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Hoje vamos a mais um Contra-Corrente mesmo contra-corrente. José Manuel Fernandes, quem é que queres contrariar hoje?
Eu hoje quero contrariar a ideia de que termos um novo aeroporto no Montijo é uma espécie de fatalidade. Parece que ninguém vai contra a ideia, que o país inteiro já se habituou a ela, à exceção de alguns resistentes. E o que eu quero hoje é juntar pelo menos algumas dúvidas às certezas desses resistentes. Mas antes queria começar por recordar um provérbio judeu que diz que quando temos dois judeus juntos, vamos ter três opiniões diferentes. Os judeus lá saberão, mas há uma coisa que eu sei: se juntarmos dois especialistas em transportes, vamos também ter três opiniões diferentes. Há muitos anos que eu tenho lido e escrito sobre transportes, talvez para aí há uns 40 anos. É das primeiras coisas que fiz desde que sou jornalista, e sei que nunca consigo encontrá-los de acordo. E por isso não me surpreendeu que ontem houvesse mais um grupo de especialistas a apresentar uma proposta para construir o novo aeroporto de Lisboa, não no Montijo, mas em Alverca. Quando eu vi Alverca, à primeira vista, eu sei que lá há também uma base militar, a ideia pareceu-me bastante bizarra, mas depois olhei para os papéis e devo dizer que fiquei com dúvidas.
Então explica-te.
A ideia de Alverca não é aproveitar a pista militar que lá existe, que é pequenita, mas é fazer uma pista numa zona conhecida como Mojão do Tejo. Eu estive a olhar para os planos e aquilo até parece uma ideia interessante, porque no fundo ficaríamos com uma pista parecida com aquela que há no aeroporto de Macau, que ficaria no meio do rio. Não sei se é tecnicamente possível, mas se for, ficaríamos com a pista que tinha uma grande vantagem, que era paralela à do aeroporto da Portela. Isto é uma coisa que é importante, pois isto permitiria, como acontece em muitos aeroportos, que as duas podem funcionar em simultâneo a 100%. Portanto, com aviões a levantarem e a descolar ao mesmo tempo, sem problemas. Isto não era possível no Montijo. Isto faz uma grande diferença, porque a capacidade conjunta Alverca-Portela seria muito superior, no futuro, ao Montijo-Portela. Um outro aspeto que também me parece muito relevante e óbvio é que ligar Alverca à Portela parece relativamente fácil, porque há ali uma linha de comboio, há os canais ferroviários já existentes, e meter lá uma ligação qualquer talvez permitisse, como propõem aqueles estudiosos, ligar os dois terminais em 10, 12 minutos facilmente. Montijo à Portela me parece uma ligação muito difícil. Eu sempre que atravesso a Ponte Vasco Gama, ponho-me a olhar para aquela largura e não vejo como é que ali se consegue meter uma ligação ferroviária, mesmo que seja apenas um elétrico rápido. Não vejo como é que ali vai caber uma coisa daquelas.
Pelo que estás a dizer, Alverca parece até mais lógico, mas a questão é se não será muito mais caro.
Eu também me pus essa dúvida. Eles têm lá umas contas e até dizem que é mais barato e que podia ficar pronto mais cedo. Como dito, eu não sei, não sou especialista. Os papéis que li eram muito genéricos. Não estive na conferência de imprensa que eles fizeram ontem. Há uma coisa que eu sei: eu não conheço nenhum dossiê em que o poder político tenha agido ao longo do tempo com tanta leviandade como o do novo aeroporto de Lisboa. Também não conheço nenhum dossiê em que eu próprio não tenha lido ao longo dos anos estudos técnicos, em que depois a realidade não tenha desmentido de forma clamorosa o que lá vinha escrito passados uns anos. Por isso, acho que tenho que fazer de advogado do diabo. Quando foi o dossiê da OTAN, e nessa altura não tive muitas dúvidas, aquilo era mesmo um crime. Quando me mostraram os papéis, não havia possibilidade de uma pessoa se enganar. Relativamente ao Montijo, há muita coisa que desconfio, não tenho, de forma nenhuma, as mesmas certezas, mas há desconfianças. Por exemplo, desconfio do estudo de impacto ambiental, como desconfiam, de resto, também os ambientalistas, porque acho muito difícil um parecer positivo, sabendo eu que estamos na Reserva Natural do Tejo. Eu conheço aquela zona, já por lá andei a ver os passarinhos.
É linda.
É linda. E sobretudo, ficamos muito perto da zona mais importante para o santuário das espécies que fazem ali nidificação, sobretudo no inverno. Desconfio também, e esta é uma desconfiança de tipo diferente. Esta escolha não foi feita pelo Estado. Quem fez a escolha pelo Montijo foi a Vinci, a Vinci é concessionária do aeroporto da Portela, e dá-se a coincidência de a Vinci também ser acionista da Ponte Vasco Gama.
Queres tu dizer que a Vinci pode querer ganhar com o aeroporto e com a ponte?
Eu não quero matar suspeições, eu quero sobretudo dizer que a escolha tem que ser uma escolha pública. E como não sei e não conheço os estudos públicos que desconsideram Alverca, gostava que ao menos eles aparecessem. Acho que não é tarde demais. Acho que há tempo para tomar a melhor decisão. Os partidos não devem ficar à margem deste debate. Aliás, o governo tem dito que gostava de um acordo alargado. Acho que também não devem existir fantasias como a de levar o aeroporto para Beja, como aquelas que apareceram na campanha eleitoral. Como disse, os técnicos nunca vão estar todos de acordo, pelo que a decisão vai mesmo ter que ser política. Tendo de se fazer uma decisão, tem de ser uma decisão política. Não pode ser uma decisão da Vinci com o carimbo do governo.
Opinião de José Manuel Fernandes no Contra-Corrente das manhãs 360, à conversa com Carla Jorge Carvalho.
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