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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta" e hoje vamos aproveitar para falar do que se passa em Cuba. Em Cuba realizou-se na passada semana, entre 16 e 19 de abril, o oitavo congresso do Partido Comunista de Cuba. Muitas pessoas viram nesse congresso uma oportunidade para a renovação, uma vez que do ponto de vista formal, Raúl Castro, que tinha sucedido ao irmão Fidel, deixou alguns lugares de liderança. E especulou-se mesmo sobre se isso não poderia representar, de alguma forma, o fim do castrismo e a passagem para um novo período, para uma outra experiência. No entanto, não há sinais verdadeiros de que Cuba esteja a mudar. A palavra de ordem é continuidade, continuísmo. E a esperança não é muito grande de que, da parte dos novos dirigentes, venham substanciais alterações àquilo que tem sido o regime nestas últimas décadas. A questão que está em saber é se aquilo que tem sido o domínio dos Castro, primeiro Fidel, depois Raúl, e aquilo que continua a ser a presença de vários familiares de Fidel Castro e de Raúl Castro no topo da estrutura de poder de Havana, marcará ou não os próximos anos da ilha caribenha. Jaime Gama, esta evolução, que até é um hashtag, que é "Somos continuidade", é de facto a continuidade. Não há aqui nenhum sinal de evolução ou de abertura por parte do regime cubano. Este congresso foi um congresso que não mostrou nenhuma intenção de alteração de políticas.

Sim, é um congresso receoso de qualquer mudança. Percebe-se que a situação em Cuba é uma situação muito difícil, porque a economia está muito mal, o Covid não está controlado. As sanções que foram agravadas por Trump e que ainda não se escrutinam como objeto de novas políticas por parte de Biden, também contribuíram para tornar a situação mais dura. Há problemas de abastecimento de bens essenciais. A isso a resposta parece ser considerar essa área uma área de segurança nacional, portanto, uma área que vai ser regulada com mão firme. E depois o congresso resolveu, em matéria ideológica, fazer de prato da festa a questão da internet e das redes sociais e, portanto, achar que isso também tem que ser controlado. Ou seja, pareceu muito uma continuidade sem garra, uma continuidade administrativa, sem vislumbrar grandes perspetivas de saída ou de evolução, com receio, com psicologia de cerco, com consciência de haver grandes limitações e necessariamente grandes privações para a sociedade. Portanto, é um caso em que não se vislumbra grande modificação. No passado, talvez tenha havido momentos em que essa expectativa foi mais possível. Houve até incidentes de percurso interno que levaram ao afastamento de personalidades que se notabilizavam por dizer algumas coisas menos ortodoxas, mas agora é tudo muito decalcado a papel químico. Também os chamados apoios na zona imediata regional, como a Venezuela, a Bolívia, o Equador, a própria Colômbia, o Brasil, se modificaram e, portanto, a capacidade de injetar algum sopro suplementar a partir da América Latina e de recursos aí existentes para acudir a Cuba, parece hoje lá mais limitada. E não se vê também que Biden queira rapidamente fazer uma abertura política que ele próprio não saberá que abertura política possa ser para quem. Porque tudo aquilo que foi um certo período de namoro com Obama, o restabelecimento de relações diplomáticas, a abertura de embaixadas e o levantamento a algumas sanções, tudo isso nos anos seguintes desapareceu. Os encontros com o Papa e as declarações até feitas por Raul Castro, que se queria converter, que era hora de se voltar novamente para a Igreja Católica, também foram um fogo fátuo. Estamos longe do tempo da visita de João Paulo II Qualquer foco autónomo e de discussão que se estabeleça dentro de Cuba é logo objeto de uma vigilância apertadíssima. O regime não abdica daquele sistema de controlar totalmente a sociedade, a economia, as instituições e de manter aqueles esquemas de vigilância que nós conhecemos, os Comitês de Defesa da Revolução e as campanhas de agitação e de pressão. E não se vislumbra como é que se pode sair da situação, porque há casos em que se percebe que há uma corrente política que tem força e que é capaz de fazer uma alternativa ou que há uma corrente que tem capacidade para dar um golpe internamente. Nada disso se vislumbra. Há ali um marasmo, que é uma rotina. Esta ideia de fazer baixar em 30 anos a idade do presidente e do secretário-geral do partido é uma ideia de rejuvenescimento, mas meramente biológico ou de faixa etária, porque não há diferença nenhuma em relação ao antecedente. Aliás, os dirigentes antigos, em alguns casos, tinham mais flexibilidade tática, porque tinham mais legitimidade. Estes não têm sequer a legitimidade de terem instituído o regime, são apparatchiks que fizeram carreira no regime e que carecem de representatividade própria muito extensa no próprio regime em que navegam. Portanto, não perspetivo grandes evoluções em relação ao país.

Já me galopinto. Apesar de tudo, nos últimos meses, nasceu em Havana um movimento, o Movimento Santo Isidro. Jovens na zona da Havana Vieja, na parte velha de Havana, ligados a movimentos culturais que tentaram primeiro, usando as redes sociais, usando a internet, criar alguma dissidência. Não estamos a falar de nada parecido, pelo menos neste momento, com a dimensão do grau de revolta que houve em alguns momentos em que o próprio Fidel teve, a certa altura, que deixar sair levas de refugiados para, por assim dizer, distender um pouco a pressão que estava a sentir. Não estamos a falar disso, mas ao mesmo tempo, a situação econômica do país é praticamente tão difícil como foi no período a seguir à queda da União Soviética, quando Cuba deixou de ter o dinheiro que vinha do amigo moscovita e ficou numa situação extraordinariamente difícil, de penúria absoluta, porque vivia muito dependente dessas remessas. Nos últimos tempos, com a crise do Covid, com a queda das receitas que vêm do turismo, com o fato de já não chegar dinheiro da Venezuela, que durante algum tempo ainda do petróleo da Venezuela, também não estão a ajudar. E, portanto, a pobreza e as carências de alguns produtos básicos, até alimentares, agravaram-se. Está assim também tão pessimista como o Jaime? Acha que não há nenhumas forças internas que possam fazer tremer o regime?

Vamos ver um pouquinho. Olhar para como é que estes sistemas comunistas, onde caíram, como é que caíram. O caso que a gente conhece, de facto, de uma queda geral dos sistemas comunistas foi a Europa Oriental. Tivemos o caso da Polônia, do Solidariedade em 81, que na altura foi liquidado, digamos, ou contido pela ditadura, pelo Jaruzelski, que era um general do regime, era um comunista. Não era propriamente o exército, mas usou aquela forma do Estado City, da ditadura militar. No ano de 89, 90, esses regimes caíram essencialmente porque na cabeça, ou seja, na União Soviética, Gorbachev decidiu, de certo modo, muitos aliados críticos de Gorbachev dizem que ele nesse momento condenou o regime, decidiu não intervir militarmente e securitariamente para ajudar os partidos comunistas no Leste a manterem-se. E aí caíram. Os chineses fizeram uma coisa muito curiosa. Quer dizer, não foi muito curiosa, eles estavam também um bocadinho traumatizados, porque estavam a seguir com muita atenção a questão da União Soviética e da queda, e não há dúvida que fizeram uma coisa. Abriram a economia, mas continuaram com o controle político e com isso conseguiram, de facto, o tal milagre econômico chinês que, de facto, foi fantástico, mas o regime continua no controle. Não houve nenhuma espécie de mudança. Cuba é um caso também curioso, porque no fundo nasceu numa área em que, a princípio, não devia ter nascido. Os americanos eram normalmente extremamente cautelosos, defendiam uma espécie de nova Doutrina Monroe, não deixar de facto. E foram bastante zelosos nisso, fizeram na Guatemala, fizeram em vários sítios intervenções diretas ou indiretas. Cuba, por um conjunto de razões e até porque a operação montada para acabar com Cuba no princípio, a da Baía dos Porcos, falhou. Depois a crise dos mísseis, de certo modo, os americanos tomaram nessa altura, naquele pacto com o Khrushchov, para ele retirar os mísseis, houve ali um entendimento tácito, mas que foi sempre respeitado pelos americanos, que já não invadiriam mais Cuba, nem fariam ações diretas, e de facto nunca mais fizeram. E Cuba ficou a expensas da União Soviética e custava muito dinheiro à União Soviética. Claro, quando a União Soviética também colapsou, arranjaram umas soluções, no fundo, exatamente como o Zavanel estava a referir, com a Venezuela, com a Colômbia e com isso tudo. Agora, o Estado, de facto, o país vive numa grande miséria, embora, claro, como também em todos os Estados comunistas que são caracterizados por essas, quer dizer, são todos iguais, mas depois há uns que são mais iguais que os outros. Haja, em Cuba, praticamente quem tiver dólares e possa pagar em dólares, acaba por ter tudo o que chega por sistemas mais ou menos que também estão nas mãos do Estado. E depois outra coisa que é muito interessante em Cuba, que também se observou nesses regimes comunistas, sobretudo nas periferias, o caso, por exemplo, do Ceaușescu, o caso atual da Coreia do Norte, que é a ligação também familiar ao regime, porque a gente tem, por exemplo, em altíssimos postos de direção. Temos um filho de exatamente Raul Castro, o Alejandro Castro Espín, que é o homem que está à frente da segurança de Estado, que é muito temido porque tem fichas praticamente de toda a nomenclatura e fará, portanto, a consequente chantagem sobre o que for preciso. Depois, noutro posto, tem o também importante, que é à frente desse grande conglomerado de empresas públicas que controlam uma grande parte da economia, sobretudo a economia que dá algum rendimento para o Estado, que é a economia da exportação, que ainda assegura alguns fundos estrangeiros, que é o ex-genro de um homem chamado López Callejas.

López Callejas. Ele só não controla praticamente 75% da economia.

Claro, ele só controla as economias, exatamente. Ou seja, que são cunhados, portanto, é um regime curioso. E o San Isidro, tanto quanto eu sei, houve um ataque grande da polícia, um raid da polícia, talvez no fim de dezembro passado ou qualquer coisa que fizeram também. Aliás, provocou até uma certa reação de uns intelectuais e acadêmicos. É claro que depois há coisas muito curiosas. Eu estive em Cuba há muitos anos numa viagem turística com a minha filha mais nova e passei cerca de 10 dias e havia algumas coisas curiosas. E sobretudo, até lembro que o levei para ler quando fui, porque eu gosto de fazer isso quando vou pela primeira vez a um país, gosto de levar às vezes um autor, um escritor de lá desse país, e levei para ler aquele extraordinário Pedro Juan Gutiérrez, que é um grande escritor, e como é um grande escritor, se não fosse um grande escritor, quase que era ilegível, porque de facto, às vezes é de uma sordidez limite, mas é um grande escritor. A chamada trilogia Suja de Havana. E esse homem, tanto quanto eu sei, não sei se ainda lá está, mas durante muitos anos continuou a viver ali. E de facto, os livros dele eram de uma crítica extrema, quer dizer, a vida era descrita como uma vida, de facto, uma coisa dantesca em vários aspectos. Portanto, eu admito que haja ali umas ilhas de respiração, que esses regimes às vezes se dão ao luxo de manter. Agora, politicamente, eu penso que é um sistema fechado, onde normalmente aquilo de onde às vezes vêm nos regimes autoritários, pode vir às vezes alguma mudança que vem normalmente dos militares, mas os comunistas tiveram sempre imenso cuidado em controlar exatamente as Forças Armadas em todo lado. Portanto, normalmente estes generais, como o Jaruzelski, são generais comunistas, são generais também de partido. E aliás, o Stalin já numa dada altura fez exatamente aquelas purgas nos militares, à cautela. E, portanto, não vejo muitas saídas. Porque também a gente aprende que esses regimes conseguem manter-se pelo medo. Não vou dizer que isto quer dizer que Cuba, o medo ou o que se despira seja a mesma coisa, sei lá, por exemplo, que uma Coreia do Norte, onde eu, graças a Deus, nunca estive, ou mesmo um regime desses stalinistas, ou mesmo um regime da China comunista nos tempos maoístas, etc. Não será isso, não é bem isso, até porque é um país latino, é um país onde, de facto, a igreja ainda tem alguma tolerância, tudo isso funciona. Mas o medo domina.

Como se costuma dizer. É uma tolerância que vai e vem.

Claro, as pessoas têm medo.

E o tipo de vigilância é diferente. Não é uma vigilância feita por um agente da Stasi, é feita pelos comitês de bairro.

Sim, de bairro e essas coisas todas.

Às vezes não se sabe bem o que é melhor.

Exatamente.

Se é a polícia que está longe, se é a polícia que está ao lado, no andar de cima.

Exatamente.

Portanto, a situação, de facto, não parece ser de grandes alterações. Nós, entretanto, esgotamos o tempo da nossa primeira parte e regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso à segunda parte de mais um "Conversas à Quinta". Estamos a falar desta vez sobre Cuba, sobre as mudanças que houve no Partido Comunista Cubano, que realizou o seu oitavo congresso. Mudanças que, pelo que temos conversado, não trarão grandes alterações. A ilha parece congelada no tempo e congelada politicamente. No entanto, do outro lado, um pouco a norte, 200 km de Havana, fica Key West, a Flórida, e houve mudanças nos Estados Unidos. No entanto, desta vez, essas mudanças podem não ser tão radicais como aquelas que se processaram há quatro anos. Com a administração Obama, tinha havido uma grande aproximação entre os Estados Unidos e Cuba. Ficaram famosas as fotografias de Barack Obama a assistir a um jogo de beisebol ao lado de Raul Castro em grande confraternização. Com Donald Trump, regressou uma linha mais dura na relação com Cuba e, aparentemente, Joe Biden é mais próximo de uma relação dura com Cuba do que era o seu presidente Obama. Portanto, ele ouvirá os conselhos dos senadores e congressistas democratas que vêm da Flórida e que são mais conhecedores da política interna cubana e terá percebido que a abertura a Cuba da administração Obama não trouxe, por assim dizer, grandes frutos. Parece ser essa a linha da administração Biden, Jaime Gama?

Sim, o próprio Biden já disse que não é uma prioridade da política externa norte-americana estar agora repor o dossier de Cuba. "Está como está, não irei seguramente agravar a situação, mas também não me vou empenhar nisso 100%, porque tenho n outras coisas para tratar, no Oriente, na Europa, em vários sítios". Portanto, isso manifestamente me parece ser a posição de Biden. E é uma posição que está um pouco também alicerçada nisto que são os passos dados, não se sabe bem para onde, por esta mudança, que não é mudança, operada no Congresso do Partido Comunista. Há bocado o Jaime Gama Pinto falava da hipótese de usar o dólar em paralelo com a moeda cubana. Pois bem, uma das prioridades de política económica que sai do Congresso do Partido Comunista é acabar com isso. Ou seja, o que tinha sido um certo instrumento de flexibilização, também vai ser suprimido. De resto, é interessante. Se fizermos um balanço, eu acho que conseguimos ver, em certos momentos pré-Trump, do Raul Castro, mais abertura do que é agora o final de Raul Castro na sucessão para Díaz-Canel. Há uma involução do próprio regime em relação a soluções e políticas que tinha definido e que até levaram a uma revisão da Constituição, à proclamação, por exemplo, que o comunismo era o objetivo final do Estado cubano, à admissão de certos circuitos de pluralidade. Isso parece-me que nesta sucessão foi completamente esbatido e que o cenário é um cenário de grande rigor. Pode ser que isso também seja o que permite cimentar uma nova liderança que não sente a força para exercer com autoridade o seu mandato. Veremos. Mas o que é apresentado como cartaz ao início não me deixa vislumbrar nada de muito positivo. E aí também, pois bem, o governo americano diz: "Fazer o quê? Com quem? Com estas medidas que estão a tomar". Bom, então mais vale ver como é que eles vão reagir ao momento por que estão a passar, que é um momento difícil. A economia cubana está quase numa economia de sobrevivência e, portanto, isso também vai gerar impopularidades, que depois não se sabe como influenciam o circuito político, mas as margens para influenciar o circuito político dentro de Cuba não são muito grandes. A própria Igreja Católica. A Igreja Católica é majoritária em Cuba Eu acho que o regime cubano favorece a Igreja Católica em detrimento dos protestantes, porque entende que, porventura, a Igreja Católica tenderá sempre a vir numa visão espanhola e não numa visão norte-americana, como as comunidades protestantes poderiam orientar-se. Depois, há ali um segmento não bem controlado, que é o segmento afro cristão, que é muito específico de Cuba. E depois há também uma massa inorgânica, agnóstica e ateia, mas muito influenciada por certa fase da existência de campanhas ideológicas com o Partido Comunista de Cuba, que agora também diminuíram um pouco, na medida em que o Partido Comunista de Cuba teve que pactuar um pouco com a Igreja. A Igreja Católica é prudente e tem algumas margens de liberdade, porque pode organizar discussões em torno de textos religiosos, das encíclicas, pode ter círculos de estudo, pode ter alguns policopiadores para reproduzir alguma da imprensa vaticana, mas também está sob controle. Não tem espaço para fazer muito mais do que aquilo que faz. E não me parece também que tenha o fôlego para constituir um movimento político virado para uma mudança. Será sempre um fator de moderação numa mudança, porque também uma das coisas que bloqueia e está a bloquear cada vez mais esta direção comunista de Cuba, é o receio de que qualquer mudança não seja uma mudança pactuada, seja uma derrocada que acabará, no fundo, com consequências trágicas para os próprios dirigentes atuais. Eles receiam muito essa contra-insurreição com a qual, aliás, lidam ideologicamente, porque dizem que é isso que está sempre em preparação em Miami, na Flórida. Portanto, há todos esses receios recíprocos. Há uma sociedade que se afunda numa economia que não tem hoje qualquer hipótese de respiração no plano internacional. E há uma liderança que vem com um discurso que tem tão pouca convicção que me parece que já nem os próprios dirigentes, quando pronunciam aquelas frases, estão a vibrar intensamente com aquilo que dizem.

Isto é realmente interessante, o que é a mentalidade dos dirigentes, porque às vezes discute-se o que foi decisivo para a queda do Muro de Berlim, a queda dos regimes do leste da Europa, e há sempre aquela ideia de que aquilo tinha se tornado impossível de suster devido à pressão popular. E há quem diga que não, no fundo, há ali uma peça decisiva que é Gorbachev, porque se não fosse o ato de Gorbachev, era possível manter ad eternum quase tudo aquilo prisioneiro, no sentido em que mantendo aparatos, mantendo a pressão, mantendo a repressão, as coisas não desaparecem e que o exemplo disso é Cuba, no fundo, no limite. Porque com Cuba e outros regimes, como por exemplo, o da Coreia do Norte, praticamente sem recursos, mantendo as pessoas num nível mínimo de sobrevivência, mas não abrindo a sociedade, não cedendo, não havendo Glasnost, não havendo perestroika, o sistema mantém-se, o sistema aguenta-se. E isso tem muito a ver com esta questão de quem está no poder não saber o que lhe acontece se abre mão do poder. E ali é uma ilha, não é? Portanto, as pessoas não têm para onde ir, não podem fugir, não têm quem os acolha. Não há ponto de fuga, não há um país como era a Rússia, onde há a possibilidade de imaginar um futuro com uma transição longa e o peso de uma potência. E há a ameaça óbvia dos cubanos de Miami e o sonho que eles teriam de regressar imediatamente para o dia seguinte. Isso acaba por ser, de facto, um dos principais bloqueios a qualquer transição.

Sim, eu acho que há dois fatores que eu gostava de chamar a atenção, que acho que é interessante. Primeiro, estes regimes, os regimes comunistas, ao contrário dos regimes radicais de outra, já não falo de fascismo, falo do próprio nacional-socialismo. O nacional-socialismo, apesar de tudo, por exemplo, as igrejas, e isso houve vários conflitos, por exemplo, na Baviera, com o cardeal de Munique, etc. O Hitler, apesar de tudo, não quis uma ruptura com os católicos. Houve várias diferenças, houve várias tensões. Aliás, são os católicos alemães que estão ligados a determinadas organizações da resistência. E depois, há outra coisa que também é muito importante, que apesar de tudo, também se manteve, que é uma economia que tem alguma independência do Estado. Ora, os regimes comunistas normalmente neutralizam as igrejas

Cuba, embora tenha um número muito grande de batizados, ainda talvez metade da população, cerca de cinco milhões, mas, por exemplo, a afluência regular às igrejas é relativamente baixa. Fala-se em 150 a 200 mil pessoas que frequentarão, por exemplo, a missa dominical, etc. E, portanto, não tem isso. E depois não tem, de facto, economia privada, quer dizer, não tem pessoas independentes, que é uma coisa muito importante, independentes economicamente do Estado. Isso pra mim são pontos importantes. Depois, nesta coisa das saídas das ditaduras ou dos ditadores, houve, de facto, embora passado com uma figura de sinal contrário, que foi com o general Pinochet, que saiu pelo pé dele, propôs um referendo, perdeu o referendo e saiu, mas depois foi perseguido. E, portanto, a partir disso, também se passou a pensar duas vezes. Curiosamente, aliás, a maior parte dos dirigentes comunistas da Europa Oriental, tirando o Ceaușescu, que os próprios, porque o Ceaușescu foi liquidado também por seus próprios companheiros e correligionários, fizeram dele uma espécie de bode expiatório e liquidaram. Praticamente também o Honecker ainda teve ali uma vaga, mas não houve nenhuns Nuremberg nem houve absolutamente nada. Quer dizer, de uma maneira geral, não houve represálias. Mas ali é capaz de haver também esse receio e, portanto, no fundo, a repressão funciona. Aliás, agora falando exatamente da queda da União Soviética, não há dúvida que uma das razões porque a União Soviética caiu, eu penso isso e escrevi isso várias vezes e continuo convencido disso, é evidente que houve ali uma pressão grande dos Estados Unidos para obrigar exatamente ainda a esgotar mais os recursos da União Soviética. Por exemplo, uma das coisas que é muito interessante é que o que coincide com a ida para o poder do Gorbachov é a queda, que os americanos, de certo modo, manipulam através dos sauditas, é a queda do preço do petróleo. A União Soviética, nessa altura, praticamente metade dos seus rendimentos internacionais em moeda era exatamente as exportações de petróleo e gás, e que os americanos, através de uma certa influência junto dos sauditas, põem os sauditas a inundar o mercado e fazem uma baixa, já não me lembro exatamente os números, mas é quase pra metade, é pra aí do preço do barril a 30 dólares numa altura e passados seis meses está 14 ou 15. Portanto, essas políticas. E é evidente que o Gorbachov, de certo modo, não percebeu que a essência do regime comunista era o medo, era o terror. Embora já não estivéssemos nos níveis de terror stalinista, não há dúvida que a partir do Krushchev houve um certo degelo, mas continuava a haver o medo, o racionamento, essas coisas todas. A partir do momento que se retira isso, até pela própria legislação, é muito interessante, porque quando cessa o medo, as pessoas já não têm medo e começam a reclamar direitos que estão lá. As constituições soviéticas, aliás, dava muito jeito aos comunistas em todo lado, falar exatamente nessas amplas liberdades que eram reconhecidas pelas constituições soviéticas. Depois da Constituição Soviética, ninguém se lembrava sequer de ir exigir esses direitos e liberdades, porque as pessoas tinham medo. Ora bem, o que o Gorbachov, de certo modo, retirou, que era um elemento fundamental na sociedade soviética, que era o medo. Ora, eu penso que estes dirigentes comunistas todos, que já é claro que não acreditam naquelas coisas extraordinárias do marxismo-leninismo, já não acreditam com certeza nisso e nas transformações e nisso tudo. Talvez tivesse havido uns que acreditavam, mas é a tal geração que está a desaparecer. Ora, esses dirigentes é evidente que não querem sair do poder. Portanto, vão arranjar mil artifícios e mil justificações, mas abandonar o poder, não, até porque não têm pra onde ir. Porque também há uma coisa aqui que é curiosa, que se viu, por exemplo, muito bem na Alemanha Oriental, quando o Honecker cai e tenta ser substituído por um que era considerado, digamos, um comunista mais liberal, o povo não queria nenhum, nem liberais, nem autoritários, não queria comunistas de todo. E, portanto, isso também foi uma lição que eu acho que os dirigentes comunistas sobreviventes perceberam muito bem. Portanto, não saem.

Nós estamos aproximando do fim da emissão. Neste cenário, ficamos um pouquinho sem esperança e ao mesmo tempo assistimos a algo que é, de alguma forma, surpreendente, que há pessoas em todo o mundo que continuam a olhar pra Cuba como sendo um paraíso. Apesar de quem já foi a Cuba, quem pôde visitar Cuba, verifica que em Cuba as pessoas vivem mal, não é só não terem liberdade, vivem mal mesmo. Não há nada em Cuba que faça com que ali se possa, a não ser o sol e as praias, aproximar aquilo do paraíso descrito na mitologia castrista.

Sim, mas penso que esses fluxos turísticos hoje correm mais pela República Dominicana e até pelo México do que propriamente por Cuba. Isto é, para essas pessoas dá, porventura, pra ir uma vez contemplar certos ícones, mas também as pessoas não são completamente destituídas da capacidade de conhecimento empírico e sabem tirar as suas conclusões e não repetem as viagens e não regressam a fazer discursos laudatórios. Há sempre um ou outro, sobretudo um ou outro jovem, pra quem a roupagem, o estilo ainda tem algum apelo, mas representam 0,000 e não têm capacidade de irradiação. A situação ali é muito grave, é muito triste e, portanto, todos também conhecem o que isso significa e sabem extrair as suas lições quanto aos modelos que devem preconizar. Ninguém hoje se revê para preconizar o modelo de Cuba como uma solução de futuro pra qualquer economia ou pra qualquer sociedade no mundo.

Bem, entretanto, o nosso tempo acabou. Fizemos hoje o balanço da situação cubana. Regressamos dentro de uma semana com um novo tema.