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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador, esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Olá, coronel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia. Começamos por Donald Trump, que voltou a garantir que a guerra contra o Irão vai acabar muito em breve. Não deu mais detalhes, mas reafirmou que Teerão nunca terá uma arma nuclear. Coronel, já poucos levam a sério as palavras de Donald Trump. Qual é a sua leitura? É Trump mais uma vez a falar para os mercados e a tentar acalmar os eleitores norte-americanos?
Muitas vezes nós ouvimos o que o Trump diz e damos o desconto. A linguagem dele é hiperbólica. Agora, neste caso do Irão, há aqui indicadores de que ele não está propriamente enganado. Ou seja, neste momento, o que se está a verificar ali no Golfo é que o petróleo está a fluir bastante. Não para o Irão, mas para os outros países todos. Há ali uma operação montada junto à costa do Omã que está, neste momento, a conseguir exportar para fora do Golfo cerca de 80% a 90% do petróleo que era exportado antes da guerra.
Antes da guerra, sim.
E por isso, há ali uma pressão que está a crescer sobre o Irão. Porque é o único país, neste momento, que não está a conseguir exportar. O Irão tem algumas vantagens, neste momento. Conseguiu, não é conseguiu, mas pelo menos reivindicou que os americanos saiam do Iraque. De fato, saem hoje do Iraque, tiram lá as últimas tropas. Enfim, não resulta de uma campanha iraniana, mas era um dos objetivos do Irão e, portanto, nesse aspecto, o Irão tem uma vitória. Agora, naquilo que é importante para o Irão, que é a sua capacidade de sustentar todo o dispositivo de coerção que montou na região, está claramente a perder. E são as companhias de seguros que dizem isso. Ou seja, as companhias de seguros começam a baixar os prêmios sobre os navios de petróleo que passam pelo Ormuz. E, portanto, isso é um indicador muito claro de que o Irão está a sofrer uma pressão brutal e agora vai haver manifestações internas. E tudo isto acumula uma pressão sobre o Irão, que leva a que sim, pode estar no horizonte, se for mantida a pressão. Pode estar no horizonte, enfim, pelo menos o fim ou neutralização desta entidade que, no fundo, criou ali na região uma espécie de um imposto, o imposto dos Aiatolas, que leva a que todos aqueles países gastem imenso dinheiro e fique depois reverso sobre nós também. A aprimorar exércitos, dispositivos de segurança, comprar armas, etc. Eu penso que está ali uma possibilidade de vitória.
Sim.
Se os Estados Unidos mantiverem a pressão.
Entretanto, a Guarda Revolucionária do Irão publicou uma carta aberta dirigida precisamente aos eleitores norte-americanos que falava. Uma carta que apela à mudança de governo nas próximas eleições, pede que rejeitem as políticas de Trump e que aceitem uma proposta de coexistência pacífica entre Teerão e Washington. Coronel José do Carmo, esta tentativa de influenciar o voto americano não corre o risco de ter o efeito contrário, isto é, de unir os eleitores em torno de Trump?
Pois, é isso mesmo. Isso é o que nós vemos. Ou seja, é evidente que aqueles eleitores muçulmanos e que, no fundo, já votam contra Trump, a maior parte deles vota no democrata, irá continuar a fazê-lo. Portanto, isso não creio que afete muito. Agora, certeza que vai unir alguns mais nacionalistas. Não me parece que seja uma atitude muito inteligente. Aliás, as atitudes do Irão, ultimamente, não têm sido muito inteligentes. Esta tentativa de negociar, acreditando que os Estados Unidos estão mortinhos por negociar, a Trump acaba a mostrar que não, pelo menos deu indicações que não. Enfim, não há uma resposta oficial, mas pelo visto a resposta oficiosa é que os Estados Unidos estão numa situação de vantagem e não vão desperdiçá-la agora. O que havia a descontar das eleições já foi descontado. O petróleo não está a subir assim tanto como se pensava, pelo contrário, tem estado a descer ligeiramente, e é previsível que o Irão esteja a atingir os seus limites.
Os seus limites, pois. Portanto, isto é mais desespero do que outra coisa.
Sim, é aquela esticulação própria de quem fala não sei para quem, mas fala para o exterior. É evidente que o Irão gostaria de ter uma entidade da Casa Branca mais cordata e que aceitasse um certo equilíbrio, que no fundo representa, neste caso para o Irão, um domínio sobre a região, um domínio sobre as reservas de petróleo e uma capacidade de as usar como chantagem.
Em Israel, e a menos de um mês das eleições, o líder da oposição, Yair Lapid, acusou Netanyahu de manipular o medo para ganhar votos, isto depois do primeiro-ministro ter avisado para o risco de um ataque durante as eleições. Coronel, Netanyahu está, de fato, a usar a segurança nacional como trunfo de campanha eleitoral ou Israel pode estar perante um risco real de uma nova escalada regional?
Há uma possibilidade, não quer dizer que seja uma possibilidade muito provável, mas há uma possibilidade perigosa de o Irão, em desespero, enfim, isso é uma das coisas que já foi analisada por alguns especialistas. O Irão tem duas hipóteses perante uma situação em que se está a aproximar de um momento decisivo, que é ou fugir para frente ou fugir para trás. Fugir para trás não parece, porque aquela gente vive numa bolha ideológica onde isso não é visto como aceitável, ou seja, o recuar, o transigir. Embora Khomeini o tivesse feito no seu tempo. Agora, é uma das possibilidades, é justamente que esta gente faça uma surtida, no fim, ou seja, estão em desespero e lançam-se para frente. E nesse caso, sim, poderia surgir um ataque. Agora, será um ataque, será um espicho, porque poderá destruir ali na zona muitas coisas, poderá atacar Israel, mas, enfim, não me parece que seja uma possibilidade muito provável. É perigosa, pode acontecer, mas não parece muito provável. Agora, é evidente que Netanyahu, em eleições, os políticos usam todos o seu arsenal e exacerbam aquilo que sabem que o eleitorado poderá valorizar. Portanto, sim, é provável que haja aqui um aproveitamento. Não me choca, acho normal.
Temos também de falar sobre a Ucrânia. Uma nova vaga de ataques russos deixou vários mortos e um rasto de destruição em Kiev. As tropas de Putin têm usado drones a jato que são ainda mais rápidos e mais difíceis de interceptar. Coronel, a Rússia quer paralisar a capital e quebrar a moral ucraniana antes do inverno ou só uma resposta direta às novas garantias de apoio militar que a Ucrânia trouxe da ONU?
Disse muito bem. A Rússia está numa campanha para pressionar em profundidade a Ucrânia, agora a toda hora.
Em seis anos.
Sim, a toda hora. No fundo, paralisar inclusive as capacidades produtivas, a produção, a economia normal, a vida das pessoas. No fundo, sempre com o mesmo objetivo, que é levar a Ucrânia à exaustão física, psicológica, econômica, etc. Neste momento, é aquilo que a Rússia pode fazer, embora ela própria esteja enfrentando problemas graves na economia. Porque neste momento já prevê gastar quase 50% do seu orçamento interno em defesa, o que já é uma economia de guerra a todo vapor. Mas sim, essa é a ideia da Rússia, é aproveitar agora a vinda do inverno, que é um período onde se gasta muita energia, onde as condições são más e se gasta muito. E está a aproveitar isso para aumentar a pressão sobre a população, sobre o aspecto moral, o aspecto econômico e o aspecto psicológico. Os drones a jato foram uma arma que criou para a Ucrânia, criou e está a criar um problema, porque não há interceptores.
Ao contrário dos Shahed tradicionais, estes voam a mais do dobro da velocidade. O que torna o tempo de reação-
E mais altos.
E mais altos, pois.
Exatamente. Sim, o tempo de reação é mais rápido. E a questão não é essa, a questão é que não há interceptores baratos para eles. Ou seja, aqueles interceptores baratos que tinham para os Shaheds, a Ucrânia está a fazer um esforço e neste momento já foram interceptados, nesta última vaga, mais de 60%.
Portanto, tem de gastar mísseis caríssimos para abater algo de baixo custo, é isso?
Esse é o problema. Enquanto os drones Shahed, arranjou-se uma maneira de, com drones mais baratos, os interceptar. Já se fala nisso, de haver soluções também baratas para estes. Mas tudo isto é evidente, os drones também são mais caros, os drones com motor a jato são mais caros, os motores vêm da China. Já são uma espécie de mísseis cruzeiro, mais baratos também, mas entra quase no aspecto míssil cruzeiro e portanto já exige uma arma mais rápida e com uma capacidade de detecção também mais longínqua. E tudo isso aumenta o preço. Houve um momento em que se passou por uma guerra de baixo valor em termos econômicos, com armas mais baratas. Mas é evidente que o adversário vai sempre aumentando. Há uma evolução, o adversário reage sempre às inovações que o outro cria. Eu penso que a Ucrânia também irá resolver este problema, é um problema tecnológico. Eu penso que está em vias de resolução. Aliás, já se nota uma maior porcentagem de exceções.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Um bom dia para si.
Um bom dia também para você, obrigada.
Obrigada.