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Falar de rádio em Portugal e não falar do Aurélio é uma falha grave. Todas as noites faz companhia a muitos, escolhe as músicas com muito cuidado e fala delas suavemente. Aos 81 anos está ativo, obviamente, faz rádio todos os dias, está há mais de 60 anos nesta profissão. Na Rádio Sim, atualmente, todas as noites. E hoje nos estúdios da Rádio Observador, junta-se esta tarde em direto. Aurélio, bem-vindo!
Muito obrigado pelo vosso convite e fico muito contente por estar numa rádio nova, com gente nova. Gente nova que eu gostei sempre que me acompanhassem ao longo da vida, porque estive sempre gente nova ao meu lado, porque é com a gente nova que vamos aprendendo muita coisa.
E sabe, Aurélio, nesta redação, nesta rádio, mas em todo lado, há muitas pessoas que gostam de si. Quando falamos de si é só elogios.
Não sei porque será. É amabilidade demais. Eu tento ser amigo de toda a gente. Talvez não consiga de toda a gente, mas pelo menos da maioria. E, portanto, vocês estão nessa maioria.
Mas a verdade é que quando dissemos que íamos entrevistar o Aurélio, quando dissemos também aqui na redação, houve pessoas que o trataram quase como se fosse um amigo, mesmo não o conhecendo. Houve pessoas que disseram: "Ah, o Aurélio?"
E a pergunta que eu ia fazer: mas conhecem bem?
Conhecem-no porque conhecem o homem da rádio, que já está na rádio há muitos anos, mas que tratam-no quase como um amigo, como alguém que o acompanhou ao longo da vida, mesmo sendo pessoas muito novas.
Talvez por dois motivos. O principal é que com todos aqueles que eu trabalhei, e tenho trabalhado com muita gente, desde os meus princípios de rádio, em 56, já são 63 anos, a caminho de 64, e também com o respeito que eu tenho tentado ter para quem me ouve, para quem trabalha comigo diariamente. Isso é que eu acho que é o mais importante. Portanto, ficamos talvez com uma ligação de amizade especial.
Fez inimigos na rádio? Não quero começar já com estas perguntas, mas fez muitos amigos. Também teve alguns dissabores também ou são quase todas as experiências positivas?
São quase as experiências positivas. Uma ou outra negativa, faço por não a recordar. Portanto, é como não tivesse existido.
Aurélio, vamos recuar esses 63 anos. Como é que isto começou?
Começou com minha loucura da rádio desde miúdo. Eu fazia de locutor em muitos espetáculos com os meus familiares.
E pedia discos pedidos para o menino Aurélio, não era assim?
Isso começou por aí. Comecei a pedir discos pedidos na altura em que as rádios viviam dos sócios. A publicidade ainda era muito pouca nas rádios comerciais. Eu nasci em 38 e nos anos 40 as rádios viviam praticamente da ajuda de associados. E o meu pai tornou-me sócio de uma rádio no Porto, que eu nasci no Porto, exatamente para poder pedir os meus discos preferidos. E eu ficava encantado quando ouvia a locutora dizer: "Para o menino Aurélio, vamos ter agora um disco que ele pediu". Aquelas músicas bem próprias da idade dos sete e oito anos.
Mas sempre soube que o seu caminho era deste lado.
Sim, sem dúvida nenhuma. A rádio foi sempre uma paixão e não pergunte por quê, porque ligado à comunicação social, tive uma pessoa, um familiar da minha mãe, um tio-bisavô, que foi diretor de dois jornais, mas ao mesmo tempo era político, foi ministro do reino do rei Dom Carlos, ministro da Justiça, e o certo é que não fui buscar, pelo menos à rádio daquela altura, não fui buscar ninguém.
Mas o que o apaixonava mais na rádio quando a começou a ouvir pelas primeiras vezes? Era mais a palavra dita, era mais a música, era o conjunto, era o pacote completo? O que era?
Mais a palavra. Recordo-me que um dos meus programas preferidos era um programa que passava a Emissora Nacional à tarde, ao sábado, dedicado aos mais jovens, um programa infantil. E eu e o meu irmão mais velho, colocávamo-nos junto do receptor, como hoje nos colocamos junto do televisor, atentos ao programa que ia das 19 às 21 horas. Era neste horário. E era de uma senhora chamada Maria Madalena Patacho. E o certo é que eu ouvia, mas também aqueles discos que iam transmitindo na rádio, um Sebastião Como Tudo, aquelas músicas que chegavam para serem escutadas pelos ouvintes mais jovens, mais pequenos, neste caso adolescentes.
Sabe que nós, neste meio, falamos muito do bichinho da rádio. Estes anos todos, consegue explicar que bichinho é esse?
É um bichinho que nos morde.
E que depois fica por cá, não é?
Fica por cá. E que não tem cura. A doença não tem cura.
Porque o Aurélio, ao longo da sua carreira, fez outras coisas. Trabalhou para a televisão também, mas não é igual.
Não é igual. Eu estive pouco tempo na televisão e foi a rádio que me fez afastar de vez da televisão. O meu diretor na altura, que era o doutor Artur Veradojo, que me convidou com 20 anos para adjunto dele. Vocês calculam o que é, em 1958, eu com 20 anos de idade, ser convidado para adjunto? Dávamos lá um cargo que corresponde hoje a subdiretor ou diretor adjunto de uma RTP que tinha sido criada um ano antes, em 1957. Eu fui para lá para a produção, não para locução. E durante aquele ano e tal que estive na RTP, tive a ocasião de produzir programas muito interessantes. Um programa, por exemplo, dedicado aos castelos de Portugal, porque a ideia daquela secção era produção comercial. Portanto, produzíamos programas com intuito comercial. E tivemos logo um patrocinante ligado exatamente aos castelos, passa a publicidade. A Agua Castelo, que patrocinou uma série de 12 programas. Eu fui filmar 12 Castelos de Portugal, os mais importantes. Tive ocasião de contatar e ter como meus companheiros nomes importantes como operadores de imagem e alguns se tornaram ótimos operadores de cinema.
Mas a rádio, não é? Sempre a rádio.
Era isso que eu ia perguntar: como é que alguém que depois passa pela televisão, e a televisão é muito chamativa. Tem tantos encantos, há tanta gente que se deixa encantar pela televisão, como é que depois volta para a rádio e percebe que o mundo, que a verdadeira é a rádio?
A pergunta é pertinente. E o certo é que o próprio doutor Varatojo, quando eu disse que queria continuar com a rádio, porque tinham muitos projetos naquele momento a decorrer, além de um programa que era o Passatempo para Jovens, que foi o antecedente do Paju, que era transmitido nos Emissores Associados de Lisboa diariamente e também com transmissão diária na Rádio Renascença, portanto na rádio estava em dois canais. Tinha uma revista própria, que eu criei, uma revista mensal do Passatempo para Jovens e mais ainda, um espetáculo semanal num cinema, o chamado Programa ao Vivo, em que iam artistas novos a serem lançados e artistas mais consagrados. E era o Cinema Restelo em Belém, já não existe, hoje é um supermercado, mas era uma ótima sala, mil e tal lugares. E a atividade: revista, espetáculos e rádio. Eu estava num programa e outro meu colega estava no outro, não podia estar nos dois sítios ao mesmo tempo. Tinha que abandonar qualquer coisa e abandonei a televisão. E o doutor Varatojo disse: "Ficas com o teu cartão, porque eu sei que dentro de um ano ou dois voltas". Não, eu fiquei com o cartão, é uma das minhas recordações, mas não voltei.
O Paju começou em abril de 63.
O Paju e o Passatempo para Jovens tinham começado em 1959. A mudança do Passatempo para Jovens para o Paju, que acabou por ser quase o mesmo programa, foi porque em 61 deixou ter transmissão na Renascença e deixou de ter cobertura nacional. Passou a ter só uma cobertura a nível de Leiria, Coimbra até ao sul. E, portanto, eu achei que devia transformar o programa nesse sentido e passou-se a chamar Passatempo Juvenil. Passatempo para Jovens passou para Passatempo Juvenil. Mas houve uma colega minha, locutora do programa, que é outra característica que eu também quero aqui focar: a quantidade de gente nova que começou comigo. Muitos ao meu lado, portanto, nasceram comigo. Outros, adotei-os. Ainda eles tinham pouco tempo de rádio. Os primeiros locutores do Paju foi a Maria Luz de Carvalho e o João Vasco Mora, que mais tarde lançou um conjunto de música ié-ié, tipo Shadows, que era os Telstars, e depois também abandonou a sua vida na rádio e foi trabalhar para a TAP. Acompanhei-o muitas vezes, foi nas viagens que ele chegou exatamente a um posto dentro da TAP. Infelizmente, faleceu há cerca de uns quatro anos. Depois, a seguir, foi o João Paulo Diniz, já com o Paju. O João Paulo Diniz e a Maria Helena Falerre, que depois trabalhou na Antena Um, duas pessoas que começaram ao meu lado. Então o Paulo Diniz para mim é mais que um companheiro, é quase um irmão e que está sempre presente. Olhe que não há dia, quase, que ele não me telefone. E com uma característica: por vezes, eu ficava embasbacado com o telefonema que ele fazia, porque dizia-me: "Parabéns, Aurélio, obrigado pelo dia de hoje". E eu dizia: "Mas o que ele está a agradecer?" Era o dia em que ele tinha começado a trabalhar na rádio comigo.
O Aurélio já trabalhou com muita gente. Normalmente quando há alguém que lança muitos nomes, vai-se dizendo que é o Júlio Isidro de alguém. O Aurélio também tem uma história com o Júlio Isidro. O Júlio Isidro também lhe passou pelas mãos?
Não digo que passou pelas mãos, mas passou pela cadeira do Cinema Restelo, porque o Júlio Isidro ainda era aluno do Liceu Camões, tinha ele 15 anos, ia assistir a esse meu espetáculo no Cinema Restelo. E dizia que foi ali que teve ocasião de encontrar muitos artistas que ele mais tarde apresentou nos seus programas de televisão. O Daniel Bacelar, os Conchas, que foram nomes que eu apoiei e lancei.
Aliás, Júlio Isidro também foi um homem que lançou muitos nomes da música.
Da música. O Júlio Isidro, na música, acho que é ímpar. Não tem ninguém igual. Eu lancei alguns, mas não tem comparação possível com o Júlio Isidro. O outro conjunto que eu lancei, com uma curiosidade, um conjunto vocal chamado Os Cinco Reis. Era daqueles conjuntos que imitava muito os grupos latinos que existiam, nomeadamente na América do Sul, Os Cinco Latinos, Os Panchos. E nesse conjunto, Os Cinco Latinos, estava o nome que veio a tornar-se famoso no fado. E começou comigo também, o Rodrigo. O Rodrigo pertenceu a esse grupo, tinha ele 18 anos.
Quem procura alguma informação sobre o Aurélio, muito facilmente vai passar também a isto, que é as voltas a Portugal. O Aurélio fez muitas voltas a Portugal.
Vinte e três.
E a volta a Portugal é um momento marcante também para um repórter. Eu nunca fiz nenhuma, mas quem já as fez diz que são momentos que nunca se esquecem, quer seja na televisão, quer seja na imprensa escrita, quer seja na rádio. É dos momentos que guarda também com mais saudade.
Momentos e que dão uma prática de reportagem formidável, e muito mais no meu tempo.
Histórias incríveis também.
Não havia telemóvel.
Claro que hoje em dia já é muito diferente.
Nós tínhamos que procurar, para dar informação, tínhamos que procurar um telefone ao meio da estrada. E por vezes, tínhamos a pouca sorte de chegar lá, já estava um colega a ocupar o telefone. E chegar aos locais de meta e não termos possibilidade de montar uma linha telefónica, porque só havia um circuito, e esse circuito normalmente ia para a Emissora Nacional. E nós tínhamos que pedir emprestado um telefone numa casa ali próxima para podermos servir da linha telefónica.
Tinha de contar com a benevolência dos habitantes ali das redondezas.
Exatamente. E a dificuldade que era.
O Aurélio que foi passando por muitas transformações da rádio e manteve-se sempre muito atualizado. Esse espírito jovem de atualização também é muito importante.
Eu comecei com os gravadores ainda de aço Eu quando comecei em 56 ainda havia gravadores.
Foi acompanhando todas as evoluções, não é?
Quando se enrolavam era para deitar fora as fitas. Depois a fita de lastro, a fita dos gravadores habituais. E depois a seguir, começou exatamente a evolução. Como na música, comecei com os discos de vinil 78 rotações.
Que agora estão de regresso e em força.
Não, esses não estão de regresso. Eram uns 78 rotações, uns discos pesadíssimos.
Não são os de 45?
Não.
Esses já é uma grande inovação.
Esses já é muito moderno.
Isso é muito evoluído. Não, era um disco de 78 rotações.
Eram muito pesados?
Eram pesados. E depois surgiram, sim, os de vinil de 45 rotações, depois os EPs, de 33 rotações, e depois veio a seguir as cassetes, os CDs, toda esta evolução, os computadores, agora, finalmente.
Aurélio, eu li numa entrevista sua e o Há Pouco dizia isto mesmo, que foi a rádio que o salvou. Por quê? Por que a rádio o salva? Ainda salva o Aurélio todos os dias?
Não, salvou-me porque eu tenho uma tal dedicação à rádio, que penso, eu não vou dizer que desaparecia deste mundo, se desaparecesse também da rádio. Mas o certo é que me fazia imensa falta, porque a rádio ocupa um lugar muito especial na minha vida. Eu sem rádio teria dificuldade de viver diariamente. E, além disso, foi a rádio que me salvou em certos momentos maus da minha vida. Em certos momentos maus que eu tive na minha vida, foi a rádio, com esse espaço que ocupa na minha vida, que fez não esquecer, porque há coisas que não se esquecem na vida, mas que fez abrandar a dor e que fez exatamente renascer a vontade de continuar.
E com o carinho de quem o acompanha também todos os dias do outro lado, porque o Aurélio ainda hoje recebe muitas mensagens, nem as fãs o deixavam ir embora, não é, Aurélio? Sair do Suave à Noite.
As mensagens que eu recebo de ouvintes, eu tenho que agradecer, que é sinal.
Estão lá?
Uma rádio sem ouvintes? Por que nós todos procuramos ter audiências?
Claro, só faz sentido assim.
Porque precisamos dos ouvintes. Se não fossem os ouvintes, não havia audiências. Mas o que me satisfaz mais são as mensagens que eu recebo de amigos, pessoas que eu não vejo, por menos, muitas há 40, 50 anos. Eu recebo mensagens de pessoas que relembram fatos passados comigo há 40 ou 50 anos, ou então que me ouviam. Ainda aqui há tempo uma ouvinte, uma senhora na casa dos seus 60 e tal anos, disse: "Sabe quando é que eu o ouvia? Quando eu tinha 19 anos e morava na altura em Estremoz, ouvia o seu programa, o Paju, com uma atenção enorme". Ou então uma ouvinte, que foi um caso que eu considerei com o seu quê de sentimentalismo, uma ouvinte que dizia: "A minha mãe, que nunca conheceu, porque a minha mãe faleceu já há muitos anos e com idade avançada, vivíamos num monte alentejano. E quando eu chegava da escola, a minha mãe virava-se para mim e diz: 'Estou muito triste. Hoje ainda não ouvi o meu Aurélio'". Porque eu para ela era o Aurélio, que nem me conhecia pessoalmente, mas era aquela pessoa que eu via todos os dias e que acompanhava nos programas.
Aurélio, e não recebe mensagens assim mais picantes das fãs?
Não, é natural. Ultimamente, é curioso.
Sendo um programa de músicas românticas, claro.
É o programa das músicas românticas e a magia da voz do locutor, que cria sempre uma certa fantasia também associada a tudo isso.
Mas é curioso que a liberdade não chegou só na questão política, também chegou na liberdade das pessoas, no dia a dia. Eu hoje recebo mais mensagens que recebia há 20 ou 30 anos, nessa altura, nesse estilo que está a dizer o João.
É tudo mais imediato.
Com mais um bocadinho de pimenta.
E Aurélio, já aqui dissemos que o Aurélio faz parte de um grupo onde há muita gente jovem, que vai se cruzando com muita gente jovem, há algo que o incomode na forma como se faz rádio hoje em dia?
Há. E é capaz de chocar muita gente que nos está a ouvir. Eu sou contrário um bocadinho à playlist. Sou 100% a favor dos programas de autor.
Portanto, as músicas virem determinadas.
A autonomia do locutor, de quem está à frente do microfone, à frente da mesa.
E aproveitar o momento. Há momentos que merecem uma música especial, até uma notícia que merece. E por vezes não há tempo, apesar de hoje as tecnologias permitirem exatamente uma rapidez nesses assuntos. Mas há uma falta enorme.
E foi essa liberdade que foi tendo também ao longo dos anos que também o fez apaixonar-se pela rádio e manter-se na rádio, ou sentiu em certos momentos que estava a perder essa liberdade?
Não, eu nunca pensei que chegasse esse momento das playlists. Mas atenção, eu no Suave à Noite tenho total liberdade. E sou-lhe sincero, programa que me seja imposto por uma playlist, eu não faço.
E gosta de, sobretudo, fazer a produção. A locução pra ti.
É curioso, porque talvez eu seja mais conhecido como locutor.
Pois é.
Mas o meu maior trabalho, e digamos, vamos a esse termo um bocadinho, digo alguns dos meus êxitos, foi como produtor. O Paju era um programa que obrigava uma produção extraordinária. Recorde-se que o Paju tinha de tudo. Tinha informação, tinha reportagem, tinha música com novidades, que era tão difícil conseguir as novidades. Eu fazia as coisas mais incríveis para ter as últimas novidades em disco.
Eu li uma história que o Aurélio ligava para saber, mas isto, é feito, acontecia na altura, para saber, por exemplo, se um artista ainda era vivo, tinha que se ligar à família para saber. Não havia cá internet.
Nem à família, porque às vezes nem tínhamos o telefone de contacto.
Pois, exatamente.
Alguém conhecido que pudesse: "Olha, tu lembras-te, sabes se fulano é vivo?" E podia a informação chegar atrasada. Ou então enganada. Havia ali um engano e depois nós enganávamos também os ouvintes Mas nos discos não fazem ideia o que eu fiz para conseguir as novidades. Por exemplo, nos anos 60, os discos chegavam a Portugal com um atraso extraordinário. As marcas dos discos, por vezes, recebiam os discos também para serem editados com bastante atraso. Se nós queríamos ter as novidades em cima da hora, reuníamos duas ou três possibilidades. Uma era ter alguém que ia aos estrangeiros e os trazer. Outros tinham amizade junto das pessoas que trabalhavam nas companhias de aviação e que traziam também. Eu usei um truque. Havia uma revista francesa que eu assinava, que era o "Ça y est, le copain", uma revista muito famosa dedicada à gente nova. Eu descobri lá que traziam uma coluna de leitores da revista de diversos pontos do mundo que gostavam de trocar correspondência com outros jovens. Eu escolhia aqueles onde a música era mais forte, a música inglesa, a música francesa, na altura.
Fazia-se muito isso também, essa correspondência por carta, para conhecer outras pessoas.
Exato. E eu escrevia a essas pessoas, dizia que existia um programa chamado "Tapaju", um programa tal, e que gostaria muito se eles me pudessem enviar quem eram os artistas que estavam na terra no momento e se fosse ainda possível, mesmo pagando a despesa de mandarem-me o disco desse artista que tinha acabado de ser lançado. Recebi logo, de imediato, de uma ouvinte de Milão. Foi a primeira resposta. Uma ouvinte que me dizia: "Sou aluna do correspondente ao nosso sexto ano do Liceu, tenho 16 anos de idade, estudo em Milão e eu gostei muito da vossa ideia. Aqui em Itália não há nenhum programa igual ao vosso. E eu mando de imediato um disco de um cantor que começou a ser muito conhecido agora em Itália, chamado Gianni Morandi, que depois veio a ter sucesso também no cinema. E mandou uma canção naquela altura. E depois dessa, apareceram muitos a mandar-me cantores franceses ou então eu aproveitava as minhas idas em reportagem para o Paju, especialmente algumas desportivas, a acompanhar o meu Belenenses, do Restelo. Acompanhava o meu Belenenses às Taças Intertoto e muitas vezes aos campeonatos de andebol, aos campeonatos do mundo, e aproveitava naquele sítio, qualquer local que eu já conhecia, quais são as últimas novidades. E assim consegui. Olhe, por exemplo, o Joe Dassin, um cantor francês, fui o primeiro a apresentá-lo. A Natalie Cole, a primeira gravação que ela fez também tive a ocasião. E outros mais.
Foram muitos.
Foram muitos mais.
O Aurélio Carlos Moreira é o profissional de rádio mais antigo em atividade. Juntou-se a nós hoje, nesta tarde, em direto. Aurélio, ficava à conversa consigo a noite inteira. Portanto, fica prometida uma visita, em breve. Pode ser? Mais uma.
Vamos dividir em sáb, como as novelas.
Exato. Fica para o próximo episódio.
Exatamente. No próximo episódio falaremos de... Depois arranjamos o assunto, está bem?
Aurélio, obrigada por se ter juntado a nós.
Muito obrigado a você. Obrigado.
Obrigada.
Rádio Observador. 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Aconteça o que acontecer.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.