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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana percebeu cedo que isto de trabalhar para viver não era bem para ele. Largou o emprego como engenheiro informático e entregou-se ao mundo. É fotógrafo e líder de viagens. Já andou pelo Sudeste Asiático, Austrália, Europa, alguns países em África. Em Portugal, dedica-se a fazer viagens com foco na sustentabilidade. Desceu os cerca de 350 km do rio Douro numa prancha de paddle e pedalou a costa portuguesa toda. E foi uma viagem ao Sri Lanka que mudou a forma como encarava as viagens. Gonçalo Figueiredo, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, João, prazer. Olá a todos os ouvintes da Rádio Observador.
Gonçalo, o que é que viste e viveste neste país colado ao extremo sul da Índia, onde os portugueses chegaram há 500 anos, o Sri Lanka?
A primeira vez que eu tomei consciência do Sri Lanka foi através de um projeto. Eu, na altura, andava à procura de projetos de voluntariado e descobri um projeto que me interessou particularmente porque tinha a ver com o que aconteceu devido ao tsunami, que aconteceu em 2004. Na altura, eu conversei com o diretor do projeto e ele disse que o trabalho que eu desenvolvia como fotógrafo poderia ser muito interessante naquilo que eles tinham já previsto no portfólio do projeto. Para mais ainda, o facto de ser um país que me interessava, ser um país exótico, que eu nunca tinha ido, aproveitei a oportunidade. Foi um projeto de voluntariado de dois meses, onde eu estive a trabalhar com crianças, filhas de vítimas do tsunami.
Do tsunami. O que é que fazias, Gonçalo?
Inicialmente, pensava que ia só dar aulas de inglês e ia também fazer um bocadinho de animação com as crianças, o que acabou por ser. Mas, entretanto, eles conseguiram arranjar, começaram a contactar com pessoas na zona sul do Sri Lanka, Galle, e trouxeram fotógrafos profissionais que precisavam de fazer um upgrade aos seus conhecimentos. E então juntaram uma série de fotógrafos e eu passei a dar um curso de fotografia profissional a fotógrafos profissionais para trazer todo este conhecimento que nós temos da fotografia no Ocidente, que eles ainda não tinham adquirido, e com isso proporcionar-lhes uma rampa para entrarem na fotografia digital e conseguirem ter outro tipo de abordagem à fotografia.
Não estavas numa das zonas ocupadas pelos guerrilheiros Tamil?
Não estava numa das zonas ocupadas pelos guerrilheiros Tamil, porque isso é o norte do Sri Lanka, mas quando tive a oportunidade de visitar o Sri Lanka, ir para norte, passei por várias zonas onde havia muitos militares, havia muitas barreiras de segurança e foi precisamente na altura em que existia este problema com os guerrilheiros Tamil e ainda estavam na parte norte, portanto ainda não tinha havido aquela violência posterior que veio a expulsar muitos dos guerrilheiros Tamil.
O Sri Lanka mudou a forma como tu encaravas as viagens. Por quê?
Mudou radicalmente. Existe um antes do Sri Lanka e existe um pós Sri Lanka. Antes do Sri Lanka, eu viajava com aquele sentimento de "olha, eu vou conhecer um país, é longe, vou conhecer a cultura, porque a cultura é diferente, as paisagens são bonitas", como eu estava muito envolvido com fotografia na altura, era uma forma também de potenciar o trabalho que eu fazia. E depois, quando fui para o Sri Lanka, quando comecei a desenvolver este trabalho de voluntariado, cheguei à conclusão que as viagens podem ter muito mais valor e podem trazer também a nós essa recompensa de podermos contribuir de alguma forma. Esses dois meses que eu passei no Sri Lanka, onde eu desenvolvi três projetos, na realidade, porque foi o trabalho com as crianças, o trabalho com os fotógrafos profissionais, mas também o trabalho com estudantes de secundário, neste caso, raparigas, uma escola de raparigas, porque as raparigas não têm tantas possibilidades de entrar no mercado de trabalho como os rapazes e, portanto, dar-lhes este tipo de competências é uma forma de elas também poderem ter outras oportunidades. Fez-me perceber que eu posso trazer para as viagens qualquer coisa mais do que aquilo que eu retiro das viagens. Porque viajar é um bocado isso, nós vamos viajar para tentar obter qualquer coisa, para nos enriquecer a nós, mas nós também podemos contribuir de alguma forma em enriquecer aquilo que fazemos quando viajamos.
O que é que passou a mudar, ou o que é que mudou a partir de então, Gonçalo?
A partir de então, as minhas viagens passaram a ter um propósito. Eu comecei a viajar não tanto à procura de destinos com as paisagens bonitas e com as culturas diferentes, mas a pensar se eu for àquele país, o que é que eu posso fazer para trazer algo de novo e, por exemplo, o que é que eu posso fazer para promover alguma coisa, para sensibilizar as pessoas para alguma causa.
E nesse sentido, começaste a fazer que tipo de viagens?
E nesse sentido, entretanto, desenvolvi um projeto, em 2016, chamado Wild With Purpose, Selvagem com Propósito. Selvagem, porque as minhas viagens sempre tiveram uma componente muito forte de aventura e expedição. E o purpose, o tal propósito. Sempre me interessei muito por sustentabilidade E a primeira viagem que eu desenvolvi sobre esta egida do wild purpose foi a Douro Soup Expedition.
Boa.
Foi precisamente atravessar o Douro.
E depois a costa portuguesa de bicicleta.
E depois a costa portuguesa de bicicleta, exatamente.
Vamos deixar essas duas viagens para a segunda parte do programa. Vamos deter-nos então no antes do Sri Lanka. Por onde já tinhas andado, Gonçalo?
Ora bem, eu andei por vários sítios. Isto tudo começou um bocado na minha infância. Os meus pais tiveram muita influência. Eles tinham uma carrinha Volkswagen e, portanto, uma das formas que faziam de me levar a mim e ao meu irmão a explorar um bocado o mundo era ir à descoberta. E tinham esta coisa das viagens temáticas. Levaram-nos, por exemplo, a fazer a Rota das Barragens em Portugal, numa espécie de uma campervan. Depois fomos fazer o Mediterrâneo. E a certa altura, este contacto com o outdoor e com toda esta dinâmica de viagem fez com que eu começasse a querer ser mais independente. Então aos 12 anos, comecei a acampar sozinho, ia para o parque de campismo e ficava lá sozinho durante uma semana. Aos 14 anos, comecei a fazer grandes viagens de bicicleta, de Coimbra à Figueira da Foz, de Coimbra à barragem da Aguieira. Aos 18 anos, uma semana depois de ter tirado a carta de condução, fui até Tarifa, no sul de Espanha. Os meus pais não acharam piada nenhuma, eles disseram: "Não podes ir". Mas eu, sem lhes dizer nada, fui até Tarifa, no sul de Espanha, com todo o meu equipamento de windsurf, que eu era fanático por windsurf. E a partir daí comecei a ganhar esta vontade enorme de estar sempre a fazer escapadinhas e arranjava sempre desculpas para poder sair e fazer qualquer coisa.
Coitada da tua mãe. Tenha uns bons sustos, não?
Também foi muito por culpa deles. Tiveram que se habituar.
Como é que é? Quem semeia ventos, colhe tempestades, não é?
Colhe tempestades, exatamente.
E depois, já andaste por Marrocos, Itália, Grécia, Austrália, Estados Unidos, África também. E já fizeste viagens sozinho.
Sim, muitas. A maior parte das minhas viagens foram exatamente sozinho. Sabes que muito disto também teve a ver com a fotografia. Porque a fotografia começou a entrar na minha vida relativamente cedo e eu comecei a participar em grupos de fotografia e comecei a ser visto por organismos que eu não estava à espera. E então a Nokia inglesa, por exemplo, começou a reparar nas minhas fotografias e convidou-me para fazer parte da equipa de conteúdos. E então eu testava os telemóveis deles e produzia conteúdos visuais. E a certa altura, eles lançavam um modelo novo de telemóvel e queriam que eu fosse ao lançamento. E um deles foi em Nova Iorque, por exemplo, pagaram uma viagem para Nova Iorque para eu ver o lançamento e para eu poder dizer alguma coisa sobre o produto que eles estavam a lançar. Depois foi a Fundação Toscana, que é uma entidade governamental italiana que promove o turismo na Toscana. Convidaram para ir também fazer um projeto na Toscana, para fotografar durante uma semana e de certa forma promover a região. Depois ganhei um concurso internacional de fotografia que me deu uma viagem ao Prémio, era uma viagem safári para o Quénia, para duas pessoas.
Uau!
Ou seja, esta ligação entre a fotografia e as viagens acabou por tornar também financeiramente as minhas viagens mais sustentáveis, portanto, pude fazer mais viagens e pude continuar de alguma forma a alimentar aquilo que eu gostava.
Portanto, basicamente viajavas à boleia da fotografia.
Exatamente, sim. Depois por aí foi sempre andar. Grécia, Itália, Marrocos, Canadá, Malásia, Indonésia, Austrália, Líbano, Síria, Chipre, muitos destinos.
Sentiste algum constrangimento em algum momento, Gonçalo, por estar a viajar por conta de entidades que te pagavam para fazer reviews ou avaliações dos seus produtos? Não.
Eu nunca participaria em nada que envolvesse entidades em que eu não acreditasse nos produtos que estavam a desenvolver. Por exemplo, no caso da Nokia, eu já era um comprador da Nokia, usava a Nokia já. Provavelmente, por isso é que eles também me contactaram. Foi o início do Instagram e eu punha lá num hashtag a dizer que era Nokia, que a fotografia que eu estava a tirar, e portanto já existia uma relação. A Fundação Toscana, o que eles estavam a fazer era um projeto muito giro, que eu gostei bastante, e portanto também fazia todo sentido. Não, tudo aquilo que eu fiz foi perfeitamente consensual e estava perfeitamente à vontade.
Foste à Indonésia um mês, andaste por lá sozinho no Sudeste Asiático. Fala-me dessa viagem, em que circunstâncias é que ela ocorreu na tua vida, ias à procura do quê e afinal o que é que encontraste?
Fui à Indonésia, na realidade foi Malásia-Indonésia, e foram dois meses. Foi basicamente um mês para cada um. Inicialmente, a minha ideia era começar a desenvolver conteúdo para documentários e me interessava muito também porque estou relacionado com a água e com os desportos aquáticos, e interessou-me aquele povo que existe naquela costa Indonésia e Malásia, que é o povo Pajau, que vive da água, que é um povo que vive sobre estacas, em casas, e são nômades. E na altura eu andava a tentar encontrar informação e depois várias pessoas me disseram: "É muito giro o que tu queres fazer, mas tu tens que percorrer a Malásia, tens que ir à Indonésia, há sítios muito giros". E eu acabei por ser influenciado. Não sei se fiz bem, se fiz mal. A verdade é que foi uma viagem superenriquecedora, gostei muito, conheci locais fantásticos, tanto na Malásia como na Indonésia. E tive uma oportunidade única de conhecer muitos daqueles locais na altura em que o turismo ainda não se tinha afirmado.
Claro. E chegaste a realizar o tal documentário? Não aconteceu.
O documentário era um documentário fotográfico, é um bocado como estes projetos que eu fiz, que me abriram estas portas. São fotografias que eu acabo por criar e acabo por colocar em algum sítio, acabam por ter visibilidade. Não era nada de formal.
Então vamos falar da Malásia. É um país que recomendas a qualquer pessoa que queira viajar para o sudeste asiático?
A Malásia é um país que eu recomendo muito. É um país muito variado. Podemos ter tanto a parte mais urbanística, como o caso de Kuala Lumpur, que é uma grande metrópole, como podemos ter paraísos longínquos, remotos, como é o caso das Perhentian Islands, com aquele estilo Robinson Crusoe, com os bungalowzinhos ao pé da água, um estilo muito hippie, relativamente acessível também, onde as pessoas podem fazer mergulho, nadar com tubarões. É uma cena muito diferente, muito zen.
É um país seguro?
É um país muito seguro. Naturalmente, como todos os países, tem zonas que devemos evitar, no caso de Kuala Lumpur, há sempre zonas que se devem evitar, mas na generalidade é um país muito seguro e que eu recomendo.
É uma capital caótica, Kuala Lumpur, a capital da Malásia?
Kuala Lumpur é uma capital bastante caótica.
Como todas as cidades asiáticas, não é?
Mas especialmente à noite. Porque os mercados fervem à noite. Existe muito movimento.
Por quê?
Provavelmente pela forma como eles negoceiam, naqueles finais de tarde, existe muito, provavelmente porque as pessoas saem do trabalho e depois existe muito comércio a funcionar durante essa altura. E nas ruas é muito difícil andar.
Porque há muita gente.
Ou seja, agora em altura de pandemia, duvido que fosse algo aconselhável.
Pois. Mas disseste que era difícil circular porque havia muita gente, é isso?
Muita gente, sim. Nós estamos a falar de estradas onde passam carros e tuk-tuks e motas, porque as motas aceleram ali é para o nosso cada dia. Mas as pessoas também andam nas estradas, aquilo é uma comunhão total entre veículos e pessoas, especialmente nas zonas onde os mercados têm mais influência.
E o que se vende nos mercados da Malásia?
Tudo que possas imaginar.
Tudo como eletrodomésticos, por exemplo?
Tudo. Comidas exóticas, vestuário, equipamento eletrónico. Há cenas diferentes. Os mercados têm tudo lá, não é como em determinados países em que tu encontras aqui uma coisa, depois tens que ir a outro lado encontrar ali outra coisa. Não, está ali tudo centralizado. Podes ter uma banca que está a vender comida e está a vender vestuário, e está a vender óculos. Vende-se um bocadinho de tudo.
É o salve-se quem puder, não é?
É o salve-se quem puder. Mas acabas por encontrar aquilo que procuras.
Muito bem. E a Indonésia, foi um país que correspondeu às tuas expectativas, Gonçalo?
A Indonésia foi um país que correspondeu, em parte. Falava-se muito de Bali. Bali é, sem dúvida, uma ilha muito interessante, mas não pelas razões que as pessoas normalmente pensam.
Então.
Bali é um destino dos surfistas, que vão para lá, é uma party island, mas a parte dos surfistas e a parte da party island não foi aquilo que me surpreendeu em Bali. Pareceu-me até um bocado sujo, também um bocado caótico e pouco genuíno. É demasiado turístico. Não senti que estivesse a aprender nada com Bali naquela zona.
Sentiste que é fabricado.
É fabricado, é muito fabricado. Pronto, será bom para quem faz surf, porque tem ali condições excepcionais.
Claro.
Mas precisamente há muitos australianos, porque aquilo está muito perto da Austrália, e portanto, aquilo fica um bocado aquele ambiente que nós temos no Algarve, em que há muitos ingleses, que aquilo também a certa altura já nem é português. Portanto, o que se passou ali é uma coisa semelhante e é preciso irmos mais a norte, é preciso irmos pra zona de Ubud, por exemplo, que é uma zona muito bonita onde estão os campos de arroz, onde estão os templos, onde está a vegetação, onde estão muitos locais que utilizam com um cunho mais espiritual. Uma pessoa sente mesmo, quando vais para Ubud, sentes essa vertente mais espiritual, mais calma, tranquila, é totalmente diferente, não tem nada a ver.
Qual é a religião maioritária nessa zona da Indonésia, Gonçalo?
Atenção que a Indonésia, Bali, tem uma religião muito própria, é deles, é balinesa, aquilo é específico deles.
Apesar da Indonésia, no geral, ser um país maioritariamente muçulmano.
Muçulmano, sim. Mas Bali é uma exceção. É uma ilha muito especial nesse aspecto e eles utilizam muito as flores, por exemplo, as flores, que é uma oferenda aos deuses. Porque eles têm muitos deuses. Faz lembrar um bocado a Índia nesse aspecto. Portanto, é diferente, é um conceito diferente e por isso também mais tranquilo.
Gonçalo, um ocidental, um monoteísta, uma pessoa que cresce ou uma pessoa influenciada pelo monoteísmo, portanto, uma religião, um deus, como é que olha pra essa diversidade toda? No teu caso.
No meu caso, normalmente quando vou para os países, eu tento evitar ao máximo trazer os meus preconceitos. Portanto, desligo muito daquilo que é a minha realidade e tento absorver ao máximo aquilo que vejo com uma abertura total. Tentar absorver. É um país diferente e eu estou lá como convidado e portanto o meu papel é ser um observador. E portanto, eu acabo por absorver aquilo que vejo com Com a curiosidade de um aluno, de uma criança. E tento perceber como é que eles pegam naquilo que acreditam e como é que isso se transmite a nível da sociedade. E olhando para Bali, para essas zonas especificamente mais espirituais, existe uma tranquilidade que, de facto, revela uma sensibilidade muito grande. E, portanto, eu daí posso logo determinar que a religião que eles seguem e que os deuses que eles adoram, lhes trazem a paz e o sossego que eu próprio acabo por experienciar.
Muito bem. Gonçalo Figueiredo, estamos na reta final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem.
É isso.
Gonçalo, há algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens que guardas com especial carinho aí em casa?
Sim, bem, existe um objeto que eu gosto muito, que foi-me oferecido em Marrocos quando eu estava em Tafraoute, que é uma aldeia muito bonita em Marrocos. Existe perto de Tafraoute uma espécie de umas pedras, são as pedras pintadas, pedras enormes, são boulders, que foram pintadas por um francês. E eu queria visitar esse local, que é um bocado deserto pra lá chegar, e encontrei duas raparigas que estavam no mesmo caminho, marroquinas, com o seu hijab. E quando comecei a falar com elas, elas disseram que iam no mesmo sentido. E eu acabei por lhes dar boleia e nós fomos para lá, ficamos amigos e começaram a mostrar a aldeia toda e a dar a conhecer as pessoas. Eu jantei lá, foi tudo muito bonito, levaram-me a andar de bicicleta no dia seguinte a conhecer uma aldeia milenar. E no final criamos uma amizade muito bonita e uma delas ofereceu-me uma babouche, que é uma pantufa marroquina.
Aham.
E neste caso era uma babouche mínima, muito pequenina, que ela tinha usado quando era criança. Eram as pantufas dela de criança. Deu-me isso e eu ainda tenho aqui comigo.
Não servem, claro.
Não, não me servem. Eu sei que não me servem, mas são uma recordação muito bonita.
Muito bem. Gonçalo, gostava só de perceber mais um pouco do teu percurso como viajante. Sei que andaste também pelo Líbano e pela Síria, numa viagem que tem uma circunstância muito particular. Que circunstância é essa? Como é que vais parar àquela parte do mundo vítima de muitos conflitos e violência também, não é?
Sim, convém primeiro frisar que quando eu fui para o Líbano, não havia violência. O Líbano não está perfeitamente estável. Aliás, o Líbano sempre foi um país que sofreu estas variantes, estas sinusóides, tanto está bem como está mal. E eu fui numa altura perfeitamente normal.
2019.
2019, exatamente. Fui convidado por um amigo meu, que é diplomata no Líbano, em Beirute, e pela mulher dele, que eu também conheço, portanto, é um casal. E eu fui para o Líbano e no momento em que eu aterrei no Líbano, pouco depois de chegar à casa onde eles estavam, rebentou uma revolta no Líbano. Portanto, o povo do Líbano já estava muito chateado com o que se estava a passar a nível governamental. Há muita corrupção no Líbano, há muito aproveitamento político. O povo sofre muito de pobreza, falta de combustível, caríssimo, uma inflação galopante. E eles decidiram fazer qualquer coisa e juntaram-se todos. E pela primeira vez no Líbano, estamos a falar de um país que tem várias religiões a funcionar a nível governamental. Portanto, eles arranjaram sistema para evitar os conflitos, arranjaram sistema em que várias religiões estão em assento parlamentar. O presidente tem uma religião, o primeiro-ministro tem outra religião. Portanto, tentaram de alguma forma arranjar um equilíbrio e conciliar. E pela primeira vez o povo, estamos a falar de muçulmanos, católicos e todas as religiões, juntaram-se numa revolta para tentar mudar as coisas.
E é quando tu aterras no Líbano.
Quando eu aterro, exatamente. Pouco tempo depois de eu aterrar, começaram-se a ouvir tiros na estrada, começou a se ouvir muito barulho, as pessoas começaram a se fechar na casa, mas eu como sou fotógrafo e gosto de ver as coisas acontecer, decidi pegar na máquina fotográfica, na câmera fotográfica.
E foste pra rua.
Fui lá pra fora. Tentei me vestir como eles, porque aquilo estava muito fumo na rua, portanto eu pus uns lenços na cabeça e na cara, enfiei-me na multidão e comecei a fotografar e a documentar aquilo.
Conseguiste?
Consegui. Foi uma experiência muito interessante. Vi de dentro como é que estas coisas acontecem. Vi também a voz da revolta, o que as pessoas sentem realmente. E vi também como é que a violência pode começar nestas coisas, porque inicialmente não é propriamente violento, mas determinados grupos começam a se infiltrar e então começam a aparecer blocos de violência e de disparates. Cheguei, inclusive, a filmar pessoas a partir os vidros de um banco, que a certa altura olharam pra mim com desconfiança e pediram pra eu deixar de filmar. De resto, foi tudo relativamente pacífico.
Muito bem. Nessa viagem, dá-se o caso também de ires à Síria, um país que já estava muito castigado por muitos anos de guerra civil. O que é que tu foste encontrar na Síria em 2019, Gonçalo?
Convém primeiro dizer que, no caso do Líbano, Beirute estava fechado. Eu nem sequer podia sair de Beirute. Eu tinha ido para o Líbano também para conhecer o Líbano, e Beirute estava completamente fechado porque as pessoas que estavam na revolta começaram a fechar as estradas. E, portanto, o motorista desse tal meu amigo diplomata, que é um conhecedor de Beirute, conseguiu, através de uma série de detalhes, fazer-me sair de Beirute. Cheguei à Síria com um visto diplomático, porque seria impossível entrar na Síria sem isso.
Deixa só eu perceber. Ias em fuga ou já ias com destino marcado?
Não, não ia em fuga. Ia já com destino marcado, queria mesmo ir à Síria, e era uma oportunidade única, porque a Síria estava fechada ao mundo e só se conseguia entrar na Síria com visto diplomático. E, mesmo assim, tinha que ser um visto muito especial, porque a Síria não aceita vistos de alguns países com quem está em confrontos e, pela sua própria diplomacia, não conseguiam fazer essa passagem.
Deu-se o caso que tu conseguiste, não é? Tu conseguiste entrar na Síria. O que é que viste, Gonçalo? Conta-nos. Porque sei que tens uma opinião muito positiva sobre este país do Médio Oriente.
Sim, a ideia que as pessoas têm da Síria, penso eu, é sempre aquela ideia de um país com terroristas, onde as grandes organizações terroristas estão, a ISIS, o Bashar al-Assad. Primeiro, eu entrei na Síria e existia realmente um grande aparato militar. Muitos checkpoints, muitas paragens, muitas imagens do Bashar al-Assad, vi-se muitos retratos do presidente. Mas quando cheguei a Damasco, mais concretamente à velha Damasco, que é a cidade histórica de Damasco, fiquei surpreendido. Surpreendido pela positiva.
Porquê?
Vi uma cidade muito bonita, exuberante, com pessoas muito descontraídas, muito tranquilas, muito hospitaleiras. Embora eu fosse o único estrangeiro lá, as pessoas recebiam-me com muito à vontade, sem desconfiança nenhuma. E foi uma visão surpreendente, de facto.
Apesar de estarem a sair de um período de guerra civil, muita tensão e violência. Damasco acabou por ser um pouco também poupada à guerra, não é?
Ora bem, Damasco foi poupada à guerra, mas caíram muitas bombas. Damasco não foi poupada à guerra. A zona central de Damasco, onde está a velha Damasco, houve bombas que caíram na velha Damasco, mas não foi suficiente para danificar de forma substancial. Mas atenção que o aeroporto de Damasco foi completamente destruído. A periferia de Damasco não existe. Eu quando saí de Damasco para ir visitar outras zonas da Síria, eu fiquei chocado. Não existe. Estamos a falar que parece que passou uma bomba atómica ali, está tudo destruído.
Tudo mandado ao chão.
Tudo no chão, edifícios cheios de balas, só ruínas. É um bocado deprimente. A pessoa até pensa: "Mas o que é que se passa entre Damasco e o resto da Síria?" E, de facto, existe muito pouco. Portanto, Damasco foi poupada porque a certa altura os russos entraram e acabaram por também dar ali um suporte.
Fala-nos da velha Damasco, então, que é isso que nós não vemos aqui. Porque o resto chega-nos, através das agências internacionais. O que fica de pé é que não nos chega. Também sentiste isso quando chegaste à Síria?
É curioso, porque eu esperava chegar à Síria para já ver uma cidade destruída. Uma cidade destruída, em guerra, muita miséria, as pessoas muito escondidas dentro de casa, portanto, ruas muito vazias. E foi precisamente o oposto. Eu não vi miséria nenhuma, vi pessoas com as suas vestes normais, mas bem vestidas, vi pessoas alegres, vi pessoas nos mercados a falar de forma muito descontraída, muito tranquila, vi pessoas aceitarem a minha passagem enquanto estrangeiro com muita tranquilidade, embora eu fosse um "alien" ali no bairro. Entrei numa mesquita onde me trataram muito bem, uma mesquita que já foi em tempos uma igreja e que ainda partilha algumas características, como por exemplo, o túmulo de São Pedro está ali dentro daquela mesquita. Ainda fazem a separação entre homens e mulheres, mas é uma coisa muito automatizada, funciona tudo muito naturalmente. E senti-me muito bem acolhido. Senti-me muito bem.
É espantoso como é que aquela região foi o berço da humanidade.
Exatamente.
Não sentiste isso, Gonçalo, a visitar a Síria?
Senti que estava a passar por um local com muita história, com muitos anos de existência. Senti que é uma cidade um bocado retalhada, uma cidade que já existe há muito tempo e que sofreu muitas transformações. Isso é visível, e é visível daquilo por onde nós passamos, mas é visível também naquilo que nós sentimos E é curioso como estes berços da nação são normalmente aqueles que sofrem de mais conflitos.
Da humanidade.
Que têm mais cicatrizes.
Berços da humanidade, queres dizer?
Exatamente, a humanidade.
Muito bem. Vamos avançar. Vamos então falar do teu projeto, o Wild With Purpose, que nasceu depois de teres feito uma viagem de voluntariado ao Sri Lanka. Consiste em fazer viagens para promover a sustentabilidade. Em 2017, fizeste o Rio Douro em stand up paddle, aquelas pranchas que não são pranchas de surf, mais ou menos uma prancha de surf, mais comprida, que se rema de pé, não é?
Exatamente.
Trezentos quilômetros a remar de pé?
Trezentos e cinquenta.
Trezentos e cinquenta?
Sim, 350 km desde o ponto em que o Douro entra em Portugal, que é ali um bocadinho montante de Miranda do Douro, numa zona que se chama Salto do Castro, até ao Porto, até à fronteira. E eu queria tanto fazer o Douro todo, que mesmo o facto de começar no início, foi uma odisseia em si, porque eu para ir de Miranda do Douro para Salto do Castro, são 11 km a subir um rio, e que tive o azar de estar a subir o rio e estar tudo bem, e a certa altura eles abriram a barragem. Não sei por quê, não sabiam se eu estava lá, se me queriam dar uma lição, mas a verdade é que eles abriram a barragem. Portanto, eu tive imensa dificuldade em conseguir chegar ao ponto de partida, que para mim seria o ponto de partida. Mas foi a minha primeira viagem do Wild With Purpose e aquela que me fez perceber que eu tinha de continuar.
Desculpa ter te interrompido. Dizias?
Dizia que foi a viagem que acabou por, de alguma forma, mostrar-me que o projeto tinha pernas para andar e que tinha que continuar.
Fizeste em que época do ano?
Fiz em outubro.
Outubro, com as vinhas todas douradas.
Exatamente.
Vê-se mesmo que és fotógrafo.
Sim. Por um lado, sim. Por outro lado, para tentar arranjar uma temperatura mais amena, mas apanhei um calor terrível, porque foi naquela altura dos incêndios. Foi muito mau, foi um outubro muito quente.
Deu boas fotografias essa viagem?
Deu grandes fotografias, deu grandes filmagens também. Eu não sei se as pessoas conhecem bem o Douro Internacional, mas o Douro Internacional, que é aquele Douro que está ali entre Espanha e Portugal, o rio é partilhado pelos dois países. Tem paisagens, eu costumo chamar jurássicas, porque faz lembrar um bocado aquelas paisagens brutais com os canyons muito grandes. Estamos a falar de penhascos gigantescos, onde vivem águias reais, onde vivem abutres, e tem uma envolvência muito forte. E nós estamos ali entre paredes e a sensação é que estamos ali enclausurados. Ou seja, ou vamos para baixo ou vamos para cima, não conseguimos sair de outra forma.
E isso foi uma aventura que durou quantos dias, Gonçalo? Essa descida do Rio Douro em stand up paddle.
Foi uma aventura que demorou 14 dias. Deviam ter sido 13, mas a prancha teve um furo, e eu tive que reparar a prancha, e o furo, quando se repara, precisa 24 horas para estabilizar. E portanto, tiveram que ser 14 dias.
Há sempre imprevistos.
Há sempre imprevistos.
Tu estás ligado ao turismo, és líder de viagem, poderia ser um produto turístico, ou não? Vês viabilidade na coisa?
Podia ser numa escala mais pequena. Mas sim, podia ser. O Douro Internacional, por exemplo, não sei precisar agora, mas são cento e tal quilômetros. Agora, o Douro Internacional é muito protegido. O ICNF anda sempre ali e não é fácil fazer o Douro Internacional sem licenças.
Porque há valores naturais a preservar.
Sim, existem ali muitos ecossistemas que estão a ser protegidos por causa das aves. Mas sim, é possível.
Quem sabe? Também fizeste em 2019 o Portugal Coast to Coast. Estou a dizer bem? Fizeste toda a costa portuguesa de bicicleta, uma bicicleta que não tinha nada de especial. E não tinha nada de especial, foi de propósito. Por quê? Ou para quê?
Foi de propósito, sim senhora. O projeto Portugal Coast to Coast começou quando eu cheguei a Aveiro e reparei que Aveiro sendo uma cidade plana e toda a gente dizia: "Anda-se muito de bicicleta em Aveiro". Eu esperava chegar às ruas de Aveiro e ver toda a gente a andar de bicicleta. E qual não foi o choque para mim quando reparei que bicicletas não há assim tantas, quem anda de bicicleta até são os turistas, e chegar ao parque de estacionamento da Universidade de Aveiro, o parque de estacionamento dos alunos, e ver o parque completamente cheio de carros. Eu achei aquilo incompreensível e eu pensei: "Bem, eu tenho que fazer uma viagem que de certa forma possa desmontar todo esse preconceito associado às bicicletas".
Sentiste uma revolta interior?
Muito. Senti uma revolta, porque eu já andava de bicicleta muito na altura, sempre andei muito de bicicleta e não conseguia perceber. E então fui-me tentar informar e comecei a ler notícias sobre as bicicletas em Portugal, a utilização na Europa, tentar encontrar comparações. E reparei que Portugal estava em último lugar a nível europeu, no país que menos utilizava a bicicleta para situações utilitárias.
Mas estamos no topo na produção, não é?
Mas estamos no topo da produção. Nós temos autênticas fábricas de montagem de bicicletas, o que é estranho. Existe aqui uma contradição. Outras contradições podemos juntar. O facto de termos um país fantástico a nível de clima, de sermos um país que até nem tem o nível de vida por aí além, comparativamente com outros países da Europa, e portanto, comprar um carro e pagar combustível sai caro. E portanto, usar uma bicicleta seria uma coisa natural.
E foi o que tu fizeste.
Isto.
E quanto tempo durou esse Portugal coast to coast, fazer toda a costa? Quando digo toda, é mesmo toda, não é? Foste de lá de cima de Valença do Minho até Vila Real de Santo António?
Caminha até Vila Real de Santo António.
Caminha, Vila Real de Santo António.
Não tem nada a ver com apanhar A1 e A2, é mesmo recortar a costa portuguesa. Estamos a falar de 1250 km de costa portuguesa.
Em quantos dias?
Foram 16 dias. Estávamos há bocado a falar da bicicleta. De facto, foi uma bicicleta rasca. Foi uma daquelas bicicletas que uma pessoa compra por € 100. E eu decidi fazer no inverno e com uma bicicleta fraca, precisamente para também desconstruir este preconceito de que uma pessoa não anda de bicicleta porque a bicicleta não presta ou porque é inverno e está mau tempo.
Então foste numa bicicleta barata e no inverno.
E no inverno, sim, com tudo o que isso significa.
Um masoquista.
Sim, apanhar a chuva, apanhar o vento, apanhar uma tempestade. Mas tudo isso traz também uma riqueza especial. A aventura traz sempre esse desafio, e é o desafio que acaba por alimentar estas viagens.
Descobriste um novo Portugal nesse Portugal coast to coast?
Olha, eu descobri um Portugal muito bom e descobri um Portugal muito mau. Descobri o Portugal bom das paisagens espetaculares que nós temos, e eu estou a falar como um viajante, portanto alguém que viaja e vê muitas coisas bonitas.
E aí à cabeça colocas, no top das paisagens bonitas ao longo da costa portuguesa?
Ao longo da costa portuguesa, isso é muito pessoal, mas olha, eu posso dizer que gostei muito daquela zona da Ericeira. Aquela zona da costa da Ericeira é muito interessante. Atenção, do ponto de vista de quem vai de bicicleta e pelos sítios por onde eu fui. Depois fui convidado, inclusive, pelo clube de BTT da Ericeira, porque eu nestas viagens acabo por conhecer muitas pessoas, as pessoas veem aquilo que eu estou a fazer e então eles vão por vários percursos.
Nas redes sociais.
Nas redes sociais, sim. A Costa Vicentina, naturalmente, é muito forte, mas a Costa Vicentina não é propriamente adequada para bicicletas, é mais para andar. Mas eu diria a costa de Ericeira, aquela zona de Sintra, também é muito bonita. O mau.
O mau, sim.
Sim, o mau é o mau estado em que se encontram muitas das vias que nós temos, neste caso, por exemplo, os passadiços. Os passadiços que foram investimentos muito grandes que as autarquias tiveram. Nós somos um país de passadiços na praia, o que de certa forma é bom, porque nós estamos a estragar as dunas, mas esse investimento depois não foi traduzido para a manutenção. E, portanto, eu passei por muitos passadiços que estavam absolutamente intransitáveis, em que eu percorria cinco, seis, sete quilómetros, chegava ao final do passadiço, tinha que voltar para trás porque estava destruído e tinha que ir pela areia, e era impossível com a bicicleta.
Senhores autarcas, se estiverem a ouvir, melhorem os passadiços onde investiram milhões nos últimos anos. Gonçalo, temos de avançar porque estamos quase a chegar ao fim do nosso tempo. Vamos fazer o habitual checkout. Então vou pedir-te para concluíres algumas frases. Na minha mala vai sempre...
Olha, na minha mala vai sempre, antes de mais, qualquer tipo de equipamento que possa usar para capturar imagens. Uma câmera fotográfica, um telemóvel, uma GoPro, não é relevante. Eu tenho é que ter qualquer coisa que consiga guardar memórias visuais.
Captar o momento.
Captar o momento. Depois, uma power bank, para carregar tudo o que seja necessário. Tenho que levar óculos escuros, porque eu sou muito sensível à luz. Depois, uma escova, pasta de dentes e um desodorizante, porque em viagem também não é preciso andarmos malcheirosos. Se estiver numa viagem de trekking, um GPS ou mapa topográfico é essencial. E por último, e diria não menos importante, uma tablete de chocolate negro, que é um capricho que eu não abdico.
Boa escolha. Olha, o carimbo de passaporte mais difícil de obter, qual foi?
Graças a Deus que Portugal é um país bem visto lá fora e que nós conseguimos manter mais ou menos neutrais em nível geopolítico. Não temos grandes problemas com vistos, mas eu diria que aquele que podia ter sido mais problemático, teria sido o da Síria. Graças a Deus, consegui dar a volta.
Com uma ajudinha, não é?
Com uma ajudinha, uma grande ajudinha.
A refeição mais estranha que comi.
Então agora aqui é que me vais meter numa situação complicada. Olha, a refeição mais estranha que eu comi, o pessoal não vai achar piada. Eu peço desculpa desde já, mas foi na Austrália e foi carne de canguru.
É bom? Sabe bem? Vamos lá, rapidamente. A textura, o sabor, aconselhas?
Vamos lá. Isto foi convidado por uns amigos, disseram que a carne é muito boa e a carne é de facto excepcional. É muito tenra, sabe muito bem, é indescritível. É muito bom, mas não volto a fazer. Foi uma vez só.
Dirias que carne de canguru está mais próxima de carne de ave ou carne bovino, suíno?
Mesmo carne de vaca, é mais doce, mesmo saborosa, que tem um molho agridoce, qualquer coisa assim do gênero. Muito tenra.
A recordação de viagem mais cara?
Olha, não me ocorre nada assim, nada de valor, porque as minhas viagens são na estabilidade budget friendly. Como viajo normalmente durante muito tempo, não posso ficar em hotéis, nem posso comer muito bem. Ou seja, eu normalmente fico em hostels, como onde os locais comem, não sou de grandes caprichos. Eu acho que as viagens dão muito mais do que eu pago por elas, essa é que é a verdade. Portanto, eu nunca senti que tivesse desperdiçado dinheiro. Não tenho assim uma recordação que fosse muito cara.
E a viagem com mais peripécias, Gonçalo, qual foi?
Eu diria que mais que uma viagem com muitas peripécias, no meu caso, faz mais sentido dizer que tive muitas viagens com pelo menos uma peripécia. Se tiver tempo, posso contar uma ou duas.
Vá lá, uma rápida.
Uma. Na travessia dos Pirineus, eu ia com dois amigos, eles iam mais na parte do trekking, eu ia no trekking e na fotografia e nós começámos o percurso às 07h, foi quando tomámos o pequeno-almoço. Começámos a subir e a certa altura eu comecei a filmar muito, a perder muito tempo a filmar. Eles disseram: "Gonçalo, temos que ir". E eu: "Tudo bem, eu apanho-vos mais à frente". Eles tinham o mapa GPS, eu tinha o mapa GPS. A verdade é que ainda estavam algumas pessoas no trilho. Eu fui andando e a filmar. Esqueci-me, continuei a andar. A certa altura havia um cruzamento, havia um caminho, que foi aquele por onde eles foram, que aquilo não me disse nada, achei que era um caminho que não ia lado nenhum e continuei pelo caminho por onde toda a gente estava a ir. Andei vários quilómetros, quando comecei a ver que as pessoas estavam todas a ir embora, ou seja, já estavam a chegar ao ponto em que já não iam mais. Mas eu tinha que continuar a ir. E quando eu peguei no GPS, reparei: "Eu estou no sítio errado". Já tinha andado seis ou sete quilómetros, mas estava a fazer-se tarde e eu já não podia fazer nada e tinha que continuar em frente. E então reparei que esse caminho era um bocado maior, eram 28 km ao todo em alta montanha, que é imenso, mas que eu tinha que andar para a frente. O problema é que a comida estava toda com eles, porque eu levava o equipamento fotográfico. Eu não tinha nada, zero. E também não tinha água. Portanto, a água acabei por beber dos riachos que ia encontrando. Quando cheguei a Gavarnie, já do outro lado dos Pirineus, em França, já estava mesmo a gases, já não aguentava mais, praticamente. Estava com uma fome, porque andei a trepar, a escalar em partes muito complicadas.
Mas aí já há abrigo, não é? No Cirque de Gavarnie. Mas aí já há abrigo, não é?
O Cirque de Gavarnie. Lindíssimo. E tem uma parte que é as Échelles de Tarradelles. Quando eu vi aquilo, eu pensei: "As Échelles, estas escadas vai ser ficha. Então quando eu estiver a chegar a Gavarnie, vou ter lá umas escadinhas". Bem, convém dizer que as Échelles de Gavarnie são Tarradelles, são uns maciços rochosos gigantescos que uma pessoa tem que basicamente escalar, tanto a descer como a subir. Portanto, foi bastante duro.
Como é que acabou isso? Chegaste bem a Gavarnie?
Quando eu cheguei a Gavarnie, a primeira coisa, larguei logo a mochila e enfiei-me logo no restaurante e comecei a olhar para a carta e aquilo parecia-me um credo. Eu já comia a carta, eu estava com uma fome. Estávamos a falar há bocado da recordação mais cara. Olha, a recordação mais cara foi o que eu pedi nesse restaurante, porque eu pedi tudo e mais alguma coisa. Sempre caríssima a refeição, ainda por cima do lado francês.
E gostavas de viajar com?
Gostava de viajar com... Boa pergunta. Deixa-me pensar. Gostava de viajar com alguém com o mesmo espírito de aventura que eu, o Corto Maltese, alguém desse género. Personagens desses de animação, ou o Tintim, pessoal que goste de ir à aventura e que tenha outras valências. Seja o jornalismo, seja a aventura.
Muito bem, boas sugestões. Gonçalo, estamos mesmo no fim do nosso programa. Que música escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?
Olha, eu escolhi uma música que me diz muito, traz-me muitas recordações, que é o "Nightswimming" dos R.E.M. Basicamente, quando eu era mais novo, no meu tempo de universidade, tinha um grupo de amigos com quem costumávamos sair e então tínhamos uma espécie de uma rotina, que era a véspera dos exames, eu pegava na carrinha, eu na altura estudava em Coimbra, pegava na carrinha e íamos para a Figueira da Foz a meio da noite, mesmo na véspera, o exame era no dia seguinte de manhã, e fazíamos uma direta a nadar à noite no Cabedelo. Íamos ao mercado da Figueira da Foz às 04h, comprávamos uvas, tudo o que conseguíssemos encontrar, voltávamos para a praia e fazíamos ali um piquenique a nadar. E portanto, eu acho que é um resumo daquilo que é a minha vida, que é viver a vida de uma forma descontraída, com um bocadinho de transgressão e ao mesmo tempo com liberdade, à procura destes prazeres perdidos da vida, nadar à noite, tem um bocadinho tudo isso.
Muito bem. "Nightswimming" dos americanos R.E.M. a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Escolha do viajante Gonçalo Figueiredo. Gonçalo, obrigado.
Obrigado eu, João.
O "Conversas do Fim do Mundo" está de regresso de hoje a oito dias. Até lá, boas viagens.
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