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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Terramoto político, Alemanha a caminho dos extremos. Não é preciso saber alemão para perceber o que dizia ontem o chanceler depois do resultado das eleições estaduais. "Es ist ein Desaster". Um desastre. E há poucas palavras que descrevam tão bem o que aconteceu ontem. Um desastre, um terramoto. A extrema-direita a ganhar no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde os democratas cristãos da CDU, partido do chanceler, tiveram o pior resultado desde a Segunda Guerra Mundial. E a extrema-esquerda a ganhar em Berlim. Friedrich Merz garante que não sai e que vai agora fazer reformas, mas tem tempo para isso? É o que eu vou perguntar hoje à analista da Internacional, Helena Ferro Gouveia. Vamos olhar para o que aconteceu, perceber o que significa e que condições políticas tem o chanceler depois de uma derrota histórica. Eu sou o Pedro Benovides e esta é a história do dia de segunda-feira, 21 de setembro. Olá, Helena. Bem-vinda.
Olá, Pedro. Muito obrigada pelo convite.
É com todo o gosto que eu a oiço aqui, sobretudo num tema que a Helena domina, conhece muito bem a Alemanha. Portanto, eu começava já por lhe perguntar: nós usámos a expressão terramoto político para dar o título a este episódio. Acha que é exagerado ou acha que é exatamente isso que aconteceu na Alemanha neste domingo?
Acho que é um retrato real da situação política na Alemanha e sobretudo aquilo que nós vimos a assistir, que é uma tentação ou uma atração pelos extremos e por um regime autoritário, seja com a eleição em Berlim da extrema-esquerda, e eu depois gostava de explicar um pouquinho o que é isto do Die Linke, seja por mais uma vitória da extrema-direita em Mecklemburgo-Vorpommern. É um terramoto político para o governo alemão, e isto é, de facto, para o chanceler, um desastre, mas também para o seu governo, mas é um desastre também para a democracia alemã e para a incapacidade que os partidos de centro, seja ele centro-esquerda como o SPD, seja ele centro-direita como a CDU/CSU, de darem respostas aos cidadãos. O que está aqui em causa? Quando nós olhamos para Berlim, Berlim além de ser a capital, é uma cidade-estado, e sempre foi uma cidade-estado muito à esquerda, é um laboratório político. O Die Linke, que venceu estas eleições, é o mais extremado dos Die Linkes alemães. E é importante nós recuarmos aqui um bocadinho no tempo e à gênese deste partido. Este partido nasce em 2007, da fusão do PDS, não confundir com o PSD, que é o partido sucessor do SED, que era o partido único da ex-Alemanha, portanto, democrática, um partido comunista. E nasce da fusão deste partido comunista com o WASG. O WASG foi um vivento partidário sindicalista que surgiu no início dos anos 2000, por oposição às reformas de Gerhard Schröder. Da fusão destes dois partidos, nasce o Die Linke, que é um partido claramente marxista, um partido que visa a superação do capitalismo, tudo aquilo que nós conhecemos em partidos marxistas. O que este partido tem ainda de mais radical, na verdadeira acepção da palavra, em Berlim? Junta a este cariz marxista o islão político. Quando nós vemos o programa do Linke para Berlim, tem as coisas habituais e a principal preocupação dos berlinenses é a questão da habitação. Eles defendem o teto às rendas, algo que nós já ouvimos em Portugal também com partidos como o Bloco de Esquerda, mas vão mais longe. Eles defendem aquilo que é a expropriação dos grandes grupos imobiliários. Defendem um passe social a €9 para todos os berlinenses, a educação inclusiva e escolas comunitárias. A última vez que isto se deu foi nos anos 70 e com resultados que não foram muito positivos. Defendem mais bicicletas, o que é uma coisa que até acho louvável. Defendem depois a gratuidade em tudo: creches gratuitas, universidades gratuitas, escolas gratuitas. Só que há aqui um grande problema. O facto é o seguinte: Berlim, enquanto cidade-estado, representa apenas 3% do Produto Interno Bruto alemão. Na Alemanha existe uma coisa que se chama Länderfinanzausgleich, é um palavrão, que significa um mecanismo de equalização financeira entre os Länder, entre os 16 estados federados. Ou seja, Berlim é o maior beneficiário líquido deste sistema de distribuição de receitas fiscais. Para lhe dar uma ideia-
Ou seja, os outros estados teriam de pagar essa quantia.
Os outros estados pagam, não teriam que pagar, pagam. Era exatamente aí que eu ia. Em 2025, este mecanismo financeiro, onde todos os estados contribuem, todos não, uns contribuem, outros são beneficiários líquidos, que é o caso de Berlim. Este mecanismo financeiro atingiu os 20 mil milhões de euros e Berlim recebeu quase um quarto deste valor, ou seja, 5 mil milhões de euros. E sem estas verbas, Berlim não conseguiria financiar transportes, serviços públicos, escolas E a pergunta é assim: quem financia a capital e a cidade-estado de Berlim, sobretudo esses estados federais alemães, a Baviera, Baden-Württemberg e Hessen, ou seja, todos os estados da Alemanha Ocidental e sobretudo os estados do sul da Alemanha, que são os estados ricos. Estes estados ricos, esta polêmica não é nova. Há muito tempo que usam aqui a fábula da cigarra e da formiga, ou seja, eles são estados que trabalham, que produzem, estados capitalistas, na verdadeira acepção do termo, e que acabam por financiar Berlim, que é uma cidade que tem, de fato, projetos culturais inovadores, inovativos, disruptivos, o que se quiser. Tem três óperas, o que é fantástico, mas é uma cidade com três óperas, tem museus fabulosos que são patrimônio nacional, claro, mas depois tem uma miríade de projetos culturais e de subsídios sociais maior do que em qualquer outra região da Alemanha. Nós vemos aqui a vitória deste partido, que também tem uma simpatia pela Federação Russa, como não podia deixar de ser, que é antipolícia, por oposição à AfD, que é o partido securitarista. Aqui temos um partido completamente antipolícia. E há aqui uma característica, uma matriz que eu referi no início, que é muitíssimo preocupante. Eu antes de estar a gravar consigo, estava a ouvir o debate político entre os secretários-gerais dos vários partidos. E o secretário-geral dos Verdes, que é um partido de esquerda, acusava e de uma forma muito clara e sem meias-palavras, o Die Linke de ser um partido abertamente antissemita. E, de fato, é, sobretudo, por exemplo, nos comícios do Die Linke em Berlim e numa região de Berlim, que é Berlin-Neukölln, que é uma zona que tem uma matriz islâmica muito marcada. Houve gritos como "Yalla yalla Intifada", que na Alemanha é proibido o apelo à Intifada, "Morte à IDF", "Morte aos judeus". Isto de uma forma claríssima, que na Alemanha, o antissemitismo é crime e isto é penalizado com penas de prisão efetiva. A direção do partido depois distanciou-se disto, mas não deixa de ser o Die Linke um partido extremamente antissemita e aliás, este vai ser um dos obstáculos na formação de um eventual governo, porque eles não têm maioria para governar. Precisa de 82 lugares, têm 48, teriam que juntar aqui os Verdes e os Socialistas, e é uma das questões que se põe. Isso é muitíssimo preocupante. Isso falando em Berlim.
Olha Helena, deixe-me só perguntar uma coisa. Com essas características todas, mas especificamente sendo um partido que é herdeiro daquilo que era a República Democrática da Alemanha, com tudo o que isso significou de divisão e de sofrimento para a população alemã, isto significa o quê de Berlim em particular? Isto significa o quê? Que a memória é curta?
Eu acho que há aqui uma conjugação de vários fatores. Há esse fator da nostalgia do que foi a Alemanha de Leste. Há aqui alguma nostalgia, mas não é só isso. Quando nós olhamos para os eleitores do Die Linke, o Die Linke teve sobretudo eleitores jovens. E dentro desses eleitores jovens, nós temos a cidade-estado ou estado onde o peso migratório tem maior peso. E tanto que a candidata que venceu estas eleições conseguiu fazer apelo a isso. É uma cidadã filha de socialistas turcos que fugiram como refugiados pra Alemanha. Ela já nasceu na Alemanha, nasceu em Munique. É uma pessoa que é muitíssimo crítica em relação a Israel, que tem uma grande proximidade de movimentos também islamistas e apoiou muito ao voto jovem, ao voto revolucionário, que é uma das características de Berlim, mas também ao voto imigrante. Conjugando aqueles que estão insatisfeitos com o governo central, com o voto jovem, com o voto imigrante, esta é, de acordo com os politólogos alemães, que tive a oportunidade de ouvir, a razão deste sucesso eleitoral do Linke.
Para o resultado que houve-
Exatamente, para o outro extremo
...que teve aí em Berlim. Agora, vamos olhar para o outro lado, para o outro extremo, se quisermos, que é o que aconteceu mais uma vez, duas semanas depois, a AfD a ter um resultado histórico. Como é que se explica isso?
Explica-se também da mesma forma. Eu falava na atração pelo autoritarismo, também temos isso na extrema-direita, na AfD, que eu tenho vindo a dizer e vindo a alertar que se chama extrema-direita a tudo, até a partidos que não são de extrema-direita, serão de direita populista. A AfD é um partido claramente de extrema-direita, um partido antieuropeu, e uma vez mais nós devemos ir à gênese dos movimentos políticos. Ele surgiu em 2013, este partido, como um movimento muito crítico da União Europeia e sobretudo da perda de soberania. Depois evoluiu em 2015 com a entrada dos refugiados sírios e depois tudo o que veio a seguir, porque não foram só os sírios que vieram pra um partido anti-imigração, e acabou por ser um partido que juntou todas as insatisfações e que está a ter uma expressão muito grande no leste alemão. É muito interessante nós pensarmos, enquanto na Alemanha Ocidental, depois da Segunda Guerra Mundial, houve um processo de desnazificação que foi feito e houve um Vergangenheitsbewältigung, ou seja, um ultrapassar o passado no sentido de o ter sempre presente, de o conhecer, de ter a consciência do papel que a Alemanha teve na história, a história negra alemã, isso foi tudo muito feito e muito bem feito, na educação, na escola, tudo isso está muito presente. A Alemanha Oriental ou a Alemanha de Leste passou de uma ditadura, do nazismo para o comunismo, e nunca fez nenhum processo, nem de desnazificação, nem de descomunização. Do ponto de vista sociológico, ainda continua a ter aqui muitas marcas de autoritarismo. E a AfD consegue jogar, por um lado, com pessoas que têm simpatias abertamente nazistas. Aliás, quando se lê o programa da AfD e quem percebe a subtileza linguística, quando se fala em arte degenerada, nós sabemos do que se está a falar. Isso também existia no programa nazista. Mas simultaneamente, joga também com a proximidade à Rússia, que existia na Alemanha de Leste, e a AfD é um partido abertamente pró-Rússia e com muitos políticos com ligações muito claras e com encontros entre a AfD e o partido Rússia Unida de Vladimir Putin, aproveita esta ligação. É um partido antiocidente, antiUcrânia. Nós vemos na Alemanha, de um lado, o crescendo da extrema-direita. Eu falei aqui no Die Linke, mas nós ainda temos um partido à esquerda do Die Linke, como se isso fosse possível, que é a Bündnis Sahra Wagenknecht, que é uma dissidente do Die Linke que criou o seu próprio partido e também tem conseguido criar algum espaço. Mas vemos aqui realmente a AfD que está a conseguir chegar, já não apenas àqueles radicais Sejam eles pró-russos, sejam eles de extrema-direita, mas está a conseguir chegar ao centro da sociedade, porque está a prometer, porque eles nunca governaram, nunca deram respostas, mas está a prometer dar respostas a anseios dos alemães. E quais são esses anseios dos alemães? Acima de tudo, há aqui três questões que preocupam os alemães, como demonstram as sondagens. A primeira preocupação é a migração. A Alemanha, neste momento, tem uma pressão migratória enorme. E o que isso significa? Significa, no momento em que está a tentar reformar o seu status social e cortar benefícios, boa parte dos beneficiários são migrantes. Isto é factual. E a AfD conseguiu capitalizar este ressentimento que há contra os migrantes e que existe aí, fruto da incapacidade de ter uma política migratória com pés e cabeça. Depois, a questão da segurança. Neste momento, houve um agravamento, isso está patente em todos os RASIs alemães, seja o estadual, seja os dos diversos Bundesländer, há um agravamento da questão da segurança. E essa é uma preocupação que os alemães têm. E depois a terceira preocupação, por esta ordem de prioridades, é a questão da economia. E muitos alemães veem, e a AfD joga muito com isso, que o fato de os alemães terem trocado o marco alemão pelo euro foi algo que prejudicou a economia alemã. Há divisões entre os economistas se isto foi assim ou se não foi, mas esta exigência que foi feita pelos franceses, na altura, para aceitarem a reunificação alemã em 1990, porque é assim que nasce a moeda única, ainda hoje é vista na Alemanha e por algumas partes da população, como a raiz da deterioração econômica alemã.
E portanto, isso explica as três razões essenciais que explicam este voto. Agora, Helena, vou lhe pedir então que me diga, nós vimos o chanceler alemão dizer, assumir que foi uma derrota, que foi um desastre, mas a dizer que não se vai demitir e que agora vai reformar o país. A Helena acredita que ele tem hipótese de se manter à frente do governo ou acha que isto é uma inevitável caminhada para o fim?
Acho muito difícil que ele tenha a capacidade de manter esta legislatura até o fim. Com muita pena minha, porque eu acho que Friedrich Merz era o homem indicado para ser chanceler da Alemanha, porque é um homem que vem da economia, que não precisa da política para nada, que é milionário, tem 70 anos, tem uma visão empresarial e sabe aquilo que a Alemanha precisa. Não lhe foi dada a maioria que ele precisou. Fez um governo com os sociais-democratas, que é incapaz de se entender, porque tem agendas políticas diferentes e não tem sido capaz de comunicar com os eleitores as reformas que precisa de fazer. E que reformas é que ele precisa de fazer? A reforma do sistema de pensões, aquilo que nós estamos a discutir também em Portugal e que os governos empurram com a barriga, mas que é inevitável, tem a ser feito, e o corte de um conjunto de benesses sociais, porque a economia alemã neste momento não acho que consegue comportar. Depois, a questão da transição energética, que é algo que está sendo muito discutido, e o processo de reindustrialização alemã. Vai ser muito difícil a Friedrich Merz, que tem uma taxa de aceitação muito baixa, que tem uma dificuldade grande em comunicar com os alemães de, no meu ponto de vista, continuar até o fim da legislatura. Verdade seja dita, nunca devemos subestimar os políticos alemães. Eu recordo-me quando o Helmut Kohl foi eleito, diziam que era o chanceler de inverno, que só lá estaria meia dúzia de meses e esteve 16 anos. O mesmo foi dito a propósito da Angela Merkel. Os alemães gostam de continuidade, se bem que a Alemanha está numa profunda transformação, numa profunda mutação, e esta instabilidade não é boa para a Alemanha, nem é muito bom para a Europa. Deixe-me só dizer esta frase, Pedro. Porque nós vamos ter eleições em França, e as eleições em França vão ser disputadas entre extremos. Vamos ter Jean-Luc Mélenchon e vamos ter Marine Le Pen, extrema-esquerda e extrema-direita. Não sei para onde caminha a Europa. Isto pode ser para galvanizar ambos os lados.
Vamos ver o que é que vai acontecer. Helena, muito obrigado.
Obrigada, Pedro.
Eu conversei com a analista internacional Helena Ferro Gouveia sobre os resultados desastrosos para a CDU e para o atual chefe do governo na Alemanha. Merz não quer demitir-se e nas próximas horas vai ter várias reuniões com líderes políticos para se assegurar de que tem o tempo de que precisa para fazer as reformas que promete-se. Vamos ver se ainda consegue. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.