldado de água fria tem medo, e todos aqueles provérbios que nos dizem que as opções mais seguras, quer dizer, mais vale um pássaro na mão que dois a voar. Há uma relação com aquilo que poupamos, também ela muito emotiva.
Muito sofrido também, custa muito a ganhar.
E sabe-se lá o que será perdê-lo.
E com tantas crises tão próximas.
E temos também muito aquela memória dos lesados disto, dos lesados daquilo, e um bocado aquela ideia de uma perspetiva muito cautelosa. Acho que há aqui várias questões de literacia, eu acho que também de psicologia, mas a tratar nesta matéria, e sim, precisamos de saber algo mais. E eu também acho que tem de haver aqui alguma responsabilização pela forma como muitas vezes estes produtos nos são apresentados, porque todos nós em Portugal ficámos mais ou menos traumatizados com aquela questão das letras pequenas. Costuma dizer-se que a geografia conta quando se fala das guerras e nestas coisas a história recente também conta, e na minha opinião, muito. E é disso que vamos falar hoje.
Vamos.