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Oito e um quarto. É sempre por volta desta hora que conhecemos o tema do Contracorrente. Se quiser entrar em direto depois das 10:00, só tem que ligar 91 002 41 85, mas também pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp. Carla. As imagens encheram ontem os noticiários. Aqui no Observador publicámos mesmo algumas muito impressionantes, sobretudo da região de Leiria, em que era possível ver milhares de árvores literalmente arrancadas ou quebradas. Em Vila Franca, um homem morreu por causa da queda de uma árvore e em muitas das nossas cidades os estragos foram imensos em automóveis e em edifícios. É verdade que Christine trouxe ventos que sopraram com uma violência nunca vista. Em Montreal foi mesmo registada uma rajada de 178 km/h. E com ventos assim, com a intensidade de um furacão, não podemos esperar milagres. No entanto, fica uma pergunta: será que algumas das árvores que caíram em zonas urbanas, as que causaram mais estragos, estavam bem tratadas ou será que elas deviam ter sido abatidas? Num tempo em que há um romantismo que às vezes pode chegar a desafiar a racionalidade, queríamos discutir no Contracorrente de hoje até que ponto sacralizamos as árvores ao mesmo tempo que as não preparamos ou não nos preparamos para estas tempestades. José Manuel, vives fora do meio urbano, todos sabemos, no meio das árvores. Houve muitos estragos aí para as tuas bandas? Bom dia.
Bom dia, Carla. Felizmente não. Como sabemos, infelizmente para a região de Leiria, foi trágico. Este tipo de tempestades tem um foco relativamente centrado, não arrasta tudo, mas onde é centrado são ventos terríveis. O ano passado, em março, houve um desses focos que passou aqui pela serra, que foi a tempestade Martim, e essa sim, derrubou, estimava-se na altura, mais de 100 mil árvores. Eu acredito até que possam ter sido mais, a maior parte delas em ambiente natural. Estamos a falar de árvores que crescem livremente, algumas à beira das estradas, que bloquearam as estradas também durante bastante tempo, como de resto agora aconteceu em Leiria. Nós vemos que muitos daqueles estragos, nós temos designadamente aquela fotografia que tu referiste, que é muito impressionante, sobre as árvores todas caídas sobre a estrada e também sobre a via férrea. Na zona do Pinhal de Leiria aquilo parecem palitos que foram cortados.
Sim, é muito impressionante. Essa imagem é muito impressionante.
É muito impressionante, de facto. Independentemente destas tempestades, que são, em muitas circunstâncias, situações limite, nós sabemos que há uma relação com as árvores que tem aspetos que eu diria até românticos, tem entre o romântico e o exagero, por um lado, e, por outro lado, o descuido. Primeiro, eu acho que nós romantizamos muito as árvores e temos pouco conhecimento sobre elas. Há muitas árvores que consideramos absolutamente ímpares e que, na prática, não são naturais de Portugal e que podem ter características monumentais e valer a pena ser protegidas, mas, por vezes, as árvores são seres vivos, e como seres vivos adoecem, podem morrer, podem ter períodos de fraqueza, de fragilidade e, sobretudo, se convivemos com elas em espaços urbanos, é necessário procurar minimizar os riscos. Uma das pessoas que morreu foi um senhor que andava a entregar pão, suponho que de madrugada. Não, de certeza de madrugada.
Sim, foi às 04:30 da manhã.
Às 04:30 da manhã, de madrugada, andava a distribuir pão. Como sabemos, quem distribui pão trabalha de madrugada. E de repente caiu uma árvore à beira de uma estrada, mas numa zona bastante urbana. Eu já estive a ver o sítio, ali é Nacional Lumas, é numa zona praticamente urbana, perto de Vila Franca de Xira, entre o centro de Vila Franca de Xira e o Hospital de Vila Franca de Xira. O que significa que havia à beira da estrada árvores. Aqui os ventos foram fortes nesta região de Lisboa, mas não tiveram a intensidade de Leiria. Em Leiria nada resiste. No limite, nada resiste. Mas, em princípio, nas zonas mais urbanas, deveríamos ter o cuidado de ter o arvoredo preparado para estas situações. Só que isso, às vezes, é difícil por várias razões. Uma das razões é que há um espírito, que depois leva ao longa abaixo de assinados e providências cautelares, que não se pode tocar nas árvores. Mesmo quando elas, às vezes, estão a invadir a via pública, mesmo quando elas, muitas vezes, estão em risco de cair. Apenas porque são árvores, apenas porque são bonitas. E nisso é preciso ter um bocadinho de racionalidade. Eu tenho visto, tenho assistido, tenho testemunhado, aqui na zona onde vivo, que ao longo da estrada em que todos os dias circulo, de vez em quando há abate de árvores, quase sempre há polémica, mas devo dizer que, por regra, são abates bem feitos e alguns daqueles que não foram feitos, as árvores depois acabam por cair, como aconteceu, de resto, nestes últimos dias, curiosamente, não na noite de ontem, mas em dias anteriores. Depois há as normas que são impostas. Estas coisas é muito bonito estar a fazer leis. Portugal é um país especialista em fazer leis. Nós temos uma lei, penso que o número dela é 59/2021, uma lei aprovada pela Assembleia da República, praticamente por unanimidade. Só o PCP é que votou contra, o Chega e a Iniciativa Liberal abstiveram-se, mas isto em 21, cada um deles julga que era só um deputado. Não contava. Uma lei apresentada pelo PAN e depois votada por todo o resto E essa lei prevê coisas impossíveis. Por exemplo, essa lei prevê que não se possa tocar nas árvores para fazer podas, limpezes, para verificar o estado sanitário, etc, sem se ter o estatuto de arborista. E depois dá 120 dias, estamos a falar de 2021, para regulamentar o estatuto de arborista e dizer quais são as condições de formação dos arboristas. Não aconteceu nada ainda, como é óbvio. Não aconteceu nada. Depois, exigem-se coisas como inventários totais, árvore a árvore, das árvores existentes nos municípios, em áreas urbanas. Não sei quantos municípios fizeram isso, mas admito que não tenham feito. Depois, alguns tratamentos que às vezes são um pouco mais radicais, algumas podas mais radicais, são pura e simplesmente proibidos, mesmo quando, eventualmente, eu admito que existam situações em que eles são necessários. É quase impossível, de facto, proceder ao abate de árvores, é quase preciso um requerimento ao Presidente da República. Criamos um labirinto, tudo com boas intenções, claro, mas mais uma vez criamos um labirinto tão denso que eu não consegui encontrar as intervenções do PCP para ter votado contra, mas acho que basicamente votou contra por razões de bom senso. Isto é, vê lá tu as razões do PCP. Autonomia municipal, falta de recursos, complexidade regulamentar. Eu diria que estou de acordo com o PCP. Estou de acordo com o PCP, porque isso ainda por cima coloca uma quantidade de complicações na sua ligação ao ICNF, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas. Isto, se calhar, é uma daquelas leis que o meu homónimo, Ministro da Agricultura, gostaria que os serviços ou aplicassem com bom senso ou sugerissem a sua revisão, porque muito provavelmente não ajuda a manter em condições de sanidade e segurança árvores em ambientes urbanos. E quando isso não acontece, entre outras coisas, elas destroem bens, alguns públicos, outros privados, automóveis, casas de habitação. Vimos imensas situações dessas em imagens dos últimos dias. E eu até compreendo que nalgumas questões isto seja muito difícil. Eu, por exemplo, quando era miúdo, relativamente novo, eu estudei numa zona aqui de Lisboa, na Alvas Cabral, em duas fases da minha vida, no pré-escolar e depois no ensino liceal, juntos ao Jardim da Estrela, e havia à entrada do Jardim da Estrela, junto à estátua de Alvas Cabral, um enorme lemeiro. E houve uma altura, de repente, eu vi o lemeiro ser abatido. E pensei: "O que se passou aqui?" Era uma árvore magnífica. Praticamente todos os lemeiros de Lisboa desapareceram porque apareceu uma doença. E às vezes, quando aparecem essas doenças, que são fungos, nalguns casos, como por exemplo, nas palmeiras, é um escaravelho, a única solução é abater o mais depressa possível. Só que isso, naturalmente, não é algo que os leigos possam decidir. Há aqui um equilíbrio que penso que muitas vezes nos falta. E acho que vale a pena refletir um pouco sobre isto, porque uma coisa é acharmos que conseguimos manter todas as árvores de pé. Não é possível. Outra coisa é acharmos que as árvores são intocáveis, o que também não é possível.
É uma discussão para ter depois.
É uma discussão que temos depois.
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