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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos falar de Philip, Duque de Edimburgo, e do que ele significou, do que ele representou ao longo de quase um século de vida. Ele morreu dois meses antes de fazer 100 anos, deixando viúva Isabel II, Rainha de Inglaterra, e voltamo-nos a pôr os olhos na família real inglesa. Uma família que tem sido abalada regularmente por casos mediáticos. Ainda recentemente tivemos a famosa entrevista dos netos que fugiram para os Estados Unidos e que chocaram uma boa parte do mundo, mas que talvez tenham abalado menos a família real do que se pensava. No entanto, vamos falar primeiro do que representou a figura de Philip. Philip nasceu na Grécia, mas saiu da Grécia muito novo, bebê ainda, numa altura muito conturbada. Estamos a falar de 1921, numa altura em que a Grécia estava em guerra com a Turquia, estava a perder essa guerra e houve tempos conturbados, golpes militares, situação política muito instável e a monarquia caiu. Os reis fugiram, foram resgatados por um cruzador inglês. O rei não foi logo pra Inglaterra, mas acabou por ter uma vida típica, ainda naquele período, das famílias aristocráticas e acabou por se apaixonar por Isabel II e tiveram uma vida sobre a qual uma boa parte do mundo hoje conhece muito, porque tem seguido a série "The Crown", pela qual vamos sabendo um pouco dos bastidores da família real britânica. Esta família real tem um papel especial, já que sempre que queremos falar de uma monarquia constitucional, falamos da monarquia inglesa. E sempre que queremos falar de uma monarca, pra todos os efeitos, relativamente exemplar, falamos de Isabel II, que é a monarca que há mais tempo reina no Reino Unido, ultrapassou a Rainha Vitória e tem, sem dúvida, atravessado períodos difíceis. Philip também desempenhou um papel aqui. Já em gamas, Juca esteve com eles, conhece-os pessoalmente. Que memória retém deste casal e, sobretudo, de Philip?

Eu nunca conheci pessoalmente a Rainha Isabel, nem o Príncipe Philip, porque é impossível conhecer pessoalmente uma figura régia.

Cruzou-se com eles.

Em alguns eventos, estive mais na proximidade ou menos na proximidade de organizar aquelas conversas que podem decorrer nesses momentos. Talvez aquilo que interesse mais pro efeito é o Príncipe Philip. Eu me lembro de uma conversa longa que tive com ele, porque fiquei sentado ao lado dele no almoço na Casa do Infante do Porto, em março de 85, aquando da visita da Rainha Isabel a Portugal. O Príncipe Philip tinha vindo de uma viagem no Britânia, em pesquisa daquelas missões ambientais e de preservação de espécies em que ele tanto se empenhava. Suponho que no Banco d'Arguim, na Mauritânia, e depois o Britânia tinha subido, tinha chegado a Setúbal antes da rainha chegar a Portugal e depois fazer aquele desembarque pelo Tejo no Terreiro do Paço. Portanto, o príncipe Felipe estava muito impressionado com o que tinha visto no Banco d'Arguim. Eu também conheço alguma coisa do Banco d'Arguim e, portanto, a conversa foi relativamente fácil e simpática. E eu vi como ele tinha um interesse e uma dedicação grande a essas temáticas, à temática da preservação das espécies, que o motivava muito. Muito sóbrio e direto na forma como se referia aos temas. Depois, outro tema de conversa para fazer passar o almoço, que era o mau, na Casa do Infante, oferecido pelo presidente da Câmara do Porto. Outro tema de conversas foi uma aventura em que precisamente o príncipe Philip e os marinheiros do Britânia se tinham envolvido em Setúbal, antes da chegada da rainha. Aventura também com gosto da exploração, porque eles decidiram, um pouco à revelia das autoridades marítimas e fluviais portuguesas, que queriam fazer uma expedição no Sado e organizaram as suas próprias embarcações. O inglês e a E a tripulação do Brit-

O Sado ainda estava muito mais poluído do que está hoje.

Sim, o problema não era a poluição, é que eles não controlavam o leito do Sado, nem o nível das marés. O próprio Britânia vi várias vezes no Porto de Ponta Delgada. Eles têm a teoria que todo o mar do mundo é mar inglês e, portanto, que eles não necessitam sequer de meter pilotos de terra para fazer as atracações dos navios. Resultado: uma coisa que pode ser feita em 15, 20 minutos, vi uma vez o Britânia levar uma hora e meia a fazer, mas só com a sua tripulação para demonstrar esse grande conhecimento da navegação. Mas então, essa exploração do Sado correu muito mal, porque eles foram sozinhos e depois não conseguiram sair do Sado, não conseguiam voltar para trás, não conheciam a rota e tiveram que ser evacuados numa operação dos fuzileiros navais. Isso foi uma coisa que passou muito discretamente na altura, porque não houve notícia pública.

Um bocadinho humilhante.

Mas se não fossem os nossos fuzileiros navais, essa aventura marítima da tripulação do Britânia.

Nem os golfinhos do Sado se os salvavam.

Capitaneada pelo príncipe Philip, tinha tido um final feliz. Bom, e depois há sempre aquela conversa que eu ao longo da vida tive que fazer várias vezes, até me especializei nisso, é: o que é o vinho do Porto, como vinho licoroso ou vinho reinforced, os tipos de vinho do Porto que existem e como é que o vinho do Porto é incluído na ementa dos vários países, que não é uniforme. E, portanto, isso é sempre uma coisa que é suscetível também de causar algum interesse na parte de pessoas que às vezes, embora tendo um conhecimento do produto que bebem e um apreço por aquilo que estão a ingerir, mas precisam de dar um toque mais objetivo, que muitas vezes a literatura sobre vinhos não permite, porque mete muita retórica e muita goncorica para cima. E então um resumo é sempre essencial para avançar. Daí que a recordação que tenho é a recordação de uma pessoa que cumpria muito bem aquela função, que tinha perfeitamente correto, sempre com aquela correção das figuras reais perante as figuras humanas, mas isso é um dado da vida que também sabemos manejar bem.

Já me garanto. Às vezes as pessoas têm da figura real uma visão relativamente idílica de alguém que tem, e no caso concreto, a rainha de Inglaterra, uma fortuna imensa e, portanto, levam uma vida pacata no meio do luxo. No entanto, a verdade é que as obrigações de um monarca, e no caso concreto, de um monarca que tem a responsabilidade não apenas do Reino Unido, mas também da Austrália, do Canadá e, portanto, de outras áreas do mundo, é bastante mais vasta. E quando se pensa que ao longo de mais de 70 anos.

70 anos, é verdade.

Ou quase 70 anos, a rainha teve que desempenhar um conjunto de funções sempre com grande rigor.

José Manuel Fernandes e já me garanto sobre, se me permitem uma curta interrupção, o príncipe Philip no Parque Terra Nostra das Furnas, quando lhe quiseram mostrar as 180 ou 90 ou 300 espécies de várias partes do mundo que ali estão artificialmente colocadas para fruição pública, sabe o que correspondeu? Extraordinário. Disse: "Eu conheço-as todas nos seus locais de origem, nos seus locais naturais."

E é bem possível, porque de facto, com a dimensão da Commonwealth e as obrigações de visita à Commonwealth e a paixão que eles tinham por viajar, é bem possível. Agora, há uma outra obrigação, que é inaugurar escolas e cumprir aquelas funções. Parece que o príncipe Philip patrocinava cerca de 800 organizações mais ou menos caritativas ou ambientais ou com funções de uma forma ou outra, digamos, no sentido positivo da vida. A vida de um monarca não é só estar sentado à espera que lhe levem o pequeno-almoço e o chá, não é?

Sim. Aliás, estávamos aqui no início, o José Manuel estava a dizer isso, e eu acho que a rainha Isabel e a Casa Real Inglesa é muito interessante. Enfim, também temos que ver uma coisa que é muito importante: é a monarquia constitucional mais antiga do mundo. Isso também, apesar de tudo, enquanto a maior parte das dinastias e das monarquias europeias acabou por ser no século XIX que passaram da sociedade tradicional e, portanto, de um poder que às vezes raiava o absolutismo para uma monarquia constitucional, a sociedade inglesa e a monarquia inglesa, a limitação do poder real vem já da Glorious Revolution e teve várias fases, mas de qualquer maneira, portanto, isso também é evidente

Que é uma diferença vital da monarquia inglesa e das várias famílias da Casa Real Inglesa em relação a outras dinastias e outros países. E curiosamente, eu acho que a própria Casa Real Inglesa, nas suas várias gerações, de certo modo, se foi adaptando à chamada vida moderna, porque a rainha e o príncipe Philip foram, de fato, um exemplo de uma certa linha conservadora, religiosa, de acordo com os princípios morais, etc. Mas, nos filhos e nos netos, sobretudo, e já se tinha dado um pouquinho com a própria princesa Margarida, irmã da rainha, começaram a dar-se de fato aquilo que a modernidade fez à família, às instituições, etc. Portanto, de certo modo, acabou por ser representativa, porque é evidente que, uma vez que também há uma lista civil e que sai dinheiro dos contribuintes, independentemente da fortuna pessoal, que no caso da Rainha de Inglaterra é grande, no caso da Casa Real Holandesa também é muito grande, mas independentemente dessa fortuna pessoal, há depois uma lista civil, ou seja, dos impostos das pessoas sai alguma coisa para sustentar exatamente também essas famílias reais. E, portanto, há determinadas obrigações. E aliás, uma delas, e nós assistimos a vários desses dramas nos nossos tempos, nos últimos 50 ou 60 anos, é exatamente, por exemplo, o não casar com quem quer, à cabeça. O ter que, de certo modo, ter um casamento de Estado. Porque os reis tradicionalmente assim o tinham. E nós vimos, por exemplo, o próprio rei Felipe VI de Espanha, que teve uma vida relativamente atribulada nisso e que acabou por casar, de certo modo, com quem quis, porque também pôs os pés à parede e disse que se não fosse assim, que se ia embora.

No caso da família real inglesa, as coisas acabaram por não correr bem desse ponto de vista-

Exatamente

...com a geração seguinte.

Exatamente, a geração seguinte.

Com Carlos, porque a sua escolha natural-

Exatamente.

Que era-

Exatamente.

Acabou por ser.

Mas claro que também hoje-

Acabou por ir para uma escolha que não era a escolha natural, que era a Princesa Diana, e as coisas correram muito mal.

Exatamente. E também nessas coisas, não há dúvida que hoje também há um elemento que é muito importante, que é a imprensa. A imprensa, os mídia em geral. Porque quer seja embora dependendo da tradição de cada um, por exemplo, a gente viu em França, quer com o presidente Giscard d'Estaing, quer com o próprio presidente Mitterrand, que a imprensa acabou por ser, durante muito tempo, relativamente pouco reservada quanto aos seus affairs. Eu lembro, por exemplo, em relação ao presidente Mitterrand, que só praticamente quando ele morreu é que se falou que tinha uma filha fora do casamento, que tinha sempre tratado como tal, etc. O presidente Giscard d'Estaing tinha imensos affairs que os mídia franceses, mesmo os chamados de escândalo, mais ou menos não revelavam, não falavam disso. A Inglaterra é um pouquinho diferente, foi sempre nesse aspecto, até inaugurou um bocado um estilo mais aberto e mais devassador da vida privada. De qualquer maneira, eu lembro que há um filme, que eu já vi há muitos anos, que era aquele filme "The Queen", com a Helen Mirren.

Esse filme é muito interessante, porque mostra um momento de adaptação.

E é um lado humano, também. Exatamente.

E um lado humano. Esse filme retrata o momento da morte da Diana.

Da Diana, exatamente.

E a forma como a rainha e o príncipe Philip, que estão na altura na Escócia, em Balmoral. Vão ou não reagir, levam tempo a reagir, mas depois como-

E primeiro reagem no sentido de não querer homenagens públicas e estão chateados.

Mas depois acabam por-

Mas depois acabam por-

Ter boa reação.

Exatamente, se adaptar. Porque aqui é o tal problema das instituições. Quer dizer, as instituições têm que ter, para sobreviver, até porque de certo modo podemos dizer que numa sociedade que se baseia em valores ou em princípios democráticos, no sentido da representação nacional, manter uma monarquia que não seja uma coisa meramente decorativa, não é fácil. Aqueles pequenos Estados ou pequenos países ali do norte, aquelas monarquias. É diferente, porque é uma coisa um pouquinho familiar e são Estados com certo sentido até de Estados nacionais, não são muito grandes, as Dinamarcas, etc. Portanto, não é muito difícil manter esse tipo. Agora, apesar de tudo, a Coroa Britânica tem, exatamente, porque ainda tem uma grande tradição de domínio imperial, tem ainda a Commonwealth que ficou daí Tem depois umas certas referências míticas.

O mundo todo olha para ela.

Exatamente. O povo miúdo também gosta muito de olhar. Aquelas figuras, a Rainha Vitória, que eram figuras mais ou menos míticas. Aquela frase da Rainha Vitória: "Hoje quero pôr as minhas joias melhores, os meus vestidos, porque vou visitar o povo", essas coisas todas. Toda essa tradição de uniformes, de gala. Tudo isso é evidente que obriga também, dentro de uma possível reserva, que a gente também vê que grande parte do tempo da Rainha e do Príncipe Philip não estavam a ser vistos ou minados pela imprensa. Mas, de um modo geral, mantinham exatamente esse equilíbrio entre os seus valores privados de família e também, de fato, essa representação pública, e harmonizar-se com o país que é, com o país real. Portanto, isso também obriga a uma-

A uma evolução.

Até porque hoje, a gente vê isso, claro, vê-se isso mais em Espanha do que na Grã-Bretanha, mas hoje também já há setores da opinião pública fortemente críticos exatamente das instituições.

Estamos a acabar o tempo da nossa primeira parte, vamos ter que interromper aqui. Vamos retomar já a conversa sobre o estado da monarquia na segunda parte do "Conversas à Quinta". Vamos então retomar a nossa conversa sobre o Príncipe Philip, que morreu esta semana e a propósito disso, também falar um pouco sobre o estado da monarquia britânica. A Casa Real adaptou-se bastante ao longo deste período longo do reinado de Isabel II. E se pensarmos na forma muito tensa como foi a relação entre Isabel II e a Princesa Diana, e a forma, apesar de tudo, bastante mais longínqua, como a Casa Real foi gerindo esta crise com o Príncipe Harry e Meghan Markle, percebemos que não só a Casa Real aprendeu um pouco a lidar com estas situações, como estas coisas já não são vividas da mesma forma. Apesar de todo o espetáculo que foi dado recentemente com a entrevista à Oprah, o impacto não parece ter sido o mesmo. Não sei qual é a sua opinião, Jaime Gama.

Bom, a situação hoje é uma situação que também está contrabalançada pelo efeito da morte do Duque de Edimburgo. O Duque de Edimburgo faz um final feliz, acaba por ser um elemento que reforça o prestígio da Casa. E o Duque de Edimburgo é um bom exemplo, também, das capacidades da Casa do Windsor para sobreviver às vicissitudes da história e da vida internacional. Porque este próprio Príncipe Philip, as suas origens são dinamarquesas, gregas, alemãs e russas, em termos de ligação a dinastias. Ele vai para a Inglaterra como um migrante refugiado, quase, porque o pai morre, a mãe está muito traumatizada e professa. Depois, as irmãs acabam, três, por ser casadas com nazistas e não se podem aproximar do Príncipe Philip, nem vão ao casamento. Há um problema concluído à Casa Real Britânica desde que os Hanover Windsor, em 1714, chegaram ao trono em Inglaterra, que é o problema da sua complexa relação com a Alemanha e com os príncipes alemães, que se exacerba quando a Alemanha se unifica e o império alemão afasta uma série de aristocracia e casas reinantes da Alemanha, que deixam ter o poder que anteriormente tinham como reinos ou grão-ducados ou ducados ou principados independentes e que ficam disponíveis para políticas de casamento por toda a Europa. E também uma sedução que a Casa Real Britânica tem, porventura, para contrabalançar França, o Império Austríaco, de ir fazendo uma implantação em linhagens alemãs e russas. Mas depois, com as guerras mundiais, tudo isso vai para a eira.

No princípio do século passado, as principais casas reais europeias eram todas da mesma família. Tinham todos laços familiares.

Sim, mas como a Inglaterra entra em antagonismo, ao final, com a Alemanha, na Primeira Guerra Mundial e depois na Segunda, toda essa ligação germânica tem que ser apagada e maquilhada.

Claro.

Mountbatten é uma adaptação inglesa.

De um título alemão.

De um título alemão, exatamente. E, portanto, Battenberg.

Sim, a Casa do Windsor não existia. Foi criada no princípio do século.

Do George V. Exatamente. E o casamento com o jovem, que é primo da Rainha Isabel Permite, de certa maneira, limpar essa parte e dar um novo élan a toda essa tradição. E também permite alargar um pouco a base de recrutamento, porque o jovem faz um percurso na Academia Naval de Dartmouth e faz uma carreira na Marinha com distinções em combate na Segunda Guerra Mundial e chega, portanto, ao casamento preparado.

Já vem com galões de trás.

E com nomeações, a Ordem da Jarreteira, depois o título Duque de Edimburgo e mais outros dois pequenos. Portanto, há uma preparação gradual para que ele possa ser um bom consorte, mas nunca é rei. Tem sempre um papel bem circunscrito pela rainha, embora seja depois graduado com qualificações e qualificativos, como aquele final que é o de ser Lord High Admiral of the Fleet. É um título que completa bem a sua carreira naval real com uma carreira naval aristocrática e de comando simbólico que lhe fica bem. E apesar de haver livros sobre as gafes do príncipe Filipe, que eram imensas, mas as gafes do príncipe Filipe são também formas de lidar com o grande público, porque esta família real britânica era espartana no tempo da rainha Vitória e até antes disso era espartana num sentido alemão. Depois, chama a si o modelo da família burguesa, com virtudes, mas fica muito hierática, também perde a capacidade de contacto com a evolução da sociedade. Depois abre-se a isso, mas depois também tem que fechar. Portanto, entre a empatia com a novidade e uma certa nostalgia do sentido rigor e da conduta rigorosa, a Casa Real Britânica vai sendo um referente e vai sobrevivendo à erosão de outras instituições. É interessante ver como há outras instituições, embora muitas legitimadas pelo voto, que sofrem mais erosão do que a Casa Real Britânica. E a outra coisa interessante de analisar é ver como tem-

É curioso, por exemplo, na crise do Brexit, nas várias crises que o Brexit deu, uma das coisas que se referia era nalguns daqueles momentos, naquelas curvas mais apertadas que o Boris Johnson nos deu na reta final, que dizia-se que ele estava a obrigar a rainha a tomar decisões, que não eram decisões da rainha, mas que formalmente eram, decisões da rainha que não eram honrosas, que estava a fazer passar a rainha por vergonha. Invocava-se o nome da rainha pra dizer que o Boris não tinha o direito de fazer a rainha tomar aquelas decisões. Não sei se se recorda desses momentos.

Isso não me parece correto.

Eu sei que formalmente eram argumentos da discussão política que foram usados.

Uma das razões do ceticismo do Reino Unido em relação à União Europeia é que no sistema da União Europeia, a rainha de Inglaterra não tem lugar, porque quando muito só têm lugar chefes de Estado que sejam chefes de governo. Quanto ao resto, nem para cerimonial. Se parar, oficialmente, não há reunião nenhuma da União Europeia com os chefes de Estado.

Em que os monarcas-

E os monarcas estão perfeitamente marginalizados. Quando muito, disputam o saber se dão os coquetéis quando há uma reunião relevante, mas não lhes é pedido mais do que isso. E eu penso que esse fator também pesa muito na observação constitucional em que os ingleses são exímios, característica de um país que não tem Constituição e que é ainda mais rigoroso com os problemas constitucionais do que aqueles que têm.

Já me engarapinto. Esta evolução da monarquia britânica é interessante porque há, ao mesmo tempo, uma ligação com uma base eleitoral, um povo que tem mudado. Portanto, o Reino Unido de hoje é uma sociedade que é muito diferente do que era quando a rainha chegou ao poder.

Sim.

Nós temos hoje uma sociedade com uma composição, inclusive étnica, muitíssimo distinta.

Exatamente.

Até porque o Reino Unido foi acolhendo muita gente que veio-

Do império.

Veio do antigo império.

Exatamente.

E houve uma enorme transformação. Londres é provavelmente uma das cidades mais multiculturais.

Sim, quer no aspecto religioso muçulmano, indianos, paquistaneses, tudo isso. Ingleses dessa origem.

Ingleses, até europeus de todo lado.

Sim.

Também há ali de tudo. E isso E é curioso como houve também a preocupação de ir integrando tudo isso na forma de falar para estes momentos. E neste último ano, há alguns momentos que são muito interessantes, que são as mensagens que a rainha faz a propósito da pandemia.

Sim, essa mudança, aliás, conseguiu-se com menos traumas, essa integração, chamemos assim, ou pelo menos essa recepção de elementos que não eram identitariamente ingleses, não nasceram nas ilhas. E, portanto, se foram aclimatizando, quer os europeus continentais, quer os vindos de várias partes do império, sobretudo evidente da Índia, do Paquistão, etc., talvez fossem a maioria. Mas não há dúvida que isso se deu, pelo menos, com menos choques. Houve ali uma altura daquele famoso deputado conservador, o Enoch Powell. Houve aí alguns momentos de tensão racial ou identitária, mas para o demais, ao contrário do que tem sucedido no continente europeu, sobretudo em França e na Alemanha e já também um pouco nos países nórdicos, etc., não há dúvida que a Inglaterra nisso foi conseguindo harmonizar essa composição e foi conseguindo anglicizar, de certo modo. Foi conseguindo que os recém-vindos se fossem acolhendo ou adotando, pelo menos uma parte substancial, porque não se vê, de facto, grande tensão desse lado, se fossem adaptando e fossem sendo adotados também, que isso é muito importante. É evidente que é preciso também que os que vêm, os tais migrantes, também se integrem nas regras e nas leis do país e tenham um certo respeito pela sociedade que os recebe. Que não é virem, como noutros casos, às vezes vêm queixar-se, exigir coisas mais que os próprios naturais e terem uma posição de arrogância e até, às vezes, de agressividade, como a gente vê, até às vezes entre nós. Agora, na Inglaterra, de facto, na Grã-Bretanha, houve essa integração e não há dúvida que a rainha ou que a instituição, nesse aspecto, funcionou bastante bem. Parece que onde acabou por ter alguma tensão foi exatamente, depois, também na própria família, com aquele episódio que ainda está a apoderar, dos Duques de Sussex, que de facto, pareceu terem quebrado, ou não se sabe bem por que razões, se razões até provavelmente de publicidade, mas que quebraram, de certo modo, essa regra.

José Meggema, voltando ao Príncipe Philip. O Príncipe Philip teve, ao longo da sua vida, até por razões da sua origem e das suas preocupações, foi também uma figura que se foi adaptando. Portanto, depois de uns anos mais agitados, ao princípio, foi tendo uma figura cada vez mais serena. E é curioso que há quem considere que as suas gafes também eram formas de descomprimir e descomprimir o próprio ambiente em torno da Casa Real e, às vezes, até o próprio ambiente político no Reino Unido.

Sim, sem dúvida, é muito importante para compreender a monarquia britânica, é ler o melhor livro de gafes do Príncipe Philip, porque são comentários de circunstância que sublimam pela ironia. Coisas muito interessantes, revelando análises muito profundas em relação a certos pontos da vida e do contacto internacional. O Príncipe Philip tem, aliás, sobre a própria monarquia, uma explanação muito interessante quando um dia é perguntado, penso que no Canadá, sobre isso. Ele diz: "Esta ideia de que a monarquia é uma coisa que existe no interesse dos monarcas, não é bem assim. A monarquia existe no interesse do povo. E se alguma vez alguma nação decide que esse sistema não é aceitável, então tem o dever de o mudar." Portanto, ele é refletido também sobre esse caso. O Príncipe Philip é, se quiser, o melhor exemplo de capacidade de integração da sociedade britânica, porque ele é alguém que chega de fora, vem de vários percursos da aristocracia europeia, que acabam por ter que bater em retirada. Ele é batizado na Igreja Ortodoxa, ele tem estudos de luteranismo num certo momento. Ele anda numa escola embora destina para um judeu na Alemanha Nazi, depois completa estudos em Inglaterra. Ele tem um percurso de vida que acaba também por demonstrar como a Inglaterra tem essa capacidade de absorção a alto nível Neste caso, a rainha teve mais sorte com o marido do que teve com nora e neta de nora.

Sim, é verdade. Não há dúvida.

Há aqui um problema que também deve ser equacionado em toda a sua dimensão e por isso ela tinha bastante admiração e agradecimento sincero em relação ao marido. Ela disse que ele tinha sido a sua força e orientação constante. E há momentos em que o casal aparece em grande distinção e com um ar de felicidade, embora ficando sempre claro que é a rainha e é o consorte. Muito importante para compreender toda esta sociedade é rever hoje o filme da coroação da Rainha Isabel, em 1952, porque daquele desfile em Westminster está o que é a verdadeira organização da Inglaterra, que subjaz, valida a estrutura e dá força à monarquia britânica. É um filme muito impressionante. E o papel da Igreja Anglicana e das outras duas semioficiais em todo aquele edifício. E depois, o lugar, que é um bocado discreto, que tem o primeiro-ministro. E portanto, tudo aquilo tem uma simbólica enorme, a forma como as ordens, até as ordens militares medievais, têm na atribuição de poderes relativos, a integração da antiga nobreza numa ordem que também é democrática e depois cooptem a instituições eleitas, uma partilha de poder, mas com uma ligação estrutural, toda ela muito forte, que faz do caso britânico um caso único na história das instituições políticas, sem dúvida alguma.

Sim, sem dúvida. Isso será, de resto, muito interessante ver. Estamos com uma rainha que tem 90 e muitos anos. Será interessante ver como será a próxima transição de poder. Não será seguramente idêntica, nem sequer parecido com essa coroação. E nem sequer sabemos exatamente para quem será, se bem que nos últimos anos o príncipe Carlos tenha voltado a ser o candidato mais forte. Terminamos mais um "Conversas à Quinta". Despedimo-nos, assim como nos despediremos este fim de semana, do príncipe Filipe, de Edimburgo. Até para a semana, para mais um "Conversas à Quinta."