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"Gabinete de Guerra", edição da manhã na Rádio Observador. Eu sou o Nelson Ferreira, está comigo o coronel José do Carmo. Senhor Coronel, muito bem-vindo, obrigado pela disponibilidade. Vamos começar aqui por uma nova noite de ataques com mísseis balísticos russos em Kiev. Zelensky queixou-se que os seus aliados não o avisaram deste ataque. Avisos, que diz, salvam vidas. Coronel José do Carmo, os aliados estão a falhar à Ucrânia e que tipo de colaboração é esta que os aliados mantêm na ajuda ao país? A Ucrânia não tem mesmo esta capacidade de detetar atempadamente estes ataques?

Olá, bom dia. Estes mísseis, nomeadamente os balísticos, são mísseis de curto alcance e têm trajetórias que não são bem balísticas e, portanto, quando surgem no horizonte os radares, já é tarde. São também muito rápidos. O que acontece é que as capacidades de vigilância satélite, dos Estados Unidos, nomeadamente, da Europa menos, detetam em tempo real, através de sensores infravermelhos, quando há o motor de um míssil, quando ele sai do seu lançador, detetam imediatamente o lançamento, através dos sensores infravermelhos, então está calor, e depois é acompanhado dessa maneira. Essa informação contém logo alguma informação também de trajetórias e há depois toda uma cadeia de gestão desse facto, da trajetória, do tipo e de onde é que vai parar. Isso são coisas feitas em muito pouco tempo. E como estes mísseis são lançados muito perto, a disponibilidade real são minutos. Não é mais que isso, cinco, seis minutos é o que há. As defesas já são avisadas que há algo no ar, que está um míssil, dadas características, a vir e depois quando ele aparece no horizonte dos radares, é seguido já pelas defesas. Portanto, aqui poderá ter falhado, tecnicamente, muitas coisas podem ter falhado. Agora, há aqui a suspeita, e esse é que é o problema, de que esta cadeia de detecção satélite, que depois implica uma gestão dos dados de voo para transmitir às defesas, para poder definir alvos, tudo isto é muito complexo, e há a suspeita política de que os Estados Unidos poderão ter, como já fizeram antes, em 2025, querido fazer sentir à Ucrânia a sua vulnerabilidade à pressão americana. Esta é a suspeita. Tecnicamente, pode ter havido uma falha.

Claro. Donald Trump já foi questionado sobre isso, diz que não, diz que está a colaborar na mesma, mas que está também a tentar fazer ver aos ucranianos que é preciso chegar a um acordo. Foi esta a declaração de Donald Trump.

E lá está. Esta demonstração à Ucrânia de que está dependente das capacidades americanas, pode ser vista e pode ser interpretada, e há muita gente que está a interpretar assim, como uma pressão feita à Ucrânia, para que a Ucrânia se renda, que é isso que está em causa neste momento, pelo menos é o que parece ser. Nós também muitas vezes temos apenas as notícias, declarações, não sabemos muito bem o que se passa nos bastidores, mas há claramente uma ideia de que os Estados Unidos estão a tentar, e se calhar por interesses que são conjunturais neste momento, que têm a ver com os preços dos combustíveis e as eleições americanas, estão a tentar pressionar a Ucrânia a submeter-se ao diktat russo e que, por isso, também é do interesse circunstancial americano neste momento.

Claro. Senhor Coronel, hoje Zelensky vai ser recebido em Downing Street pelo primeiro-ministro inglês. É um encontro que surge também numa altura de algum afastamento entre Zelensky e Donald Trump. Mas temos aqui pouco tempo, queria também questioná-lo sobre mais um ataque, nas últimas horas, dos Houthis, desta feita contra a sede da petrolífera estatal ARAMCO. Houve um incêndio, felizmente, sem vítimas, sem feridos e sem mortes, mas os rebeldes que estão no Iémen já tinham ameaçado atacar estas mesmas instalações da petrolífera estatal saudita. Este é um momento de escalada neste conflito e Donald Trump também usou a sua rede social para dizer que os Houthis, e estou a citar: "Estão a portar-se muito mal". Pode ser vista esta declaração do presidente norte-americano como uma ameaça de intervenção dos Estados Unidos neste conflito, porque parece que a Arábia Saudita está com dificuldades em defender o seu próprio território destes ataques.

Sim, esses ataques dos Houthis têm a ver com a guerra, com o que se passa em Ormuz. Os Houthis são uma ferramenta do Irão, que neste momento está a aumentar os ataques na região do Ormuz, não só, toda a parte do Golfo Pérsico. Tem havido um aumento dos ataques a navios nos últimos dias e uma redução do fluxo de petróleo e está também a fazer pressão do outro lado, com a Arábia Saudita e no Mar Vermelho. Portanto, os Houthis estão a fazer o que o Irão lhe manda e o que o Irão lhe pede. Há alguns interesses próprios dos Houthis, a sua própria sobrevivência, obviamente, mas neste momento estão a fazer o que o Irão lhe manda. Não é difícil para os Houthis bombardearem a Arábia Saudita. Têm mísseis, a Arábia Saudita é um país enorme, é um país vasto, tem imensas infraestruturas a defender e não consegue, de forma alguma, defender tudo. E os Houthis podem atacar a qualquer momento, porque os mísseis que têm, os drones que têm, têm alcance para isso. A Arábia Saudita não queria que isto acontecesse, mas neste momento é o que está a acontecer. Também bombardearam instalações petrolíferas em Saná. A questão é que os Houthis têm muito pouca infraestrutura bombardeável e têm mísseis, e a Arábia Saudita tem muita infraestrutura e tem defesas que não conseguem cobrir tudo. Portanto, esta é uma guerra assimétrica de per si. Os Estados Unidos fizeram um acordo com os Houthis, um acordo no sentido que não ataca os nossos navios por aqui que passam no estreito e nós também não os bombardeamos. E, portanto, já estão nesse acordo tácito que está a garantir. Mas as ameaças Trump muitas vezes são isto, não se sabe se aquilo implica alguma coisa a seguir ou é apenas uma forma de pressão.

Claro.

Ou algo para falar para as suas bases, nunca se sabe bem o que é que está por trás do que ele diz. Nós tentamos sempre encontrar uma racionalidade, mas muitas vezes a ideia que dá é que sai-lhe da boca aquilo que naquele momento, sopra o vento, digamos assim. Deu para ali, pronto.

Exato. Coronel José do Carmo, muito obrigado pelos seus esclarecimentos neste "Gabinete de Guerra". Continua a acompanhar o "Gabinete de Guerra" também no site "O Observador", nas plataformas online. Temos duas edições por dia, onde continuamos também a analisar estes conflitos a nível mundial.