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José Manuel Fernandes leu a carta aberta que dezenas de personalidades escreveram hoje a apelar à reabertura das escolas e quer colocar no Contracorrente uma pergunta incômoda. Que pergunta é essa, José Manuel?
Eu vou ser muito direto e, se calhar, até um bocado brutal. Eu às vezes interrogo-me se não somos cada vez mais um país de velhos e governado por velhos. Acho que não é uma pergunta fácil. É um país de gente naturalmente medrosa e, vou mais longe, governada por hipocondríacos. Desculpa lá a franqueza, mas é a franqueza de alguém que também já é velho, porque eu não sou novo. Eu acho que tenho que ter a frontalidade de o assumir sem peneiras. Tenho pena que outros não o façam e que este país, às vezes penso que está nas mãos de uma espécie de brigada do reumático. Nunca tivemos gente tão idosa a governar-nos, ou pelo menos com uma mentalidade tão antiga em muitos aspectos. Só isso explica, na minha perspectiva, ou se calhar só isso é que explica, a pouca atenção ou nenhuma atenção que se deu à educação e sobretudo alguns problemas da educação nesta crise. Só isso explica a forma criminosa, eu acho que é mesmo criminosa, como se abandonou os mais pobres, sobretudo os mais pobres dos mais jovens, como se achou que se podia fechar escolas para proteger os mais velhos, sem dúvida que se tinha que proteger os mais velhos, mas não era provavelmente desta forma, e sem perceber que assim se estava a sacrificar uma geração inteira de crianças e de jovens.
Estás a referir-te ao problema dos computadores.
O problema dos computadores é uma gota d'água no oceano. É evidente que sem computadores, as crianças e jovens das famílias com menos posses nunca poderiam acompanhar as aulas on-line. Isso entra pelos olhos dentro. Mas mesmo que elas tivessem computadores, faltar-lhes-iam muito mais coisas. Faltar-lhes-ia, por exemplo, espaço em casa para estudar, porque muitas têm casas minúsculas. Às vezes faltar-lhes-ia mesmo uma casa decente para estudar, com espaço, uma mesa, um lugar sem frio, uma casa sem humidade. Se tivessem uma casa decente, eu perguntava: e depois onde é que estavam os pais para os ajudar? E será que, por exemplo, nessa casa havia livros? Sabemos que não haveria livros em muitas delas. E será que os pais poderiam ajudar a tirar dúvidas de Matemática, de Português, de Biologia? Sabemos que não, sabemos que muitos pais não tinham formação pra isso. Sabemos também, todos os estudos mostravam, que o nosso sistema de ensino já não estava a funcionar como um elevador social. Agora, eu não tenho dúvidas nenhumas que com esta quebra, com a quebra provocada pelo confinamento, o sistema de ensino está a funcionar mesmo é como um afundador social.
Um afundador social. O que queres dizer com isso?
Quero dizer aquilo que eu acho que já todos estamos a constatar e que os estudos estão a mostrar. Com as escolas fechadas, quem foram os primeiros alunos com quem as pessoas perderam o contato? Foram os filhos das classes mais desfavorecidas. Com as escolas fechadas, quem não conseguiu acompanhar as aprendizagens não foram apenas os que não tinham computadores. Foram também, por exemplo, os que dormem na sala porque não têm quarto próprio. Foram os que não têm pai nem mãe em casa todo dia, porque os pais, por exemplo, não têm sequer o luxo do teletrabalho, porque trabalham em obras, porque trabalham em limpezas, coisas desse gênero, por exemplo. E não chegam aos jornais para poderem contar as suas histórias. Foram, no fundo, os que já estavam na base da pirâmide social e que, se calhar, agora vão ficar nas catacumbas da pirâmide social. Quem é que se preocupou com essas crianças e com esses jovens? Eu acho que se preocupou muito pouca gente, preocuparam poucos comentadores, meia dúzia deles, e sobretudo preocuparam-se muito poucos políticos, quase nenhuns.
E então é por isso que tu dizes que somos governados por velhos.
Porventura. Não sei se essa é a única explicação, mas há coisas que às vezes não entendo, há insensibilidades que me escapam completamente. Nesta carta aberta, que foi assinada por pais, professores, epidemiologistas, psiquiatras, pediatras e outros médicos, psicólogos, cientistas, gente de muitas profissões e de muitas áreas, chama-se a atenção pra uma coisa, que é: o encerramento das escolas em Portugal em 2020 foi dos mais longos da União Europeia. Dos mais longos. Em 2020, foi antes de nós termos tido a pior crise de todas, foi quando nós éramos ainda um milagre. E já tínhamos tido um dos encerramentos mais longos. Isto tem um preço. Isto significa que os danos infligidos foram dos mais profundos, num país onde já sabíamos que tínhamos um sistema frágil. Agora eu pergunto: como é que isto não foi discutido? Como é que isto não gerou contestação social? Por que nunca se faseou o fecho das escolas? Por que nunca deixámos abertos os primeiros ciclos, que são aquilo onde isto é mais crítico, onde isto é mais delicado? E também, onde nós já sabíamos que isto causava menos problemas à saúde pública. Sobretudo, e isto é que acho que é uma pergunta central, por que houve a preocupação de proteger o Natal e nunca houve a preocupação de proteger a escola? Eu, infelizmente, só encontro uma resposta. Somos um país que se desinteressou dos mais novos, ou pelo menos não se interessou o suficiente pelos mais novos. E se calhar isso acontece porque somos um país onde a pirâmide etária se inclinou para os mais velhos, somos um país envelhecido.
O que estás a dizer é muito duro, José Manuel.
É verdade, é muito duro de dizer, é duro de ouvir, mas basta olhar para os números para vermos que é mesmo assim. Na União Europeia, nós temos a terceira taxa de envelhecimento mais elevada. Pior que nós, só a Itália e a Alemanha. Em Portugal, em 2018, que é o último número para que há anos, já havia 157 idosos para cada 100 jovens. É uma proporção horrível. E depois repare, também já não somos governados por gente nova. Eu fui ver, porque tinha esta impressão, mas não tinha a certeza. Quando Marcelo tomar posse em março, será o presidente constitucional a tomar posse com mais idade. Ele será mais velho do que Cavaco Silva quando tomou posse para o seu segundo mandato. Nunca nenhum presidente tomou posse tão velho como ele. Ele tem aquele ar tão jovem e enérgico. Mas a verdade é esta: nunca ninguém tomou posse para o segundo mandato tão velho. Não lhe estou a chamar velho, porque como já me chamei velho a mim próprio. Portanto, vamos ver as coisas. António Costa também está quase a tornar-se no primeiro-ministro constitucional mais velho. Só Mário Soares é que foi primeiro-ministro com mais anos do que ele tem agora. Isto faz-me lembrar a Itália de há 30 anos e isso não é muito encorajador, tenho de dizer-te, porque ainda há 30 anos é que já só tinha sexagenários e mais do que septuagenários a governá-la. Sobretudo porque ao mesmo tempo sinto que há este esquecimento, esta indiferença relativamente aos mais novos. Isto podia não estar a acontecer, mas está a acontecer e é uma coincidência que me faz pensar. E eu falo não sendo novo. Sou sexagenário, portanto. Sinceramente, sinto que aquilo que fizemos ao fechar as escolas, todas as escolas, mesmo as escolas mais pequenas, onde tudo indicava que os problemas eram mínimos, foi mesmo um ato egoísta, foi egoísmo geracional e foi egoísmo de classe. Os mais ricos, os que têm computadores em casa, aqueles que podem ajudar os filhos a estudar, aqueles que têm quartos aquecidos para os filhos estudarem, são aqueles que também tomam as decisões e não pensaram nos outros. Os outros não falam, não têm direito a palavra, ninguém lhes liga. Ficaram mais uma vez para trás. Mais uma vez agimos em medo e vamos voltar a agir em medo e portanto vamos voltar a perder tempo. É aquilo que me parece que saiu ontem da reunião do Infarmed e vamos voltar a ficar atrasados. Por isso, leiam ao menos esta carta aberta que saiu hoje no Observador, no Público e no Expresso. Eu sei que muitos não vão mudar de opinião, mas talvez ao menos fiquem com alguns problemas de consciência, pelo menos aqueles que ainda tiverem consciência. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.