Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Já temos conosco o nosso convidado de hoje, o ilustrador e cartunista Vasco Gargalo. Pode ver trabalhos do Vasco na imprensa nacional, também internacional. Vasco, bem-vindo. Obrigada pela disponibilidade.
Olá, Vasco, bem-vindo.
Olá, boa noite. Obrigado pelo convite.
Vamos começar precisamente pelo início. Como é que começou a desenhar? Sempre teve este olhar atento sobre a atualidade, de lápis, de caneta muito aguçada. Sempre foi assim?
Nem sempre. Quando eu era miúdo, o gosto pelo desenho foi sempre me acompanhando ao longo da vida e eu sempre gostei de desenhar. Essa acutilância surgiu mais tarde, já numa fase adulta.
Aos 18 anos decidiu que queria, pelo menos, ser ilustrador.
Mais cedo.
Mais cedo ainda.
Mais cedo, sim. Queria ser ilustrador e queria ser cartunista, mas sentia que tinha um caminho para seguir, ainda não estava solidificado. Tinha que ganhar alguma maturidade para poder criticar e estar mais atento.
Mas em si sempre teve este olhar muito atento sobre a atualidade. Que memórias é que tem das primeiras notícias que foi ouvindo, que foi vendo?
O 11 de setembro acaba por ser um momento. Em 2002, eu tive uma exposição que foi no Cartoon Xira, com o António, com o Syd e com o Maia, cartunistas já de referência.
São grandes nomes.
Grandes nomes do cartoon. E eu fui convidado pela Câmara Municipal de Vila Franca para integrar a exposição, uma exposição paralela aos cartuns do ano, e nessa altura a atualidade, a notícia do momento era o 11 de setembro.
E que cartoon é que fez? Consegue descrever?
Eu nessa altura fiz dois cartoons. Fiz um sobre o 11 de setembro, que era o Bin Laden a entrar dentro das Torres Gémeas, mas ainda estava longe daquilo que faço hoje em dia. Tenho outra capacidade de criticar e de desenhar.
Eu gostava que me explicasse qual é o processo criativo. O Vasco já sei que vai recebendo muitas notícias também, às vezes vai interrompendo a sua vida familiar para poder desenhar, para poder ir criando também. Mas qual é o processo criativo?
O fundamental é estar atento.
Sempre.
Isso, sem dúvida. Tenho que estar atento às notícias, tenho que estar sempre a acompanhar as notícias. Eu mesmo de férias, não tenho férias, porque colaboro com dois jornais regularmente e além de estar atento à informação e à atualidade, tenho sempre trabalho para fazer. Tenho sempre que apresentar, porque os jornais e as revistas não tiram férias.
Não param.
E eu também não paro.
As notícias não param.
Por isso eu nunca consigo desligar na totalidade, nem de férias.
Os jornalistas e os cartunistas sabem isso, não é?
Pois. Claro que nessa altura, durante as férias, estou um pouco mais descontraído, mas hoje também com acesso à informação através da internet ou dos nossos telefones.
Acesso a um jornal, por exemplo.
Um acesso a um jornal ou uma revista. Acabo sempre por ter que estar atento, porque esse é o meu trabalho.
Mas, Vasco, como é que isto funciona? O Vasco vê a notícia, vê uma declaração. Temos agora a Luanda Leax.
Eu já fiz dois cartoons sobre esse tema.
Então vamos começar por aí. Vamos descrever esses cartoons na rádio.
Não posso descrevê-los porque eles ainda não saíram.
Ok, pronto.
Um deles vai sair amanhã e o outro sai no domingo.
Ok. O Vasco, deixa-me pôr a pergunta assim: sofre muito para fazer aquele cartoon ou depende do caso, há uns que surgem num clique, senta-se e desenha? Como é que é?
Essa questão faz algum sentido, porque nem todos os temas têm o mesmo processo criativo. Há questões sociais, as questões das guerras e mesmo a questão dos migrantes no Mediterrâneo, como eu costumo dizer e porque sinto, são trabalhos mais emocionais, que saem de dentro para fora. Tudo o que está relacionado com a política portuguesa e mesmo internacional, aí já utilizo o humor. Nesses trabalhos que referi, que têm uma componente mais emocional, já não utilizo tanto o humor, mas sim gosto que a imagem seja forte e que passe uma mensagem acutilante também, mas neste caso que seja quase um murro no estômago para quem está a observar.
Nesse cartoon, o Vasco não quer arrancar um sorriso, é isso?
Não, quero arrancar uma reflexão sobre o tema da atualidade.
Isso não é muito normal nos cartunistas, ou é?
Alguns, sim.
Acha que?
Eu divido um pouco o meu trabalho dentro da área da ilustração editorial e do cartoon editorial.
São duas coisas diferentes.
Sim, eu considero-os diferentes. Quem veja ou que não esteja por dentro do assunto do cartoon e da área, acha que, se calhar, provavelmente são todos cartoons. Eu vou dividindo os trabalhos, tanto pela ilustração editorial como pelo cartoon editorial. Eu dou nomes aos meus trabalhos, porque tanto uns como outros, o processo criativo é diferente.
Claro.
Emocionalmente e do lado sentimental, tem uma presença totalmente diferente do cartum editorial como de ilustração editorial.
O Vasco trabalha, ainda não dissemos aqui, para que publicações? Só para que as pessoas saibam.
Para a revista Sábado e para a revista de domingo do Correio da Manhã, regularmente. São os jornais com quem eu colaboro regularmente, mas pontualmente colaboro com o jornal Público e com o Expresso também.
Nós, os que não temos este talento de desenhar e de transformar a realidade, os sonhos, as emoções em desenhos, ficamos sempre fascinados com a capacidade humana de produzir arte. O Vasco senta-se no estirador com o lápis e é a partir daí que nasce o cartum ou já é uma coisa quase mais computador, junta um bloco aqui, outro bloco ali, como é que funciona?
Começa por um lápis. Eu começo por fazer um desenho. Para já preciso de estar atento e informado sobre o tema. Há uma pesquisa ou às vezes nem preciso de pesquisa, há o tal clique que me surge, porque o tema é tão forte ou é o tema do momento. A minha criatividade passa pelas 24 horas do dia, tirando as horas que estou a dormir. Eu, por exemplo, sou capaz de andar na estrada e estou a pensar no que é que vou fazer, ou estou a pensar no tema, ou oiço uma notícia na rádio. Logo de imediato tento encontrar formas de comunicar através do desenho sem agarrar no lápis. Por isso é um trabalho constante. Já me apercebi desse processo criativo, mas quando passo para o papel e para o trabalho final, começo sempre pelo lápis. Faço uns desenhos muito pequenos, uns quadrados pequenos, em que faço um desenho muito solto das primeiras ideias. Nem desenho ao pormenor as caricaturas. São pequenos sketches que eu faço para construir a ideia daquilo que quero representar. Depois passo para o papel e começo a desenhar as caricaturas, no caso dessas ilustrações ou desses cartuns. Porque eu venho da caricatura, quando falamos aqui no início do meu trabalho.
Do teu percurso.
Do meu percurso. Eu venho da caricatura, até venho da caricatura desportiva. Na altura, quando era adolescente. Até numa fase com uns oito, nove anos já queria fazer caricatura. O meu universo vem da caricatura, mas mais tarde é que descobri a ilustração, a ilustração para livros, porque também faço livros infantis, é outro trabalho em paralelo, que não tem nada a ver com o meu lado mais de sátira política ou de crítica. E essa construção desse processo, eu vou-me perdendo um pouco.
Não há problema.
Não há problema. Estávamos a falar precisamente essa questão de começar pelo papel e depois passar para o digital.
Pronto, o pequeno design, sempre aqueles sketches que eu faço, muito solto, às vezes até faço duas ou três ideias e tenho temas que preciso desenhar mais.
Não sai à primeira.
Sim, há temas que tenho mais dificuldade do que outros.
Vasco, eu não sei se já se sentiu pressionado, por exemplo, a não desenhar sobre um determinado tema ou isso consigo nunca aconteceu?
Não, até ao momento ainda não me aconteceu.
Portanto, sentiu sempre uma liberdade para expor no seu desenho aquilo que bem entendesse?
Sim, o meu propósito primordial é a liberdade de expressão. Sem dúvida, eu desenho o que me apetece. Felizmente, até mesmo pela imprensa nacional e mesmo a internacional, tenho liberdade de expressão. Sou eu que escolho os temas, tenho uma página em branco e a partir dali escolho o tema da semana.
E o Vasco esperava que em pleno século XXI, isso fosse muitas vezes posto em causa.
Que fosse preciso perguntar.
Temos o caso assonante do New York Times. Temos várias situações destas. Acha que isto é normal nos tempos que correm? Que tempos são estes em que temos tanto acesso à informação, temos tudo e depois temos às vezes estas tentativas de condicionar o trabalho criativo e o trabalho artístico?
Sim, temos um dos casos mais marcantes, para além do New York Times, o ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo.
Exatamente, o Charlie Hebdo. Esse com piores consequências, não é?
Esse é o período que marca o meu trabalho, é o período de viragem. Eu gosto sempre de tocar neste assunto, porque há um pós Charlie Hebdo do meu trabalho e há um antes. Antes, lá está, fazia cartum editorial, eu nem colaborava, não colaborava com jornais, nem revistas. Eu faço uma ilustração no dia que foi o atentado, que foi publicada no jornal i, e a partir daí, parece que houve ali uma mosca que me mordeu e que quis dar voz também.
Mas alterou a sua forma de trabalhar?
Alterou.
E o seu produto final?
Alterou. Alterou o meu método de trabalho, alterou a minha forma de olhar para o mundo, alterou muita coisa.
Se calhar a palavra não é a mais correta, mas tornou-se um cartunista mais ativista?
Mais ativista, sem dúvida. Foi um processo Não foi de imediato. Esse trabalho que fiz sobre os atentados ao Charlie Hebdo, tive a oportunidade, com mais ilustradores portugueses, de fazer uma homenagem ao Charlie Hebdo, que saiu no jornal no fim de semana, e publiquei esse trabalho. Depois, a partir daí, continuei a ter esse lado mais ativista, de querer evoluir no cartum editorial, porque eu já desenhava, já publicava caricaturas em alguns jornais, como também no "Público". Fiz umas caricaturas do Século 20, que fui convidado através de uma agência de publicidade. Também tinha publicado no Expresso uma caricatura, mas eram coisas muito pontuais. Não me dava regularidade profissional. Mas o desenho de imprensa sempre fez parte, essa necessidade de ver o meu trabalho na imprensa e nos jornais, desde criança, porque eu sempre agarrei no jornal para ir ver as caricaturas dos outros. Quando eu abria um jornal, a primeira coisa que queria ver era as caricaturas dos já consagrados caricaturistas.
Em relação a reações ao seu trabalho, quando trabalhou sobre a Síria, sei que teve umas abordagens um pouco pouco simpáticas nas redes sociais.
Sim, eu volta e meia tenho abordagens pouco simpáticas de alguns temas, como na Turquia, mais da Turquia. Recentemente fiz uma capa para a "Corriere Internazionale" francesa. E essa ilustração foi muito criticada por turcos. Recebi muitas mensagens durante essa semana da Turquia e até de colegas meus de profissão, turcos. Alguns deles eu conheço e já fui convidado para ir à Turquia. Eles questionaram o porquê que eu tinha desenhado aquilo. E senti alguma pressão, tanto da parte desses meus colegas, como também de outros turcos.
Que não gostaram.
Hoje as redes sociais, se não temos cuidado. Não é não termos cuidado. Já senti isto várias vezes e sei que vou continuar a lidar com esta questão.
E o que sente o Vasco Gargalo quando abre uma revista ou vê uma capa de um jornal e olha e vê: "Este desenho não me é nada estranho, fui eu que fiz." O que a pessoa sente nesse momento, Vasco?
Eu continuo a fazer uma coisa que fazia há uns anos atrás, quando era miúdo. Mesmo nos dias de hoje, quando um cartum meu sai numa revista ou num jornal, ou quando é capa, eu vou a correr para uma banca e compro o jornal, porque eu ainda gosto, tenho aquele lado um pouco mais romântico.
Analógico.
Mais romântico de ver o meu trabalho publicado no papel.
Claro.
Hoje também há o online e prevalece cada vez mais em relação ao papel, mas eu continuo a guardar todos os jornais em que os meus trabalhos aparecem, tanto na imprensa internacional como na imprensa nacional. Nacional precisava ter quase uma grande arrecadação, porque as coisas começam a ter.
É muito, felizmente.
Começa a ter alguma regularidade, mas aqueles cartuns que gosto mais ou que me dizem mais, guardo. Gosto de comprar as revistas.
E vai revisitá-los de vez em quando ou não? Para ver o Vasco de há 20 anos, o Vasco de há 10 anos.
Às vezes não gosto de fazer esse exercício.
Fica muito arrependido, de alguns casos?
Eu sou muito exigente comigo mesmo.
Claro.
E noto que aquilo que faço hoje, se fosse hoje fazer naquele momento, fazia de maneira diferente. E às vezes gosto de ver, mas há sempre alguma coisa.
É a evolução natural das coisas também, não é?
Claro, sim, mas tenho essa capacidade de olhar para trás e de ver aquilo que já fiz e aquilo que faço hoje. Eu continuo sempre a ter aquela sensação de que tenho sempre uma necessidade de evoluir. Acho que isso todos nós, cada um nas suas áreas, sentimos isso. E eu costumo dizer, apesar de ver o meu trabalho em publicações internacionais e nas capas dos jornais e nas revistas, tanto nacional, hoje com alguma regularidade, que me dá orgulho e que gosto de ver as minhas ilustrações, por exemplo, nas capas das "Corriere Internazionale" francesas, na France 24, na televisão à sexta-feira. Isso dá-me algum orgulho, porque é o meu trabalho. Sou eu que o faço. Porque antes de chegar a uma capa e antes de chegar a uma televisão francesa, há uma seleção.
É o teu trabalho.
Eu faço o meu trabalho. É um trabalho muito solitário, é um trabalho de observação do mundo, que depois passo para o papel. Nesse sentido, eu não tenho ninguém a avaliar o meu trabalho, eu sou o meu próprio crítico, porque ao mesmo tempo que estou a fazer, quero fazer um bom trabalho. A partir daí, poderia ter aqui alguma indicação de como fazer ou como seguir, mas não, preciso disso tudo.
Vasco, ainda continuando, no Século 21, pegando nesse ponto, como é que se explica a longevidade do cartum e do desenho satírico, que é algo que começa com alguma regularidade, corrija-me se eu estiver enganado, Século 19, com as publicações, sobretudo aqui em Portugal, e que se mantém ainda hoje e todos nós não resistimos a um bom cartum.
Sim. Eu acho que é que neste momento o Charlie Hebdo passou-se a saber o que era um cartoon e o que era um cartunista.
Mas até aí não se sabia? Ou não se dava tanta importância?
Não se dava tanta importância. A morte de uns acabou por enaltecer outros num determinado sentido, que começou-se a falar mais do que é o cartunista, porque até lá, por exemplo, em Portugal, era um nicho muito pequeno, falava-se pouco, sabia-se que havia o António, sabia-se que havia o Cid, pouco mais. Mas não, há um mundo de ilustração, que quando eu fui para o Arco também acabei por conhecer, tanto o Nuno Saraiva, como outros ilustradores.
O Nuno Saraiva, que já cá esteve aqui nesta conversa conosco.
Pronto. Ele foi meu professor no Arco. E eu quando fui para o Arco, ampliei o meu conhecimento de que havia muito mais pessoas a fazer o mesmo que eu. Mas ninguém conhece. Pelo menos aquelas pessoas que gostam de ilustração seguem, mas aquelas que não gostam ignoram, nem veem quem é que faz.
O Vasco Gargalo é ilustrador, é cartunista. Uma coisa é certa, amanhã já pode ver uma ilustração sobre o Luanda Leaks, no sábado, e no domingo, na revista Domingo do Correio da Manhã, com assinatura do Vasco Gargalo, que foi o nosso convidado.
Que o Vasco não quis antecipar aqui. Fica essa nota, ele não quis estragar a surpresa.
Posso só dizer o título do cartoon, porque eu dou títulos aos cartoons. Eu não utilizo palavras. Eu tento comunicar sempre através do desenho e desmeto parte das palavras. Às vezes acontece em algum cartoon ou outro, ter que identificar alguma coisa, mas mesmo assim eu tento sempre contornar a palavra e utilizar sempre o desenho. Mas eu dou sempre uns títulos aos meus desenhos. E o domingo do Correio da Manhã chama-se "Aldeia da Roupa Suja". Não vou falar muito mais sobre o desenho.
Já fica uma boa dica.
Mas já dá para ter uma noção do que vai acontecer.
Vamos esperar para ver. O Vasco Gargalo foi o nosso convidado de hoje. Vasco, obrigada por ter vindo.
Obrigado, Vasco.
Obrigado eu.
Rádio Observador. Aconteça o que acontecer. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada