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Hoje, na tarde em direto, falamos de saúde mental e de um festival que quer combater o estigma que ainda está associado, infelizmente, a estas questões. O Mental, o Festival de Saúde Mental, arranca amanhã no Cinema São Jorge e com ligação também à Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. E por isso mesmo, hoje recebemos a organizadora Ana Pinto Coelho. Ana, bem-vinda.

Olá, obrigadíssima.

Bem-vinda, Ana.

Sejam todos bem-vindos também.

Obrigada. Ana, hoje vamos começar a entrevista de uma forma diferente, com uma pergunta que se calhar não ouvimos muitas vezes na vida em geral, na rádio também em particular: como é que se está a sentir?

Porque isso é que é o lema principal do festival e é exatamente essa a pergunta que deveríamos fazer a nós próprios todos os dias, pelo menos uma vez por dia, para haver um encontro conosco próprios, contato com as nossas emoções e aceitá-la, seja ela qual for. E isso é um princípio básico para termos boa saúde mental.

E perguntamos poucas vezes isto.

Muito bem. Nós não perguntamos geralmente, ou então quando perguntamos como está a sentir, as pessoas respondem: "Está tudo bem".

Exatamente.

Mesmo quando não está.

Exatamente. Foi o nome que escolheram também, como já aqui explicou, para este festival, para uma iniciativa que foram também desenvolvendo ao longo dos meses de confinamento, julgo eu.

Verdade. Este ano nós resolvemos logo em março, foi logo no início do confinamento. Já temos no nosso festival, estamos na quarta edição, as chamadas MTalks, portanto, são os talks do Mental. E tendo as MTalks normalmente no festival, que são obviamente presenciais, nos palcos e temáticas, achamos que devíamos fazer qualquer coisa. E então criamos as MTalks For All, onde entrevistamos para cima de 100 pessoas durante aqueles três meses logo a seguir, foi março, abril, maio e junho, pessoas ligadas à área do Festival Mental, ou seja, pessoas da área da saúde, da saúde mental e artistas de todo o tipo.

E os resultados?

Foram tão fabulosos que já não éramos nós que tínhamos que fazer os convites, já eram os convites que vinham ter conosco e nós tínhamos que ver o que é que devíamos escolher ou não para que toda a gente pudesse entrar, porque há mais que diversas perspectivas, quer dizer, o confinamento foi vivido conforme cada pessoa, conforme cada situação, conforme cada casa, conforme cada família, conforme a capacidade de resiliência de cada um, conforme tantas coisas que nós ficamos com o que eu chamo neste momento o verdadeiro espólio do confinamento. Acho que temos muita sorte, porque conseguimos fazer isto e realmente ficamos aqui com, posso até dizer, produto, que resume de uma forma muito direta, porque é muito informal, que esse é o nosso registo sempre, a informalidade, e a forma mais direta possível de falar com as pessoas e exatamente perguntar a mesma coisa todos os dias: como se está a sentir.

E alguma resposta surpreendente, Ana? Eu sei que isto é sempre difícil, mas alguma coisa que a apanhou de surpresa?

Houve tanta coisa tão diferente, é um bocadinho complicado realmente estar a responder, mas uma coisa eu sei: eu fiquei grata a toda a gente, porque aprendi tanto durante aqueles tempos e uma coisa é certa, eu não estive sozinha. Eu estava confinada, mas eu não estava sozinha, era impossível. E os registos, os olhares, os sentires de tanta gente tão diferente, fez todos os dias serem muito ricos. Há aqui uma riqueza humana e uma dimensão humana e uma dimensão de perspectiva e de olhar, que foi de fato fabulosa. Alguma que me lembro, talvez a do Rui Reininho, porque o Rui Reininho teve uma entrevista que era um bocadinho fora do horário, como ele próprio é, e ainda bem, nós gostamos muito disso. E então a entrevista saiu assim um bocadinho do que se estava a falar. Nós pedíamos sempre sugestões culturais também no fim, para toda a gente saber um bocadinho o que é que cada um está a ver, ouvir, o que é que ele está a saber naquele momento estar a fazer em termos culturais, porque ajuda, obviamente, e é terapêutico. E ele deu assim umas respostas muito engraçadas. Já não me lembro exatamente o que é que foi. Se calhar vale a pena visitar. Está tudo no canal do YouTube do Festival Mental.

Portanto, basta procurar. Nós temos aqui ouvido muito esta ideia ao longo destes últimos meses, que a pandemia veio, de certa forma, finalmente colocar-nos a falar de saúde mental. Com a seriedade que é necessária, Ana, qual é a sua perspectiva ou acha que isto é uma visão um bocadinho distorcida?

Distorcida não é, é perfeitamente válida, obviamente, porque aqui há várias perspectivas, como em tudo, e olhares, e todos são válidos. Podemos olhar isto de uma forma absolutamente informal e normal, que é aquilo que é. Somos todos humanos. Todos, enquanto humanos, e esta é a minha perspectiva, porque sou humanista, ou pelo menos assim me considero, com alguma humildade, mas considero-me, sobretudo humanista, portanto, tenho a certeza absoluta que qualquer ser humano tem uma parte mental e tem uma parte física, e ninguém me tira esta ideia. Como temos todos uma parte mental e uma parte física para tratar, saúde mental para mim é exatamente o mesmo que saúde física, para todos os sentidos. Nós quando temos saúde física, também falamos de doenças mais severas e limites, como falamos de uma ligeira queda ou de uma constipação ou de uma gripe, como podemos falar de uma doença oncológica grave, ou seja, há graus de gravidade.

Agora deixa-me perguntar-lhe. Nós estamos numa altura em que motivados pelo confinamento, muitos de nós começamos também a recorrer ainda mais à ajuda por coisas relacionadas com a saúde mental. Este é também o momento certo, se calhar, para elevar ainda mais o debate em torno da saúde mental e dar mais destaque a esta questão que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Aproveitar também este momento para falar mais sobre isto será agora também uma janela de oportunidade?

Eu espero que sim. Espero que isto seja aproveitar esta boleia, e é assim que se pode mesmo chamar. É uma boleia para ver se de uma vez por todas isto começa a estar na ordem do dia. Na ordem do dia da comunicação social, na ordem do dia política, na ordem do dia financeiro e económico, porque se nós olharmos isto mesmo do ponto de vista económico, tenho a certeza absoluta que o país pouparia muito dinheiro na saúde se investisse muito mais na saúde mental. Porque muitas doenças físicas, que são caras, com exames e com tudo isso, seriam prevenidas se a saúde mental dos portugueses estivesse mais bem tratada. E eu tenho a certeza absoluta disto. Portanto, acho que o país em geral e a saúde em geral, até em termos económicos, pouparia muito dinheiro e seríamos todos mais saudáveis se isto passasse a estar definitivamente na ordem do dia, como deveria.

Era precisamente aí que eu queria chegar com a questão que fiz há pouco. Temos que começar a levar esta situação a sério, com o investimento que também merece, com essa perspectiva também dessa questão de a longo prazo isto tudo ter consequências se não tomarmos essa atitude agora. Nós continuamos pouco informados sobre esta questão, Ana Pinto-Coelho.

Completamente. A iliteracia aqui é a palavra-chave. Tem toda a razão nisso que está a dizer.

E por isso é que o festival também tem uma parte muito dedicada aos jovens, também é por eles que começa tudo isto.

Desde os pequeninos, temos o Mental Júnior e temos o Mental Jovem, como é evidente, porque isto começa logo de uma coisa tão simples quanto isso, que é desde pequenino se perceber que se pode e deve falar de emoções e que é ok não estar ok, quando não se está ok. Eu, na primeira edição, recordo-me de ver pais a saírem depois da peça de teatro do Mental Júnior e os miúdos estarem felizes e dizer: "Afinal eu posso chorar". E depois aqui até podemos juntar uma outra coisa que tem a ver até com a própria desigualdade de género e do ofensivo, o quanto isto pode ser ofensivo. Lembrem-se que muitas vezes nomes de doenças mentais são usadas como ofensa. Tu és louco, tu és maluco, tu és isto aquilo, normalmente, como ofensa. Para os meninos, por exemplo, dizer: "Não chores" é muito comum. "Vá lá, não chores". Então, o que é isso? Por que não pode chorar? Por que não pode chorar, então? Estamos a brincar? Ou não chores que pareces uma menina. E aqui estamos a associar logo várias coisas. Estamos a associar logo uma data de desigualdade que existe ainda de género brutal também. E, portanto, eu acho que isto tudo se resume a uma única coisa, tem a ver com educação. E educação passa pelas escolas, passa pelas pessoas, passa pelas famílias, passa por toda a gente que é envolvida nas escolas, desde os professores aos auxiliares. E eu tenho para mim que ainda há um grande trabalho, profundo trabalho a fazer na mudança de comportamentos e de mentalidades em Portugal. Isso eu tenho a certeza que sim, há muito para fazer.

É difícil sair desse esquema, dessa tal formatação onde todos estamos. Em certa altura da nossa vida, todos chegamos a essa formatação e sair dela, perceber que a tristeza é algo também que faz parte. Como explicava agora.

Que faz parte, obviamente, que se deve aceitar. E por acaso nessa parte é que discordo um bocadinho. Eu acho que era superfácil. Ao fim e ao cabo, era só aceitar. E aceitar-nos como pessoas e sermos mais empáticos no mundo que nos está a tirar completamente a empatia, no mundo e no modo de vida que nos está a tirar completamente o contato com a natureza, o contato conosco próprios, o local onde nós pertencemos, como animais que somos também. No bom sentido, quer dizer, nós precisamos de tudo isto.

Essa questão da empatia também é uma questão que tem sido cada vez mais falada, até porque se diz que estamos todos cada vez mais autocentrados, concorda?

Obviamente, claro que sim. Aliás, o causador, até diria, indo longe e não querendo desviar do tema, as próprias alterações climáticas e a extinção do planeta e tudo isto que se fala, tem só um único nome: egocentrismo do ser humano. O ser humano é tão egocêntrico que destrói tudo porque tem ou acha que para si que pode e deve mandar em tudo, absolutamente tudo. Não interessa se vai magoar o outro, se vai fazer mal ao planeta ou à natureza ou aos animais, ou o que for. Não interessa nada. Desde que seja bom para mim, eu gosto, quero e posso mandar. Isto tem a ver com ego, egocentrismo, sim.

Há aqui um ponto também interessante. Esta pandemia colocou-nos a falar mais de saúde mental, também veio demonstrar a enorme capacidade que temos de adaptação.

Completamente, adaptação. E cada um somos muito diferentes. Aqui está a prova mais que provada em como somos todos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Nós temos todos, se quisermos, e isto provou-se realmente, que se quisermos estar juntos para combater alguma coisa, nós realmente temos essa capacidade. E conseguimos então encontrar a tal dita empatia, que é isso que nos difere do resto dos animais. O ser humano quando quer, é de facto empático e é capaz de fazer as melhores das coisas. Portanto, não há razão nenhuma para estarmos a entrar por um processo de autodestruição como humanos e para cada um de nós, e em geral, como sociedade. E é isto que custa um bocadinho, às vezes, estar a ver. É o caminho que podia ser tão diferente, isto podia estar tudo tão diferente, se em vez de estar a olhar para o ego, se olhasse para a empatia, porque nós somos capazes das duas coisas.

Ana Pinto-Coelho, as conversas boas são assim, às vezes desviam-se um bocadinho. Vamos voltar aqui ao Mental e ao programa. Vamos aos destaques. Ana, consegue ouvir-me?

Sim. Estava a perguntar os destaques do festival.

Sim, vamos a isto.

Isto é que é uma coisa muito difícil de fazer, mas eu vou tentar ser breve e rápida. É assim: obviamente que o coração do Festival Mental é a Mostra Internacional de Curtas-Metragens. Basicamente, é um festival de cinema e estamos tão gratos de estar finalmente no Cinema São Jorge a poder mostrar os nossos filmes. Tivemos uma adesão imensa de para cima de 100 submissões de filmes vindos de todo o mundo, escolhidos cuidadosamente pelo nosso júri residente. E nós estamos com uma mostra de luxo este ano. Portanto, os filmes valem todos a pena, são muito diferentes uns dos outros, têm temáticas muito diferentes em termos de fotografia, em termos de realização, em termos de conteúdos. Estou muito orgulhosa da mostra que o Festival Mental vai exibir este ano. Depois temos também os temas. Há sempre três temas no Festival Mental principais e destes temas nas nossas MTalks, este ano vamos falar no dia 2 de ansiedade, no dia 3 de toxicodependências e no dia 4 de estresse pós-traumático. E este tema foi posto aqui exatamente por causa da pandemia, porque o estresse pós-traumático é agora que vai começar a sentir-se nos portugueses, porque é o tempo e os meses que ele leva a seguir.

É a tal exaustão emocional que vamos sentindo ao longo do tempo.

Exatamente, que é um bocado diferente do burnout que já tínhamos falado ano passado, numa outra perspectiva. Mas enfim, o estresse pós-traumático, vamos falar disso para as pessoas perceberem o que são estes sinais e quando é que eles estão realmente a começar a revelar-se. Isto vale para todas as idades. Depois há, claro, o Mental Júnior e o Mental Jovem, sendo que o Mental Jovem vai ter uma peça trazida pela unidade W+ da Santa Casa da Misericórdia, que se chama Baile de Máscaras, vai acontecer já no dia 1, às 19h30, também no Cinema São Jorge, é feito por adolescentes e para adolescentes. O tema são as máscaras. E depois amanhã, que é a nossa inauguração, vamos abrir o espetáculo Acontece, que é um espetáculo de dança, movimento, terapia, feito com pessoas com experiência em doença mental, que vão estar no palco com muita coragem, com um espetáculo muito bonito, logo seguido de um debate onde vamos falar do digital ao real ou do real ao digital. Um debate onde vão estar especialistas como a Fátima Caçador, o João Gata, a Susana Marvão, que vem de propósito do Porto, especialista em TIS, e o Tiago Siguralho da plataforma Gera Dor. Aqui vamos discutir um bocado tudo o que isto tem a ver e contextualizar as coisas no que tem a ver com fake news ou não fake news. É importante ou não esta questão da abertura social e o confinamento nunca ter sido pedido um distanciamento social, mas sim físico. E isto houve aqui um erro linguístico que foi bastante grave, porque nunca nenhum de nós quis distanciamento social, nunca na vida. E vamos falar disto, vamos perceber até que ponto também as redes sociais, o teletrabalho, tudo isto mudou de certa maneira as nossas vidas. E de certa maneira, porque ainda não sabemos dizer ao certo o que é que fica e o que é que não.

Qual é o impacto.

O que é que vai ser o futuro, ninguém faz a mínima ideia. Mas vamos debater um bocadinho em relação à pandemia, isto real ao digital, e também muito aquilo que estamos tão confinados. Depois há a internet e o que é que isto é bom e o que é que isto é mau. E há sempre os dois fios da navalha, claro. Depois, em relação ao fecho do Festival Mental, vai ser na Fábrica Braço de Prata, com o projeto Música, que temos sempre também no Mental, que é o My Story My Song.

Com a Surma e com a Cátia Guerreiro.

Com a Surma e Cátia Guerreiro. My Story My Song é um projeto onde se convida a artista a falar de um tema menos bom da sua vida, lá está, porque todos temos, e vai contar o que se passou, o que lhe apeteça, tanto a Surma como a Cátia Guerreiro, e depois vão cantar temas que as fizeram sentir bem e que ajudaram em formas terapêuticas esses momentos menos bons por que passaram.

E sabemos também que a música ajuda muito, não é?

Tudo isto ajuda. A cultura é a plataforma para se falar de saúde mental, por excelência, do meu ponto de vista.

Exatamente.

É o teatro, é a dança, é a literatura. Vamos ter literatura no dia 8, e a música. Claro que sim, todos nós sabemos isto. Não chamamos as coisas pelos nomes, mas no fundo todos sabemos.

É isso mesmo. O convite está feito para quem nos está a ouvir a juntar-se ao Mental, o festival de saúde mental que arranca amanhã no Cinema São Jorge. Estivemos hoje à conversa com a Ana Pinto Coelho, a organizadora deste festival. Ana, muito obrigada pela disponibilidade. Tudo a correr bem.

Obrigada eu. Obrigada por vocês também. Corra tudo bem. Bom programa.

Muito obrigada. Até à próxima.

Obrigado.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!