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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos evocar um acontecimento de há 50 anos, dezembro de 1971. Um acontecimento pouco recordado, mas que é interessante, até porque evoca uma época que, sendo distante, tem alguns paralelos com a atualidade. Estou a referir-me a uma cimeira que ocorreu nos Açores, na Base das Lajes, na Ilha Terceira, entre 12 e 14 de dezembro, mas que foi precedida de um conjunto de outros eventos que se iniciaram um pouco antes, entre o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, o presidente da França, que era na época Georges Pompidou, e que teve como anfitrião o então presidente do Conselho, o nome que então se dava ao primeiro-ministro português, Marcelo Caetano. Para Marcelo Caetano foi uma espécie de momento de glória, porque há muito tempo que Portugal não conseguia estar junto com o erópago das grandes nações. Também foi um momento importante porque poucos dias antes tinha sido assinado em Washington uma renovação do acordo da Base das Lajes, um processo que tinha começado meses antes, com a visita a Lisboa do antigo vice-presidente Spiro Agnew, que tinha visitado Portugal em junho desse ano de 1971. Havia alguma evolução da posição dos Estados Unidos relativamente a Portugal, portanto havia uma certa melhoria das relações entre Portugal e os Estados Unidos, mas Portugal era, sobretudo, o anfitrião. Essa cimeira teve várias peripécias, vários episódios curiosos, mas o pano de fundo era uma cimeira que se realizou, sobretudo, por causa de uma situação econômica muito marcada pelo fenômeno da inflação. Nós hoje vivemos novamente dias em que se fala muito de inflação, apesar de os números dos dias de hoje serem muito diferentes dos números dessa época. Mas a inflação volta a atormentar a cabeça dos políticos e as preocupações deles. Nós estávamos praticamente nas vésperas da saída dos Estados Unidos do padrão-ouro, portanto de um momento que provocaria uma enorme tempestade a nível dos mercados financeiros mundiais, e era a preparação desse movimento que estava em causa. Dias depois desta cimeira das Lajes, haveria uma cimeira em Washington que consagraria esse movimento. Mas, Jaime Gama, os Açores é a sua terra. Tem memória deste encontro e de todo o folclore, todo o cerimonial que o rodeou?
Sim, esse acontecimento foi muito relatado na imprensa portuguesa e foi também relatado na imprensa internacional. Foi relatado na imprensa internacional, de facto, porque respondia a um momento grave da situação monetária internacional e esse encontro permitiu um pouco entre Nixon e contribuiu desbloquear a situação e abrir caminho pra um entendimento que se veio a consolidar mais tarde. E por outro lado, também no plano nacional, porque obviamente ter esses dois presidentes em território português era algo que constituía em si mesmo um motivo para a sua projeção e, naturalmente, o primeiro-ministro da época também tinha interesse em valorizar esse facto e valorizar a sua associação a esse evento, que obviamente é uma associação que não pode deixar de ser interpretada como um certo prêmio desses dois interlocutores ao momento em que ele está a viver como primeiro-ministro, quer do ponto de vista doméstico, quer do ponto de vista também da sua repercussão em relação às questões internacionais, especialmente em relação às questões africanas. O acontecimento não decorre na Base das Lajes. A Base das Lajes é o aeroporto, é o local onde pernoita o presidente americano. O presidente francês fica hospedado numa estalagem, numa localidade da Ilha Terceira chamada Serreta.
Uma estalagem que já fechou.
Sim, e o primeiro-ministro português fica instalado no Palácio dos Capitães-Generais, que era à época o polígrafo do governo civil. Os encontros correm em Angra do Heroísmo, no chamado Palácio da Junta Geral, que é um antigo paço episcopal que a partir de 1910 passou a ser edifício público, portanto, é essa a sequência do alinhamento Os dois presidentes viajam, cada um praticamente Paris e Washington, devem ser distâncias equilibradas. O presidente americano viaja no Air Force One, que é um Boeing, e o presidente Pompidou faz também desse momento uma grande ocasião de propaganda internacional ao Concorde, visto que faz a sua aparição em Concorde.
Ao menos é um momento que dá origem a alguma tensão. Há uma disputa sobre onde é que fica o Concorde, porque os americanos não queriam que o Concorde aparecesse nas imagens de televisão, porque iam ser transmitidas e na altura, nem depois, nunca nos Estados Unidos tiveram um avião supersônico, um avião comercial supersônico.
Digamos que tinham razão desse ponto de vista, porque uma fotografia do presidente Nixon com o Concorde atrás era algo que não favorecia muito a imagem dos Estados Unidos. Estava num momento feliz de vários congressos científicos e tecnológicos, e também usou desse factor visual de vantagem no cenário internacional.
Jáime Gama Pinto, para Marcelo Caetano, aquele foi um momento, nós vemos as imagens de televisão da época, as filmagens, ele parece quase eufórico, feliz, anda pela ilha a acenar às populações, está sempre sorridente, parece reencontrado com a sua função. Parece um momento de grande euforia.
Sim, aliás, vamos lá ver, estamos aqui internamente. O Tomé Celagetano estava a tentar fazer aquele dificílimo exercício da transição. Enfim, já estava há quase três anos no poder. Já estava há três anos mesmo no poder. Ele tinha passado a presidência do Conselho em setembro de 68. Mas é evidente que no fundo, praticamente toda a sua passagem pelo governo foi sempre essa tentativa de fazer sobreviver o regime e as instituições do Estado Novo, que eram instituições que no fundo, eu tenho essa opinião há muitas décadas, eram instituições que estavam feitas para funcionar praticamente com uma só pessoa, que era Gonçalo Nazar. E ele estava a tentar fazer exatamente essa adaptação, com os seus altos e os seus baixos, enfim, essas imagens de sorrir. Ele tinha, aliás, tentado fazer exatamente esse exercício de popularidade com as famosas conversas em família, dar um ar mais próximo. Embora, enfim, não tivesse, por maneira de ser, não fosse nada demagogo. Mas queria, de facto, ter um maior contacto com a população e, portanto, claro, nessa altura em que Portugal estava bajo uma certa condenação internacional em relação exatamente aos problemas africanos, etc. O ter, de facto, enfim, as duas figuras da maior potência mundial e também da potência europeia na altura principal, combinando exatamente a força económica da França e da sua força militar e a sua presença e tudo isso. Portanto, do ponto de vista de publicidade ou propaganda internacional, era uma carta importante e Marcelo Caetano nisso mostrava a sua satisfação, porque infelizmente não iria ter muitas oportunidades dessas. Estava contente com isso e com esse papel que Portugal tinha um bocadinho como hóspede, como hoteleiro desse grande encontro.
Esse encontro não teve a polémica de uma outra cimeira, que essa sim realizou-se nas Lages, que foi a Cimeira das Lages que antecedeu a Guerra do Iraque, mas teve uma projeção na cena internacional também muito grande, porque antecedeu os acordos Smithson, que seriam assinados poucos dias depois, a 18 de dezembro, em Washington, no Instituto Smithson, e que no fundo consagrariam uma mudança do sistema monetário e financeiro internacional. Ainda hoje olhamos para esse período como um período de uma tempestade financeira sem paralelo e quando vemos o que se está a passar hoje com a inflação, recordamos um pouco a forma como na altura os políticos tiveram dificuldade em lidar com esse problema. Jáime Gama.
É preciso ver que na altura-
Havia várias questões complicadas, não é?
Não havia União Europeia E, portanto, os próprios seis tinham se dividido um pouco na forma de lidar com o assunto. Os Estados Unidos sentiram que os seus termos de troca do ponto de vista comercial e do ponto de vista monetário estavam a favorecer demasiado blocos antagônicos. Aqui está em causa também a relação com o Canadá, com o Japão e a relação com os países do Blocos seis. O Reino Unido não tinha ainda aderido. E, portanto, o que fazem os Estados Unidos? Fazem uma cessação da convertibilidade do dólar existente fora dos Estados Unidos em ouro e ao mesmo tempo aplicam uma sobretaxa de 10% às importações. Isso, obviamente, como medidas para obter uma negociação. E essa negociação é o que se vai a desencadear nos momentos seguintes, tem várias etapas, um encontro primeiro em Londres dos ministros das finanças dos países mais ricos do mundo, e depois uma reunião do G10 em Washington, que no fundo, marca um pouco o fim do sistema Bretton Woods e o fim do padrão-ouro. E vai saldar-se num acordo em que o dólar é desvalorizado em 7,89% e os americanos põem fim à sobretaxa de 10%. E são fixados vários mecanismos para constituir um sistema monetário internacional baseado em outros critérios e também para regular de forma diferente o comércio internacional. Portanto, é uma crise que tem a sorte de ter também do lado não norte-americano, a figura de Pompidou. É um momento em que a França dispõe de grande autoridade nos países europeus, é um presidente que é bastante conhecedor das questões monetárias e financeiras, é um presidente, sublinho, favorável à entrada do Reino Unido no mercado comum, contrariamente ao seu antecessor, de Gaulle, e também contrariamente, como nós, em relação ao seu antecessor, de Gaulle, é um presidente favorável a um papel dos Estados Unidos nos mecanismos da segurança europeia. E isso tem significado, porque há aí uma evolução da posição francesa que é suscetível de ser tida em conta. E Pompidou sai daí com um grande capital político. É preciso ver que esta reunião também é uma reunião em que o presidente Nixon tem o cuidado de falar com Pompidou antes de fazer no ano seguinte a sua viagem à China e a sua viagem à Rússia.
Exatamente. Aliás, foi um dos temas também da conversa que ele teve com Marcelo Caetano.
Exato. Um dado de acerto de posições importante para o que se vai passar no momento seguinte. As equipes são equipes muito boas, porque do lado de Pompidou está o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Maurice Schumann, o seu ministro das Finanças, Valéry Giscard d'Estaing.
Giscard d'Estaing, exatamente.
E o secretário-geral do Eliseu, Michel Jobert. É um período em que Pompidou ainda tem como primeiro-ministro Jacques Chaban-Delmas. E do lado de Nixon está o secretário das Finanças, Connally, o secretário dos Negócios Estrangeiros, que o acompanha, William Rogers, e também o National Security Advisor, Henry Kissinger, que tinha começado a articular uma mudança da política externa dos Estados Unidos em relação à China e à Rússia. E é preciso ver também que no caso que implica Portugal, Portugal não é o centro da cimeira, mas há os encontros bilaterais Pompidou-Caetano, Nixon-Caetano. E aí as relações de Portugal com esses países, que também tinham sofrido evoluções recentes com a chegada de Caetano ao poder, são objeto de um certo balanço e de um certo alinhamento de posições onde isso era possível. Caetano aproveita também para fazer um summing up do que era a sua diferença face a Salazar na relação externa, através dos encontros que tem nessa cimeira. É um momento muito interessante das relações internacionais. E isso marcará indiscutivelmente a oportunidade e o relevo da cimeira, porque ainda hoje, se consultar nos arquivos da diplomacia americana ou da diplomacia francesa, esse evento foi muito bem recortado e bem com destaque. É evidente.
Já no Grapião, muito brevemente, porque estamos praticamente no fim da primeira parte. Isto passa-se praticamente em cima da renovação do acordo das Lages, que é o momento em que há uma reaproximação também da administração portuguesa à administração americana, depois do momento de esfriamento das relações durante a década de 60.
Exatamente. Esse esfriamento de relações, atenção aos analfabetos, esse esfriamento de relações foi os primeiros tempos de Kennedy. Ainda no tempo de Kennedy, pouco tempo antes de Kennedy ser assassinado, houve uma certa reaproximação. O embaixador que veio para cá, o embaixador George Anderson, que era um oficial de Marinha, um almirante, já veio com uma agenda bastante diferente. Isso, aliás, o embaixador Franco Nogueira contava com algum detalhe que uma conversa que ele tinha tido com o presidente Kennedy pouco antes de Kennedy, se não estou em erro, ser assassinado, em que ele tinha insistido muito nalguns aspectos até curiosos, que era uma série, por exemplo, de minerais estratégicos, não me lembro agora exatamente o que era, mas que existiam, por exemplo, apenas na então Rodésia e na Rússia ou na África do Sul. Ele contava isso com certo detalhe. Portanto, já no fim da administração Kennedy, as coisas tinham começado a mudar e depois com Johnson, a situação não estava muito tensa, deixou de estar. Houve dois anos muito complicados, quando de facto os dois primeiros anos em que começou a guerra em Angola, em fevereiro, março de 61 e até ao verão de 63, houve de facto uma tensão relativamente forte, até porque também havia uns certos apoios dos Estados Unidos ao FNLA. Sim, o PLA, depois FNLA. Mas já tinha começado a situação a-
A mudar, entretanto.
A mudar, entretanto.
Vamos regressar dentro de alguns minutos para a segunda parte do "Conversas à Quinta". Estamos de regresso à segunda parte do "Conversas à Quinta". Jaime Nogueira Pinto, esta evolução do sistema financeiro internacional foi uma mudança muito significativa, porque no fim, como já disse o Jaime Gama, é o fim do sistema de Bretton Woods.
Exatamente.
Mas isso abalou na altura imenso a confiança das pessoas. Mas nós tínhamos a inflação. Nós agora falamos de inflação, quando temos inflação a 2%, 3%, mas na altura tínhamos inflação a dois dígitos. Mesmo nestes países. As pressões inflacionistas eram de um tipo diferente, porque tínhamos a Guerra do Vietname, que colocava uma grande pressão sobre a despesa pública americana, tínhamos os gastos com o Estado Social na União Europeia, na época tinham disparado de repente, ou melhor, para níveis que não estavam previstos nas décadas anteriores, em que o crescimento económico tinha coberto largamente esses gastos. E portanto, estávamos a entrar num período de refluxo da grande euforia dos anos 60. Como é que foi essa adaptação a esse período, que a Inglaterra só sairia dessa crise com a senhora Thatcher no final dos anos 70?
Houve depois um período que eu penso que se estende praticamente até Reagan, se não estou em erro, com inflação altíssima, quer na Europa, quer nos Estados Unidos. E penso que quem estava na altura, aliás, presidente do Clube Federal era o Paul Volcker, se não estou em erro. A ideia que tenho são anos de altíssima inflação que só vem a ser controlada já na administração Reagan. Uma das razões que Reagan traz é exatamente essa promessa de reduzir a inflação. E ao fim de algum tempo consegue. Mas lembro-me que esses anos, essa sequela depois dos anos 70, são anos de altíssima inflação, quer na Europa, quer nos Estados Unidos, quer no mundo.
Jaime Gama, apesar de tudo, nós hoje vivemos anos um pouquinho diferentes, porque a conjuntura é uma conjuntura de alguma pressão inflacionista, mas não temos o mesmo tipo de enquadramento que tínhamos nessa época.
Não, a relação monetária internacional, apesar de tudo, está muito mais estabilizada do que antes. E isso marca uma diferença. Também o sistema europeu evoluiu neste ponto de vista e com o euro há uma maior integração. E apesar da libra nunca ter feito parte, mas há o alinhamento, que é um fator também importante e significativo de estabilidade. No período atual, com a urgência com que foi convocada a cimeira pela importância do tema, não faria sentido repeti-la, mas no momento em que ela foi realizada, a sua necessidade era óbvia. E desse ponto de vista, a cimeira é um sucesso, porque marca um ponto de viragem importante e o diálogo que é ali feito foram longas sessões Conversa bilateral a vários níveis, produziu um resultado e isso pode ver-se nos meses seguintes, porque nos meses seguintes o que ali é alinhado tem sequência prática, há resultados práticos visíveis e estabilizadores importantes. E isso marcou um ponto de viragem importante. Aliás, de certa maneira, as visitas que depois Nixon faz à China e à Rússia, endossadas por esse resultado, têm outro peso e outra relevância. Sem a resolução desses assuntos, haveria uma maior dificuldade. Isso foi o resultado importante da cimeira.
Jáme Grapeiro Pinto, uma das coisas que se falou na altura foi precisamente o aparecimento na cimeira de Kissinger. Isto foi há 50 anos. Kissinger, na altura, tinha-
48, talvez.
48. Ele está quase a fazer-
Ele deve ter agora 98, ou está perto disso. É, deve ter 48 anos, nessa altura. Exatamente.
É uma figura que acabou por marcar de forma completamente indelével a história.
É uma figura muito interessante. Eu tive ocasião de estar em reuniões onde ele estava três ou quatro vezes na vida, já depois de reformadíssimo.
Se é que ele se reformou algum dia.
Sim, reformado da atividade política prática, mas continuando sempre. E é muito interessante, as origens intelectuais dele, porque eu conheci relativamente bem e convivi com alguma continuidade. O Fritz Kraemer, que foi uma espécie de guru, quer dizer, não foi o guru, foi quem lançou, de certo modo, o Kissinger e que o encorajou muito a fazer o doutoramento. Porque eram os dois alemães expatriados para os Estados Unidos por razões da perseguição do período hitleriano. O Kissinger tinha ido com os pais, muito jovem, penso eu, ainda criança ou adolescente, e o Kraemer tinha ido já adulto, era um prussiano católico e tinha ido também porque tinha sido um dos primeiros que tinha conspirado logo no princípio contra Hitler e tinha ido para os Estados Unidos. E nos Estados Unidos acabou por ter uma função muito importante, que era uma espécie de guru da junta de chefes e foi quem lançou, de certo modo, o Kissinger. Na biografia do Isaacson do Kissinger, ele tem uma frase muito interessante sobre o Kissinger, que o Kraemer diz que ele ainda não sabia nada e já percebia tudo, que é uma frase... Curiosamente, o Kissinger depois começou a trabalhar com o Allard e com os liberais do Partido Republicano, com o Rockefeller, mas o Nixon ligou muito ao livro dele sobre armas nucleares e política internacional e, portanto, começou a ouvi-lo e, de facto, depois pô-lo a conselheiro nacional de segurança. E é ele que, de certo modo, começa a fazer aquelas viagens à China e faz a primeira viagem à China e faz a abordagem. Ele depois contou isso detalhadissimamente em vários escritos e faz a viragem da política americana exatamente para a China, que levou à entrada da China nas Nações Unidas ou ao afastamento de Taiwan, da então chamada China Nacionalista. E o Nixon está à porta, nesta altura, exatamente de fazer ele a visita à China. Está há dois meses ou três para fazer essa visita.
Jáme Gama, é muito curioso como algumas dessas figuras, nomeadamente, por exemplo, George Pompidou. George Pompidou é também um político que podemos considerar, de alguma forma, que desaparece prematuramente. Ele morre pouco tempo depois, morre cedo, morre vítima de câncer, não completa a sua presidência.
Exatamente.
E era alguém que é sucedido por alguém que está presente nesta cimeira, Giscard d'Estaing, mas que talvez não tenha a mesma estatura que George Pompidou poderia ter tido.
O que é muito interessante nesta cimeira, e é apenas uma coincidência cronológica, é que os três políticos que estão presentes nela cessam, por razões diferentes, as suas carreiras políticas em 1974.
Exatamente.
Isso é interessante. Embora com idades diferentes. Marcelo Caetano é o mais velho, Pompidou é o do meio e Nixon é o mais novo. Isso também marca um pouco a época e um gradiente na época. Depois, eu acho que é interessante para também compreender esta cimeira, ver que as relações de Portugal com a França estão no momento em que o acordo das Flores de 64 é renovado em 71. O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Maurice Schumann, visita Lisboa nesse ano E Portugal inicia relações de negociação para uma modalidade de entendimento técnico para um acordo, que não se sabia bem que formato final teria, com a Comunidade Económica Europeia. E, portanto, as relações da França com Portugal estão num momento interessante. Do ponto de vista dos Estados Unidos, há, como ela lembrou, a visita de Spiro Agnew a Portugal nesse ano, mas há um movimento prévio muito apostado da parte de Marcelo Caetano em ultrapassar os impasses na relação com os Estados Unidos e em obter uma renegociação do acordo das Lajes, que era o acordo de 53, mas que em 62 ficou suspenso, ou seja, ficou como uma continuidade de fato, mas sem acordo escrito. E Marcelo Caetano empenha-se muito na renegociação de um acordo. É algo complexo, e digo isso porque Nixon não tem maioria no Congresso e, portanto, o acordo que vem a ser assinado em Bruxelas, numa cimeira da NATO, por Rui Patrício e William Rogers, em 71, é um acordo que consolida manifestamente uma relação mais estável com a administração americana, mas que depois vai ter muitas dificuldades na sua concretização pela obstrução do Congresso a que desse acordo pudessem resultar implicações no emprego de material militar americano em África. É, portanto, uma nuance do que aí se vai seguir. Mas o acordo é feito e isso é algo que estabiliza a relação. É feito para vigorar até fevereiro de 74 e é um acordo que contém vários aspectos. E esse acordo é possível também porque do ponto de vista americano, há uma intervenção, é por isso que eu falo nesses temas de Kissinger, muito importante, que é a modificação com nuances da política norte-americana, mesmo da própria política Nixon e Johnson e Kennedy, em relação à África Austral. E naquilo que ele considera uma nova modalidade de engajamento dos Estados Unidos, quer com a África do Sul, a Rodésia, quer com Portugal, por causa da Angola e Moçambique, quer com os países africanos independentes que têm postura e posição na região. E é essa arquitetura que permite à administração americana criar uma filosofia pra um relacionamento relativamente nuance com essa área, que está na base também da luz verde ao acordo e que está também na base da luz verde à Cimeira das Lajes. É preciso ver o contexto em que se está e que de certa forma, quer o governo Nixon, quer o governo Pompidou, ao fazerem uma cimeira nas Lajes que dá visibilidade a Marcelo Caetano, fazem um certo endosso de Marcelo Caetano, quer quanto a uma política evolutiva no plano interno, quer quanto a uma política involutiva em relação às colônias portuguesas. É, portanto, um encontro que está ali num momento crucial muito importante, em que há a noção de que mais vale a pena influenciar num quadro de garantias do que propriamente pressionar, condenar ou verberar uma posição. Portanto, também essa leitura é interessante que se faça.
Mas isso tinha um pouco a ver com uma nova aproximação americana, de que depois daquela aproximação clássica do país, que era uma antiga colônia e que, portanto, tinha muita política no sentido da autodeterminação, começa a olhar para a África pensando que os brancos têm um papel a desempenhar e que não pode ser apenas um continente deixado à autodeterminação de qualquer forma, não é isso?
Isso aí até há um certo entendimento, se se quiser, entre a política africana francesa e esta nova leitura americana, porque os americanos têm uma postura ao início muito clássica em relação ao apoio ao anticolonialismo e muito colada às posições da ONU. E os franceses sempre mais céticos em relação a isso, sempre consideraram que era um pouco imprudente deixar o assunto entregue à ONU, que era mais importante influenciar e persuadir do que propriamente condenar, verberar ou aprovar resoluções negativas. Portanto, o encontro Nixon-Pompidou também marca um certo diálogo sobre questões africanas que é interessante registrar. Agora, não há dúvida que também a posição portuguesa evolui Desde manifestações feitas a mando das autoridades em Luanda contra o consulado dos Estados Unidos, até ao voto das Nações Unidas a favor de Fidel Castro na questão do bloqueio a Cuba, uma série de declarações condenatórias muito vocais da administração americana a posições mais nuancistas, Caetano consegue com a substituição de responsáveis pelos votos estrangeiros e que prepara para esta cimeira, por exemplo, alinhando a posição portuguesa com a posição americana ao admitir a China nas Nações Unidas e a One China Policy e a expulsar Taiwan. Portanto, essa posição é tomada pelo governo de Marcelo Caetano, o que marca também o ano em relação ao que eram as posições antigas sobre os regimes.
Mas essas posições muito antiamericanas foram também durante os dois primeiros anos dos anos 60.
Pois, mas deixaram as suas marcas.
Foi-se parte a parte. Enfim, foi-se fazendo mais realistas.
Sim, mas manifestamente há uma rotação de figuras que tem a ver com a necessidade de praticar um gesto e de mudar as declarações e a própria maneira como Rui Patrício prepara em deslocações aos Estados Unidos o envio de novas equipas diplomáticas pra pré-negociar o novo acordo das Lajes com rotação de figuras e de figurantes. Isto é indício de que há a consciência de que aí é preciso praticar alguns gestos, o que também se compreende, porque as coisas não podiam ser sempre as mesmas, mudando e continuadas a praticar com os mesmos figurantes.
Com os mesmos figurantes.
Há uma diferença no tratamento dessas questões. Não nos esqueçamos que este ano é o ano em que decorre em Portugal a revisão da proposta de reforma constitucional de Caetano, que tem toda aquela repercussão polêmica no regime com a autonomia a dar autonomia.
Autor deixa a coisa e as designações de Angola e Moçambique como Estados também.
E não nos esqueçamos que Marcelo Caetano é criticado no Congresso da Legião Portuguesa e que depois tem que ser contratto.
E havia Congresso da Legião Portuguesa nessa altura.
Uma reunião magna.
As duas pessoas que foram dar conta da Legião foram já muito poucas.
E não nos esqueçamos que nesse ano é também o ano em que nascem alguns movimentos acadêmicos muito críticos de Caetano, que no fundo também são o resultado de um distanciamento, porque essas políticas todas tiveram as suas nuances. É muito interessante ter visto a evolução dessas nuances.
Eu vi, nós vimos ao mesmo tempo, mais ou menos.
Eu peço desculpa, mas nós estamos a entrar noutros temas interessantíssimos, mas infelizmente terminamos o nosso tempo pro programa de hoje e regressaremos a toda essa política e a toda essa evolução dos anos finais do Marcelismo.
1971 é um ano crucial, crucial de muitas nuances. É interessante.
Ora bem, estaremos de volta dentro de uma semana com um programa clássico, que é o programa de recomendação de livros de Natal. Até daqui a oito dias.