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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana quer ir a todos os países do mundo. Já pôs os pés em 86, muitos deles repetidos, porque ele vive do turismo. Isto das viagens é uma paixão que começou cedo. Ainda não tinha 18 anos e já andava a vender peças de roupa para viajar atrás dos sons de um músico que até já nem está entre nós. Rui Terroso, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, João, obrigado pelo convite.
Olha, a vender que peças de roupa e para acompanhar que músico? Vamos lá.
Eu tinha efetivamente 17 anos e fui desafiado por uma amiga. Eu sou do norte, de uma aldeia que pertence ao concelho de Barcelos. Ela tinha também casa lá no norte.
Qual é a aldeia?
Via Todos, concelho de Barcelos.
Via Todos? Irado.
Ela tem casa lá também, da parte materna, e desafiou-me: "E se nós fôssemos? Vem aí o Prince, vai fazer uma turnê pela Europa, vem também a Portugal e a Espanha. Poderíamos mandar fazer umas T-shirts no Vale do Ave." Enfim, foi um juntar o empreendedorismo com as viagens e fomos ao Vale do Ave, mandamos fazer a T-shirt, pegamos no álbum, estampamos em T-shirts, carregamos o carro dela, um Toyota Corolla, e aí fomos nós.
Isso foi em que ano?
Portugal e Espanha em 1993. Tinha os meus 17 anos e, na altura, obviamente que eu não ia dizer ao meu pai que ia com uma amiga alguns anos mais velha que eu fazer uma turnê pela Península Ibérica. O que lhe disse foi: "Eu vou pra Lisboa passar férias em casa do irmão dela". E os meus pais: "Ok, sim, senhor". Lá fomos nós vender T-shirts por Madrid, Barcelona, Verindón, Rijón, Cádiz, Santiago Compostela, Lisboa também, Estádio de Alvalade. Algumas peripécias em Lisboa.
Ainda não disseste que era o Prince.
Não. Sim, era o Prince que vinha fazer a turnê. E lá fomos nós fazer a turnê. Duas, três peripécias. Aqui em Lisboa, de repente, estava eu com 17 anos à porta do Estádio de Alvalade a vender T-shirts.
Do velhinho Estádio de Alvalade.
Do velhinho Estádio de Alvalade. Nós mandávamos fazer aquelas T-shirts por tipo 1 € ou 200 escudos na altura, vendíamos por mil escudos aqui em Portugal, mil pesetas em Espanha. Estávamos nós a vender a T-shirt. Obviamente que isto é um negócio ilegal, consegui aprender que não, foi o meu único negócio ilegal. De repente, um grupo de jovens rodeou-me e começaram a me empurrar pra um canto e quando dei por ela já tinha sido assaltado, tinham me roubado as T-shirts. A T-shirt que estava na minha frente também foi roubada.
Acabou por aí?
Não, nós tínhamos as T-shirts, estavam no carro, nós só transportávamos numa mochila cerca de 10 T-shirts. Depois tive que novamente recarregar. Em Madrid, recordo-me também, assaltaram o carro, roubaram uma grande porcentagem de T-shirts. Tivemos que voltar a Portugal para reabastecer. E uma curiosidade foi em Santiago de Compostela, estava eu a vender T-shirts e a polícia não brinca em Espanha. De repente, aparece um senhor vestido com um fato safári, com câmera fotográfica ao peito, chapéu, e de repente levanta a mulística e diz: "Polícia, estás detido, vais pra esquadra, estás a fazer algo ilegal". Enfim, são centenas de pessoas que vêm de toda a Europa, Holanda, de todo lado, centenas mesmo. Acho que isto é uma prática em todos os concertos. Lá fui eu, 17 anos, preso em Santiago de Compostela.
Preso por andar a vender T-shirts.
Por andar a vender T-shirts falsificadas, porque obviamente dentro do estádio vendia-se T-shirts.
Há uma palavra no Porto pra esse tipo de pessoas, não é? Candongueiro. Tu foste um candongueiro.
Isso é candonga. Mas enfim, passado umas horas a minha colega foi lá.
Não levei nada.
Claro que não. Foi o que foi, foi a realidade.
Sim.
Enfim, passado umas horas, a minha colega lá me foi buscar à esquadra, responsável por mim, maior. Mas depois, curioso que fomos pra Barcelona, isto foi noite e dia a conduzir. Chegamos a Barcelona, o que eu vou fazer pra não ser apanhado? Decidi tirar a própria T-shirt, ficar em tronco nu, a minha mochila coloquei debaixo de uns arbustos e vendemos todo o estoque. Foi uma experiência brutal.
Com essas peripécias todas pelo meio, ter de regressar a Portugal e voltar à Espanha, ser detido, roubado, ganharam dinheiro ou não?
Sim, efetivamente.
Ainda fizeram dinheiro.
No final desse concerto em Barcelona.
Sim, fizeram dinheiro.
Fizemos dinheiro, sim. Deu pra pagar toda a viagem, foi custeada com isso.
E viram o Prince ao vivo?
Chegamos a ir a um concerto, sim. Conseguimos assistir.
Muito bem. Foi assim a tua primeira grande viagem, Rui.
Foi a minha primeira grande viagem à descoberta. Efetivamente, aquilo que eu mais gosto é do desconhecido, de ir à descoberta de tudo aquilo que é novo, é o desejo. As minhas viagens eu nunca vou À espera de encontrar algo igual àquilo que eu tenho cá no nosso destino. Toda a novidade é que me atrai, mas as minhas viagens são sempre curtas, oito, 10 dias, devido à minha vida profissional. Eu nunca posso fazer uma viagem muito longa, mas de qualquer maneira, aquilo que eu mais adoro é sair, partir à descoberta, mas regressar a Portugal, o prazer é enorme, é tão grande quanto sair. Regressar a Portugal, ao nosso país, sou efetivamente um nacionalista e adoro o nosso país, a nossa cultura. Sair e voltar é, sem dúvida, o mesmo prazer.
Muito bem, diz-me só uma coisa. Tu hoje em dia vives do turismo, tens uma agência de viagens sediada no Porto, mas que opera em todo o país.
Em todo Portugal, sim.
Foi nessa viagem a vender T-shirts à boleia do Prince que te inspiraste para criar o teu próprio negócio?
Sim.
Ou foi algo que surgiu depois?
Eu recordo-me também que desde muito pequeno, o meu pai dizia a frase: "Quando for grande, quero conhecer o mundo". Isto já estava ali.
Eras tu que dizias?
Sim.
Inspirado pelo quê?
Também na altura da escola primária, nos descobrimentos portugueses, ou seja, ver os portugueses que estiveram em todo o mundo, que colonizamos.
Havia um Diogo Cão dentro de ti, havia um Vasco da Gama dentro de ti.
Sem dúvida. Repara, eu quando fundei a empresa, 2004, o turismo no Porto era residual, praticamente não existia. A intenção era de nós estarmos aqui, criar uma empresa que fosse o perfeito anfitrião para poder mostrar o que de melhor Portugal tem aos turistas de todo o mundo, mas que na altura não existiam praticamente no Porto. E foi assim algo de querer-
De novo
De novo.
De novo na cidade do Porto. Já que estamos a falar da tua empresa, não vamos fazer publicidade, mas eu gostava que me dissesses o que os turistas que nos procuram em Portugal, o que eles sublinham do país.
Hospitalidade, naturalmente, acho que somos um povo hospitaleiro, acho que está no nosso ADN. Mas depois, toda a diversidade, um país tão pequeno e com uma diversidade tão grande, seja gastronómica, seja património histórico ou cultural. Por exemplo, imagina que à partida do Porto tens Braga, Guimarães, Aveiro, Santiago de Compostela, que também fazemos diariamente, Barcelos. Tens um sem número de cidades lindíssimas, tão próximo, tu em 30 km consegues, à partida de Lisboa a mesma coisa. Todo o nosso país tem uma riqueza de património cultural.
Muito bem. 1993, foi aí que começou a tua grande viagem pelo mundo.
Atualmente, devido a ter que promover Portugal pelo mundo, eu faço uma média de 25 viagens todos os anos. Como deves imaginar, ando aqui sempre para trás e para a frente.
Faz muitas feiras?
Sim, promover feiras, workshops, angariação, operadores turísticos, visitar operadores, seja na Índia, na China, nos Estados Unidos, no Canadá. Corro um pouco por todo o mundo, já há cerca de 20 anos e faço essa média de 25 viagens por ano.
Muito bem. Experimentas tudo o que os outros países têm também para oferecer.
Sim, eu diria que sou um colecionador de experiências. Eu em cada destino tento fazer uma atividade, uma experiência única daquele destino.
Exemplos, vamos lá.
Desde fazer uma mota de neve na Islândia, fazer um mototáxi no Paraguai, balões de ar quente, seja no Quénia, ver a savana acordar, brutal. Na Capadócia também, balão de ar quente. Já fiz várias, subir ao Everest de helicóptero, tenho aqui montes de experiências em todo o mundo.
Ok, conta lá essa de subir o Everest de helicóptero. Foste lá mesmo ao topo?
Ao topo. Estava em Katmandu, no Nepal. Eu não tinha muito tempo para visitar e descobri que havia uma empresa que fazia um tour de helicóptero, saía do aeroporto de Katmandu. Há ali uma indústria de helicópteros muito desenvolvida, porque a forma de aceder à cordilheira dos Himalaias é efetivamente de helicóptero, não há aqui muitas das vezes para se correr. Eles têm também este tour que sai do aeroporto e passamos a cordilheira dos Himalaias. Lindíssima, aquela paisagem brutal.
Apanhaste um dia de céu azul.
Por acaso, sim. Este voo e este helicóptero já era o terceiro dia que era para acontecer. As condições meteorológicas têm que estar e ali não é fácil, dada a altitude. Tinha um casal de americanos que estava há três dias que ia para o aeroporto e não conseguiam. Neste dia saiu e eu tive sorte, porque eu só tinha aquele dia, ou sim ou sim. Mas felizmente saiu. Fomos até ao base camp de helicóptero. No base camp tivemos que tirar todo o peso, os bidões de combustível para trazer o helicóptero de regresso a Katmandu. Retirámos todo o peso, colocámos umas botijas de oxigénio portáteis, porque estamos a falar de praticamente 10 mil metros de altitude. Saímos dali do base camp por uma falésia, de repente subimos, e de repente damos de frente com o pico do Everest. É uma coisa assim "Uau".
Um monstro.
Brutal, um monstro, uma coisa assim arrepiante.
Viste gente a fazer a ascensão a pé?
Sim, via.
Uns pontinhos na neve, vias?
Uns pontinhos na neve. O helicóptero está relativamente próximo. Consegui-se ver efetivamente aquelas expedições todas e sem dúvida, quero ver se um dia consigo fazer, mas tenho que ter tempo.
Ia-te perguntar isso, não ficaste com vontade ou com inveja?
Sim, porque, por exemplo, no base camp eram pessoas de todo o mundo. Recordo-me de uma mãe com uma filha sozinhas a fazer ali uma expedição. Pessoas de todo o mundo, de todas as faixas etárias, de todos os estratos sociais, incrível.
Boa.
Brutal.
Quão belo é o Everest?
É uma montanha, mas sem dúvida que é brutal. E depois toda aquela mística do Everest e estares ali frente a frente com o pico mais alto do mundo é algo indescritível.
Indescritível. Muito bem. O Nepal é um país bonito ou não?
Lindíssimo. Uma curiosidade também no Nepal foi o ir visitar, como eu faço sempre com um local, fazer a visita ao patrimônio histórico cultural. Fizemos uma visita a Katmandu e depois terminamos a visitar um templo. E algo que me impactou, eu não estava à espera. Entramos no maior templo-
Um templo budista
...não, hindu. Mas templo de cremação ao ar livre. Aquilo é um espetáculo. Tens mesmo o rio, tens do outro lado cerca de 20 cremadores a céu aberto. Na cultura hindu, a morte não é um fim em si mesmo, há a reencarnação e o corpo tem uma ponte, a montante, ele é mergulhado na água para fazer uma última purificação. E os familiares colocam em cima de umas tábuas, colocam no crematório. Se tiver muitas flores, é alguém com poder de compra, de um estrato social com algum poder econômico. Quando tem poucas flores, notas que são famílias mais humildes, sem grandes poderes econômicos.
Até na hora de morrer há diferenças.
Tu vês ali cerca de 20 pessoas a serem cremadas em simultâneo.
E tu viste?
A céu aberto. Sim. Do outro lado.
Mas o corpo está embrulhado?
Sim, colocam um género de um-
Um manto
...manto por cima, flores. Mas de qualquer maneira, o odor, 20 corpos a serem incinerados ali em simultâneo.
Pois.
E do outro lado tens ali pessoas a tirar fotografias, a fazer vídeos, é algo público mesmo. Aquilo é um ritual deles. E depois no final as cinzas são atiradas ao rio, o rio totalmente sujo, preto. Mas de qualquer maneira, é a cultura deles e foi sem dúvida algo completamente diferente daquilo que não estava à espera. Foi impactante.
Foi a coisa mais inusitada, diferente, que viste nestes 86 países aos quais já foste, Rui Terrazo?
Esta foi uma, mas de qualquer maneira acho que várias. Acho que fazer o Paraguai de mototáxi foi também algo único.
Mas fizeste todo o Paraguai de mototáxi?
Não. Eu estava no Brasil, tinha ido a trabalho, fui à Foz do Iguaçu para visitar cataratas e descobri a possibilidade de passar a fronteira e ir ao Paraguai. É uma das fronteiras mais perigosas e essencialmente de maior tráfico da América Latina, de armas, de drogas. Tinha lido que havia a possibilidade de o fazer rápido, porque as filas são enormes, com fiscalizações.
Pensaste: "Eu não estou para isto, vou passar isto de mota."
Exatamente. Chamei um mototáxi, e quando ele chegou, eu disse: "Olha, vais à recepção, eu estou a viajar sozinho, vais deixar aqui a tua credencial ou vão fotocopiar". Informei o hotel: "Olha, eu estou a viajar sozinho, vou ficar aqui a cargo deste mototáxi, eu vou ao Paraguai. Se me acontecer alguma coisa, já sabem, deixo o contacto". Há que ter aqui algum cuidado. Atravessamos a fronteira do Paraguai, efetivamente foi brutal, aquela confusão toda, pessoas a pé, de bicicleta, de mota, de carro, de caminhão. Chegamos ao Paraguai e fizemos ali uma visita. Ele disse: "Olha, vamos ali a um shopping, que é a última moda aqui. Nós quando vimos do Brasil, vamos sempre aqui". Eu disse: "Mas olha, eu de shopping estou farto, de shoppings em Portugal, eu quero que me mostre aqui alguma coisa de novidade". Ele disse: "Olha, eu vivo numa favela, queres ir à favela?" E eu disse: "Olha, ótimo, favela realmente é uma novidade". E passado meia hora estava eu a visitar toda a-
A favela
...a favela.
Mas do lado brasileiro?
Do lado brasileiro, em Foz do Iguaçu. Mas entretanto diz-me ele: "Olha, queres ir à casa do maior traficante de droga daqui de Foz do Iguaçu?" Eu disse: "Mas olha, mas isso é seguro?" "Sim, é meu amigo, é bacana, cara, tudo legal." Eu disse: "Ok, vamos, bora." 15 minutos depois estava eu a beber uma cerveja em casa de um traficante com dois capangas na porta, dois G3 na mão. Correu bem, mas efetivamente, se houvesse aqui um ajuste de contas, a coisa poderia ser perigosa.
Pois, ou uma intervenção policial. Tiraste fotografias desse momento?
Não.
Ou nem tiveste a ousadia de dizer: "E aí, como é que é, pessoal?"
Até porque, efetivamente, não deu, mas de qualquer maneira, foi incrível estar ali assim.
Imagino. E a conversa foi sobre o quê?
Do banal, da família dele, que ele conhecia as pessoas, era o amigo, era a irmã, com quem tinha casado, os amigos. Conversa de circunstância. Não estavam ali a negociar. Mas de qualquer maneira, consegues perceber que está ali um ambiente.
Quanto tempo durou esse encontro, Rui?
Lá na casa, cerca de meia hora. Nós bebemos uma cerveja.
O tempo para uma cerveja.
Ele chegou: "Olha, eu estou aqui com um gringo, podemos tomar uma cerveja?" Ele disse: "Sim, bora aí, cara, entra aí". Uma experiência incrível.
Bela história, muito bem. Estamos à conversa com o Rui Terrazo. Rui, estamos a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem Então, Rui, guardas contigo algum objeto que seja especial e tenhas trazido das tuas múltiplas viagens?
Não, João. Na verdade, eu sou um colecionador de experiências e portanto tenho várias por todo o mundo e é isso que eu coleciono. Fotografias, vídeos e essas experiências, nada mais.
Não tens nenhum objeto?
Não, são mesmo as experiências.
Não és de trazer os ímãs para o frigorífico?
Não, já fui, mas já desisti. Atualmente, não. Para minha mãe, que gosta, mas já desisti de tudo isso. Agora é só mesmo viver as experiências, viver o momento, isso é o que vale a pena.
Muito bem, vamos continuar a falar desses momentos e dessas experiências na segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana estamos à conversa com Rui Terroso. Rui, vais levar-nos ao Brasil. Pode ser?
Pode ser.
Porque é o teu país preferido, não é? Um dos.
Sim, um dos.
Um dos. Muito bem. Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana estamos à conversa com o Rui Terroso, que é empresário e tem uma agência de viagens com sede no Porto. Rui, por que tens uma grande apetência pelo Brasil? Por que gostas tanto deste país?
Olha, o Brasil, efetivamente acho que há aqui um grande desconhecimento de ambas as partes, de portugueses pelo Brasil e de brasileiros por Portugal. Efetivamente, a noção que eles têm de Portugal é do antigo Manuel e a Maria que foram nos anos 70.
Para abrir uma padaria.
Para abrir uma padaria. E a senhora de bigode.
Bússulo.
Bússulo. Enfim, este é efetivamente o conhecimento. A maioria dos brasileiros nunca esteve em Portugal, não conhecem. Assim como nós também não conhecemos o Brasil. Nós temos uma ideia de que o Brasil são as praias do Nordeste, pobreza, favelas. Efetivamente, eu já viajei quase todo o Brasil.
Na verdade, nós humanos de todo o mundo construímos muitos estereótipos sobre os outros humanos do resto do mundo, não é?
Sem dúvida. E, por exemplo, tanto quer o Brasil quer a Índia é este primeiro mundo e este terceiro e quarto mundo. Aqui lado a lado, eu posso te dizer que quer no Brasil, quer na Índia, já fui a reuniões em operadores turísticos em que tu na rua é uma pobreza tremenda, mas entras num edifício destes e tu tens empresas de primeiro mundo com uma dinâmica empresarial, com um desenvolvimento tecnológico, uma dinâmica de salas de formação em anfiteatros, uma coisa assim brutal que nós não imaginamos. E quando tu imaginas na Índia, por exemplo, tu imaginas que aquilo que é algo muito pobre, mas não, há aqui um primeiro e um quarto mundo, assim como no Brasil. E portanto, o Brasil, olha, já corri praticamente todo o Brasil. Recordo-me de, por exemplo, entre o Rio de Janeiro e São Paulo de carro, uma curiosidade quando aluguei o carro, viraram-se para nós, eu estava com a equipa de trabalho e passamos uma noite em Paraty, que é lindíssima, uma vila portuguesa, é quase aqui um interior de Portugal lindíssimo, patrimônio da humanidade. Mas quando aluguei o carro, pediram-me: "Olhe, tem um contacto de alguém que não vá dentro do carro". E nós: "Mas nós estamos todos, vamos todos, não temos aqui mais ninguém". E ele: "Pois, mas no caso de sequestro, é preciso ter um contacto". E tu ficas assim tipo: "Oh, meu Deus, e agora?" Quer dizer, sequestro, isto não é assim, alguém que está a alugar um carro e está a dizer: "A probabilidade, tens que deixar aqui um contacto". Enfim, mas uma viagem lindíssima entre Rio e São Paulo. E também uma curiosidade, por exemplo, foi um salto-
Desculpa, deixa-me só abrir aqui um parêntesis. Quando falas em Paraty, encontras alguma semelhança em Portugal?
Não, ou seja, é uma vila portuguesa, fundada pelos portugueses.
Portuguesa de quê? Do Minho, do Alentejo?
Um misto, ou seja, aquelas casinhas, enfim, aquela típica de Almeida, como Figueira de Castelo Rodrigo. Enfim, hoje em dia encontras perfeitamente. Elas lá estão todas pintadas com cores. É lindíssimo, é uma vila, é patrimônio da humanidade, é incrível. Realmente estás em Portugal, assim como Ouro Preto, tu chegas a uma vila, está tudo como os portugueses deixaram, enfim, mas muito bem cuidada. Exatamente, e preservada. Olha, e também, por exemplo, no Rio de Janeiro, fui fazer um salto de asa delta.
Eu percebi um assalto.
Não, um salto, um voo de asa delta. E foi brutal. Ou seja, eu estava com uma colaboradora, ela tinha na altura 25 anos, enfim, nós estávamos três e eu disse: "Mariana, vamos fazer um salto de asa delta?". E ela: "Bora". Eu disse: "Ok". Reservei, lá fomos nós. Aparecem-nos três pessoas com ar muito dúbio num Fiat Punto, pneus muito carecas, a subir a montanha toda, vira para a direita, vira para a esquerda, aquilo a chiar por todo lado. Quando chegamos lá em cima, bem, um respeito. E tens uma plataforma toda em madeira, completamente inclinada e falésia. E tu tens que correr em cima daquela plataforma e mandar-te. E é realmente surreal.
Rampa de lançamento.
A rampa de lançamento. A primeira coisa que eles fazem é levar-te lá para tu perderes ali o medo, mas as pessoas quando chegam lá, ajoelham-se e agarram-se ao chão, porque tu não consegues estar ali em pé, ou seja, tu estás a imaginar aquilo lá embaixo.
Tremem-te as pernas.
Tremem-me as pernas.
A ti tremeram-te as pernas?
Com certeza. A Mariana vai na frente, salta e eu só ouço-
Ah, mandaste a Mariana? Ela é que quis.
Eu acho que eles foram tipo: "Ela vai, porque senão ela vai, é capaz depois de ver o salto". Sei que a Mariana vai na frente, de repente só ouço Um berro que não termina e ela de repente desaparece. Ou seja, a asa delta vai abaixo e depois aparece lá à frente quando ganha sustentação. Mas ela continuava a berrar, aquilo era uma coisa assim. Quando chega a minha vez, diz o instrutor: "Cara, Rui, há uma regra, há uma lei na asa delta, que é: quando a gente começar a correr, não para. Se tu pões o pé, se tu paras, nós rodamos e vamos por aqui falésia abaixo. Isto é lei, desde que comece, quando eu disser três, dois, um, agora, vais correr sem parar".
Tu ias agarrado em pantane, não é?
Sim. Ou seja, lado a lado.
Naquela armaçãozinha triangular, vai um ao lado do outro.
Exatamente, um ao lado do outro.
E depois levantam as pernas e enfiam as pernas naquela espécie de saco cama.
Sim, exatamente.
Peço desculpa aos conhecedores de asa delta. Eu não conheço os termos, estou aqui a ser gráfico.
A partir daí, quando ele diz: "Três, dois, um, bora", eu começo a correr na loucura total. É uma adrenalina que não tens ideia. Eu acho que eu ia no ar, ainda a dar às pernas, porque efetivamente não para e eu não parei nunca. Mas depois de fazer aquele desaparece e levanta, e de ganhares a sustentação nas asas e sentires que estás a voar, efetivamente é algo único, indescritível. É tão bom como ir ao Nepal, é brutal.
E esse voo durou quanto tempo sobre o Rio de Janeiro, Rui?
Aquilo são cerca de 10, 15 minutos, uma coisa assim.
Que parecem uma eternidade.
Parecem uma eternidade, mas eu acho que só custa mesmo o saltar, porque estás no pico da montanha e efetivamente começas a correr para ali abaixo e lanças-te. Esse é o momento que custa, mas a partir daí é brutal, a sensação é única. Terras na praia, no Rio de Janeiro.
Uau! Também filmaste esse?
Sim, esse tenho. No meu blog tem artigos, vídeos, tem bastante informação.
Muito bem. E veem-se também as perninhas.
Sim. Tem voo, tem tudo, porque isso já está muito democratizado com todas as câmaras na asa. Brutal.
Brutal. Muito bem. Não é a única história periquilitante que tens com voos. O que te aconteceu no voo do Egito para o Porto?
Para o Porto. Do Hurghada para o Porto.
Um valente susto, não foi?
Um valente susto. Aí estava em família, tiramos uma semaninha de férias no Egito. Uma experiência também foi num submarino ir ao fundo do mar para ver a fauna e flora, foi brutal.
Onde? Lá no Egito.
No Egito, em Hurghada. Sim. E depois no regresso, tinha tudo para correr mal. Felizmente, correu bem, mas o voo era para sair às 08:00, levantámo-nos às 05:00. Duas horas antes estávamos a chegar ao aeroporto. Já não fizemos check-in, o voo estava atrasado, havia um problema qualquer técnico, ia ser resolvido. O voo era para sair ao meio-dia, depois às 14:00, depois às 16:00, depois às 18:00 e depois finalmente saiu às 20:00. Era para sair às 08:00, oito à noite. Durante o dia tudo tranquilo, a companhia, fomos levados para um hotel, foi-nos dado almoço.
Até que?
Até que o voo levanta voo, estamos já a sobrevoar Espanha, já praticamente no final do voo. Estava o voo em velocidade de cruzeiro, tudo tranquilo, não havia nada, não havia também hospedeiras a passar, estava tudo tranquilo, estava quase tudo a dormir. E eu não durmo, seja para a China, seja voos de 12, 14 horas, eu não durmo, nem dia nem noite. E de repente, eu próprio estava a sentir uma dormência, que também não é normal. E sem que nada aconteça, sem que haja turbulência, caem as máscaras de oxigênio. E não ouves nada, só ouves "pum" e caem todas as máscaras. E nada.
Nada, isto é, ninguém comunica nada.
Ninguém comunica nada. Estava quase tudo a dormir. E eu: "meu Deus, o avião está..." Ele tinha 19 anos, não era assim tão velho quanto isso, mas de qualquer maneira estava mal cuidado, não havia grande renovação de frota. Entretanto, pego no telemóvel e vou tirar uma fotografia para depois me rir com os meus amigos, dizer: "Olha, o avião era tão mau que até caiu as máscaras de despressurização". Quando pego no telemóvel, vou apontar e de repente vejo tudo a desfocar.
Sentes que está a apagar-te.
E sinto a apagar. E aí percebo: isto é uma despressurização. Mando um grande berro: "Isto é uma despressurização, coloquem as máscaras!" Olho para o meu lado, a minha família, os meus filhos, a minha mulher, estava tudo amarelo, verde, já a fugir para o roxo, estava tudo sem oxigênio.
Caramba!
Entretanto, o senhor que estava atrás de mim vinha da casa de banho e dizia: "Estão ali duas hospedeiras desmaiadas junto ao cockpit".
À zona de acesso ao cockpit. Ali no corredor.
Ou seja, conclusão: elas estavam efetivamente desmaiadas. No cockpit, provavelmente teriam desmaiado, porque efetivamente ninguém disse nada. A sorte foi que era um voo fretado e havia uma segunda equipa que ia trazer o voo de regresso. Essa tripulação, essa equipa, é que colocou as máscaras de oxigênio, foi acima pegar nas botijas portáteis de oxigênio e foi reanimar hospedeiras e entrou no cockpit. Como deves imaginar, foi um drama.
Não chegaste a perceber se a equipa do cockpit estava ou não-
Se há uma despressurização, já tardia.
Afeta todos, não é?
Não, porque a partir do momento que há uma falta de oxigênio, aquilo deveria ter disparado e não deixar que as pessoas chegassem a um ponto de que estavam quase roxas, sem oxigênio. E ninguém disse nada, mesmo o piloto, copiloto, teriam dito algo. Esta equipa acredito que tenha reanimado e, como deves imaginar Foi um drama, toda a gente com uma gritaria no voo. Toda gente reagiu à sua maneira e quando o avião chegou, aterrou, o aeroporto estava todo à nossa espera, bombeiros, ambulâncias, entrou a equipa para socorrer pessoas que tivessem necessidade. Efetivamente, havia pessoas em um estado assim um bocado.
Mas não ocorreu nenhuma tragédia?
Não, felizmente não. Eu acredito que se não houvesse aquela equipa, podia ter acontecido, porque o avião estava praticamente todo apagado. Eu tenho fotografias e vídeos.
Portanto, tu foste o salvador daquele voo.
Enfim.
O teu erro foi providencial.
Estava praticamente tudo apagado. E realmente, até tenho lá fotografias que tu vês as máscaras caídas e estava tudo apagado.
Caramba. Sabes o que vai acontecer, não sabes? Ninguém vai dormir mais depois de ouvir este episódio das "Conversas do Fim do Mundo".
Sim, foi. Sem dúvida. Eu próprio só falei nele para aí um ano depois, porque foi gravado.
Ah, marcote.
Sim, claro.
Traumatizou-te.
No momento, mas como eu tenho que viajar, não vale a pena pensares nisso, é porque não tinha de ser.
Muito bem. Tragédias à parte, Brasil é um dos teus países preferidos. Qual foi o sítio mais bonito onde estiveste até hoje, nestes 86 países, Rui?
Olha, mais bonito, eu diria que mais me impactou. Pode ser um clichê, mas foi Itália e foi Veneza. Logo depois da faculdade, peguei no carro com a namorada e atravessamos Portugal, Espanha e França e fomos fazer uma turnê por Itália. E quando chego a Veneza, realmente, tu veres uma obra humana desta dimensão, uma cidade inteira em cima de estacas, em que tu vês a cidade toda a funcionar, tu vês o vaporetto, que é o autocarro, a encostar e a buscar pessoas e a transportar, o táxi que tu chamas e que te leva, vês a ambulância a levar o idoso à casa, tu vês os CTT a entregar o correio, ou seja, tu vês uma cidade em plenitude, tudo a funcionar em pleno, mas por barco.
E não é uma cidade qualquer, porque aquilo é uma cidade de palácios.
Palácios, ou seja, está tudo em cima de estacas.
Palácios que têm atrás grandes igrejas. Eu costumo dizer que Veneza é ouro sobre lama.
É.
Não é?
É a caracterização perfeita, porque realmente aquilo, ainda por cima, é uma obra.
Olha, até me estou a arrepiar porque é a minha cidade preferida.
É brutal.
Não são muitas, mas é a minha cidade preferida. Também acho que é o expoente máximo do génio humano, não é?
Sem dúvida, que natureza, tu tens paisagens brutais. Agora, tu tens uma obra de arte humana e que funcione em cima de estacas, é algo surreal.
E com muita pinta.
E com muita pinta.
Itália tem muita classe, não tem?
Muita classe, sim. Sem dúvida que um destino assim impactante é Veneza e toda a Itália é brutal.
Come-se bem.
Come-se bem, gastronomia fantástica.
Vê-se coisas bonitas, há muita história.
População bonita, sem dúvida.
Os italianos enrolam bem.
Sem dúvida. Portanto, é brutal.
Enrolam no bom sentido, claro, são um povo sofisticadíssimo.
Sim.
Isso é muito bom. Bravo. Rui, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?
Vamos lá.
Vamos lá. Vou pedir-te para completares as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre...
Olha, vai umas sapatilhas e roupa, equipamento para correr. Corro em todas as cidades do mundo, 5h30 da manhã, eu levanto-me às 5h, às 5h30 eu estou a correr 15, 20 minutos. Não faço maratona, de atenção, mas correres e veres o dia nascer desde Katmandu ao Paris, Londres, Nova York, Berlim, China, Xangai, é surreal.
Ok, boa, fantástico. A pergunta é óbvia. Onde é que é bom correr 15 minutinhos às 17h?
Às 17h30. Olha, já corri em neve, já corri na Índia, Mumbai, uma experiência brutal, porque eu tinha que me ir a desviar de pessoas que estavam deitadas a dormir na beira da estrada. Pobreza sim, nada de delinquência, mas uma experiência brutal. Tu vês aqueles corvos todos naquele clima brutal. É um êxtase ali logo pela manhã, um boost de energia brutal.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Acho que essa do Egito será aquela que ficará na memória como uma peripécia marcante.
Essa sim.
Não vai esquecer.
Essa é pra contar até o fim dos dias, não é?
Sem dúvida.
O crime de passaporte ou visto mais difícil de obter.
Olha, não tive muitos, mas aquele que deu um bocadinho mais de trabalho foi China. Tive que vir aqui à embaixada, pessoalmente, fisicamente.
A Lisboa.
Lisboa, exatamente.
Que é ali na Lapa, no edifício espetacular.
Espetacular.
Incrível.
Sim. Foi esse que deu um bocadinho mais de trabalho, mas de resto facilita.
Ok. A recordação de viagem mais cara?
Olha, acredito que se calhar o safári no Quénia, porque também fiz um balão de ar quente em família e foram oito dias a dormir num grande resort na savana e foi brutal. É uma experiência incrível veres ali tudo, desde animais atacarem búfalos, leões.
Tive direito a tudo?
Tudo.
Boa. Os Big Five.
Exatamente, os Big Five na totalidade.
Os miúdos gostam?
Adoram, os meus adoraram.
Foi?
Sim, também já não eram crianças tão pequeninas quando fiz isso. À volta dos 10 anos, mas sim, adoraram completamente.
Boa. A refeição mais estranha, Rui, qual foi?
Olha, estranha, mas supersaborosa, foi sapo, um grande sapo, na China, em que é quase como tu aqui vais escolher o peixe Que queres. Lá estão os sapos vivos e mostro: "Olha, quero aquele". E eles pegam nele, cortam, tiram-lhe a pele e tenho te dizer que com bambu, cozinhado maravilhosamente, é delicioso. É muito bom mesmo. Ou então da forma que o cozinharam era delicioso.
Gostava de viajar. Como é que eles cozinham? É grelhado, estufado?
Estufado.
Estufado. Ok.
Com bambu.
Com bambu. Se calhar o segredo é o bambu.
É o bambu. Também comi tartaruga na Tailândia, também foi interessante para conhecer. Brutal.
Boa. Gostava de viajar com?
Richard Branson, porque é um empreendedor e é um amante também de-
O patrão da Virgin.
Da Virgin, ou seja, é uma inspiração, seja no empreendedorismo, seja também nas viagens. Também já correu o mundo de balão de ar quente, algo que me identifica e sem dúvida que seria uma boa pessoa, mas claro, a minha família é sempre a prioridade. Mas sim, Richard Branson.
Ves-te a viajar também pelo mundo de balão de ar quente?
Por acaso já viajei em algumas cidades, Barcelona, até no Alqueva. E sim, é interessante. Mas fazer a volta ao mundo-
No balão de ar quente não há pressurização.
Não, tu não sentes frio, não sentes vento, tu estás dentro do vento. É sem dúvida brutal. Mas as viagens que ele fez foram em balões completamente nos 10 mil metros de altura, na estratosfera, para apanhar a velocidade e conseguir dar a volta. Algo com um risco muito maior do que aquilo que eu já fiz.
Uma versão mais radical.
Mais radical ainda.
Música, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste, Rui Touro?
"Sex on Fire", dos Kings of Leon, porque foi uma música que já ouvi em várias capitais do mundo, em várias festas de operadores turísticos, desde Dubai, Nova Iorque, Las Vegas, Londres, Paris, Berlim. Já desfrutei muito ao som desta música e portanto, Kings of Leon.
Muito bem, Rui Touro, muito obrigado.
Obrigado, João.
Continua a viajar.
Obrigado.
E a entreter, no bom sentido, turistas de todo o mundo.
Espero voltar cá quando terminar os quase 200 países.
Está combinado. Já vais nos 86. Vais bem, não te podes queixar. Muito bem. Obrigado, Rui. Obrigado. Kings of Leon a fechar a conversa do Fim do Mundo desta semana. Estamos de regresso de dois em dois dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.