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Começa agora o Contracorrente da Rádio Observador. Pode e deve colocar as suas questões e partilhar as suas ideias. Esteja à vontade para participar e dar a sua opinião. É só ligar para o 910 002 41 85. Carla Jorge Carvalho. Este sábado, Cavaco Silva quebrou o silêncio e publicou um longo artigo no Expresso chamado "Empobrecimento e Silenciamento". José Manuel Fernandes esteve a lê-lo e quer discuti-lo no Contracorrente, porque acha que é tempo de darmos razão ao que o antigo presidente da República tem vindo a dizer. Era um longo artigo, José Manuel, por onde é que queres começar? Bom dia.

Bom dia novamente. É verdade, era de facto um longo artigo, era uma página inteira, mas julgo que não tinha palavras a mais. Para começar, tinha muitos temas e não há como não começar pelo princípio, até porque é aí que ele recordava um outro artigo que tinha escrito em novembro de 2000, portanto há mais de 20 anos, quase 21 anos, também no Expresso, onde alertava para o facto de Portugal estar a começar a atrasar-se em relação à Europa. Esse artigo, de resto, não era o primeiro a alertar para os problemas da governação dessa época, que era o tempo ainda de António Guterres, porque meses antes Cavaco tinha publicado no Diário de Notícias um artigo que ficou famoso, que era aquele artigo do monstro, que ainda hoje falamos dele. Mas aqui o interessante é que nesse artigo do Expresso, ele previa que sem mudança de políticas económicas, estaríamos condenados à estagnação, sobretudo à estagnação económica, e aquilo que aconteceu foi que nestas duas décadas houve mesmo estagnação económica. Estagnação económica não é zero crescimento, mas é um crescimento quase nada. Como ele sintetiza agora, os traços marcantes da evolução a longo prazo da economia portuguesa são, inequivocamente, e volto a citá-lo: "A estagnação económica e o empobrecimento em relação aos outros países do grupo europeu com que nos comparamos." Eu acho que este ponto é muito importante, pois é preciso saber com quem devemos comparar-nos. E isto é, no âmbito da discussão, Cavaco acha que devemos comparar-nos com os que fazem parte, por assim dizer, do nosso pelotão. E o nosso pelotão, infelizmente, é o pelotão dos mais pobres. E quando nos comparamos, de facto, com esse pelotão, a comparação é muito má para nós. É para nos verificar, escreveu, e volto a citar, que em 16 anos Portugal já foi ultrapassado pela República Checa, a Estónia, a Lituânia e a Eslovénia, e que as previsões são que nos próximos dois, três anos, o mesmo aconteça com a Polónia, a Hungria, a Roménia, até custa dizer Roménia, a Letónia e a Eslováquia.

Pois, mas José Manuel, não é esse o discurso do governo. O governo tem falado muito de convergência com a média da União Europeia.

Bem, eu sei, mas a meu ver é um discurso que eu acho que é enganador a vários títulos. É enganador porque estamos a falar num período de tempo muito curto, dois ou três anos, em que Portugal realmente cresceu mais do que a média da União Europeia. Mas porque vínhamos de uma crise em que tínhamos caído muito e, portanto, quando crescemos um bocadinho mais, isso não é grande coisa. E depois, porque apanhamos um período em que os países maiores, aqueles que pesam mais, aqueles que contribuem mais para a média, estavam, de facto, a crescer muito pouco. Estou a falar sobretudo da Alemanha e da França. E depois também é enganador, porque as nossas taxas de crescimento, mesmo nesses anos bons, digamos assim, continuavam a ser baixas. Eram taxas de crescimento que nunca nos permitiram ter verdadeiramente esperança num futuro realmente melhor. Essas taxas de crescimento, e agora volto a Cavaco Silva, são taxas de crescimento que nos condenam àquilo que nós temos, infelizmente, e que nos queixamos, que são salários baixos, salários insuficientes para, por exemplo, reter os jovens com a ambição de subir na vida, salários capazes de atrair imigrantes qualificados, a não ser que lhes demos bónus fiscais, que nós não temos. Salários que nos condenam a uma classe média empobrecida, estamos sempre a discutir isso. Salários também nos condenam a pensões de reforma que não permitem uma vida digna. Quer dizer, aliás, falar em vida indigna com algumas das pensões de reforma, nem dá para rir, só dá para chorar, assim como condições de desigualdade e de níveis de pobreza vergonhosas. Mas eu acho que é sobretudo enganador, porque quem está atrás tem que se comparar com quem está também atrás e portanto com quem está no fundo a recuperar terreno. Ora, nós durante décadas recuperamos terreno em relação à Europa e recuperamos melhor que outros. E há 20 anos, a verdade é que começamos a ficar outra vez para trás. Vem lá tudo, por exemplo, e é um dado que eu nem tinha conhecimento dele, é talvez uma das novidades reais do artigo de Cavaco Silva para mim, leitor, é que há um estudo do Banco de Portugal em que diz que a produção de Portugal em 2018, por habitante, era pior que em 1995, portanto, 23 anos antes, o que é quase inacreditável. Acho que é uma daquelas coisas que nos deixa gelados. Eu não sei como estará agora depois da pandemia, porque nós provavelmente estamos com níveis piores que em 2018. Ou pelo menos ainda estamos. Essa que é essa, e sobre isso o antigo presidente não tem dúvidas O que nos aconteceu nestes anos, nestas duas décadas, é responsabilidade dos governos do Partido Socialista. Ele repete essa frase várias vezes.

Sim, repete várias vezes, insiste muito nesse ponto, mas a verdade é que o PS não esteve sempre no poder.

É verdade, o PS não esteve sempre no poder. Em 2002, os socialistas perderam as eleições porque Guterres fugiu do pântano, também fugiu da crise económica, mas deixou uma situação em que foi necessário, pela primeira vez, ter um orçamento de austeridade. Depois, foram-se embora basicamente porque chegaram os tempos difíceis e em 2011 acho que nem vale a pena recordar o que se passou, porque com Sócrates levamos à bancarrota e depois teve que ser Passos Coelho a fazer o trabalho difícil. Basicamente, quando os socialistas não estiveram, foi quando alguém teve que vir arrumar a casa ou pelo menos tentar arrumar a casa. Não quer dizer que tinha feito esse trabalho muito bem feito, mas nunca fez com uma liberdade de fazer tudo como talvez gostasse de fazer. Mas depois, sobretudo, aquilo que é importante é que quando era novo possível crescer, quando estávamos livres da troika, quando outros países que também tinham conhecido dias bem difíceis, dias de troika também, recomeçaram a crescer rapidamente, a sério, com números que se vejam, caiu-nos a geringonça em cima e a aliança dos socialistas com partidos que, e volto a Cavaco Silva, sempre apoiaram governos de país onde impera a ditadura e a miséria. Aliás, ele diz uma coisa que nunca ninguém diz e que é totalmente verdade. Quer dizer, é uma verdade um bocadinho dura, mas é verdade, que é que o combate à pobreza nunca foi uma prioridade efetiva para o Partido Comunista e para o Bloco de Esquerda.

Mas ele não critica só a gestão económica dos socialistas, também os acusa de controlarem o aparelho do Estado e de criarem um ambiente de intimidação. Também achas que esse ambiente existe, José Manuel?

Bem, tens-me ouvido.

Tenho-te ouvido, sim, eu sei a tua resposta.

É claro que acho. Já tenho falado dele aqui várias vezes e o que está em causa não é apenas os socialistas terem ocupado muitos lugares que deviam, por exemplo, ser de autoridades independentes. Temos falado dos reguladores, temos falado de tantos lugares na administração pública, a substituição da PGR, a substituição do presidente do Tribunal de Contas, tantos lugares em que o que aconteceu, aconteceu. O que está em causa não é apenas terem vindo, por exemplo, afastar, por vezes, vozes incômodas, vozes que eram demasiado independentes. O que está em causa é também uma outra realidade que ninguém fala e de que Cavaco Silva falou abertamente neste artigo. Eu, neste caso, acho que vale a pena citá-lo e vou citá-lo diretamente. "São muitos os portugueses que têm medo de criticar o governo. Receiam ser prejudicados na sua vida pessoal, profissional ou empresarial, incluindo de familiares. Medo de perderem o emprego ou de serem injustamente excluídos de oportunidades de elevação pessoal ou de negócios." Bem, podes pensar que é exagerado, mas eu sinceramente acho que não é. Devo dizer que conheço pessoalmente dois gestores de topo de dois grandes grupos económicos que foram mandados calar, literalmente, ou pelo menos abrandar o seu registo, porque faziam muitas críticas ao governo e isso podia prejudicar os grupos em que eles trabalhavam. Isto é o que eu conheço. Admito que Cavaco Silva, que tem um posto de observação diferente, conheça mais casos. Estes casos, como disse, são aqueles que eu sei, que eu conheço as pessoas, conheço as caras, mas de resto, temos falado de muitos mais, em todos os setores, incluindo nas universidades, que devia ser um sítio da maior e mais absoluta liberdade. Por isso, acho que Cavaco volta a pôr o dedo na ferida quando se refere aos relatórios internacionais que dizem que Portugal deixou de ser uma democracia plena. Eu também já falei disso aqui uma vez numa destas crónicas. É, de facto, muito estranho, mas mesmo muito estranho, a questão do país a decair, ou pelo menos, a decair relativamente, eu acho que a gente tem que ver sempre as coisas em termos relativos, como está, haja tão pouco debate, tão pouca discussão, tão pouca revolta, ou tão poucas vozes indignadas, ou se preferires, pelo menos vozes desalinhadas.

Mas isso não terá a ver com a forma como é feita a oposição?

Também é. E também é verdade que temos uma oposição política débil e sem rumo, como ele diz, mas eu acho que isso não explica tudo. A forma como na quinta-feira, por exemplo, o primeiro-ministro tratou o vice-presidente do PSD, fazendo de conta que nem sabia como ele se chamava, só porque ele se atreveu a fazer umas críticas mais duras à história da campanha eleitoral. Eu acho que foi de uma arrogância imprópria para um parlamento democrático, foi uma gritaria sem sentido. Aliás, acho que a forma como no sábado Carlos César reagiu ao texto de Cavaco Silva também foi muito significativa. Fazer de conta que não o leu, dizer que anda sempre, como ele diz, muito desatualizado sobre a produção literária do professor Cavaco. Quer dizer, como se ler um artigo de dois em dois anos ou três em três anos fosse qualquer coisa de mais, é também uma forma, no mínimo, pouco elegante de fazer o que ele tinha que fazer, que era responder politicamente a uma crítica política. Obviamente, que a frase se achava que é produção literária, pois todos sabem que se há coisa que caracteriza Cavaco é ser económico naquilo que escreve ou diz, digamos, não é propriamente como o atual Presidente da República, cada um tem o seu estilo e não vou entrar por aí, mas falar de produção literária não faz sentido. Só que a verdade é que quando ele diz ou escreve alguma coisa, todos sabemos que é algo que tem que ser levado a sério. Quer dizer, este artigo é mesmo para levar a sério. O que ali está recorda-nos como e porquê É bom às vezes lembrar isto, como e por que ele ganhou quatro eleições com mais de 50% dos votos. Porque o que ali está é dito de forma muito clara, transparente e cristalina, tudo o que precisa de ser dito sobre a forma de fazer frente ao empobrecimento, ao silenciamento e à forma como está o país. Eu acho que é quase um guião completo, só falta que impeguem nele e faça oposição a sério, com a mesma clareza e a mesma acutilância. Portanto, Cavaco Silva está vivo, pelos vistos, e fez mexer as águas.

E fez mexer as águas. E com isto temos um longo texto para analisar neste Contracorrente e convidamos os nossos ouvintes a participar. Vamos, de resto, ouvi-lo já daqui a pouco. Para esta manhã convidamos também o economista António Nogueira Leite, que foi mandatário do Cavaco Silva por Aveiro nas presidenciais de 2006, e ainda o professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, André Azevedo Alves, que é também colunista d'O Observador. Muito bom dia aos dois.

Bom dia.

Bom dia.

Bom dia, obrigada por estarem aqui conosco esta manhã. António Nogueira Leite, Cavaco Silva tem razão, estamos, de facto, a perder o comboio do crescimento económico?

Eu julgo que sim. Este artigo faz-me lembrar um outro que tem 21 anos, que é o famoso artigo do monstro, em que Cavaco Silva chamou a atenção para o enorme monstro que se estava a criar na despesa pública, que depois teve consequências mais à frente, mas que mais imediatamente contribuiu toda aquela dificuldade. Eu não me esqueço da meia dúzia de vezes que o saldo orçamental foi revisto pelo senhor ministro Oliveira Martins em 2001. Enfim, foi um grito de alerta que soou forte e que estava absolutamente correto. Desta vez também, eu julgo que aqui há uma questão de autoridade e de clareza, da forma como ele é feito. Autoridade intelectual, como é evidente, e política. E a clareza com que está dito. Portugal, de facto, relativamente a um conjunto grande de países da União Europeia que há uns anos estavam muitíssimo atrás de nós, quando entraram na União Europeia, estavam atrás de nós, estão progressivamente a ultrapassar-nos. E mais do que isso, sem previsão de que nós possamos, se não alterarmos significativamente as políticas económicas, ultrapassar a situação e qualquer dia, se não o invertermos, ainda demorará algum tempo, mas começaremos a disputar o campeonato dos últimos com a Roménia e com a Bulgária. Ora, eu espero bem que isso não aconteça, mas de qualquer das formas, este alerta é importante, porque mais do mesmo vai inevitavelmente conduzir-nos a essa situação. Não nos podemos esquecer que temos uma carga de dívida muito grande no Estado, nas empresas, menos ainda em termos relativos, mas também é significativa em muitas famílias. Que temos um setor da administração pública onde tem havido dinheiro para muita coisa, mas não tem havido dinheiro para o seu correto financiamento, para os investimentos que são necessários. Não é investir por investir, é investir naquilo que é necessário para que os serviços produzidos e para que os bens que são devolvidos à comunidade de contribuintes que o financia estejam à altura do esforço que é pedido a cada um. Quer dizer, nada disso tem sido resolvido. Nós temos vindo numa sucessão de vitórias de curto prazo, todas elas verdadeiras vitórias de Pirro, porque o nosso problema essencial não está resolvido. A economia portuguesa não está num caminho de sustentabilidade de crescimento. As próprias finanças públicas são altamente insustentáveis numa perspectiva de médio prazo. E se não arrepiarmos caminho, o destino será muito pior do que aquele que poderia acontecer se tivéssemos políticas concretas.

António Nogueira Leite, deixe-me só introduzir este fator. O fator pandemia não explica parte desta tendência de empobrecimento ou de não crescimento?

Não. Nós tivemos uma performance um bocadinho pior do que alguns outros países da União Europeia. Vamos agora ter uma recuperação. Não é esse impacto que nos afasta da tendência de evolução dos outros. É uma coisa anterior, que, por exemplo, foi contemporânea dos sucessos permanentes do doutor Centeno, em larga medida devidos a não haver investimento público e a haver uma benesse fantástica da política monetária muito expansionista do Banco Central Europeu. Mas eu só queria dizer aqui uma coisa que o professor Cavaco coloca. Ele falta na falta da oposição. Eu não vou discutir muito por aí, porque parece-me que a oposição não tem sido muito eficaz. Não é que não queira, não tem sido capaz de o fazer. Eu falo é de uma sociedade civil totalmente abúlica. Nós olhamos para as confederações empresariais, na maioria dos casos, não digo todas, mas na maioria dos casos, olhamos para as grandes empresas, para as pessoas onde se pode fazer opinião, para as fundações. Todas elas têm tido pouco impacto. Alguns estudos importantes que têm saído, algum estudo da Goldman que ainda há pouco tempo sobre a sustentabilidade das nossas finanças públicas no médio e no longo prazo, que não teve praticamente repercussão nenhuma. Portanto, os portugueses estão outra vez dedicados àquilo que gostam, que é a espuma do curtíssimo prazo. E aí o governo tem sabido gerir por múltiplas formas, tem dado aos portugueses o que eles querem. O problema é que muitos de nós não estamos conscientes do que vem a seguir.

Isso.

E uma sucessão de pequenas festas pode acabar numa grande tragédia. Não está para amanhã, mas está marcada se nós não alterarmos as nossas políticas.

Muito bem. António Nogueira Leite lança-nos até para o André Azevedo Alves. Já falámos de empobrecimento. A segunda palavra do texto de Cavaco Silva tem a ver precisamente com esse silenciamento. É um silenciamento, uma tal apatia que o António Nogueira Leite dizia que atravessa toda a sociedade, não é só da oposição? A sociedade está genericamente adormecida com o que está a acontecer?

Sim, eu partilho essa análise. Eu julgo que até se calhar, em parte, podemos olhar para a oposição que temos ou que não temos como reflexo dessa anemia mais ou menos generalizada da sociedade civil. Sem particularizar agora em figuras políticas específicas, mas se calhar temos tido também nos últimos anos um padrão de oposição que corresponde mais ou menos a esse padrão de anemia da própria sociedade civil. E acho que isso também se alia com a questão do empobrecimento. Se calhar há uma infeliz tradição longa data na sociedade portuguesa de dependência do Estado e de elites muito dependentes do Estado, com raras exceções, mas poucas. E acho que o contexto, em especial das últimas duas décadas, por um lado, com a divergência e com a falta de recuperação em termos económicos, por outro lado, com uma crescente dependência que vem associada a essa trajetória económica dos fundos europeus, naturalmente controlados pelo Estado direta e indiretamente. Isso tem, a meu ver, reforçado essa tendência histórica de dependência face ao Estado e tem contribuído também para aspetos que são referidos no artigo do professor Cavaco Silva, que o José Manuel Fernandes também no início elencou e que o António Nogueira Leite reforçou, de por exemplo, haver muito pouca margem de autonomia e de independência para algo que devia ser tão simples e saudável como criticar o governo ou políticas do governo em concreto. E portanto, acho que o que vamos assistindo em termos da sociedade civil, da comunicação social, infelizmente, muitas vezes também das universidades, é de facto esse clima generalizado de apatia, de falta de reação. E focamo-nos em elementos de muito curto prazo e perdemos o retrato geral. E o retrato geral, infelizmente, e isso felizmente começa hoje a ser mais consensual, há dois ou três anos não era, esse retrato mais geral é de empobrecimento e de Portugal caminhar, até com a ultrapassagem gradual de vários países da Europa de Leste, que há 20 anos eram substancialmente mais pobres do que Portugal. Portugal caminhar, de facto, para essa corrida de poder vir a competir a curto, médio prazo por tentar evitar ser o país mais pobre da União Europeia.

E, portanto, atrasando-se aí nesse pelotão. André Azevedo Alves, António Nogueira Leite, vamos começar a ouvir também agora os nossos ouvintes que estão inscritos. Maria João Simões, o que é preciso fazer para participar no Contracorrente?

É preciso ligar o 910 024 185. Liguem-nos, têm este número de telefone à sua disposição. Hoje falámos sobre Cavaco Silva, que diz que o PS empobreceu o país e que Portugal tem uma oposição débil e sem rumo. Podemos dar-lhe razão? Queremos conhecer, ouvir a sua opinião, 910 024 185.

E é isso que vamos fazer já chamando o Luís Almeida, que está reformado e fala do Porto. Bom dia.

Bom dia a todos que me estão a ouvir, especialmente à rádio, que me dá a oportunidade de falar. Pela primeira vez eu vi um português a levantar a voz deste nosso país. Não é deste país. É deste nosso país. E levantou muito bem. E é fácil, sabe? Isto da governação em Portugal é como um parafuso. Aperta pra direita, solta pra esquerda. Quando a direita vai pro governo, tapa os buracos que a esquerda fez. Quando a esquerda vai pro governo, para lá se manter, dá dinheiro a tudo e a todos. Dinheiro que não temos, porque Portugal não está autossustentável, não foi depois da independência das colônias. Deixámos de ser, não criámos novas indústrias. Os empresários criaram, mas não foi o governo que as criou. O senhor professor Cavaco Silva vem dizer muitíssimo bem que com socialistas nós vamos pra miséria. E vamos mesmo, não há volta a dar-lhe. Não volta a aparecer outro doutor Salazar, não volta a aparecer outro Marquês de Pombal. E depois nós temos o seguinte: o senhor professor Adriano Moreira, tudo o que diz está correto. O senhor professor Medina Carreira adivinhava isto há muito tempo. O senhor José Gomes Ferreira está em cima das situações e infelizmente o que vai acontecer é aquilo que nos foi anunciado pelo professor José Hermano Saraiva, ou seja, Portugal vai pra desgraça. E permita-me dizer uma coisa que é ótimo que as pessoas ouçam. Se não é a pandemia, Portugal no fim daquele ano entrava em falência. A pandemia veio salvar a governação socialista. Agora com a bazuca, com o plano Marshall europeu, que é uma miséria, uma desgraça, Portugal está acelerado para a desgraça. O povo português está perdido, com desemprego, com fome, com assaltos, com tudo. E está-se a ver, apesar do governo dizer que não, senhora, a criminalidade baixou. Não. Estão a aparecer pessoas esquartejadas, pessoas degoladas, pessoas atingidas a tiro durante o dia.

Calma, também não é tanto assim. Mas enfim, está muito preocupado com o futuro próximo do país. Agradeço muito o seu telefonema.

Totalmente. Aliás, o meu país, Portugal, acabou. Para mim, não preciso lhe ir apalpar o pulso, já vi que morreu.

Muito desencanto deste nosso ouvinte Luís Almeida. Muito obrigada pelo seu telefonema. Um bom dia. Vamos seguir então, vamos tentar ouvir o máximo de ouvintes esta manhã. O Paulo Costa é agricultor, liga de Lisboa. Bom dia.

Bom dia. Tenho primeiro a dizer que acho que Portugal não morreu. Portugal está vivo e do que a gente precisa é, de facto, ir ao desfibrilhador para ressuscitar aqui um pouco da alma portuguesa, para tentarmos dar a volta à situação. Relativamente ao professor Cavaco Silva, eu concordo completamente com o que ele disse, mas só quem não vive em Portugal é que, de facto, não sente a miséria que se vive, principalmente entre os mais pobres. Eu tenho a sorte de não pertencer a uma classe mais empobrecida e que passa muitas dificuldades, que sei que passa. Ainda relativamente ao professor Cavaco Silva, claro, deixo-lhe esse elogio, porque de facto a opinião dele é namoros, mas quero também deixar uma crítica, porque quando o Cavaco Silva foi presidente da República, nomeadamente na governação do ex-primeiro ministro José Sócrates, e ele é um iminente economista, saberia muito bem o que se passava. Nunca o vi fazer nenhuma crítica com a suposta coragem que faz hoje, porque evidentemente está livre de qualquer cargo político. Queria terminar dizendo uma coisa que acho que é a chave para isto. Enfim, passa a modéstia. Temos um país com dois milhões de pobres, segundo agora as últimas notícias, mais 400 mil. Há muitas pessoas na pobreza, mas também há muitas pessoas que vivem mais ou menos e depois há outras que ainda conseguem viver bem, com alguma relativa qualidade de vida. Nós não podemos pedir às pessoas que passam o dia a trabalhar ou a tentar ver o que vão dar de comer aos filhos, que vivem em situação de absoluto desespero e que por isso estão presos na teia socialista, que lhes diz todos os dias: vamos ser nós que nos vamos ajudar a sair da pobreza, que é uma pescadinha de rabo na boca, que não vão ajudar nada. Não podemos pedir a essas pessoas que sejam elas a fazer a revolta. A sociedade tem que se levantar, mas tem que ser as classes que vivem melhor a falar pelos seus concidadãos que vivem pior, porque em Portugal há muito esta coisa: eu estou bem, não me vou chatear muito, senão isto ainda dá desastre. Não! Tem, de facto, de haver uma revolta, e é das pessoas que têm tempo para ligar para o Observador, para se cultivarem, para ir ao cinema, para ir ao teatro. Essas pessoas deveriam levantar-se por Portugal.

Esse apelo que fica aqui também por parte do nosso ouvinte Paulo Costa. Bom dia, obrigada. Vou chamar já o próximo ouvinte, Jorge Spot, liga também de Lisboa, está reformado. Bem-vindo, bom dia.

Bom dia. Está a me ouvir?

Estamos a ouvi-lo perfeitamente.

Olha, é o seguinte, realmente, aquilo que tenho a dizer do que disse o professor Cavaco Silva, concordo com tudo, menos com uma coisa. Ele adiantar nomes como o Passos Coelho. Agora que é velho, adianta o nome de uma pessoa que realmente eu acho que não tem condições, que é o mal do nosso país. As pessoas de valor e com conhecimento não têm sido apontadas, nunca foram por Cavaco Silva, para cargos, até para a sua substituição. De maneira que eu acho que ele faz muito mal quando diz o que diz do Passos Coelho, porque pode ser, como pessoa, uma boa pessoa, mas é uma pessoa que não tem formação para ir agora disputar qualquer ponto contra o senhor António Costa. Além disso, eu acho que foi sempre este o erro de Cavaco Silva. Nunca arranjou nenhum delfim, nunca deu força a ninguém, enquanto lá esteve, para que houvesse alguém que o substituísse. Considerou-se sempre um indivíduo com força para continuar até aos fins dos dias a liderar fosse o que fosse. Pronto, é só isto que eu tenho a dizer, mais nada.

E ficou dito. Muito obrigada por nos ter deixado também esta opinião. Estamos a ter, de facto, muitas pessoas a querer participar neste Contra-Corrente e muitas também estão a deixar nos comentários nas redes sociais, Vanessa Cruz.

Há comentários a subscrever o que diz Cavaco Silva e outros também com críticas. Por exemplo, o Miguel Ianis diz que Cavaco Silva se esquece que o Portugal de hoje é o legado que deixou. Cavaco que diga onde estão as empresas modernizadas com os milhões que recebeu da CEE, onde está a agricultura e as pescas. Nunca ninguém como Cavaco Silva teve tanto dinheiro para definir o futuro do país. Carlos Monteiro diz que a lição de Cavaco Silva não é só para o governo, também deve servir para o atual presidente da República, que tem permitido esta tomada do poder apenas com a fobia de que a legislatura não pode ser interrompida. Cavaco vai ser muito criticado por ter dado um murro na mesa, mas as oposições mereciam isso. Este ouvinte também sublinha que algumas das decisões que agora Cavaco Silva contesta já deveriam ter sido tomadas quando estava no poder. Já Domingas Coutinho, esta ouvinte escreve: "Totalmente certo. O que mais intriga é por que a verdadeira oposição, que tem tantos erros para apontar ao governo, não o faz com convicção e estrondo." Dá o exemplo do que classifica como debandada dos médicos do Hospital de Setúbal para dar essa ideia da falta de fibra por parte da oposição. E apenas mais um comentário, Manuel Oliveira: "O professor Cavaco Silva sabe do que fala. Com uma oposição deste tipo que não se entende internamente e é frouxa e sem voz, não vale a pena. Este país está condenado a viver de bazucas ou esmolas da União Europeia." E depois este ouvinte pergunta: "Alguém se lembra do preço dos combustíveis? Quanto pesa no orçamento das famílias do interior e do litoral sem transportes? Se isto acontecesse com o governo do PSD, caía o Carmo e a Trindade."

Antes de continuarmos a debater o tema do Contracorrente de hoje, que excepcionalmente esta segunda-feira seguirá até às 11h30, reforço que tem até o final desta hora para usufruir do desconto de 40% na sua assinatura anual premium do Observador. Vá ao nosso site, clique no botão "Assinar", escolha o plano anual e no espaço indicado adicione o código de desconto. Aveiro é a palavra de hoje. Não guarde esta palavra do dia para amanhã, ela só é válida para esta hora. Aveiro é o código desta quinta-feira, válido até às 11h da manhã. Carla, vamos continuar a ouvir os nossos ouvintes. O número é o de sempre, 91 002 41 85. Eu repito 91 002 41 85.

Excepcionalmente, vamos então continuar até às 11h30 para conseguir ouvir o máximo de pessoas possível sobre o texto que Cavaco Silva, antigo presidente da República, publicou este fim de semana no Expresso. Podemos dar razão a Cavaco Silva? É a nossa pergunta. Vamos ao encontro dos nossos convidados que escutaram estas opiniões. António Nogueira Leite, o Orçamento de Estado, que vamos conhecer hoje, a que horas seja, poderá comportar algumas alterações, poderá conter algumas alterações com base nos alertas, não obviamente inspirados no texto de Cavaco Silva, mas com os números e os dados que são ali avançados, ou a tendência será de seguir a mesma linha dos últimos seis anos? Que nível de expectativa é que tem para o Orçamento de Estado de hoje?

Francamente, já foram algumas coisas anunciadas. De qualquer das formas, eu penso que não vai divergir muito daquilo que é a linha que vem de trás, pelo menos perante a informação que se vai tendo. Julgo também, por outro lado, que vai dar alguns sinais contraditórios, no seguinte sentido: há da parte do governo, e tem sido expresso por alguns ministros, eu julgo que o ministro das Finanças, embora o senhor professor João Leão fale relativamente pouco, mas também pelo senhor ministro da Economia, tem sido referido várias vezes a importância do crescimento económico, tem sido referida também, por outro lado, a necessidade de capitalizar as nossas empresas. Mobiliza-se o PRR em parte nesse sentido. Há aqui críticas, mas eu acho que há alguma proposta política concreta no sentido do discurso, mas depois, simultaneamente, e porque tem que aprovar os orçamentos com o apoio da esquerda e tem também, eventualmente, que satisfazer a ala bloquista do próprio Partido Socialista, que tem vindo a crescer. Por exemplo, medidas que são atentatórias do bom funcionamento do nosso mercado de capitais, que por sua vez é indispensável para o financiamento das empresas, como seja o englobamento das mais-valias brutas dos investidores particulares acima de uma dimensão que é relativamente pequena, portanto, afastando os pequenos investidores de contribuírem para o mercado de capitais. Este é apenas um exemplo de que há aqui, neste momento, pouca margem para se mudar muito. Claro que há muita gente que acusa o ministro das Finanças e o próprio primeiro-ministro mais à esquerda de estarem muito reféns da sua preocupação com a dívida, mas essa é uma preocupação que eles têm naturalmente que ter e ainda bem que a têm. Agora, não vejo margem, aqui chegados, seis anos após este início, para políticas muito diferentes, embora tenha que haver uma altura, que se calhar será no início de uma qualquer outra nova legislatura, em que as políticas mudam de forma essencial, mas tem que ser muito para além do orçamento. Há muita coisa que tem que ser corrigida e que não vai no Orçamento do Estado. O Orçamento do Estado será mais do mesmo, com algumas incongruências que eu julgo que não são da cabeça do ministro das Finanças, mas são das negociações que é preciso fazer para obter o apoio à esquerda para o Orçamento do Estado.

Que faz parte, como temos visto nos últimos anos. André Azevedo Alves, já aqui citámos um outro texto de Cavaco Silva, o do monstro e do impacto que teve. É expectável que este texto, que nos leva aqui a discutir e que tem suscitado tanta reação por parte dos nossos ouvintes, possa também, de alguma forma, influenciar alguma coisa na vida portuguesa?

Acho que é expectável que tenha alguma influência, até porque o professor Cavaco Silva, uma das características que tem é ser bastante criterioso na gestão das suas intervenções públicas, o que leva a que tenham, quando essas intervenções ocorrem, um maior impacto e que o próprio professor Cavaco Silva tenha mais autoridade também para se pronunciar, na medida em que não é uma figura política que passe os dias a intervir na vida do PSD ou a pronunciar-se sobre os pequenos casos que se vão passando. Se será comparável ao impacto que teve o texto do monstro? Eu acho que vai depender muito do que se passar, quer em termos da governação, quer também na possível reconfiguração à direita do espaço partidário português. Isso nos próximos meses serão provavelmente muito importantes também para perceber o que é acontecer a esse respeito.

André Azevedo Alves e António Nogueira Leite, muito obrigada por terem estado neste Contracorrente, que continua. Quero agradecer a vossa presença na análise que aqui trouxeram e vamos continuar até às 11h30 para ouvir o máximo de ouvintes que se inscreveram para participar, mas José Manuel Fernandes queria te ouvir também agora, fazendo um balanço das críticas e das preocupações que ouvimos Há um sentimento de alerta, mas eventualmente não será suficiente para já mudar alguma coisa.

Não, para já não penso que vá mudar muito. Nós estamos muito condicionados. Para as coisas mudarem é necessário haver uma mudança política.

Uma oportunidade de uma eventual mudança de ciclo político.

Uma mudança de ciclo político. E neste momento o ciclo político tem mais dois anos de vida, pelo menos. Quer dizer, pelo menos não.

Porque também te parece que o Orçamento do Estado que vai ser apresentado hoje e que depois vai ser alvo de negociações, não vai criar nenhuma crise política?

Não, não creio que o Orçamento crie nenhuma crise política. Este era provavelmente o orçamento mais complicado. O próximo é o último da legislatura e não será esse que vai abranger a crise. Portanto, todos os cenários que existem é que vai ser um orçamento que será aprovado mais ou menos com as contas do orçamento do ano passado, com os votos do Partido Comunista ou pelo menos com o agremando do Partido Comunista. Teremos um orçamento de alguma continuidade relativamente ao ano passado. Não haverá aqui grandes alterações. Por aquilo que se vai sabendo, vai ser um orçamento com algumas características parecidas com orçamentos anteriores. Por exemplo, ontem anunciou-se que vai ter muito dinheiro para os hospitais. Eu quase que adivinharia, quando virmos o orçamento executado, não vai ir tanto dinheiro para os hospitais como aquele que está no orçamento. É um clássico, porque depois vão estar lá muitos concursos para abrir que não vão ser compreendidos, vai lá estar muitos investimentos para realizar que depois acabam por não se realizar a tempo e horas. Enfim, são clássicos. Sabemos que isso tem sido assim nos últimos anos. Uma coisa é ter um orçamento que é feito para fingir que se vai fazer e vender uma determinada ilusão, sabendo que os partidos que têm apoiado esta solução governativa estão disponíveis para comprar essa ilusão, desde que tenham três ou quatro coisas que possam dizer, como no último debate que tivemos no Parlamento, vimos o primeiro-ministro lembrar a Jerónimo de Sousa tudo aquilo que de bom o Partido Comunista tinha trazido aos portugueses.

E, portanto, a narrativa muito diferente daquela que o artigo de Cavaco Silva nos trouxe. Vamos continuar a ouvir então os nossos ouvintes. Estamos no Contracorrente, hoje olhando para o artigo escrito pelo antigo presidente da República, Cavaco Silva. A Maria Maceira já aguarda há algum tempo para participar, para intervir. É jurista, liga-nos de Lisboa. As minhas desculpas pelo atraso. Bem-vinda, chegou agora o momento de usar a sua opinião.

Bom dia, não tem nada que pedir desculpa, é sempre um gosto ouvir estes programas, o José Manuel Fernandes e, na generalidade, "O Observador", de que com muito gosto sou assinante. O que eu gostaria de dizer relativamente a este artigo do professor Cavaco Silva é que ele tem toda a razão, do meu ponto de vista. Ouvi há pouco um interventor no vosso programa dizer que ele é culpado de não ter preparado um Delfim. Isso, primeiro, não faz sentido, porque as instituições devem funcionar. A democracia deve ser suficientemente viva para produzir novos líderes, novos certos que galvanizem e que liderem. Isto não se trata de uma monarquia, nem de produzir Delfins. Eu sei que nós vivemos neste momento com um governo que produz muitos Delfins, porque é família e amigos do PS, mas isso não é nada saudável, como se está a ver. Voltando à parte económica e àquilo que disse o professor Cavaco Silva no seu artigo, ele está coberto de razão. Não há uma sociedade que não produza riqueza, que possa ser uma sociedade em que as pessoas queiram viver e sejam felizes. A sociedade que nós temos neste momento com o Partido Socialista é, como sempre, uma sociedade de uma casta, como eu disse há pouco, a família alargada e os amigos do PS, e depois uma enorme quantidade de súbditos que se querem pobrezinhos, obedientezinhos e muito domesticadinhos. E qualquer veleidade de livre pensamento, claro que isto dá muito jeito agora, a contingência que nos foi trazida pela pandemia e também pelo pensamento gramsciano, o woke, o que se quiser chamar, que mata qualquer veleidade de pensamento crítico, de pensamento independente e, sobretudo, de iniciativa privada. A iniciativa privada em Portugal, eu diria dizer neste momento, mas não é neste momento, é sempre que temos um governo socialista, sofre uma verdadeira perseguição. Vejamos aquilo que toda a gente fala do aumento dos combustíveis. Ai as famílias, ai as pessoas que 35 vezes, creio eu, foi aumentado este ano o preço dos combustíveis. Se calhar até foi mais e eu estou a pecar por defeito. Mas já se pensou no que é um empresário português a competir com um empresário alemão, quando tem que pagar a eletricidade ao preço que se paga na indústria e a água para qualquer empresa é o dobro. As pessoas não sabem isto, creio eu, ou não têm consciência. Na generalidade, a água é exatamente o dobro, a água da EPAL.

Para uma empresa ou para consumo doméstico?

É para o consumo doméstico. Como é que é possível? Isto é outra forma de perseguição à iniciativa privada. O ideal, eu não sei se é assim, mas dá a sensação de que o ideal é que sejamos todos dependentes, todos pobrezinhos, ninguém tenha pensamento crítico e sejamos todos muito obedientes. Isto mata qualquer democracia, mata qualquer felicidade e mata qualquer vontade de um jovem que tenha amor-próprio, que seja ambicioso e que esteja preparado, querer ficar neste país. E eu tenho que concordar com esses jovens. Contra mim falo, porque tenho família e não gosto de ter que concordar que os meus jovens tenham que partir para ter uma vida digna, para não viverem de qualquer subsídio. Isto é realmente muito desanimador. Eu só posso concordar com o professor Cavaco Silva quando chama extrema-esquerda àquilo que se passa, porque o regime comunista e o bloco de esquerda, se não são extrema-esquerda, o que é então a extrema-esquerda?

Maria Maceira.

Há que chamar as coisas pelos seus nomes. São tão modestos a chamar extrema-direita a tudo, e a extrema-esquerda não está agora no governo? Não é elogiada a toda hora? Não está completamente capaz de introduzir na sociedade constantes temas fraturantes? E eu pergunto, como sempre perguntei desde o início deste governo: que sociedade precisa de ser fraturada? Eu só conheço sociedades livres, pujantes, felizes e inventivas, quando são sociedades coesas. Sociedades fraturadas, inevitavelmente, são sociedades acabrunhadas, sem rumo, sem esperança e sem horizonte.

Maria Maceira, muito obrigada pela sua intervenção e as reflexões que aqui deixa. Avançamos já para a próxima ouvinte que está inscrita, Maria Margarida da Cunha Pereira. Professora, está a falar de Albufeira. Bom dia.

Bom dia, como está?

Bem, e a senhora?

Eu vou tentar fazer o resumo. Para já, concordo absolutamente com o que a senhora disse. Ouvi a parte final. Concordo absolutamente. Nós estamos, de facto, a viver uma ditadura de esquerda. E vou lhe já dar um exemplo. Quando foi das autárquicas, o primeiro-ministro António Costa disse que tinha ganho não sei quantas autárquicas e que esta eleição era para ganhar todas. Uma frase destas, que ninguém deu por isso, é sinal de ditadura. Eu tenho 83 anos, vivi a ditadura salazarista, no pós 25 de Abril, vivi a ditadura militar, vivi depois aquilo que eu julgaria que era a democracia, e que foi ao princípio, e que neste momento, as atitudes tomadas pelo governo, como a senhora disse, com a extrema-esquerda, quer o Bloco de Esquerda, quer o Partido Comunista, estão a levar Portugal a uma nova ditadura. As pessoas não dão por isso. Estão a ouvir?

Estamos, sim. Estamos a ouvi-la.

É que entrou uma chamada. As pessoas, o povo não dá por isso. Eu vi ainda há pouco tempo uma notícia de que 50% do povo português tem o nono ano ou menos. Depois temos que ver que o povo português hoje com 40, não sei o quê, foram educados por pais do pós 25 de Abril e do 25 de Abril, portanto, a formação antiga não têm. Agora vamos à crítica governamental. Vamos primeiro à minha área, que é a educação. Eu posso-lhe dizer que o meu pai foi candidato com o general Norton de Matos para ser o ministro da Educação deste país. E aprendi com o meu pai, que além de professor, era um pedagogo sensacional, muito do que sei. Primeira coisa que eu critico foi no pós 25 de Abril, ter-se acabado com as escolas comerciais e industriais. O professor Cavaco Silva não andou no liceu, andou numa escola comercial, a seguir fez o Instituto Industrial, a seguir fez a faculdade e o doutoramento, e a seguir foi para Londres fazer outro doutoramento. Portanto, o fato das pessoas terem escolas comerciais ou industriais não significa que sejam menos capazes, menos inteligentes dos que vão para o liceu. Significa que podem escolher preparações, e o meu sonho seria que os vidraceiros, carpinteiros, toda essa classe operária tivesse uma cultura mediana, que se pode dar através das escolas industriais.

Maria Margarida, entramos aqui num domínio que não está tão centrado naquilo que é o pretexto deste Contracorrente, mas fica também essa nota.

Depois vamos para a cultura. Estou?

Sim, Maria Margarida.

Na cultura, 90% ou mais dos portugueses não sabem que nós temos um ballet e uma orquestra sinfônica do Estado, que não dá concertos, nem faz espetáculos de ballet. A cultura em Portugal não existe.

Maria Margarida da Cunha Pereira, são vários os aspetos que está aqui a lançar e a criticar nesta altura sobre o estado do país. Agradeço a intervenção. Vou interrompê-la para passarmos ao próximo ouvinte que já está inscrito e que aguarda para dar a opinião, o economista José Mendes, que liga de Carnaxide. Bom dia.

Bom dia. Parabéns por trazerem a debate este tema que passou muito ao lado da comunicação social, pelo menos em relação à importância que deveria ter. Portanto, parabéns ao José Manuel Fernandes e a este Contra Corrente. Cavaco Silva prestou, mais uma vez, um grande serviço ao país. E o Observador presta igualmente um bom serviço ao trazer o artigo a debate. Vejamos, Cavaco Silva é um ex-primeiro-ministro e ex-presidente da República. É mesmo como primeiro-ministro aquele que teve, e de longe, mais votos. Teve em duas votações mais de 50% de votos, caso único na democracia portuguesa. Como sabemos, os ex-presidentes da República têm, a prática demonstra, um certo dever de reserva no que toca à política interna. Agora, Cavaco Silva se falou, falou porque se sentiu a dever. E nós só temos que agradecer, porque aquilo que diz Cavaco Silva é um facto, o que ele diz é indiscutível. Qualquer observador informado exceto a um que não se revê, Carlos César, que agora é candidato a Prémio Nobel da Literatura. E depois há um aspecto que ele refere no artigo, que tem passado um pouco ao lado do debate até agora. É que os organismos internacionais, há muito tempo, ou pelo menos desde que este governo está em funções, classificam a nossa democracia como uma democracia que não é plena, democracia com falhas, pra não dizer democracia amordaçada, que Cavaco Silva no artigo anterior já referia. Portanto, um facto relevante que deveria ser primeira página, abertura de telejornais, o que é que vimos? Um quase silenciamento. E portanto daí há que tirar o chapéu ao Observador com o seu papel de vigilância e que eu quero fazer notar. Sobre o controle da comunicação social e do aparelho de Estado, nem vale a pena falar muito sobre isso. Isso é uma coisa indiscutível. Quando Cavaco Silva fala do PIB per capita, do crescimento econômico, isso são coisas objetivas, não há aqui nenhum subjetivismo. Por outro lado, há aqui uma coisa que José Manuel Fernandes já abordou, creio que logo na abertura depois das 20:00 ou agora, é que o governo tem utilizado um discurso, que me chamou a atenção, desde o início que este governo refere sempre: "Estamos a crescer mais que a média europeia." Ora bem, e nós a sermos sucessivamente passados. Esta informação é uma falácia. E depois, onde estão os órgãos vigilantes? Onde está, por exemplo, o presidente da República? Marcelo, praticamente sobre o crescimento econômico e Portugal ser passado por todos estes países, nomeadamente os países de leste e esses quatro que vêm aí no espaço de dois anos, quem o diz é o economista experiente chamado Cavaco Silva. Marcelo nada diz ou diz muito pouco, ele refere isto de passagem. Absolutamente relevantes, porque tem a ver com o bem-estar dos portugueses. Para terminar, vou deixar aqui uma sugestão para um tema de um Contra Corrente futuro, que é analisar por que Marcelo não é criticado na comunicação social e nos diversos organismos. Trá! Bom dia.

Muito bom dia, José Mendes. Muito obrigada pelo seu telefonema. Por que Marcelo não é escrutinado desta forma? Achas que não é, José Manuel Fernandes?

Eu acho que há uma relação muito diferente entre Cavaco e Marcelo e os órgãos de comunicação social. E é uma coisa que depende desde o princípio, são animais políticos diferentes.

Um faz uma enorme gestão de silêncio, o outro fala.

O outro fala. Eu costumava dizer que Cavaco fala com os portugueses por cima, tenta falar com os portugueses diretamente, por cima de nós jornalistas, tentando evitar quase que a nossa mediação, dirigindo-se a eles diretamente e procurando evitar as nossas leituras, as nossas interpretações, não se preocupando muito em cativar os órgãos de informação. E Marcelo é exatamente o contrário. Marcelo é um bicho de comunicação social, nasceu na comunicação social. Recordemos que ele começou a sua carreira no Expresso e começou a sua carreira a fazer análise política e projetou-se pra ribalta na comunicação social, como analista numa televisão. Nisso estão completamente nos antípodas. Enquanto Marcelo necessita de se sentir amado também, e por isso tem toda uma gestão da sua agenda política e da sua forma de comunicar dessa forma, Cavaco Silva nunca sentiu essa necessidade, ou pelo menos, não estou a dizer que nunca tinha sentido. Nunca fez transparecer essa necessidade e portanto, geriu silêncios, geriu algum distanciamento e intervinha noutras alturas, o que também fazia com que fosse uma figura capaz de mobilizar outro tipo de calor e outro tipo de intensidade. Quer dizer, os tempos políticos eram diferentes em cada um deles atuou, mas as campanhas de Cavaco Silva, mesmo as mais recentes, as campanhas políticas, as campanhas eleitorais, também eram muito diferentes. Marcelo fez campanhas em que praticamente não havia Os contactos eram de rua, tipo de café. E Cavaco Silva continuava a fazer campanhas que mobilizavam centenas de pessoas. E ele continua a conseguir mobilizar centenas de pessoas, a ser uma figura que mobiliza gente à sua volta, porque acho que fala diretamente pra eles. Também é uma questão que tem a ver com as suas origens. Cavaco é alguém que vem de baixo, que nasceu fora das elites e que conquistou o seu lugar nas elites e que sempre foi visto mal pelas elites. Ao passo que Marcelo é alguém que sempre fez parte das elites, sempre cá esteve e sempre tratou por tu as elites, sobretudo as elites lisboetas. Ele estava no poder mesmo antes do 25 de Abril, por assim dizer, pela família, independentemente de uma relação que não era com o poder anterior. Ele nunca teve nenhuma relação com o poder anterior. Portanto, há aqui duas histórias, apesar de serem os dois do PSD, têm duas histórias diametralmente opostas e que naturalmente faz com que eles tenham duas relações também com o povo português, que são muito diferentes. Eu acho que Cavaco sempre foi mal compreendido pela classe jornalística e pelas elites, porque ele não cultiva esses meios, não vive neles, marca distâncias. Foi sempre o senhor da rua do Poço Solo, o homem do Licame, e não alguém que vive em Cascais, que sempre andou nos meios jornalísticos, que telefona para os jornalistas às 4h da manhã se for preciso. Pelo contrário, a gente sabe que pra falar com Cavaco Silva é preciso, é difícil, é complicado. É uma coisa rara, demora seu tempo.

E Cavaco escolhe com quem quer falar.

O que não quer dizer que não sejam ambos figuras algo misteriosas e que guardem os seus mistérios, porque o lado às vezes muito aberto de Marcelo é uma forma que ele usa para manter os seus segredos.

Esse dado é interessante. Vamos ouvir os nossos ouvintes, continuar a ouvi-los. Gustavo Potier, Liga de Lisboa, é gestor. Bom dia.

Eu gostei muito do tema escolhido para esta manhã pelo Jamail Fernandes, porque fala sobre uma temática que tem estado na ordem do dia, que é até uma bandeira da iniciativa liberal, que é comparar a paridade do poder de compra em relação à média europeia daqueles tais países de leste, que são a Letônia, Lituânia, Eslovênia, no ano 2000 com o ano 2020. Ora, o que acontecia em 2000 com a Letônia, Lituânia e Eslovênia? Eles tinham entre 36% e 41% da paridade do poder de compra em relação à média europeia. E o que aconteceu passado 20 anos? Em 2020, eles passaram de 36% a 41% para 81% a 85% de paridade do poder de compra em relação à média europeia. Passaram a ser duas vezes mais ricos em 20 anos. O dobro, passaram a ser duas vezes mais ricos. O que aconteceu em Portugal? Portugal, em 2000, tinha uma paridade de poder de compra de 83% em relação à média europeia. Nós, em 20 anos, é óbvio que ficamos mais ricos, temos todos uma qualidade de vida superior, mas em relação à média europeia, isso não aconteceu, porque a paridade em relação à média europeia passou dos 83%, que era em 2000, para os atuais, em 2020, 76%. Ou seja, enquanto os países de leste duplicaram a riqueza, nós, o poder de compra, nós, em Portugal, ficamos 7% mais pobres em relação à média europeia. E portanto, mais importante do que estes factos é descobrir por quê e discutir por quê. Ora, porque o socialismo, basicamente, com as medidas políticas e econômicas que faz, só cria uma dependência cada vez maior do Estado, taxa brutalmente as empresas. Há uma lista também que diz que as taxas de IRC nos vários países europeus, Portugal é simplesmente o que paga o IRC mais alto da Europa, comparado com, por exemplo, a Irlanda, que paga 12,5%, a Hungria, que é o país com o IRC mais baixo da Europa, que é 9%. Vários países de leste, estes países de leste todos que duplicaram a riqueza, têm taxas de cerca de 20%. Portanto, a fiscalidade é muito mais baixa, e estes países liberais acabaram por duplicar a riqueza em 20 anos, ao mesmo tempo, nós ficamos 7% mais pobres. O socialismo multiplica a pobreza e o liberalismo basicamente multiplica a riqueza. E este é que é o segredo de nós estarmos a ser ultrapassados por esta gente toda, porque o que a direita governou nos últimos 25 anos foi basicamente limpar os déficits e os buracos criados pela esquerda e portanto, na prática, foram 25 anos de socialismo, que só nos empobrecem cada vez mais e vai continuar, porque a solução é uma fiscalidade mais amigável para as empresas e para toda a gente, e para as pessoas. E o que acontece em Portugal é precisamente o contrário. Nós vivemos dos subsídios e as empresas são prejudicadas em nome do Estado e cada vez mais Estado e cada vez mais pesos e mais impostos pra pagar esse Estado.

Aqui fica também a análise do gestor Gustavo Potier, a quem agradeço. Um bom dia pra si e bom dia também para a consultora imobiliária Isabel Teles, Liga de Cascais. Bom dia.

Olá, bom dia. Peço desculpa. Obrigada pela oportunidade. Primeiro, sou uma pessoa bastante otimista, não só por defeito profissional, em tudo menos no que diz respeito, infelizmente, ao meu país, aos meus concidadãos e a mim própria. Portanto, continuo muitíssimo cética, mesmo pessimista sobre o que tem vindo a acontecer e o que irá acontecer nos próximos anos. Para mim, será nos próximos anos até ao fim desta legislatura e nas próximas uma, duas legislaturas. Em relação ao artigo do professor Cavaco Silva, gostei obviamente de ler e ainda bem que ele o escreveu e que de vez em quando vem à praça pública dizer a sua justiça. Fez-me lembrar bastante o professor Medina Carreira, nos saudosos programas que ele tinha. Ambos tiveram responsabilidades políticas e governamentais em momentos cruciais da nossa democracia. Agora, o que eu queria só é um pequeno ponto. Mesmo no tempo do professor Cavaco Silva e anteriormente, aliás, o professor Cavaco Silva talvez tenha sido o último que teve uma estratégia ou uma visão para o país, só que, a meu ver, uma visão errada. Ele optou por usar os chamados dinheiros da União Europeia para prover o país de infraestruturas, etc. Desde então que não existe nada. E é isso que eu neste momento estou a criticar. Não existe estratégia. Portanto, para já, a ideologia ou doutrina em Portugal é para esquecer, já não se sabe se isto é socialismo, se é comunismo, não se sabe. E depois, além dessa falta de doutrina, não há estratégia. E eu quando falo em estratégias, é a estratégia tipo três, cinco, 10 anos. E foi por isso que eu intervim. Eu estou a reler as crónicas de Fernão Lopes e estou na crónica de Dom Fernando. Isto passa-se em 1300, finais do século XIV, e eu fiquei abismada, já não me lembrava. O que acontece é que o rei Dom Fernando, após uma ou duas ou três guerras com Castela, percebeu que o país não tinha comida. Ele não tinha comida para dar aos seus súbditos. E então o que ele percebeu? Percebeu que Portugal não tinha recursos então, agora também não tem, etc. Que o que tinha que fazer, isto numa perspectiva de curto, médio e longo prazo, foi atacar e fazer com que a lavoura, a agricultura tivesse um boom. Então ele fez tudo, mas tudo, para dar aos seus súbditos meios para reerguerem a agricultura. E ele conseguiu. Portanto, isso foi uma visão estratégica. E neste momento, é isso que eu acho que há demasiado tempo falta no nosso país, dos nossos governantes. Obrigada.

Isabel Teles, muito obrigada. E obrigada também por esta curta viagem na história. É sempre interessante voltar atrás. Às vezes há pedrões. José Manuel Fernandes, num minuto, o que é que tens a dizer depois de todos os contributos que tivemos aqui dos nossos ouvintes?

Olha, talvez acabar com um toque um bocadinho mais otimista. Isto é, tudo na vida pode mudar, tudo na vida se pode alterar. E há uma coisa que é importante: os portugueses em vários momentos, quando tiveram a oportunidade e quando sentiram dificuldades, que nos deixaram com alguma liberdade, foram capazes de dar a volta por cima. Isso aconteceu nas últimas crises económicas. E muitas vezes a questão é: fazem isso quando, no fundo, quando não lhes dizem o que têm que fazer e eles fazem as coisas por eles próprios. Era bom que o mais cedo que fosse possível, isso começasse a acontecer. As eleições autárquicas deram um sinal de que há algumas pessoas, pelo menos em algumas regiões do país, com vontade de mudar e há sinais de que isso possa vir a acontecer. Agora, nós somos uma democracia e nas democracias as coisas evoluem com o seu tempo, não há revoluções e também ninguém pede uma revolução de um dia para o outro.

E portanto fica esta nota, os portugueses até estão à altura quando são chamados para isso. José Manuel Fernandes, voltas amanhã com um novo tema. Temos a agradecer os nossos.

É verdade, amanhã temos o dia do Orçamento de Estado.

Pois é, vamos ver se temos tema amanhã, é um dia marcado pelo Orçamento. Agradeço aos nossos ouvintes. Hoje acompanharam-nos por mais meia hora, até às 11h30. O Contracorrente está de regresso. Bom dia.

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.