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Junta-se agora a nós Joana Roca, amante de cozinha e autora de "Cozinha Organizada: Jantar na Mesa". Joana, muito boa tarde.
Olá, boa tarde.
Seja muito bem-vinda, Joana. Ia pedir-te, Joana, aqui em direto, que baixasses a escuta da tua rádio, porque estamos a ouvir-nos em eco.
Só um segundinho, esperem lá, isto é tudo manuseado para mim também.
Eu confesso que tinha este sonho meio à goxa de fazer este pedido.
Está melhor agora?
Sim, muito melhor. Joana, tu lançaste há bem pouco tempo o novo livro "Cozinha Organizada: Jantar na Mesa". Eu começo logo por esclarecer aqui uma dúvida com o título. Esta cozinha deve estar organizada, é a cozinha espaço, divisão da casa ou a cozinha o ato de cozinhar, ou até mesmo os dois?
É um bocadinho dos dois. Ou seja, a nossa cozinha deve estar sempre organizada. Somos sempre mais eficientes quando temos a cozinha organizada, mas o que este livro pretende passar é a ideia de que se nós tivermos os ingredientes organizados, somos mais eficientes a cozinhar. E o livro começa exatamente com essa ideia.
E é planeando as refeições neste parâmetro que podemos comer de uma forma mais saudável, por exemplo.
Exatamente. Eu faço uma coisa cá em casa que eu chamo de meal prep, que na prática é uma pré-preparação das refeições da semana. E eu acho que isso me ajuda a poupar imenso tempo e também a comermos melhor, até porque eu também tenho três filhos e portanto, todos queremos comer melhor. E ajuda-me também a evitar o desperdício e até a fazer uma gestão melhor das compras de casa. E a ideia deste livro então surgiu com isso, ou seja, passar essa mensagem do que qualquer pessoa pode fazer para conseguir fazer essa gestão, essa pré-preparação da sua alimentação, comer melhor e poupar tempo também, porque eu acho que é muito importante nos dias que correm, porque a hora de jantar acaba por ser sempre aquela hora complicada, porque chegamos tarde, porque temos os miúdos em casa, porque há toda uma gestão sempre complicada. E então, a mensagem que eu pretendo passar com este livro é exatamente essa: o que nós podemos fazer para aliviar o sufoco da hora de jantar.
Mas Joana, este livro traz uma série de receitas. Quais são aquelas que facilitam mais a vida a quem passa os dias assim atarefado?
Bem, eu não sei se haverá receitas que facilitem mais a vida do que as outras. Eu acho que há coisas que nós todos estamos habituados a fazer e que às vezes caímos naquela asneira, por assim dizer, de fazermos sempre as mesmas coisas. Eu falo muitas vezes deste exemplo, que é verdade. A minha mãe tinha uma ementa semanal, que era fazer quase sempre as mesmas coisas. À segunda-feira era peixe cozido, à terça-feira era frango grelhado. E a ideia agora é fazermos coisas que são simples, com os ingredientes que toda a gente tem sempre em casa, porque isso é um parâmetro para sermos mais eficientes a cozinhar, mas podermos pré-preparar as coisas para essas receitas que nós temos para fazer, e estas receitas que eu partilho neste livro, serem rápidas de preparar e não nos demorarem mais do que 20 minutos. Isso muitas vezes não tem a ver com a receita em si, mas com aquilo que nós já temos organizado. Porque uma sopa, por exemplo, é uma coisa muito rápida de preparar. O que demora tempo? É descascar os legumes. Se eu já tiver essa parte feita, então ainda vou ser mais rápida, porque é pegar nos legumes já descascados e pôr na panela. E são essas pequenas dicas que o livro tem. Não tem tanto a ver com as receitas, mas com aquilo que nós podemos adiantar.
Joana, falavas aqui de ingredientes básicos que toda a gente tem em casa. Que ingredientes é que não podem faltar se quisermos fazer esta tal ideia de meal prep, de preparar as refeições para a semana?
Muito importante, carne e peixe, daquilo que as pessoas comem mais habitualmente. Frango, alguma carne picada, porque também é uma coisa muito rápida de cozinhar. Peixe, lombinhos de peixe, bacalhau, coisas que são muito tradicionais na nossa alimentação, muitos legumes. Este livro foca-se também muito em acompanhamentos diferentes, porque eu acho que às vezes a dificuldade não está só em fazermos, porque nós já temos a ideia: "Vou fazer o frango, vou fazer aqueles lombinhos de peixe".
É sempre a pergunta: acompanhar com o quê, não é?
Exatamente, vamos acompanhar isso com o quê? Outra vez batatas, outra vez massa, outra vez arroz. Então a ideia também é trazer um bocadinho da diversidade que nós temos. Há tantos legumes diferentes, não precisamos estar sempre a comer as mesmas coisas. E depois a dificuldade é como é que vamos cozinhar esses acompanhamentos. E então, muitos legumes que nós podemos fazer de formas muito diversas, até algumas coisas que podem já estar feitas de véspera, porque não tem mal nenhum. Eu sei que ainda há, às vezes, muito o estigma da comida aquecida. "Ai, foi feito ontem, já não é fresco". Mas não há mal nenhum fazermos quando temos mais tempo e termos três ou quatro coisas prontas no frigorífico, é só tirar e aquecer. Isso é uma mais-valia. Aquele dia eu tenho mais um bocadinho para cozinhar e faço. E também é muito sobre isso que fala este livro.
Joana, o que estou a perceber é que o truque não é tanto simplificar as receitas, mas jogar na antecipação.
Exatamente, é pré-preparar as coisas. Então o livro pretende exatamente é ensinar, eu não gosto muito da palavra ensinar, é dar algumas estratégias, se calhar é a palavra mais correta, é dar algumas estratégias sobre tudo o que pode ser pré-preparado, adiantado, para a hora de jantar ser muito mais pacífica, porque todas as receitas são relativamente fáceis. É um bocadinho como os restaurantes. Os restaurantes já têm a maior parte das coisas adiantadas. Quando nós fazemos o pedido, eles só pegam naquilo que já está adiantado. É pegar nessa estratégia e trazê-la para nossas casas.
E Joana, olhando aqui para esta ideia de que preparar as refeições nos ajuda, de certa forma, a ter a semana mais organizada no que essas refeições diz respeito, mas há também aqui a ideia da redução do desperdício e também da poupança do dinheiro. Como é que as coisas se interligam?
A ideia inicial é: se nós conseguirmos perceber o que temos em casa, e se eu souber tudo o que tenho em casa, seja no congelador, seja no frigorífico, eu consigo muito mais facilmente evitar o desperdício. A ideia é: eu vou ver tudo o que tenho no congelador, tudo o que eu congelei ao longo do tempo, tudo o que eu tenho no frigorífico, e a partir daqui eu faço minha ementa semanal. E nessa ementa semanal, eu depois acabo por me organizar durante a semana e quando vou às compras também já poupei algum dinheiro, porque vou comprar só as coisas que eu preciso.
Portanto, mais uma vez, jogar na antecipação e fazer essa preparação toda. Mas isto acaba mesmo por combater esse desperdício de comida? Conseguimos quantificar esse desperdício que não existe ou que deixa de existir?
O objetivo é esse. É essa a mensagem e são as estratégias que eu pretendo mostrar. Eu sei que isto é muito ambicioso para um livro, mas normalmente quem trata mais das coisas de casa sabe mais ou menos a quantidade que comemos numa refeição, quantas chávenas de arroz vamos fazer, quantos bifes temos de comprar. Partindo deste princípio, eu sei que é outra coisa que os portugueses não gostam muito, que é da comida contada, mas reduzir o desperdício tem muito a ver com isto. Eu não preciso de fazer, a não ser que eu precise efetivamente fazer comida a mais com algum objetivo, como por exemplo levar para o almoço na marmita no dia a seguir, não há necessidade de ficar comida a mais, principalmente se eu não tenho por hábito comer essa comida a mais. Então eu tenho que planear, ou eu pretendo planear, em função daquilo que eu sei que se vai comer naquela refeição, se eu não quero que sobre comida. E quando eu vou às compras, eu já vou a contar que eu vou precisar, por exemplo, só vou precisar de cinco costeletas, não preciso comprar seis. E assenta sobre estas coisas. Ou então, também num outro princípio, que é eu propositadamente vou fazer a mais, porque eu quero que aquela parte sobre, porque já estou a pensar noutra receita que posso fazer com aquelas sobras.
Joana, de onde é que partiu esta ideia de que existe desperdício? Constatas por pessoas que conheces ou da tua experiência, constatas que há muita gente que não prepara a semana de refeições ou as refeições, e que por isso acaba por desperdiçar muita comida? Constatas que isso é uma necessidade, foi por isso que escreveste este livro?
Eu constato que é uma necessidade mais do que isso. Há pessoas que não preparam e não desperdiçam, porque têm por hábito ir revendo o que têm no frigorífico, o que têm no congelador, o que podem ter eventualmente a estragar de frescos, e fazem questão de ir usando. Mas eu noto é que a maioria das pessoas, isso a experiência também dos workshops e de falar muito com pessoas, seja no Instagram, pessoas que me contactam, o que eu noto é que as pessoas muitas vezes, como compram a mais, como não planeiam a ementa semanal, como não sabem as quantidades, vão comprando assim um pouquinho no ar, acabam por chegar a casa, metem a alface no frigorífico e depois esquecem que está lá a alface e a alface acaba por se desperdiçar, exatamente porque não planeiam. E se elas além de não planearem, chegam sempre tarde, não têm o cuidado de depois de preparar as coisas, depois de as comprar, acondicionar devidamente, tudo isso também leva ao desperdício. Há as duas vertentes. Haverá sempre quem é muito cuidadoso com tudo o que compra e mesmo não fazendo um grande planeamento, consegue fazer essa gestão. Mas depois há as pessoas que compram um pouquinho ao desbarato e depois como também não acondicionam, como também não têm esse cuidado, como as coisas vão ficando na parte de trás do frigorífico e vão ficando esquecidas, como não têm um inventário do congelador, pequenos truques muitas vezes acabam por não se aperceber que têm essa comida e desperdiçam. Eu acho que o desperdício realmente acontece muito, porque às vezes até porque sobrou um bocadinho de uma refeição, as pessoas nunca mais se lembram e passado três ou quatro dias, ou porque não foi bem acondicionado, ou até por outros motivos, acaba por ser desperdiçado e ir para o lixo. O desperdício, além de ser uma preocupação, depois aquela comida que nós estamos a deitar fora é dinheiro. Se nós visualizarmos todos os bocadinhos de comida que deitamos no lixo como as moedas e as notas que ela nos custou, se calhar temos outra perceção do que é desperdiçar.
Comida é dinheiro e tempo também é dinheiro, e é disso que fala, dessa organização de tempo e também das refeições, que fala este novo livro. Joana, não é o primeiro livro que edita, mas como é que está a ser o feedback deste novo livro?
Este já é o sétimo livro. Ele saiu há muito pouco tempo, só saiu ontem. Portanto, ainda não tenho um grande feedback do livro, mas eu acho que ele foi muito esperado. Foi um livro muito difícil de sair, demorou muito tempo e depois esta questão toda do Covid também atrasou um pouquinho a saída do livro. Eu acho que ele é muito esperado. Como é uma temática que eu falo bastante, as pessoas que me seguem e que já me conhecem e conhecem o meu trabalho, estavam muito ansiosas por ele. Eu acho que ele vai ser bem recebido. Faz todo sentido um livro sobre nos organizarmos melhor, e ainda mais agora que vamos outra vez ficar com filhos em casa, ainda faz mais sentido conseguirmos organizar melhor. Portanto, eu espero que gostem tanto dele como eu gostei de o fazer. Foi seguramente o meu livro mais difícil até agora.
Joana Roque, não são só livros, ou pelo menos a tua vida não se faz só da escrita de livros. Tens uma paixão pela cozinha, isso já é sabido. Com um total de sete livros publicados. Organizas também workshops de culinária, és produtora de conteúdos para várias marcas. O que é que tens aí mais na manga para nós nos próximos tempos, para além deste livro, que é já um caso encerrado, já está publicado?
Exatamente. Confesso que para já ainda não há assim muitas outras coisas. Obviamente que os workshops neste momento presenciais estão fora de questão, como é óbvio, já estão suspensos há alguns meses. Eventualmente pensar noutra forma de chegar às pessoas e de partilhar mais conteúdos deste gênero que interessa às pessoas. Eventualmente a criação de um novo book. Há várias coisas assim a pensar, ainda nada definido. O panorama também não está muito bom para definirmos já muitas coisas, mas há projetos. Agora é ver um pouquinho como é que este livro vai ser recebido e trabalhar a partir daí.
Muito bem, Joana Roque, amante de culinária. Uma conversa ingrata para se ter perto da hora de jantar. Estivemos aqui a falar de comida, mas sobretudo da cozinha organizada, "Jantar na Mesa", o livro escrito por Joana Roque, quis aqui ajudar-nos a perceber como podemos reduzir o desperdício e também, consequentemente, a poupar dinheiro. E tudo depende, percebemos hoje, de uma boa organização das refeições. Joana Roque, muito obrigado por este bocadinho. Bons cozinhados, boa organização e pouco desperdício.
Muito obrigada, até à próxima.
Até à próxima.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.