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Muito bom dia. A completar a segunda semana como presidente da República, António José Seguro tem ouvido mais do que falado. Recebeu um e apenas um representante de cada partido e continua sem Casa Civil. Helena Matos, bom dia.

Bom dia.

O que o novo presidente fez ou não fez em duas semanas permite antever os próximos cinco anos?

Bom dia. A própria campanha já permitia antever. António José Seguro fez uma das campanhas mais soturnas de que há memória e está a tentar pautar a sua presidência da República, ou o seu desempenho, pelo menos nestes primeiros tempos, com uma absoluta soturnidade. O que não quer dizer que isto seja uma falta de jeito. Eu acho que é intencional. Nós notamos, e eu acho que podemos começar por imagens. Na forma como entrou em Belém, claramente fê-lo decalcado sobre o modelo de Cavaco Silva. O homem que chega acompanhado da sua família. Como sempre, e acontece sempre, com diferentes protagonistas em diferentes locais do mundo, em geral, as atenções incidem sobre a esposa, o ônus da discussão e da polêmica, isto não tem nada de novo. Acaba talvez sendo uma forma de se preservar o líder, mas quer-se criticar. E aqui nós tivemos a polêmica em torno do vestido da mulher de António José Seguro e, portanto, a figura presidencial ficou mais ou menos preservada.

Uma polêmica centrada no preço do vestido.

Sim, é preciso lembrar. Pois, é preciso perceber.

Diz, Zé.

Eu acho que não foi polêmica. Quer dizer, houve pessoas, mas foi conversa. Eu devo dizer que recebi um dos memes mais engraçados sobre essa matéria esta semana de inteligência artificial, que era o vestido já à venda numa feira de Carcavelos.

Sim, claro.

Em montinhos e por apenas €3,20.

Pois, mas nós temos aqui uma questão.

Que maldade.

Era um filme, muito animado aquilo.

Mas repare-se que isto, apesar de tudo, é uma evolução, porque quando Cavaco Silva chegou a Belém para o seu primeiro mandato, o jornal de que o José Manuel era então diretor fez até uma enorme análise de tudo aquilo, uma imagem que se achava ali, que tinha a ver com tudo o que Cavaco queria dizer com aquilo.

A semiótica.

A semiótica, pronto. Aqui, a questão já se estava mais habituado à imagem do presidente que chega com a família. Tivemos a questão do preço. Tal como aconteceu com Maria Cavaco Silva, que tinha a sua vida profissional, Maria de Jesus Barroso, que era primeira-dama, mas administrava, e muito bem, o Colégio Moderno. Estamos a falar de mulheres que têm o seu dinheiro, que entendem gastá-lo como querem. Nós não pagamos os vestidos das mulheres dos presidentes da República, e a coisa foi passando. Depois, o presidente teve aquele périplo pelos locais afetados. E aí temos dois momentos. Eu acho que haverá três assuntos nos quais António José Seguro, como acontece com todos os presidentes, aquilo que dizem, mesmo que seja com uma intenção e um bom propósito, pode acabar a virar-se contra eles. Nós temos um caso, que não é esse, que foi mesmo um deslize do presidente, que é quando ele acusa a comissão técnica de ainda não estar constituída, isto tem a ver com os incêndios. Na verdade, não está constituída porque as universidades não tinham designado. Talvez se estivesse com mais trabalho de bastidores de uma equipa que ainda não constituiu, isso não tivesse acontecido. Depois, temos aqui dois assuntos nos quais as suas palavras, não estou a dizer que tenha sido um erro, mas as suas palavras vão encontrar-se com ele lá mais à frente, que é no caso da legislação laboral, em que durante a campanha eleitoral António José Seguro disse, de alguma forma, pôs o poder de veto nas mãos da UGT, o que é dar muito poder à UGT. Só aprovaria se tivesse o aval da UGT. De qualquer forma, pode-se ver neste regresso da UGT às negociações, também alguma pressão por parte de Belém no sentido de pôr a UGT sentada à mesa das negociações e sem estar a fazer de conta que é uma CGTP ainda mais estrambólica. Essa é uma das mais excêntrica, por assim dizer, e fora daquilo que será a linha da UGT ou que alguns consideram ser a linha da UGT. E depois temos as declarações no discurso de tomada de posse sobre que a não aprovação do orçamento não vai levar à convocação de eleições. Isto ganha hoje uma particular ressonância quando se sabe, a fazer fé na capa do Expresso, que José Luís Carneiro e que o Partido Socialista estão a pensar não aprovar o orçamento caso o PSD não cumpra aquilo que o PS entende ser adequado na escolha dos juízes para o Tribunal Constitucional. São opções da liderança do PS. Eu quero já dizer que acho que o PS não tem razão alguma. Não estou a dizer para chumbar o orçamento, estou a dizer nesta questão da escolha dos juízes para o Tribunal Constitucional. E, portanto, em que medida Talvez seja de pensar que mesmo com a melhor das intenções, os presidentes não devem falar sobre a aprovação ou não aprovação dos orçamentos. Nós já vimos como Marcelo acabou encurralado por causa de ter dito que a não aprovação de um orçamento levaria a uma convocação de eleições. E agora podemos ter António José Seguro, de alguma forma, ser confrontado com outra coisa, que é o fato dele ter dito que não convocaria eleições se o orçamento fosse chumbado, a ser de alguma forma confrontado com o fato de ter desresponsabilizado o PS na questão do orçamento. Passado isto, vamos então àquela que é a tal questão: que presidente é este? Eu falei aqui das suas palavras, daquilo que ele disse e como aquilo que ele disse, seja em relação ao GT, seja em relação à não aprovação do orçamento e convocação de eleições, está agora, de alguma forma, a encontrar-se com ele mesmo e podendo ou não condicioná-lo, ou deixá-lo mais desconfortável, ou obrigar a que exerça a tal sua magistratura de influência, no caso do GT. E depois temos agora aqui uma outra questão que passa por aquilo que referiste quando introduziste o programa e que é a sua aparente soturnidade. Em primeiro lugar, como disse aqui hoje quando apresentei o programa, acabaram-se as fontes de Belém. Não há fontes em Belém. Há só aqueles rapusos que deitam água para os passarinhos, que são muito bonitos, mas não há fontes.

Não há fontes de Belém, entre aspas.

Não há fontes. O Expresso viveu todo o mandato completo do Marcelo com as fontes de Belém. Aqui não há fontes. Isso acabou, secaram. Não sabemos se poderão ou não, porque isso acontece, muitas vezes nós achamos que um rio está seco e depois ele volta, mas para já, está tudo sequinho. Não há fontes. Há até, aliás, uma obsessão com essa espécie de controle da informação. Eu também o referi aqui, é interessante ir-se à página da presidência. E sobretudo nas audiências com os líderes políticos, todos. E temos que fazer aqui uma correção. Houve um partido que foi recebido, foram recebidas duas pessoas, porque o LIVRE ou os partidos criados por Rui Tavares têm sempre estas coisas, que são muito sui generis, que sendo partidos não querem ser partidos como os outros. Não é apenas o Chega, que é um partido como os outros, e depois passa os dias a dizer que não é como os outros. Não, é um partido como os outros, depois podem ter desempenhos diferentes, melhores ou piores, cada um sabe de si. Agora, o passo é o mesmo em relação ao LIVRE. O LIVRE e o Bloco nunca têm congressos, pois têm mesas e têm estas coisas todas, mas com isto tudo acabam muitas vezes a tirar grande partido da situação. E o que aconteceu com o LIVRE levando duas pessoas, porque terá uma liderança bicéfala.

O que é perfeitamente falso, como toda mundo sabe. Toda gente sabe, é falso.

Mas não me parece correto. E se estivesse na liderança de um dos outros partidos, não o aceitaria. Porque não é adequado.

Portanto, os outros partidos apresentaram apenas um representante, Rui Tavares e Isabel Mendes Lopes.

Apresentaram apenas um porque foi isso que a Presidência da República disse. Porque até aqui iam três, as delegações eram compostas por três pessoas. Podemos pensar, podem passar pra uma, mas então passam todos ou então ficam todos com dois. Isto é a minha opinião. Mas agora, para já, deste parênteses, que não diz respeito a António José Seguro, por que isto? Por que esta obsessão com as fugas de informação? O Miguel Pinheiro esta manhã ironizava aqui com a questão do gravador, não gravador. Há que lembrar a uma parte dos nossos ouvintes, que são substancialmente mais novos, que na altura Yanes Balsamão, isso aconteceu.

Essa prática existiu.

Essa prática existiu.

E os gravadores não eram objetos pequenos, eram um tijolo.

Sim, viam-se bem. E portanto, havia por parte do então presidente António Ramalho Eanes, a suspeita que aquilo que era debatido entre ele e o primeiro-ministro Pinto Balsamão, era depois arejado por essa Lisboa fora, arejamento em que podia ou não ter tido algum papel, uma figura que depois se vai tornar presidente da República, ou seja, Marcelo Rebelo de Sousa. Portanto, temos esta parte, mas aquelas imagens que eu disse que são muito interessantes no site da Presidência da República, têm um outro lado. Além de que está o líder partidário sentado no cadeirão, depois sentado sozinho, numa espécie de canapé, depois sentado num cadeirão mais elevado e sozinho está António José Seguro. Os cadeirões são bonitos, o cadeirão é muito bonito e ao lado está um cadeirão vazio. Eu acho que é uma imagem que não é neutra. Em primeiro lugar, porque ela é inédita e depois aquele cadeirão, nós só vemos metade do cadeirão, semivazio, diz alguma coisa. E diz alguma coisa daquilo que é a circunstância de António José Seguro neste momento, que é um homem que além de procurar mostrar uma grande preocupação em relação ao controle daquilo que se chama fugas de informação dos outros, isso pode ou não, não o sabemos, determinar a situação inédita que se vive na Presidência da República neste momento, que é: não existe Casa Civil, não há chefe da Casa Civil. Portanto, o homem que devia estar sentado naquele cadeirão ao lado do presidente, não está. Ou homem ou mulher, não está, não existe, não foi nomeado, não foi escolhido. E isto, a mim, pessoalmente, causa-me estranheza, porque António José Seguro teve muito tempo pra pensar que pessoas levaria consigo pra Belém. Depois, dá-se a ter a circunstância de termos tido uma segunda volta nas presidenciais, portanto, poderia ter pensado antes, poderia ter pensado durante a candidatura, e depois teve aquele período em que é claro que já sabia que ia ser presidente da República, e os nomes não foram divulgados. Se pensou, não o disse. E a verdade é que, em geral, estas equipes estavam constituídas no momento em que o presidente tomava posse, e não está. E isso leva-me a interrogar o porquê. Uma das explicações possíveis é que tendo sido a candidatura de António José Seguro o resultado da convergência de vontades contrárias e dissonantes, pode criar-lhe dificuldades no momento de escolher as pessoas, porque é um sinal. Note-se que praticamente da extrema-esquerda ao centro-direita, nós tivemos pessoas a dizer por que se deveria votar António José Seguro. E fomos sempre dizendo que depois o sinal da sua presidência chegaria, porque como ele durante a campanha não disse nada, a não ser que não se queria por os ovos todos no mesmo cesto, as escolhas que ele fizesse para ter consigo em Belém, seriam um sinal do presidente que ele quereria ser. E parece que ele não nos quer dar esse sinal, como se isso fosse o deixar uma marca daquilo que ele vai ser, quer ser, mas não nos quis dizer. Percebe-se durante a campanha, perfeitamente. É evidente, pois um homem que tem declarações de apoio, desde o Bloco de Esquerda a Cavaco Silva, e até aos passistas, que são mais à direita que Cavaco Silva, não iria dizer muita coisa. O segredo da vitória foi mesmo esse, mas agora isso acabou.

Portanto, a abrangência criou-lhe um problema.

Eu acho que a abrangência deu Belém e não lhe criou problema algum. Agora, ele tem é de perceber que a campanha já acabou. E claramente vai ser criticado pelas escolhas que fizer, como é inevitável. Portanto, ele tem de passar da fase do consenso, que é sem dúvida muito agradável e reconfortante, e em que as únicas críticas vão para o valor do vestido da sua mulher, que na minha opinião, veste o que quer, porque é ela que paga. E também sempre esta ideia de que as mulheres coitadinhas têm de ser pobrezinhas, também é um pouco cansativa. E portanto, vamos passar para a outra fase. E agora, não vejo com tranquilidade um presidente, apenas pra acabar, que vai claramente ter um papel na questão das negociações da legislação laboral, que vai ter um papel claramente nesta questão do bloqueio que está criado em torno da escolha dos nomes para os órgãos externos, um presidente que continua a ter aquela cadeira vazia ao seu lado. Um presidente não é e não pode ser um homem só.

André Abrantes Amaral, bom dia.

Bom dia.

Economista do Observador. Vamos começar pelo início, que é por onde se começa sempre. Que sinais é que nos deu já o novo presidente da República?

Bom, pra não estar aqui a repetir os dois grandes sinais que deu foi na mudança da data do encontro com o primeiro-ministro, que eu acho que é reveladora.

De quinta pra terça, semanalmente.

Sim, foi encarado como uma forma de ter um controle maior sobre a agenda do governo.

Por quê? O que a terça tem que a quinta não?

Possivelmente, o decorrer da semana. É assim que eu vejo.

Só pena de ser injusto pra todas as partes. Talvez ajude a explicar isto: quinta-feira é o dia da reunião de Conselho de Ministros. Talvez o presidente da República queira saber à terça o que vai ser discutido à quinta. Não sei, poderá ser por aí.

Não sei, mas isso à partida também seria bom saber o que foi discutido ou o que vai ser discutido em cima do momento. Eu acho que tudo isso tem a ver com o arranjo semanal. O que acontece mais à terça-feira, consegue planejar melhor o resto da semana, não estar tão em cima dos fins de semana, que pra todos os efeitos acabam por ser preenchidos com visitas, e não tanto com ação governativa. Não queria dizer útil, mas nesse sentido.

Ao fim de semana não se produzem leis.

Sim, basicamente. Estão a se produzir leis todos os dias, mas o fato de não serem publicadas ao sábado ou ao domingo, não quer dizer que não estejam a ser feitas.

Veremos no que isso dá. Eu tenho algumas dúvidas sobre essa decisão, mas logo veremos.

Sim, vamos ver. Agora, a outra é a questão da recepção dos líderes partidários, que são só ir uma pessoa, que isso é um sinal, naturalmente, que qualquer partido político encara como: aqui, nesta reunião, aqui no Palácio de Belém, quem manda sou eu e sou eu que dito o tom das reuniões e do que é falado. Essencialmente, eu acho que António José Seguro, e terá muito a ver com o que a Helena estava a referir, da forma como ele foi eleito e também da forma como ele é Vai ser uma pessoa extremamente cautelosa e nunca vai querer, ao contrário de Marcelo, que não se importava que a política portuguesa fosse uma montanha-russa, porque ele sobrevivia sempre, nunca caía. Vivia os outros a saltar e ele continuava lá, sorridente. António José Seguro não é uma pessoa assim, é uma pessoa que precisa de ter muito bem os pés assentes no chão e sentir o chão firme, seguro. Portanto, não vai querer grandes velocidades e vai querer controlar o máximo possível a sua narrativa. Isto tem a ver com a questão que a Helena estava a referir da sua eleição. Ele teve mais de 66% dos votos, que é uma eleição própria de segundo mandato. É como se António José Seguro, de certa maneira, já estivesse no segundo mandato. Isto me faz lembrar um pouco, comparações não são devidas, mas quando o Obama ganhou o Nobel da Paz, ainda não tinha chegado lá, tinha acabado de chegar e já era o Nobel da Paz. António José Seguro ainda não deu provas de nada e teve logo este mandato muito grande. Isto vai sempre colocar problemas, porque, de certa maneira, muitas das pessoas que votaram em António José Seguro, não votaram nele, votaram contra André Ventura. Se nos lembrarmos da forma como correu a primeira volta, foi o candidato que sobrou. Foi aquele que sobrou. Às tantas, todos eles se digladiaram, mataram-se uns aos outros, e ele era o que sobrava perante um candidato que é extremamente disruptivo e tem um discurso um pouco divisivo e que faz com que muitas pessoas não gostem, que é o caso de André Ventura. E António José Seguro sobrou. A forma como Gouveia e Melo destruiu a candidatura de Marques Mendes, o que aconteceu com a candidatura de João Cotrim Figueiredo. Gouveia e Melo acabou por, de certa maneira, cometer um suicídio político na sua candidatura, porque era visto como uma personagem acima de todas estas lutas e acabou se vendo envolvido naquele célebre debate com Marques Mendes, acusado de toda aquela confusão entre política e negócios. Portanto, sobrou António José Seguro. É verdade que ele é o presidente legítimo, não é isso que está em causa, como é óbvio, mas ele tem sempre esta insegurança de saber que estes 66% não foram 66% equivalentes à percentagem que Mário Soares obteve na segunda volta ou que Marcelo Rebelo de Sousa obteve. As pessoas votaram nisso.

Porque há uma grande latitude no espectro político. A nomeação da Casa Civil será já o primeiro sinal, o grande sinal.

Também fico surpreendido. Por exemplo, Cavaco Silva nomeou logo o chefe da Casa Civil e não se percebe por que não há essa escolha, qual é a dificuldade em o fazer, tendo em conta que passou muito tempo.

Claro.

E é um cargo extremamente importante.

Sim, aliás, no final do mandato de Marcelo, é talvez dos momentos, até porque Marcelo não tinha lá família, não tinha lá ninguém, é o momento em que ele e Fertuzos de Melo se abraçam.

Sim.

Portanto, é um momento até-

Não, porque é um trabalho muito solitário.

Sem dúvida, é um trabalho solitário.

Mas eu estou falando do presidente, até.

Sim.

Que precisa de um certo apoio.

E o chefe da Casa Civil é mais solitário.

Sim, também. Mas agora é solitário, mas com muita exposição mediática. Eu acho que ser presidente da República, como ser primeiro-ministro, sendo que o primeiro-ministro ainda acaba por ter todo o governo e tudo mais. Agora, o presidente da República está na esfera do Estado, tem de tomar determinadas decisões, tem de estar sempre em cima do acontecimento e tem uma exposição pública enorme.

E não achas que nesta dificuldade, dificuldade não, nesta não nomeação de nomes para a Casa Civil, talvez possa exatamente resultar do próprio percurso de António José Seguro? Senão, repare-se, Cavaco Silva tinha todo o mundo, toda a rede de quem tinha estado à frente do governo. Tinha sido primeiro-ministro. Eu não estou a dizer que António José Seguro é um desconhecido ou que não tem relações.

Não, ele tem, ele teve um lugar, para todos os efeitos. Ele foi ministro-adjunto, ele teve um lugar central no poder político.

No governo de António Guterres.

E na parte da executiva.

Exatamente.

Não interessa.

Ele depois foi para Pena Macror.

Pode falar, não interessa. Repara, ele esteve na política ativa até há 10 anos. O tempo de interrupção de Cavaco foi igual.

Mas continuou na política ativa, como nós bem sabemos.

Está bem, continuou na política ativa porque escrevia uns artigos duas vezes por ano.

Não só, e pelas pessoas que falavam com ele.

O que sabes sobre o Seguro? Ele não estava propriamente num ermitério.

Não estava num ermitério, mas realmente, Damien Alf, pergunto: quantos jantares, almoços, encontros, seminários, Cavaco Silva vai durante aquele período em que oficialmente não esteve na política?

Pode falar. Não estava na política ativa, estava relativamente longe disso. Escrevia um artigo muito episodicamente e eu não sou capaz de comparar objetivamente se ele andava mais por aí do que andava aqui. Porque eu falei com ele nessa altura, e ele estava num gabinete esconso, no Banco de Portugal, na Avenida Almirante Reis, e depois voltava pra casa na Rua do Poço.

Mas ele representava uma maioria.

Claro, ele representava uma coisa diferente. É uma maioria diferente ser primeiro-ministro do que ser ministro-adjunto de Guterres. Claro que é diferente, mas não se diga que, por exemplo, uma das coisas que os ministros-adjuntos faziam, e repara, na altura o presidente era Sampaio, era fazer a ligação entre palácios. Os ministros-adjuntos faziam, nomeadamente naquele tempo. Portanto, eu não desvalorizo a experiência.

Eu acho que não é falta de experiência.

Eu não estou a desvalorizar.

O início é muito diferente do Marcelo Mas eu acho que não é a experiência, eu acho que é o peso político que é enorme.

Mas o peso político é outra coisa. Nós estamos a falar de duas coisas diferentes.

António José Seguro se calhar quisesse ter como chefe da Casa Civil uma pessoa de confiança, e essa pessoa de confiança faz parte da fação de Seguro no PS, e ele se calhar precise de outra pessoa que fosse alargar essa base de apoio dele. E talvez aí já seja mais difícil encontrar alguém dessa confiança. Isso é o que eu penso que pode ser o problema. Cavaco Silva não teria esse problema, porque ele à partida representava sempre, foi eleito sempre, e o voto em Cavaco não foi contra ninguém, foi voto nele e ganhou logo à primeira volta. E portanto, ele estava perfeitamente à vontade. Ele sabia que representava uma maioria.

Não, claro. Isso é muito diferente. Ele não representa, ele representa uma maioria por defeito.

Exatamente. Ele sempre poderá sentir que tem que alargar.

E por causa disso é que foi a segunda volta. Nós só em eleições presidenciais só tivemos duas vezes segunda volta e esta foi uma delas. Portanto, em circunstâncias muito diferentes da outra vez. Até pela forma como a primeira volta acabou. Até por isso.

Sim, claro.

E por outro lado, é uma coisa, quem votou em Cavaco, até por todo o seu percurso, dava o seu voto a Cavaco, admitindo que Cavaco não ia fazer o que ele estava à espera. Cavaco era Cavaco.

Sim, o que se disse.

E pronto. Mesmo os cavaquistas mais convictos sabiam que não valia a pena esperar que Cavaco não os desiludisse. Cavaco ia ser Cavaco. Em relação a António José Seguro, nós temos, desde o bloco de esquerda até à direita, uma data de gente a olhar e a pensar: "Eu dei-te o meu voto e agora estou aqui para ver o que tu vais fazer com ele."

Ao ponto de, talvez a expressão seja forçada, podermos dizer que António José Seguro está em certa medida refém dessa latitude de voto?

Está refém se quiser.

Acho que não está bem.

Não está.

Só se quiser. Espero que não. Aliás, essa tua pergunta é dizer em voz alta aquilo, quer dizer, que as pessoas de bom senso, tenham votado ou não em António José Seguro, pensam é que o pior que nos pode acontecer é ter em Belém alguém que tem isso.

Com medo dos seus próprios votos.

Exatamente, com medo dos seus próprios votos. Nós falámos aqui muitas vezes daquela necessidade que Marcelo Rebelo de Sousa tinha de ser amado, mas que é uma coisa diferente, e causou-lhe talvez dos piores momentos das suas presidências. Mas isso é muito menos grave do que agora ter ali um homem que está refém daquela extraordinária maioria que o levou a Belém, o medo de os desiludir.

Sendo que há aqui uma coisa, que agora mudando até um pouco do tema, em que António José Seguro foi bem-sucedido, que tem a ver com a reforma laboral. Ele sempre disse, depois se as coisas vão dar resultados ou não, isso são outros 500. Mas ele disse que era importante que houvesse um consenso, que houvesse um acordo de concertação social. As negociações estavam mal paradas e a partir desse momento a UGT regressou às negociações e portanto ele estava contra a postura. Isso é um certo peso, não é?

Sim, mas o que aconteceu com o regresso da UGT é, eu suspeito, é pura suspeita, é completamente especulativo o que vou dizer. A posição da UGT estava a colocar António José Seguro numa posição difícil.

Claro.

Porque ele disse num debate uma coisa que provavelmente não quereria.

Com André Ventura.

Com André Ventura, não quereria ter dito, mas tinha dito, e portanto estava agora encurralado. Basicamente o que eu dizia é assim: se a UGT não aprovar, eu veto.

Isso até responde ao Carlos Daniel, que é quem faz a pergunta. Claro.

Que é uma coisa que sai. E portanto, ele estava encurralado. E ele precisava que a UGT voltasse à mesa das negociações e negociasse, não fosse lá para só dizer: "A linha vermelha, a linha vermelha, a linha vermelha." Que ela tinha nada a dizer. E portanto, os sinais que nós temos do que se passou nessa reunião é que chegou lá uma UGT ligeiramente diferente.

Sim.

E se essa UGT ligeiramente diferente que lá chegou não quer dizer que no fim acabe tudo bem. Não resultou de uns telefonemas de Belém? Não sei. Porque apesar de tudo, vamos lá ver, estamos todos em casa. São todos socialistas, estiveram todos juntos no Parlamento. Há uma relação próxima, apesar de tudo, entre José Luís Carneiro, António José Seguro, o presidente da UGT.

Não, eu acho que é isso. A influência, não foi só por ter falado a dizer que era preciso.

A situação para Seguro era uma situação desconfortável naquela em que ele estava. Que era de repente ser encurralado pela UGT.

Sim, porque é o único risco que ele corre, porque de certa maneira, aquilo que ele pede é o óbvio que vai ter que acontecer. A reforma laboral só se faz de duas uma: ou há um acordo de concertação social e o PS aprova, ou vai ter que ir para o Parlamento e tem que haver uma negociação entre o governo e o PS ou o Chega. E depois o que sai daí são outras coisas. Mas tal qual ela está, nunca será aprovada. Porque o PSD só tem 91 deputados e portanto não consegue aprovar partindo do pressuposto que todos vão votar contra.

André, atribui alguma importância ao fato de o Presidente da República se querer reunir apenas com um representante de cada partido?

Não, isso é o que eu tinha dito no início. Acho que essa é a mesma questão de marcar o tom, de quem manda. Aqui sou eu, falando aqui mal e depressa, eu é que marco o tom dessas reuniões. E depois também para se distanciar do Marcelo.

É só uma questão de tom, uma questão de confiança.

Sim, já ouvi falar disso Pode ser, mas eu não vou especular nesse sentido, porque eu acho que até seria um pouco mau que seja só isso. Essencialmente, eu acho que é querer marcar a distância com Marcelo Rebelo de Sousa. Não vou dizer que é demasiadas pessoas, mas ia muita gente. Aquilo tem uma vantagem: as pessoas que vão às reuniões, geralmente os vice-presidentes, ouvem e não participam, até podem ficar calados. Portanto, a informação recebida por dois ou três é completamente diferente da recebida só por um. Pelo menos a partir da fonte direta, é melhor. Nesta medida, António José Seguro controla o diálogo com os líderes dos partidos. Agora, se eu vá dizer que acho isso um pouco deselegante, sim, parece-me um pouco deselegante. Mas essencialmente, eu acho que é mesmo marcar o tom e a distância naquilo que é possível marcar a diferença com Marcelo.

Portanto, poderá indiciar ou indicia de que António José Seguro quer um mandato ou uma presidência sem ruído e nesse aspecto ser até o Talante e Marcelo.

Sim, até essa história da montanha-russa. Eu sempre vi os mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa como uma montanha-russa. Só que aquilo dá muitos loopings e tem altos e baixos, e as pessoas ou ficam enjoadas ou caem. Mas ele conseguia. Ele sobrevivia àquilo e eu imagino-o até sorridente e satisfeito a sair dali para beber um copo. E António José Seguro não é pessoa para isso. Ele prefere que as coisas estejam o mais sossegadas possível, quase paradas. Isso seria o ideal para ele. A questão aqui é saber: será que ele vai conseguir isso ou não? Porque a partir de um determinado momento, nós vivemos num impasse político-partidário. Temos três partidos muito iguais e isso não se resolve com boa vontade. Até porque qualquer um tem medo de ser o primeiro a ceder. O primeiro a ceder pode pagar muito caro o preço dessa cedência. Eu acho que este impasse só se resolve quando um partido perder, colapsar. Há uns tempos, eu até achava que seria mais o Partido Socialista, porque o Chega iria buscar muitos dos votos, iria substituir-se. De facto, isso, por exemplo, na reforma laboral, vê-se essa posição. Aliás, seria interessante analisar. Eu gostava que isso fosse para o Parlamento, de certa maneira, para ver como é que se iam fazer.

Eu creio que o Luís Montenegro disse que sim.

Sim, se não houvesse acordo na Constituição, ia ao Parlamento.

Mas mesmo com o acordo, eu gostava de ver como é que, por exemplo, o PS faz pressionar e o Chega depois também, porque de certa maneira seria curioso ver, não é nada original, mas no nosso regime era ver a direita com a agenda dos trabalhadores. Era uma novidade no nosso regime pós-25 de abril. Aliás, de certa maneira estamos a ter. Mas o que eu estava a dizer é que por causa disso que eu durante algum tempo achei que seria o Partido Socialista, dos três a perder. E perdeu, mas agora, neste momento, a perder mais ainda. Neste momento, não sei, é bastante difícil dizer, mas um deles, mais tarde ou mais cedo, vai ter que ficar.

Pode vir a perder agora com a nomeação para juiz do Tribunal Constitucional.

Não, mas eu estou a dizer é perder numa futura eleição legislativa, um destes três ficar muito abaixo dos outros. Eu acho que isso vai ter que acontecer. Não sei se vai ser nas próximas legislativas, se vai ser daqui a 10 anos, não sei quanto tempo vai durar este impasse, mas este impasse vai ter que ser desbloqueado e ele vai ser desbloqueado desta forma, através do combate político e da clarificação, em que o momento em que chegam os eleitores e vão ter que decidir de outra forma. E não é com entendimentos como António José Seguro quer.

Pois assim não vamos lá.

Não vamos.

Não vai acontecer. Agora a questão é saber quem vamos ter muitos braços de ferro.

Sim, claro.

E em princípio, aquilo que o governo está a tentar é uma geometria variável. Portanto, numas coisas faz acordos à direita, pisca pisca, uma geometria pisca pisca. E nós percebemos que isso está cada vez mais difícil.

Vai ser cada vez mais difícil. E há o momento em que vai partir. Alguém vai perder, porque um regime, um sistema político não subsiste assim.

E aquele anúncio no seu próprio discurso de tomada de posse de que um chumbo do orçamento não equivaleria a uma queda de governo, portanto, à convocatória de eleições, em que medida é que isso não se pode virar contra o próprio António José Seguro? Porque se agora o PS, na sequência de tudo o que está a acontecer.

Helena, há quantos anos é que não há orçamento em Espanha?

Pois, mas eu não estou a dizer que não se possa viver em duodécimos e tenho para mim a convicção que se tivéssemos vivido em duodécimos em alguns anos, não teríamos falido. Ali nos anos de Sócrates, que bom teria sido. Mas politicamente, a exploração deste facto, tal como foi explorado contra Marcelo o facto de o país ter ido para eleições, porque ele teve aquele voluntarismo de dizer que sem orçamento havia eleições, em que medida é que António José Seguro não pode ter cometido um erro similar ao dizer que sem orçamento não haveria eleições e acabar...

Ele traçou uma linha vermelha também.

Pois, exatamente.

Ao contrário.

Ao contrário.

Pois, eu acho que sim. Esse tipo de coisas, o melhor é sempre não anunciar antecipadamente. Mas ele fê-lo.

Para um homem tão cauteloso com as palavras.

Sim, é verdade, também reparei nisso.

Mas por que disso pode ser um erro, Helena?

Porque abriu o jogo logo.

Porque é o óbvio. Agora, imagina que por acaso ficamos em duodécimos. Quer dizer, o governo não quer ser governo, a oposição vai ter de malhar em alguém, vai ter de malhar também no presidente da República. Quer dizer, por que não vamos para eleições? Portanto, o presidente da República fica a segurar uma situação que porventura só ele quer E só ele deseja.

E já não tem pretexto para convocar eleições, a não ser faltando à palavra que deu.

Sim, há sempre aquela hipótese de ser a segunda ou terceira sem o orçamento.

Claro que sim.

E haver uma situação de impasse.

As circunstâncias mudam, mas fica sempre: era melhor não ter dito nada e deixar as coisas em aberto. Mas mais uma vez, a necessidade de marcar a diferença com Marcelo Rebelo de Sousa.

Apesar de tudo, é um aspeto que eu lhe dou crédito, ter dito.

Na questão do orçamento? Isso eu também, porque o orçamento não é, conforme foi transformado por Marcelo, o momento mais importante de uma-

Eu acho que o próprio Marcelo se surpreendeu com isso.

É um momento único.

A questão é perceber por que o Marcelo fez isso. E eu acho que o Marcelo, mas isso sou eu a especular, que quando ele fez isso em dezembro, no outono de 2021, ele não estava à espera que António Costa tivesse maioria absoluta e ele achava que havia eleições, o PS ganhava e ficava dependente dele. Era um PS, o António Costa dependente de Marcelo, e Marcelo não vou dizer governava, mas dominaria.

Mas animava muito.

Punha e dispunha a partir de Belém. E depois saiu a grande surpresa, que foi a maioria absoluta de António Costa. Quando o António Costa saiu, veio Luís Montenegro, mas já era demasiado tarde. Luís Montenegro já conhece Marcelo Rebelo de Sousa de ginjeira. Aliás, António Costa também, mas as circunstâncias eram outras e nunca lhe deu essa confiança e esse espaço para ele pôr e dispor. E, de fato, ele nunca mais conseguiu.

José Manuel, o que se pode dizer destas duas primeiras semanas?

Eu diria que tem indicações mistas. Há coisas que eu acho que são positivas. Eu gosto da maior discrição e de Belém não se ter tornado também num centro de intriga, mas ainda falta perceber como é que vai ser realmente a relação entre Belém e São Bento. Nós publicamos aqui recentemente um artigo sobre as muitas formas, os muitos nomes que os presidentes foram dando a essa relação, cooperação estratégica, solidariedade, enfim, muitos nomes diferentes, conforme o espírito do tempo e o espírito dos presidentes e os espíritos dos primeiros-ministros, porque eu acho que isso aqui tudo se conjuga. Houve momentos de enorme tensão entre o primeiro-ministro e o presidente. Houve vários momentos assim.

Soares Cavaco.

Houve o momento de Soares Cavaco, houve momentos também tensos entre Sampaio e Santana, sobretudo Santana Lopes, e admito que em alguns momentos também o próprio Durão Barroso, nomeadamente na altura da Guerra do Iraque, foi seguramente um momento crítico. Houve momentos também muito tensos entre Cavaco Silva e Sócrates, no fim, sobretudo no segundo mandato de Cavaco Silva. Ao contrário do que se pode imaginar, nem sempre a relação entre Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho foi a melhor.

Nada disso.

Nada disso. Houve momentos muito complicados, apesar de a forma como Cavaco acabou por, por exemplo, ter influência naquela tentativa de acordo no momento do irrevogável, da demissão de Paulo Portas, ter sido importante e ter sido feita num primeiro momento contra a vontade de Pedro Passos Coelho, que queria, por esse momento, continuar. Mas que foram relevantes até para a própria vitória que Pedro Passos Coelho depois viria a ter nas eleições em-

2015.

2015. Portanto, temos relações diferentes e aquilo que vem é, por um lado, uma indicação de maior sobriedade, por outro lado, indicações que vamos ver o que é que dão. Por exemplo, o presidente já marcou as suas primeiras saídas e essas suas primeiras saídas podem ter leituras. Ele vai fazer uma primeira presença aberta pelos locais atingidos pelas tempestades. Que significado tem isto? Isto compreende-se tendo em conta até a sua vida pessoal. Ele vem de uma zona que foi afetada, ele mora nas Caldas da Rainha, no limite, na margem sul da zona por onde passou a tempestade maior, a Christine. É de Penamacor, que foi uma zona também atingida, mas já na parte final. Tem uma ligação grande a estas zonas, mas a forma como ele interveio no seu segundo dia de tomada de posse e as declarações que fez, deixa-nos ficar com a pulga atrás da orelha, como diria o povo. Tentar perceber se ele vai lá numa ação de chamar a atenção para os problemas ou vai lá para dar tau tau ao governo. Porque este é um tema que pode ser complicado, como nós já percebemos. Porque, por exemplo, fazer chegar dinheiro às populações não depende apenas do governo, depende também das autarquias, depende das estruturas no governo e depende de uma coisa que em Portugal é sempre muito complicado, que é a burocracia pública, a desconfiança. Apesar de supostamente se terem tirado muitas complicações da forma de atribuição, na prática, as coisas nunca são bem assim, porque há sempre um burocrata num sítio qualquer que acha que tem que, de alguma forma, garantir que ninguém desviou dinheiro. E como a experiência de Pedrógão, e as coisas em Pedrógão não correram muito bem, até acabaram em tribunais, há sempre esta tensão A escolha das Terceiras e das Lajes como local para o 10 de junho é um sinal que temos que ver exatamente o que se pretende com ele, porque uma coisa é a evocação inicial: vamos aos Açores porque são 50 anos de autonomia. Bom motivo. Vamos às Lajes porque queremos dizer que não gostamos da forma como Portugal acabou por estar presente nesta história da guerra, sobretudo porque em 10 de junho nós não sabemos bem como é que isto vai estar e o que é que vai acontecer. Se fosse a São Miguel ou apenas Angra do Heroísmo, era uma coisa, em dar as Lajes pode ter outro significado. Vamos ver como é que isto acaba. Eu também tenho, mais uma vez, algum desconforto com as reuniões à terça-feira, sob o argumento de que querem influenciar a agenda do Conselho de Ministros. Uma coisa é haver um trabalho de bastidores entre os palácios, que eu creio que é muito importante e creio que não foi realizado nos termos que devia ser realizado nos mandatos de Marcelo, mas que sempre foi muito relevante nos vários presidentes, e era sobretudo realizado pela equipe do primeiro-ministro e pela Casa Civil do presidente, às vezes também pela Casa Militar, mas sobretudo pela Casa Civil. Quando, como aconteceu muito com Marcelo, a Casa Civil perde peso e perde protagonismo e tudo é muito concentrado no presidente, estes temas acabam por não permitir alguma coordenação. Com outros presidentes, havia muitos diplomas a andar para lá e para cá, e às vezes também com a Assembleia, porque havia questões que eram, muitas delas puramente técnicas, outras que eram de alinhamento, e que em alguns casos, eu diria que, por exemplo, no que respeita a esta experiência recente de Marcelo Rebelo de Sousa, teriam evitado alguns choques. Se bem que esses choques depois também acabaram por resultar muito da relação política de Marcelo com os dois primeiros-ministros com quem teve que trabalhar, António Costa e Luís Montenegro. Portanto, há aqui várias questões que me deixam a tentar perceber o que vai acontecer. Eu, depois dos anos de Marcelo, preferia que a descrição mediática também correspondesse a um regresso a um estilo que não é apenas um estilo público, é também um estilo de trabalho de bastidores mais parecido com o de Cavaco Silva. E com a interpretação que Cavaco Silva fez da Constituição, que eu acho, e percebo que ainda há bocado estávamos a falar se cada um teve ou não teve experiência. Vamos lá ver. Nós tivemos alguns presidentes, este será o terceiro presidente, se bem que em quadros muito diferentes, que tinham experiência de ter passado pela mesa do Conselho de Ministros, ter se sentado à mesa do Conselho de Ministros. Naturalmente, Mário Soares, enfim, com um tempo muito diferente e difícil de fazer comparações, mas que tinha essa experiência de ter tido um lado executivo e de ter tido, nessas condições, choques com o presidente da República. Depois tivemos Cavaco Silva, com uma experiência executiva muito mais longa e também com uma experiência de choque com o presidente, de colaboração e depois de choque com o presidente, também muito mais longa. E tivemos dois presidentes que não passaram pela mesa do Conselho de Ministros. Jorge Sampaio, mas que tinha uma Casa Civil muito forte e um trabalho de detalhe sempre muito relevante. Aliás, há coisas que vêm da presidência, são pequenos detalhes, mas que eu acho que são relevantes. Por exemplo, no tempo de Mário Soares, o gabinete do presidente era uma sala grande com vista para o Tejo, o gabinete de trabalho. Era aquela sala com uma secretária grande. E Jorge Sampaio criou um gabinete de trabalho, num sítio um pouco desconso do Palácio de Belém, cheio de estantes por trás, para ter os papéis e os livros, aquilo que ele precisasse. Um sítio relativamente apertado, que foi mantido por Cavaco Silva. Creio que pelas fotografias que vi, que Marcelo também trabalhava lá, mas mostra uma maneira diferente de olhar para a presidência. Soares era muito mais político e não gostava de falar de dossiês. E Sampaio olhava com muita atenção para os dossiês, coisa que Cavaco Silva também fazia. Marcelo olhava só ele para os dossiês, o que era um problema.

Sampaio tinha uma particularidade, foi o único presidente autarca.

Quem?

Jorge Sampaio.

Sim, autarca.

Com passado autarca.

Com passado autarca relevante, também tinha um passado executivo, mas é muito diferente, porque o autarca, o presidente da Câmara de Lisboa, não tem nenhuma relação direta com o Palácio de Belém, a não ser no 5 de outubro, quando vão estar a balada e fazendo discursos e pouco mais que isso. Não têm que falar todos os dias, que é o que acontece entre o presidente e o governo. Seguro esteve no Conselho de Ministros e muito próximo de António Guterres, porque era uma das pessoas centrais naquele governo de António Guterres em termos de proximidade política, num período em que era Sampaio que estava em Belém, alguém que queria conhecer os dossiês e que trabalhava nisso. Não sei exatamente que papel ele teve e como é que fazia essas pontes, que era um papel político, mas traz pelo menos esse lado da experiência. Não é como Marcelo e como, se quisermos, como Sampaio antes de ter chegado a Belém. Como é que isso se vai traduzir? Eu acho que a Helena tem estado muito obcecada com a ausência de nomeações da Casa Civil. A explicação que é dada é que ele quer uma transição tranquila, quer pensar bem, não quer cometer erros, está a usar as pessoas que lá ficam da presidência de-

Do Marcelo

...do Marcelo, pelo menos para fazer a transição. Essas pessoas aparentemente estão contentes, mas eu acho que se calhar algumas estão desconfortáveis, não o dizem, mas é quase humano, porque entre outras coisas não sabem se vão ficar, se não vão ficar, isso pode ou não orientar as suas vidas, pelo menos exteriormente. E eu creio que aqui começa por haver uma questão que é relevante, que é o peso da Casa Civil. O peso da Casa Civil de Marcelo não é o peso que terá que ter, na minha perspectiva, a Casa Civil de António José Seguro, quer no operacional do dia a dia, na operação do dia a dia, preparação das coisas, quer noutros aspetos. E já me parece ter-se notado que às vezes falta este background, nomeadamente aquele lapso, que é um lapso-

Da comissão técnica

...da comissão técnica que o Parlamento devia ter nomeado, uma coisa que em princípio uma Casa Civil teria prevenido, poderia ter prevenido. Marcelo furtou-se a meter lá porque tinha lá a Casa Civil, lá por ser outras coisas. Portanto, temos aqui indicações. Eu creio que o presidente não deve ler a votação que teve como uma espécie de autorização para levar o seu programa próprio para Belém e não deve achar que de repente tem uma legitimidade popular que não tem. Ele não precisa, porventura, fazer o mesmo caminho de se aproximar de todos os portugueses como Mário Soares teve que fazer depois daquela eleição, porque a primeira volta foi diferente e a segunda volta também foram diferentes. O país não está partido da mesma forma, mas ele tem que ter o cuidado de perceber que tem um sistema político tripolar, portanto com três polos, e não apenas o sistema político bipolar. Nós hoje temos um artigo aqui no Observador, da Mafalda Pratas, a propósito do tema do Tribunal Constitucional, que recorda aquilo que teria sido uma espécie de acordo PS/PSD, noutros tempos, de divisão de cinco em cinco das nomeações políticas e que isso sempre se manteve assim. E ela até cita Vital Moreira, que teria estado presente no momento em que isso foi conversado. Teria sido testemunha dessas conversas.

Cinco, cinco no número de juízes do Tribunal Constitucional.

Ela acha que o primeiro-ministro Luís Montenegro devia assumir abertamente que vai romper esse acordo não escrito. Esse acordo não escrito não foi rompido pelo PSD, foi rompido pelos eleitores portugueses, que votaram da maneira que votaram. Aqui há uma realidade nova e desse ponto de vista é muito, a meu ver, importante as declarações de Paulo Mota Pinto a dizer que o país é outro, a assembleia é outra e, portanto, os equilíbrios têm que ser outros. E isto vamos ver como é que António José Seguro vai lidar com esta situação, porque talvez a pior notícia que ele teve até hoje, desde que é Presidente da República, é a do Expresso dois, se ela for verdadeira. Essas coisas a gente às vezes não sabe exatamente se é verdadeira.

Tentar o barra preto.

Tentar o barra preto, exatamente, é boa expressão. Criar um facto político, como na boa velha tradição do Expresso. Porque aquilo não é bem o que ele quer. Ele não quer instabilidade daqui a seis meses, quando chegarmos ao orçamento.

Muito bem. Temos conosco o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Murtinho por entrar no programa de hoje, já percebi.

Não, era só porque o José Manuel estava dizendo coisas que eu, em primeiro lugar, na relação do Sampaio com o Guterres, embora as pessoas olhem muitas vezes para os vetos que vêm da Assembleia, esquecem-se dos vetos diretos daquilo que são os diplomas do governo. E na verdade, é um facto curioso que, embora eu não tenha feito a contabilidade total, parece-me que Guterres vetou muito mais-

Sampaio

Sampaio

Sampaio vetou muito mais de Guterres do que propriamente depois daquele período Barroso e Santana, até porque aquilo não corria muito bem entre os dois e isso é história.

E depois no princípio também não correu muito bem entre Sampaio e Sócrates. A relação inicial não foi nada. Houve nomeadamente logo choques por causa da Procuradoria-Geral da República, por exemplo. Nomeação para a Procuradoria-Geral.

Até porque eles eram de facções.

Depois não correu bem a nomeação na mesma, mas isso foi uma outra coisa.

E Seguro também. Seguro era muito mais de Guterres e eu também já encontrei umas coisas engraçadas dos tempos em que ele era líder da J e as declarações dele eram muito mais no sentido de ajudar Guterres e de prejudicar Jorge Sampaio. Não sei como é que era essa relação, mas certamente era de facções.

Na altura havia uma divisão ideológica no Partido Socialista, porventura até em alguns aspetos muito crítica, porque tínhamos um Guterres que queria levar o PS, não era pelo ato de ser católico, mas estava convencido que tinha que, depois de ter vindo o ex-secretariado, que era a ala mais à esquerda, digamos assim, do partido, queria levá-lo para o caminho daquilo que viria a ser a terceira via e fez todo um caminho nesse sentido, designadamente os Estados Gerais e o maneira como fez isso, e procurar que o velho Partido Socialista não surgisse. E quem estava do outro lado era Sampaio com Costa

Sim.

Com António Costa.

Sim, que era centrista.

Estas coisas nos partidos não se esquecem.

Sim.

As memórias.

As faixas ficam sempre muito limitadas. Outra coisa que tem a ver com esta ideia do acordo informal de 82. O Tribunal Constitucional mistura justiça e política, porque é um tribunal político. E há pessoas constitucionalistas que se meteram na política sempre com pouco sucesso, e Vital Moreira é um deles. Pode ser muito bom constitucionalista, mas não é assim tão bom político. E a prova disso é o resultado que teve nas europeias. E no Bloco Causa Nossa, eu creio que deve ter sido isso que a Mafalda foi buscar, faz um grande relambório de que está a romper, que além daquilo que está escrito na Constituição, há depois uma chamada prática constitucional e esses tais acordos não escritos que têm esse valor e essa validade. As coisas não podem ser assim vistas, porque se de repente o Partido Socialista ou o PSD, pra não estarmos aqui a ver apenas um lado e tudo é possível, passa a ter 10% dos votos, um acordo de cinco em cinco não faz sentido nenhum manter. Portanto, como a realidade e os resultados eleitorais são dinâmicos e a representatividade é dinâmica, esse acordo também tem que ser dinâmico. Da mesma forma que havia uma prática, não diria constitucional, mas uma prática política de interpretação do que estava na Constituição, de dar o governo ao partido mais votado, e houve um determinado momento em que se achou, pra ter uma correspondência com a representatividade da assembleia, é verdade, com muito protesto na altura do PSD, em particular liderado por Pedro Passos Coelho, houve um entendimento contrário e houve uma leitura contrária, e aquilo que era a prática de anos não foi seguida e o partido mais votado não foi pra o governo. Há outros exemplos disso. O Tribunal Constitucional não é a mesma coisa, mas é impossível pensar que se de repente o Partido Socialista ou o PSD, que são os dois partidos que tinham esse acordo desde 82, e que foi muito importante na altura pra travar os militares, que era o grande objetivo, que era trazer à política o que era da política e afastar os militares desse processo. O que foi bom e foi um exemplo da maturidade democrática. Aliás, muitas vezes as pessoas andam à volta se foi depois do 25 de Novembro. De certeza que a revisão constitucional de 82 foi, de facto, um grande momento de afirmação da maturidade democrática do país e da firmeza do regime democrático como conhecemos hoje. Não podem olhar pra isso como um acordo que é absolutamente imutável pra todos os tempos. Quer dizer, agora, de repente, um partido, acontecia ao PS o que aconteceu ao PASOK, ao Partido Socialista Francês ou o que fosse, e continuava a nomear cinco juízes pro Tribunal Constitucional. Não faz sentido. Depois, há outras discussões que se podem ter. Se o PSD poderia eventualmente continuar a negociar com o Partido Socialista em termos de aritméticas. Tinha essa legitimidade, havendo essa maioria, tinha essa legitimidade de o fazer. Não quer fazê-lo. Agora estamos nos a desviar do tema Seguro, mas eu até acho que o facto de o PSD querer dar aquele juiz ao Chega não é tanto para o dar ao Chega, mas para o retirar ao Partido Socialista, que ficaria com mais juízes do que o PSD, nesse caso, porque se depois o PSD desse um ao Chega, ficaria com menos. Portanto, voltando à ideia de António José Seguro, é um institucionalista e, portanto, naturalmente é atento àquilo que é a formalidade do regime, o normal funcionamento. É fácil de antecipar, e todos falaram disso cá fora, apesar das reuniões terem reserva e António José Seguro mostrar que é obcecado com as fugas de informação e com o silêncio. É muito parecido com o Luís Montenegro nessa matéria, por acaso. E então só permitiu que as delegações fossem de uma pessoa.

Sim, mas deixa-me só abrir aqui um parêntese. Sendo institucionalista, não se vai meter nas conversas entre os partidos, ou vai?

Não, pode fazer pressão como a figura máxima do regime para que as instituições estejam todas a funcionar de forma regular e, portanto, utilizar esse poder que tem, esse magistério de influência, pra dizer: "Resolvam-se, resolvam aí isso." E ainda tem mais autoridade num dos órgãos em que ele é o principal aconselhado, que é o Conselho de Estado. Portanto, ele tem essa possibilidade. É verdade que ele ainda não indicou os cinco dele. Eu fui ver o que aconteceu há 10 anos. Na verdade, os cinco da assembleia já estavam decididos ainda antes da eleição presidencial. E depois Marcelo Rebelo de Sousa indicou os cinco dele ainda no período de presidente eleito, transição, ainda estava Cavaco Silva. Portanto, quando tivesse o primeiro Conselho de Estado, eles tomariam posse. Saiu na TSF, na altura. Eu sei que isso depende depois um cadinho do estilo dos presidentes, mas saiu em fevereiro. Neste caso, já temos o dia 20 de março e António José Seguro não indicou. Mas eu percebo, porque ele provavelmente quer que a assembleia indique os deles, porque vamos imaginar que há um senador do Partido Socialista ou do PSD que ele até pensa nomear e que está nessa lista. Pode nomear um outro e, portanto, pode fazer esta pausa e deixar que os partidos se resolvam primeiro.

Não quer ficar desgraçado, digamos assim.

É a perspectiva de estabilidade de António José Seguro. Bom, que saiu hoje na manchete do Expresso, eu também tinha lido um artigo similar dois dias antes e exatamente nos mesmos termos na Rádio Renascença, que dizia que o PS ameaçava romper e também li um no Observador a dizer ao contrário, que era o PSD que ameaçava romper, em específico sobre os cargos dos órgãos externos, não genericamente, porque o PSD quer sempre falar com o Chega e com o PS. E uma sondagem que saiu também no Expresso, que diz é que os portugueses querem que o PSD vá negociando no estilo pisca-pisca, conforme for mais conveniente, ora com o PS, ora com o Chega. Pelo menos é isso que os inquiridos desse estudo de opinião dizem. Na verdade, António José Seguro não parece que vá ter grandes problemas a esse nível de estabilidade, porque eleições não interessa a ninguém. O grande problema é se ninguém quiser aprovar o orçamento, a disponibilidade do presidente de cumprir a palavra e prosseguir com um país em duodécimos, com o que isso pode atrapalhar ou não num contexto internacional adverso. E portanto, isso pra mim é o grande problema, até porque daqui o Partido Socialista até pode dizer agora que vai romper e está no papel dele, porque está na fase de pressão pra ter esse juiz do Tribunal Constitucional e dizer que vai romper e que nada mais com a AD, não conversamos mais. Aliás, vai ter congresso daqui a duas semanas.

Há pressões internas, não é? Há pressões internas. Pelo menos duas, sobretudo mais à esquerda, o Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva.

E eu acho que ele está a fazer pra isso, que o José Luís Carneiro vai agora aumentar a crítica.

Quando é que é o congresso?

O congresso não é neste fim de semana, é no próximo.

Não vamos ter acordo antes.

Aliás, é daqui precisamente uma semana, porque na sexta-feira à noite, às 19h00 começa o congresso.

Mas até ao congresso achas que não vai acontecer nada?

Acho que não, e até haverá maior tranquilidade, porque a grande dúvida aqui é rompendo nos outros cargos, isso cria uma nova negociação, porque o PSD ou depois vai negociar com o Chega e dar a Provedoria de Justiça ao Chega, por exemplo, se o PS sair de tudo, ou então decidem votar isoladamente, o PS faz um grande escândalo, até rompe noutras matérias, mas romper com o que já está rompido também não é difícil, porque o José Luís Carneiro até já é chamado, como eu já disse aqui também, jocosamente de José Luís Carteiro, mas o receptor das cartas não lhe responde e, portanto, esse diálogo já não é permanente. E, portanto, o que o PS vai cortar diálogo com o governo se eles já conversam tão pouco? É verdade, tiveram uma reunião esta semana, antes de José Luís Carneiro ir pra Venezuela, onde está neste momento, ou está a caminho, ou já chegou, não sei. Mas as negociações também não são assim tão profícuas, nem têm uma regularidade que dê pro Partido Socialista cortar. Nem o PSD parece muito incomodado com isso. E, portanto, o que me parece é que há muito pouco ainda a dizer sobre estas duas primeiras semanas de António José Seguro, mas eu acho que ele está a pagar pra ver, ou melhor, mais do que isso, está numa fase de wait and see. Esperar pra ver o que acontece pra depois eventualmente agir, sendo que eu não tenho dúvidas nenhumas.

Esperar pelo quê?

Esperar que o normal curso das coisas se desenrole. Na questão dos cargos, é deixar passar o congresso do Partido Socialista e ver se a questão se resolve definitivamente. Ele depois também tem um poder de intervenção muito limitado. O que António José Seguro vai fazer? Ele há pouco dizia, ele ainda não indicou os dele. Ele pode indicar os cinco, por exemplo, na questão do Conselho de Estado, pode indicar os cinco dele e pressionar: "Olha, eu quero reunir o Conselho de Estado."

E esclareçam-se lá vocês, entendam-se lá.

Se eles não entenderem, pronto, vai o Pedro Nuno Santos outra vez ao Conselho de Estado, coitado, tem que andar nesta vida. Mas não há muito que o presidente Seguro possa fazer. E parece-me que, não sei se por essa dinâmica da segunda volta, eu acho que António José Seguro, embora esteja tudo muito preparado há muitos anos e ele prepara tudo de forma muito metódica. Eu acho que a Presidência da República está previsto o que vai acontecer num Excel ou algo do gênero, porque António José Seguro é muito metódico. Ele também está a tentar perceber em que águas é que se move ainda. Até coisas práticas. O facto de ele ter uma equipa de transição e ter ficado com algumas pessoas de Marcelo Rebelo de Sousa nesta fase e ainda estar a testar, só ter nomeado um dos 12 assessores que precisa e que são obrigatórios em lei, mostra que ele está um bocadinho a tentar não cometer erros, a não escolher pessoas que depois são rapidamente queimadas e ele é queimado por arrasto na praça pública, porque têm outras pendências na vida profissional. E, portanto, parece-me que isso pode indiciar alguma dificuldade, mas também algum cuidado nas escolhas que está a fazer pra Casa Civil. Parece-me que está numa fase muito embrionária. Parece António José Seguro, neste momento, que ainda é o presidente eleito e não o presidente de fato. Mas é compreensível. Ele chegou agora e, portanto, não é nada que se possa dizer que seja um falhanço, porque está numa fase ainda de arrumar a casa.

De arrumar a casa. Não sei se tens memória disso, mas como é que estas duas semanas contrastam com a dos anteriores presidentes?

Olha, eu tenho memória e até na altura, não só acompanhei a campanha do presidente Marcelo, que foi completamente diferente do presidente Seguro. Acompanhei há 10 anos, não há cinco. E depois também acompanhei os tempos seguintes, em que ele foi pro Portugal Próximo, em que teve visitas ao estrangeiro. Era tudo muito mais frenético.

Com Marcelo, claro.

Com Marcelo. Eu falava com um segurista há dias que me dizia: "Nesta semana, o António falou três ou quatro vezes, o Marcelo já teria falado 22, tinha ido à Santini e ao Lidl." E eu acho que isto peca por curto, porque nesses Portugal próximo, nessas primeiras saídas, nas primeiras visitas que ele fez, o presidente Marcelo, de facto, falava muitas vezes ao dia. E mais do que isso, António José Seguro, em tudo, na postura corporal, na forma, tenta não dar margem nenhuma para pequenas leituras. Um dos desafios de acompanhar Marcelo é que nós nunca o podíamos deixar sozinho, porque ele estava com carrinho de morangos, dizia: "Está a ir pra esquerda, tem que equilibrar que vai pra direita." Estava a beber um gin e dizia: "Agora temos que descrispar." Cada coisa que ele dizia, mas eram tipo 20 num dia de presidência aberta, era potencialmente notícia. Isto é outro estilo. Faz-me lembrar, eu acompanhei já na fase final.

Era o criador dos factos políticos, não é?

Sim, faz-me lembrar numa fase final, eu acompanhei, creio que a última viagem fora do território continental do Cavaco Silva, no caso à Madeira, mas em nível nacional, faz lembrar muito mais a nível Cavaco Silva. Nós tínhamos: olha, na segunda-feira há uma fala. E tinhas uma segunda-feira descansada no Funchal. Na terça lá vinha: olha, vem o discurso, e lá vinha um assessor ou alguém da Casa Civil: "Atenção, que ali no ponto tal e tal, há aquela mensagem, vejam lá se estão atentos a isto." E aquilo não falhava. Estava ali, era a mensagem que Cavaco Silva queria dizer.

Uma vez pedi a um assessor do presidente Marcelo para ver se me podia dar o discurso e ele disse: "A gente nunca dá, porque ele nunca cumpre o que está escrito."

Sim.

Improvisa sempre.

Em relação ao Cavaco Silva, eu estava agora-

Mesmo nos sítios, em alturas relevantes, estamos a falar 10 de junho, 25 de abril, não estamos a falar discursos de improviso, estamos a falar de momentos relevantes, ele quase sempre metia buchas.

Estava aqui a confirmar. Por exemplo, Cavaco Silva, em 2006, quando toma posse, e toma posse em 9 de março, eu tinha quase a certeza que já tinha sabido no próprio dia quem eram os assessores e tudo isso. Não, desde fevereiro sabia. Ou seja, já estava eleito. Já se sabia antes.

Pois, no caso de Marcelo Rebelo de Sousa também.

Também. Pode dizer-se: Marcelo é Marcelo, sem Marcelo, não. Já se sabia. Quer dizer, Soares eram outros tempos.

Só que Marcelo tinha uma tendência que era: ele esvaziava muitas das funções de todos esses assessores. Não eram só os assessores de imprensa ou políticos.

Eram todos.

Eram todos. E às vezes as pessoas pensam, por exemplo, há consultores que dão esse apoio. Eu acho que efetivamente o Pedro Mexia dava alguns contributos quando eram aquelas notas de pesar. E muitos deles davam.

Na área da Cultura. O Pedro Mexia na área da Cultura.

Exatamente. E eu acho que Augustin dava alguns contributos que ele aproveitava, mas ele fazia muitas das funções. Eu creio que aí o presidente António José Seguro também será institucionalista e daí ter tanto cuidado a formar a equipa, porque ele quer mesmo que essa equipa cumpra a sua função e alguns não sejam só meramente figurativos. Eu não estou a falar dos técnicos. As pessoas tinham consultores mais técnicos da Casa Civil do presidente Marcelo, trabalhavam imenso, fossem videógrafos, fossem assessores. Alguns que estão lá agora com António José Seguro continuam a trabalhar de forma muito competente. Estou a falar de outras matérias em que o presidente substituía completamente esses membros da Casa Civil, porque era a maneira de ser dele. Vamos ver. Eu acho que este presidente também não é um Cavaco Silva, por várias razões, mas nessa parte eu lembro-me sempre uma rábula que Cavaco Silva fez com a cotação do ouro, que foi ver como é que estava a cotação nos mercados e dizer: "Está muito alta e o silêncio é de ouro, o silêncio do presidente é de ouro e vale isto." E depois dizia o valor do ouro. Eu acho que com o Seguro se o silêncio não é de ouro, pelo menos é de prata e, portanto, vai ser muito mais contido.

Muito mais contido. André Azevedo Alves é politólogo, junta-se a nós no Contracorrente. Bom dia.

Olá, bom dia.

Bom dia. O que já pode concluir, intuir das duas semanas de mandato de António José Seguro em Belém?

Eu acho que num primeiro aspecto, e aliás, indo de encontro ao que estava a ser dito, acho que há uma mudança de estilo, uma mudança de estilo também que António José Seguro durante a própria campanha e depois também no seu discurso de vitória e noutros momentos de intervenção tem procurado frisar. Acho que de alguma forma isso acontece por duas razões. Primeiro, pela própria natureza de António José Seguro. Acho que António José Seguro tem uma personalidade francamente diferente da personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa e, portanto, nunca seria, nesse sentido, uma manutenção do estilo pelas próprias características pessoais de António José Seguro, mas também pela consciência, que me parece correta, de António José Seguro de que, em especial ao longo deste segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, houve uma grande saturação e um grande desgaste relativamente à forma como Marcelo Rebelo de Sousa exerceu as funções presidenciais. E, portanto, parece-me que António José Seguro está também, para além de ser essa a sua inclinação natural, parece-me também que está consciente da necessidade de, de facto, de alguma forma restaurar alguma grávidas e alguma distância e alguma gestão no uso da palavra associada à função de Presidente da República. Aliás, é curioso e é elucidativo que os quatro candidatos que ficaram nas quatro primeiras posições na primeira volta das presidenciais, todos Se distanciaram do estilo de Marcelo Rebelo de Sousa. Em termos de conteúdo, acho que é muito cedo, em termos de rumo da ação presidencial é muito cedo. Acho que a esse nível, numa primeira fase e se calhar também depois num segundo momento, a escolha decisiva que António José Seguro vai ter que fazer é até que ponto vai atuar como um presidente mais conotado com a área socialista e cedendo, eventualmente, à tentação de procurar reconstruir o PS como partido de poder a partir de Belém, ou ser fiel àquilo que prometeu e que indicou e ser, de facto, isso fundamentalmente apartidário. Acho que essa tensão provavelmente vai estar presente em vários momentos e para mim não é certo como ela se vai decidir.

André, o facto de ainda não ter nomeado o chefe da Casa Civil, o facto de António José Seguro querer reunir apenas com o representante de cada partido, isso diz-nos que o novo presidente da República está a defender a imagem da instituição ou está em autodefesa?

Eu diria as duas coisas. Aliás, eu acho que uma não é incompatível com a outra e que provavelmente as duas se reforçam mutuamente. Primeiro parece-me, nomeadamente a questão das reuniões e também a ponderação e o cuidado na seleção da sua equipa, parecem-me dois bons sinais. Claro que em relação à equipa teremos que aguardar para ver qual a composição final e depois também para ver o funcionamento da equipa. Às vezes há nomeações que parecem adequadas e as coisas não funcionam assim tão bem, mas para já parecem-me sinais positivos. Mas nomeadamente no caso das reuniões, eu confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com essa decisão. Acho que um dos piores aspetos do ponto de vista de desgaste e degradação das funções presidenciais ao longo dos últimos 10 anos, são as constantes fugas de informação e as célebres fontes próximas de Belém, que sucessivamente e muitas vezes até contraditoriamente, iam aparecendo sempre que havia um assunto político na ordem do dia que envolvia a presidência. Não estou necessariamente a dizer que Marcelo era o único responsável por essas fugas, mas certamente que a atuação do presidente teria alguma influência substancial nesses fluxos de informação. E, portanto, parece-me que esse sinal, não só a prática, mas o sinal que António José Seguro está a dar de que as reuniões privadas com o presidente são para ser reuniões efetivamente privadas e não para ser mecanismos de exercício de influência e de propiciar fugas mediáticas, parece-me francamente positivo.

Há aquela promessa de António José Seguro de Belém patrocinar e induzir um pacto para a saúde. Acha que isso está na agenda do presidente nas próximas semanas ou nem por isso?

Eu acho que essa será talvez a área, as intenções/promessas que António José Seguro fez relativamente a políticas públicas concretas, nomeadamente na área da saúde, poderá ser a área mais frágil para estes primeiros tempos do primeiro mandato de António José Seguro.

Frágeis para o presidente?

Mais frágeis para o presidente, exatamente. Porque me parece que as condições de concretização serão extraordinariamente difíceis, e aqui não principalmente por António José Seguro, mas pelas próprias circunstâncias políticas do país, pelo governo, pela fragmentação no Parlamento. E nomeadamente essas intenções de António José Seguro podem muito rapidamente entrar em choque, ou pelo menos a intenção, com a sua prioridade à estabilidade política. Porque se António José Seguro vai por um lado, e parece-me que vem procurar quebrar o que foi o caminho de permanente promoção da instabilidade a partir de Belém, que Marcelo Rebelo de Sousa acabou por gerar. E as sucessivas dissoluções, não só as dissoluções, mas a ameaça permanente de uma nova dissolução, que foi em si um grande fator de instabilidade para o país. Portanto, isso parece-me que António José Seguro faz muito bem em anunciar que a sua atuação será diferente e que não vê razão para que estejamos permanentemente a ter eleições de forma quase automática, quando, por exemplo, temos uma saída de um primeiro-ministro. Ao mesmo tempo, isso também retirará necessariamente margem para pressionar os governos, precisamente porque os governos e os parlamentares em funções terão presente que a prioridade do Presidente da República é a estabilidade política. E portanto, acho que aí poderá sempre exercer alguma magistratura de influência e certamente o tentará fazer, mas parece-me que as próprias circunstâncias políticas do país, por um lado, e por outro, a própria prioridade, que me parece correta, que António José Seguro vai dar à estabilidade política, provavelmente vão limitar bastante a margem de atuação efetiva nessas áreas de políticas públicas por parte da presidência.

Portanto, em última instância, pode até de alguma forma enfraquecer o presidente no início do mandato ou não?

Poderá enfraquecer o presidente, pelo menos do ponto de vista da sua imagem pública. Ou seja, no fundo, esta ideia que também nas campanhas presidenciais tende a passar Que o Presidente da República, apesar das limitações efetivas do seu poder num sistema semipresidencialista como o português, vai fazer coisas que na prática não estão no âmbito dos seus poderes. Há sempre aquela sugestão: "Sim, mas eu como presidente levarei o governo, gerarei pressão, juntarei os partidos." Enfim, todas essas declarações de intenções dependem do que efetivamente o governo queira fazer, do que os partidos queiram fazer, e sobra a tal arma presidencial da dissolução, que é tal que, a meu ver bem, António José Seguro já deu várias vezes indicações de que procurará fazer um uso mais restrito, mais parcimonioso, mais prudente e mais ponderado do que fez Marcelo Rebelo de Sousa. Na prática, isso poderá levar a que ao fim de um ano, dois anos, quando chegarmos a meio do primeiro mandato, provavelmente num conjunto destas áreas, nomeadamente e em particular a área da saúde a que o próprio António José Seguro deu mais destaque, as coisas estejam mais ou menos na mesma e que se diga que o presidente deu a indicação de que iria dar prioridade à área e de que iria promover isto e aquilo, e no fundo as mudanças efetivas não foram muito grandes. Essas declarações de intenções relativamente a áreas de políticas públicas concretas, em que efetivamente não há poderes presidenciais diretos, eu acho que aí será difícil que António José Seguro marque muitos pontos. Mas sobra a questão do estilo, que eu acho que é importante, e depois a questão também fundamental da forma como se vai relacionar com o governo e com os partidos políticos e promover a estabilidade política. Acho que nesses domínios António José Seguro se poderá afirmar.

André Azevedo Alves, agradeço. Muito obrigado por se ter juntado a nós no "Contra Corrente". André Abrantes Amaral, qual será o primeiro momento da nova presidência em que ficará mais claro o valor que os eleitores atribuem ao seu voto ao presidente António José Seguro?

O primeiro?

Sim, em que nós possamos perceber alguma coisa.

Eu acho que seria na reforma laboral, que seria um dos momentos que poderiam clarificar bem, até porque nós estamos a falar de um assunto em que António José Seguro, eu já referi isso no princípio, foi bastante claro. Ele não queria a reforma como foi apresentada pelo governo. Portanto, naturalmente, vamos ver se ele consegue, se ele tem força de influência a fazer com que haja um acordo de concertação social entre patrões e sindicatos, saber se há acordo e negociações que levem a bom porto com os partidos políticos, nomeadamente com o Chega e com o Partido Socialista. E depois também perceber até que ponto é que essa dita reforma, que fosse tão consensual, gerasse alguns frutos. Porque às tantas, estas negociações podem correr o risco de mexer muito, toda a gente ficar muito contente, ter imenso trabalho até chegar a um acordo e depois não ser nada. Aliás, muitas vezes é esse o objetivo também nestas negociações, quando se fala, e isso tem a ver com o impasse político que nós estávamos a referir na primeira parte aqui do programa, é que todos estes partidos vão querer diluir as suas posições naquela reforma, de forma que aquilo que eles defendem não seja posto em causa pela dita reforma. E portanto, ela pode ficar diluída numa amálgama de coisa nenhuma. Isso vai ser uma questão. E há aqui outro aspecto, não sei até se nós estávamos aqui também a falar dos nomes, por exemplo, para os juízes do Tribunal Constitucional, que o Rui estava a mencionar. É preciso ver que José Luís Carneiro mencionou, quando foi falar com António José Seguro, disse que tinha falado com ele sobre esse assunto em termos globais, e depois veio sublinhar que era uma matéria da Assembleia da República. Ou seja, nós temos um presidente da República que quer ser influente, mas nós também temos uma Assembleia da República que quer ter a sua influência e manter bem as coisas separadas, como é normal. Mas isto é curioso não só pela dita separação de poderes, que é bom que se mantenha, mas é curioso porque temos aqui dois socialistas e temos um secretário-geral do Partido Socialista, e nós sabemos que os secretários-gerais do Partido Socialista tiveram vários problemas, principalmente quando Mário Soares era presidente da República. Estamos a lembrar de Jorge Sampaio e de Vítor Constâncio, que teve grandes problemas com Mário Soares. Portanto, já vejo esta necessidade também do José Luís Carneiro em marcar a sua posição. Ou seja, tem aqui toda a espargata que está a fazer dentro do partido por unir todas aquelas pontas, ainda tem mais uma com que se preocupar, que está em Belém.

Rui Pedro Antunes, a lei laboral será o primeiro braço de ferro entre palácios?

Pode ser ou não, porque primeiro, para chegar a Belém, é preciso que passe na Assembleia da República. E enquanto o Partido Socialista ou enquanto o governo não conseguir o acordo com o UGT, que pressiona o Partido Socialista a entrar na negociação no Parlamento

E enquanto as medidas parecerem para fora impopulares e de alguma forma danosas dos direitos dos trabalhadores, que é a imagem da percepção pública da legislação laboral, depois podemos discutir aqui que facilitar despedimentos pode ajudar a economia e pode ajudar até o emprego, é toda uma discussã oque não vamos ter aqui. Mas para dizer o seguinte, para chegar a Belém ser um problema, era preciso primeiro ser aprovada na Assembleia e eu não vejo neste momento caminho para isso. Ou então vai ser alterada de uma forma tão grande que aquilo que vai sobrar é uma coisa que Passos Coelho chamaria de uma nanorreforma ou então não reforma. E, portanto, o que vai passar é tão pífio relativamente àquilo que era a ideia inicial do governo e da Ministra do Trabalho, que depois facilmente será viabilizada por António José Seguro em Belém. E mesmo que vete por razões políticas, depois havendo uma maioria na assembleia, pode ser a mesma lei reconfirmada. Mas mesmo assim, eu acho que António José Seguro vai evitar ao máximo ter essa confrontação e utilizar o veto numa matéria tão importante como essa.

E curiosamente, a composição do Tribunal Constitucional também pode ter importância nessa caminhada, não é?

Sim, no sentido em que algumas normas podem ser suscitadas.

Quer dizer, estar a suscitar dúvidas e o Tribunal Constitucional é um tribunal político.

Sim.

A leitura jurídica das normas constitucionais é uma coisa que não é fechada.

Sim. E há outras matérias em que pode haver alguma diferença ou não sintonia com o governo, nomeadamente a política externa. Parece-me que o presidente António José Seguro não é tão atlanticista, ou seja, não é tão defensor incondicional da aliança com os Estados Unidos, nem sequer tão favor especificamente da NATO.

É isso que justifica a escolha da Ilha Terceira como palco das comemorações de 10 de junho.

E das Lajes em particular.

A justificação na Terceira tem a ver com o fato de ser os 50 anos das autonomias regionais, a oficial. Mas já que falas nisso

Eu gostei do "é oficial".

É oficial, porque efetivamente pode existir outra motivação que nós ainda não conhecemos. Mas efetivamente, sim, vamos ter as altas figuras do Estado todas juntas a uma base de onde saem aviões de reabastecimento, se nessa altura ainda existir guerra. Faltam alguns meses. Faltam quase três meses para o 10 de junho e, portanto, a situação na altura vai ser muito diferente e portanto há de ser reavaliado.

José Manuel Helena, num minuto.

Num minuto, eu acho que aquilo que provavelmente vai ser mais importante e mais determinante vai ser nos próximos tempos, o trajeto de algumas dessas leis. Eu acho que nós já vimos no princípio questões como a saúde não vai ver. Poderia haver um ponto, que é ver se corrigiam aquela lei de bases do SNS aprovada com o Bloco e com o PCP na altura da chegada de Marta Temido ao governo e fazer uma lei mais sensata. Mas isso não muda nada. Não é isso que vai de repente salvar a saúde. Um presidente aqui pode ajudar. No que diz respeito às questões da Lei do Trabalho, eu acho que vai depender muito da UGT e em última análise, também pode depender do Chega. Porque o Chega também canta de acordo com aquilo que acha que é a música que quer ser ouvida. E se a uma altura perceber que, até pela questão do Tribunal Constitucional e outros acordos que faça, precisa de adaptar um pouco a sua rigidez desde que houve a greve geral, veremos.

Veremos. André Abrantes Amaral, muito obrigado.

Obrigado.

Rui Pedro Antunes, obrigado também a ti. José Manuel Helena, até segunda. Bom fim de semana.

Esqueceste de mim.

Nunca me esqueço. Bom fim de semana a todos.