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Boa tarde. Em direto, a iniciar a semana, estamos à conversa com a Susana Damasceno, presidente da Ação e Integração para o Desenvolvimento Global, a AID. Vou dizer assim pra poder começar a procurar por eles nas redes sociais. AID Global é uma organização não governamental para o desenvolvimento, que tem como missão agir, integrar e desenvolver para a educação, pela educação. Neste caso, faz a ponte entre Portugal e Moçambique e já vamos querer, claro, saber tudo. A Susana está conosco. Susana, bem-vinda e obrigada pela disponibilidade. Uma boa tarde.
Viva, boa tarde.
Bem-vinda, Susana.
Obrigada desde já. Olá.
Susana, vamos recuar no tempo e vamos falar da sua aventura de voluntariado num orfanato. Isto foi em que ano? E imagino que tenha sido uma experiência duríssima, mas que acabou também por mudar a sua vida.
É verdade, foi há 15 anos e a minha vida mudou radicalmente depois desta experiência de voluntariado em Chókwè, província de Gaza, para quem conhece Moçambique. E foi uma experiência de tal maneira impactante, como agora se diz, de tal maneira gratificante, acima de tudo, que cheguei a Portugal e escrevi uma crônica a relatar todas as aventuras e desventuras, e questionei aos meus amigos e familiares se eu decidisse fundar uma organização não governamental para o desenvolvimento, uma ONGD, se me apoiariam. Passado 15 anos, esta é a resposta: é a AID Global.
Exatamente, vocês estão aí. Eu queria perceber também exatamente o que fazem, mas ainda falando um bocadinho desse impacto, Susana. É impossível passar por um sítio como aquele em que esteve, regressar e ficar parado. Não é? Não agir não acontece. É mesmo uma mudança radical.
A palavra certa é impossível ficar indiferente. E foi essa impossibilidade de ficar indiferente a todo aquele cenário em que pude testemunhar o que é viver, o que é estar imerso na pobreza extrema, o que é viver desprovido de afetos, de atenção, do mínimo de condições, desde água potável, desde uma refeição em que tivesse um bocadinho de carne. Posso lhe dizer que em 20 dias comemos carne uma vez. E toda aquelas 50 crianças que me ficaram no coração são a razão pela qual hoje esta organização existe. E esta indiferença que não me permiti, fez com que chegada a Portugal pensasse que eu não poderia continuar a levar a vida que levava, sendo que a minha vida era já por si uma missão. Eu era professora, eu sempre quis ser professora, não quis ser nada mais na vida, senão professora. E era professora de língua portuguesa e fazia muitas coisas com os meus alunos. Se algum deles me estiver a ouvir, sabe do que eu estou a falar. Nomeadamente a promoção da leitura, da literatura e refletir um pouco, porque eu já era uma viajante, eu já tinha viajado por outros países do continente africano e há muito que ambicionava esta experiência de voluntariado. Já tinha sido voluntária na escola primária onde tinha estudado aos sábados de manhã, a apoiar crianças com dificuldades de aquisição de competências e então esta era a oportunidade que eu esperava.
Susana, deixa eu só colocar uma questão. Falava dessa experiência também de viagem que teve, portanto, conseguiu perceber muitas e diferentes realidades. Quando teve essa experiência de voluntariado num orfanato, estava à espera que as condições fossem tão difíceis e que a realidade fosse aquela? Estava preparada para o pior depois daquilo que já tinha visto?
Estava, porque no ano anterior tinha estado em São Tomé, já tinha estado em Madagascar, já tinha estado no Sri Lanka, por isso a pobreza, o contato com a pobreza fez sempre parte da minha vida, enquanto pessoa que se interessa por outras culturas, por outras gentes. E nunca me foi indiferente. Aliás, eu acho que esta minha vontade de agir foi crescendo com as viagens que fui fazendo, mas também foi crescendo com a minha educação, com o contexto em que fui educada, pelas escolas onde passei, porque as desigualdades existem à nossa volta. Não é preciso ir pra Moçambique para as encontrar.
É preciso estar atento, não é?
Estar atento. Tal e qual. E nesse sentido, eu ia preparada pro que desse e viesse, foi uma escolha minha, eu não ia à procura de uma experiência exótica, eu não ia à procura de me encontrar. Eu simplesmente acedi a uma oportunidade que a vida me deu, que eu também a procurei, essa é que é a grande verdade, mas investi para poder fazer uma coisa que eu sempre sonhei, que era trabalhar num orfanato, porque eu adoro crianças, eu sou professora por vocação, adoro ensinar, adoro beijar, adoro abraçar, adoro cheirar e as crianças são a minha grande motivação. E é por elas que trabalho tanto, eu e toda a equipe da AID Global. E esta missão no orfanato veio comprovar que só se é indiferente se se quiser. E eu lembro-me de um episódio que foi Ligar aos meus pais. Liguei aos meus pais e agradeci, do fundo do coração, todas as oportunidades que eles me deram. E a grande oportunidade que os meus pais me deram, além de um enorme afeto, carinho e respeito pela pessoa que sou, foi também o acesso à educação. E como eu sei que eu sou uma privilegiada, porque nasci mulher num país europeu, onde de fato há um investimento na educação, eu chamei a mim a obrigação de agir e a vontade de agir. E só me apetece agir através da educação, esse é o meu grande sonho. E eu acho que está mais do que provado, a história prova que de fato só os países e as sociedades educadas é que conseguem dar um salto qualitativo para a felicidade, para a cidadania, para o exercício pleno daquilo que é a humanidade. E foi isto que acabou por acontecer. Já lá vão 15 anos e eu jamais me poderei esquecer de um episódio que me marcou. Um, não, dois, posso vos contar dois. E que fez com que eu determinasse que os livros iam ser, de fato, a razão da continuidade desta relação amorosa com Moçambique. Tem a ver com um professor de 50 anos, que na inauguração de uma pequena biblioteca que nós conseguimos criar, eu digo nós, porque éramos cinco jovens a fazer voluntariado. Dei por ele a abrir um livro, um dicionário ilustrado, que se oferece às nossas crianças para iniciação à leitura, e ele apontou e disse: "Ah, isto é que é uma estrela-do-mar". Estamos a falar de um senhor de 50 anos, professor, que não sabia o que era uma estrela-do-mar até ver no dicionário ilustrado. E também posso vos contar quando dei por uma das irmãs, uma das irmãs mais jovens que trabalhava no orfanato, em cima da cama, a chorar imenso. E eu disse: "Irmã, o que é que se passa consigo?" E ela respondeu: "Mamã Susana, que história tão bonita". Então ela estava a ler "A Gata Borralheira", aos 20 anos de idade. E então estas coisas todas que pra nós faz parte da nossa vida, pra muita gente é totalmente desconhecido.
E inacessível. É totalmente inacessível.
Não tem essa oportunidade. Desde então que a Eduglobal está muito focada em duas grandes áreas e sempre ligadas à educação. Por um lado, promoção de uma cidadania global ativa, e é esse o nosso grande compromisso em Portugal continental e insular, porque desde 2018 temos também uma delegação na ilha de Porto Santo, na Região Autónoma da Madeira. E, por outro lado, estamos muito comprometidos na promoção de uma literacia em Moçambique. E respondemos a essa necessidade com a criação de uma rede de bibliotecas escolares, que conta já com 27 bibliotecas, está prestes a alcançar o número 30. Iremos inaugurar muito em breve mais três bibliotecas, porque chegou a semana passada um contentor aos Chibuto, já tinha chegado em março a Maputo, mas com toda esta questão louca em que a nossa vida se transformou, que se chama Covid-19, foi preciso algum tempo para transportar os livros de Maputo até Chibuto. Por isso chegaram 35 mil livros, que se juntam aos mais de 50 mil títulos que a Eduglobal ao longo destes 10 anos, desde que fundou em 2009 a sua delegação no distrito Chibuto, já distribuiu por bibliotecas municipais, pela Biblioteca Nacional, pelas bibliotecas do distrito Chibuto, pelas bibliotecas de Guijá, que fica no distrito de Chócué, e por aí fora. Por isso, o compromisso com a leitura é um compromisso de cidadania. Não é só a promoção da língua portuguesa, sendo ela vital para o desenvolvimento social, para o desenvolvimento do percurso escolar destas crianças. Não se esqueçam que em Moçambique a língua oficial é a língua portuguesa e a escolaridade faz-se em língua portuguesa, mas também faz-se cada vez mais num diálogo com as mais de 27 línguas nacionais, que Moçambique é muito rico nas suas diversas línguas. Então esse tem sido o trabalho de levar o livro, promover o acesso ao livro, para que mais crianças saibam o que é uma estrela-do-mar, para que mais crianças não precisem de chegar aos 20 anos de idade e conhecer uma das histórias, que são histórias tradicionais, "A Gata Borralheira". Quem está mais dentro destes assuntos sabe que foi uma recolha de contos tradicionais orais dos irmãos Grimm, que andaram pela Europa a recolher estes contos, e depois eles foram adaptados pelo Walt Disney e por tantos outros autores. Por isso, este é o grande trabalho da Eduglobal, é este envolvimento das crianças com os livros para um melhor desenvolvimento, mas acima de tudo, para que sejam mais pessoas com a possibilidade de escolher e a possibilidade, acima de tudo, de ter um pensamento crítico.
Claro, Susana, eu não sei se é possível ter aqui um número, por exemplo, mas quantas pessoas é que vocês já ajudaram? A quantas famílias é que já chegaram ao longo destes 15 anos? Muita gente, com certeza.
Muita gente. Nós já ascendemos, em termos de alunos com acesso ao livro, ronda acima dos 40 mil alunos. Setecentos professores capacitados, porque nós não fazemos só, atenção, nós não damos livros, isto é muito importante. Nós criamos bibliotecas, nós equipamos bibliotecas, nós não as construímos. Isto é tudo uma parceria com os serviços, neste caso, com o Serviço Distrital de Educação, Juventude e Tecnologia do Distrito de Chibuto e com os restantes serviços distritais que nos convidam a apoiar com livros e garantimos o livro dentro de uma biblioteca, fazemos a capacitação em fundo documental para que os professores possam gerir a biblioteca e fazemos ainda atividades de capacitação em dinamização da leitura em contexto de sala de aula.
E eu li uma entrevista sua em que a Susana dizia que fundar uma ONG é como um casamento. Também é como numa relação em que têm de existir cedências, há momentos mais difíceis também. É preciso ter uma capacidade grande pra entender que às vezes não se pode chegar a todo lado, não se pode ajudar todas as crianças que queríamos ajudar. Também é preciso isso, Susana, este equilíbrio?
É fundamental. Caso contrário, tentamos acudir a todos e não conseguimos ser eficazes nessa prestação da ajuda e na construção de parcerias, porque não vale a pena chegar, tocar e ir embora. O que é preciso é construir em conjunto. E o sucesso do trabalho da Aid Global em prol do desenvolvimento humano em Moçambique tem muito a ver com as parcerias com as entidades governamentais. Nós fomos convidados a participar no desenvolvimento de Moçambique. Nós nunca chegamos com nenhum projeto e dissemos: "Estamos aqui para fazer isto". Não. Sabendo da nossa vontade de ajudar, foram as autoridades locais, nomeadamente os municípios do Chibuto, os municípios do Xai-Xai, que nos foram solicitando todo um trabalho de parceria muito estreito na resposta a uma demanda, que é de fato uma educação de qualidade, que é o quarto objetivo de desenvolvimento sustentável.
Susana, isso é uma garantia de que o trabalho perdura, o fato de haver aqui esse convite faz com que tenham a certeza que não vai ser um trabalho que vai ser deitado fora pouco depois, que vai ter alguma continuidade, que há estruturas suficientes que possam depois prolongar e fazer perdurar no tempo esse trabalho que depois é desenvolvido por vós?
Essa é a única garantia. Isto por quê? Nós não estamos a trabalhar nas bibliotecas que equipamos. Nós fazemos monitorização, vamos com o técnico do serviço distrital duas vezes por ano, visitar as 27 bibliotecas, fazemos um questionário, fazemos um encontro anual com professores. Em março tivemos o nosso sexto encontro de professores da Rede Bibliotecas Escolares e estavam presentes 60 professores. Temos também a presença dos diretores, por isso, há de fato aqui um trabalho muito estreito. As bibliotecas não são nossas, longe de nós ter esse tipo de atitude. Não, estão lá para serem usadas e cabe às direções das escolas e cabe aos professores já capacitados, fazer a gestão que bem entenderem. É um patrimônio deles, nós somos só facilitadores. Agora, importante também é que se não houver esta vontade mútua, este compromisso, o que é que acontece? Os contentores não saem do Porto de Maputo. Este é provavelmente o quinto contentor que enviamos e se até toda a responsabilidade do envio do contentor em Portugal é imputada à Aid Global, a partir do momento que entra nas fronteiras de Moçambique, no Porto de Maputo, toda a responsabilidade, desde os custos dos transportes e do armazenamento, é da responsabilidade das autoridades locais parceiras que nos convidaram, que nos lançaram o convite de recolher livros e enviá-los para Moçambique.
E Susana, como é que vão fazendo essa recolha? Era sobre isso que queria também falar consigo. Como é que, por exemplo, quem nos está a ouvir, há alguma maneira de poder ajudar, de se poder juntar a vós?
Neste momento, ainda me doem a mim e a todos os colaboradores da Aid Global e voluntários as costas. Enquanto nós não esquecermos esta dor de costas que ainda trazemos, não nos vamos lembrar de mais nenhum contentor. A verdade é que são as pessoas que vão conhecendo o trabalho da Aid Global, que através de campanhas que vamos realizando, geralmente são campanhas intituladas Embaixadores da Leitura, que lançamos a informação que precisamos de livros para mandar para Moçambique. Este processo de envio do contentor dura cerca de três anos, entre recolher os livros todos, fazer a triagem, a seleção, porque não vão livros riscados, não vão livros que não tenham qualquer tipo de utilidade ou interesse do ponto de vista da temática para as bibliotecas moçambicanas. E depois é preciso encaixotar, é preciso encontrar um doador que financie o envio do transporte, porque há custos inerentes, e depois é preciso garantir que o ministro das Finanças em Moçambique isente o contentor de custos aduaneiros e depois é preciso que as autoridades locais façam todo o resto do trabalho. Isso é um processo, é um namoro, é um casamento. Cada contentor é mais um casamento dentro deste grande casamento que é a Aid Global, sem dúvida.
Portanto, próximos passos, Susana, um contentor para já ainda não, não é? Porque ainda tem essa dor, mas os passos seguintes.
35 mil livros que chegaram esta semana ao Chibuto, mais material escolar para ser distribuído, por isso ainda temos aqui muito trabalho lá, como se diz.
Exatamente. Portanto, nos próximos tempos, para quem está a ouvir estar muito atento, vocês têm um site onde têm esta informação toda. Portanto, quando surgir essa campanha para um novo contentor, juntar-se a ela, basta escrever aidglobal.org. Está por lá toda a informação. A Susana Damasceno é presidente desta organização, a Aid Global, foi a nossa convidada de hoje. Susana, muita força, que continue com essa boa disposição tão boa e nós vamos conversando, obviamente. Mais 15 anos deste casamento, pode ser?
Venham eles, estamos cá para isso.
Susana, obrigada, até à próxima. Obrigada.
De nada.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.