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Será que o que parecia impossível é afinal possível? Esta pergunta atravessou o mundo desde que se soube que contra muitas expectativas, contra quase todas as expectativas, o presidente Trump conseguiu que o primeiro-ministro israelita aceitasse um plano de paz para Gaza, que no essencial já tinha também o acordo da maioria dos países árabes e muçulmanos e depois não tardaria a ser também bem recebido na Europa, mesmo pelos países que ainda há poucos dias tinham decidido avançar contra a opinião dos Estados Unidos com o reconhecimento do Estado da Palestina. A pergunta faz todo sentido porque já houve muitos acordos de paz no Médio Oriente, já se acreditou por mais de uma vez estar à beira de uma solução duradoura, tudo isto antes de nova desilusão. Desta vez nem sequer aí chegamos, até porque o Hamas ainda não disse se aceitava ou não o plano de paz, mas mesmo assim a pressão é brutal e a ocasião pode mesmo ser única. É isso que vamos tentar perceber neste Contracorrente. José Manuel, bom dia. 20 pontos para um cessar-fogo, 20 pontos para vermos Trump a receber o Nobel da Paz?

Isso não sei. Mas vamos lá ver, se por acaso este plano correr bem, e não há nenhuma garantia que corra bem, já ultrapassou alguns dos obstáculos mais difíceis. É indiscutível que a aceitação por Israel é significativa. É significativo o telefonema que, a partir da Casa Branca ou pelo menos a partir de Washington, Netanyahu teve de fazer ao emir do Qatar, porque foi aquele ataque que houve no Qatar, mas ao mesmo tempo, tudo aquilo que aconteceu não deixou de deixar um conjunto de sinais, e esses sinais são que não se pode acabar esta guerra e repor tudo como estava antes. Basicamente, o que pode estar em causa neste acordo é um caminho diferente, porventura, daquele que se imaginava, mas um caminho para por fim resolver a questão daqueles territórios. O que é que há de diferente nesta proposta de acordo, que ainda não foi aceite pelo Hamas? A pressão dos países árabes, e particularmente do Qatar, é muito grande sobre a liderança do Hamas. A pressão militar sobre o Hamas também é muito grande, por isso veremos o que é que pode sair daqui. Aquilo que é mais difícil agora é conseguir algo que só com uma total derrota militar foi conseguido no passado, que é uma organização com as características do Hamas se renda e entregue as armas. Isto não é fácil de acontecer, mas é isso que pretendem, não apenas Israel, mas, para ser francos, não tiremos areia para os nossos olhos, os seus vizinhos também não querem a vizinhança do Hamas. O Egito não quer, o Qatar era de alguma forma um aliado, também está a sentir que não pode continuar com o jogo duplo que tinha até agora. A Jordânia, a própria Síria não querem continuar a ter aquele tipo de organização dentro das portas do vizinho, por assim dizer. O que há de novo nesta proposta é um plano cujo avanço é medido por passos que estão, na maior parte dos casos, relativamente bem definidos, não estão totalmente definidos, como é óbvio, e implicam inúmeros riscos e avanços que nalguns casos podem ser relativamente rápidos. Por exemplo, deixa de haver uma libertação faseada dos reféns, como aconteceu nos anteriores acordos de cessar-fogo, eles têm que ser libertos todos de uma vez. E só depois disso é que Israel liberta um número de prisioneiros, e portanto de presos e detidos, proporcionalmente 15 vezes superiores, à volta disso ou mais mesmo, do que o número de, nalguns casos, são apenas os corpos dos israelitas que foram levados como reféns para a Faixa de Gaza, os restos mortais. Há vários passos desse género. Há aqui uma novidade que é o controle da Faixa de Gaza não fica nem com Israel, nem com a autoridade palestiniana, que manifestamente não tem condições para isso, mas com forças árabes. Forças árabes que têm, porventura, um duplo interesse em aceitar este desafio. Por um lado, controlarão o processo de reconstrução da Faixa de Gaza, e isso para países que nós nos habituamos a terem um desenvolvimento económico robusto, pode ser um bom negócio. E, por outro lado, poderão também, de alguma forma, controlar a desradicalização daquela região. Repara, muitos destes países que estamos a falar, foram países que já viveram internamente problemas deste género. É o caso do Egito, é o caso da Síria, que viveu uma guerra civil. Sim, a Síria não entrará neste processo, mas é também seguramente o caso da Jordânia, que chegou a ter uma quase guerra civil entre as autoridades jordanas e os palestinianos, na altura a OLP, ainda de Yasser Arafat, isto já foi há muitos anos, mas faz parte da memória daquela região e as memórias ali são muito fortes. Os próprios países árabes com maior dimensão, Arábia Saudita e por aí adiante, que também têm tensões grandes deste género no seu interior e que querem fazer uma evolução. Eles não gostariam de ver Os radicais voltarem a ganhar força e querem ter um caminho, já se percebeu, isso começou a perceber-se com os Acordos de Abraham, para poder estabelecer algo que durante muito tempo todos aqueles países recusaram e alguns deles ainda não aceitam, que é a solução dos dois Estados. Portanto, para haver dois Estados, não é só preciso aceitar que possa haver um Estado da Palestina, também é preciso aceitar que haja um Estado de Israel. E que esse Estado de Israel tenha as condições que tem hoje, que não seja obrigado, por exemplo, a aceitar o regresso dos que saíram de lá há 80 anos. Imaginemos que nós íamos exigir o mesmo aos turcos relativamente aos gregos que foram expulsos há um século, ou aos turcos que foram expulsos também há um século numa troca de populações muito mais gigantesca do que aquela que aconteceu naquela região, ou mais recentemente, por exemplo, o que aconteceu no final da Segunda Guerra Mundial com brutais trocas de população, ou mesmo ainda mais recentemente, o que aconteceu também nos Balcãs, quando a única forma de aquilo ficar semipacificado, não está totalmente pacificado, foram também, na prática, trocas de população. Para conseguir a paz, para acabar com guerras, é preciso que haja concessões. Parece haver um caminho e não deixa de ser, de alguma forma, surpreendente que esse caminho esteja a ser aberto por um presidente que talvez por ser inesperado na forma como atua, acaba por criar sobre os diferentes protagonistas uma pressão maior do que o business as usual de outros presidentes americanos ou mesmo de outras figuras da política internacional. Vamos falar um pouco disto tudo, porque isto está a tornar-se muito movidice, como é óbvio, e como noticiamos agora, a famosa flotilha está a aproximar-se, já toda a gente pediu para ela parar, enfim, outras autoridades, mas eles querem mesmo tentar ver se fazem isto descarrilar tudo, porque para eles o que está bem é que isto descarrile tudo.

É que está tudo a acontecer ao mesmo tempo. Até já, José Manuel.

Exatamente.

O plano de paz de Donald Trump para Gaza é o tema do "Contracorrente" de hoje. Participe através do 910 024 185, depois do jornal das 10.